Sem mais desculpas. Sem arrependimentos.
11 Capítulo onze - Isto já é demais!
Notas iniciais
– Mano, você precisa acordar. Já são três da tarde – disse Pedro, encarando seu amigo parcialmente coberto pelo edredom. – Precisamos sair.
Ben demorou a reconhecer aquele quarto e quem estava lhe acordando. Olhou para o lado e não viu a menina que passou a noite com ele. Não sabia o porquê de sua cabeça estar doendo tanto, não se lembrava de ter bebido tanto quanto na festa do final de semestre dos seus amigos.
– Pedro, cadê a Sabrina?
– Boa tarde para você também, seu puto. – E riu. – Ela foi pra casa às nove da manhã. Parece que os pais dela ligaram mais cedo para o celular da Patrícia para saber onde a filha estava. Pelo jeito a meteção na noite passada foi muito boa por aqui.
Benjamin sorriu sem graça enquanto tentava agarrar sua cueca no chão com os pés. Vestiu-a por debaixo do edredom e se levantou em seguida. O outro saiu do quarto e depois de alguns minutos, o menino de cabelos castanhos já vestia sua calça moletom cinza da Adidas, uma camiseta branca da Calvin Klein, de manga longa e gola “V”.
– Aonde a gente vai? Dessa vez me faça o favor de informar bem antes o que tem planejado. – Ben parecia muito sério, não esboçava nenhum sorriso.
– Piá, confie no seu amigo de longa data. Te arrumei uma foda com uma puta guria gostosa e assim que me agradece? – Pedro estava dizendo aquilo entre risos. O jovem estava sem camiseta, exibindo seu peito e abdômen, que não eram definidos mesmo ele sendo magro. – Relaxa, a gente só vai ao shopping. Preciso comprar umas coisinhas de nada e daí, aproveitamos para comer por lá mesmo e quem sabe beber algo no happy hour?
O menino de olhos verdes não se sentia nem um pouco atraído pelo amigo, achava que aquilo era um bom motivo, afinal sabia que não podia ser gay. Talvez toda aquela excitação que sentia nas brincadeiras com Yuri não passava de uma carência sexual que, sem dúvidas, foi resolvida na noite passada.
– Acho bom irmos ao shopping, estou querendo cortar um pouco do meu cabelo. Enquanto tu vai fazer as tuas compras eu posso fazer isso. Por favor, me diga que os shoppings daqui têm salão lá dentro.
– Nem todos, mas no que vamos tem sim. – Pedro se levantou do sofá e foi em direção ao corredor, que levava aos quartos e banheiro. – Volto já. Vou vestir alguma coisa.
Benjamin voltou ao quarto do colega de Pedro para vestir seu colete acolchoado azul marinho. Assim que olhou para seu celular sobre a mesinha junto à cama, viu a luz de fundo apagar. Sabia que devia ter recebido alguma notificação. Quando conferiu viu que recebera duas mensagens no WhatsApp, uma da Bárbara e a outra do Joshua.
Ele e o precoce não conversaram mais desde o dia em que brigou com o Frederico. Na verdade Ben ficou de cara com o amigo por ter ido para o lado do loiro ao invés do seu.
Bárbara:
Oi, migo do meu coração. Tô morrendo de saudades de ti já, hein. Vê que não vá muito pro lado do Pedro. Lembre-se de que ele é muito putão que nem o Fred. E por falar nele, o otário foi visitar o Arthur ontem e eu estava lá. Ele perguntou se tu ainda estava querendo matá-lo por aquela briga.
E não sabe da maior, o Yuri esperou por ele na saída da academia, dois dias depois de vocês se grudarem na praia, só para intimidá-lo por ter jogado tão baixo contigo. O Fred nos disse que o japa tava furioso e caso ele não estivesse com mais um amigo, certeza que apanharia do japa.
Benjamin:
Não me diga, Báh, que eles bateram no japa? Bateram?
Bárbara:
Aqueles covardes tentaram bater nele, mas o japa sabe se defender muito bem e tudo acabou bem. Pode ficar tranquilo. Não te contei isso pra que fique preocupado, mas pra que saiba que ele tentou defendê-lo mesmo os dois estando afastados.
Benjamin:
Cara, juro pra ti que vou quebrar a cara daquele loiro da porra assim que vê-lo por aí. É melhor que ele nem apareça naquela porra de cursinho, porque se aparecer nós vamos ser expulsos.
Bárbara:
Eu dei uma prensada nele, disse que ele acabou com a união do nosso grupo. Pra minha sorte o Arthur tratou o guri tão frio que o Fred não quis ficar por muito tempo lá. A gente obviamente está do seu lado, Ben.
Benjamin:
Valeu, Báh. Eu preciso ir agora. Vamos ir ao shops. Beijos, eu te amo!
Bárbara:
Te amo demais, Ben. Beijos ♥
Benjamin não acreditou que o Yuri tentou cobrar o outro por sua causa e muito menos que o filho da puta do Fred precisou da ajuda de um amigo para se defender do japa. Agora já fazia quase uma semana que isso aconteceu, como poderia enviar uma mensagem para o amigo?
Ele se lembrou de que ainda tinha uma mensagem não visualizada.
Joshua:
E aí, Ben! O que tu manda de novidade? Soube que está aí na casa do Pedro. Que pena que não sabia que ia visitá-lo, queria ter ido junto. Saudades desse puto.
O menino de olhos verdes ignorou o que estava escrito e foi logo digitando:
Precoce, fala pro teu amiguinho, o desgraçado do Fred, que quando pegar ele na rua, seja onde for, vou terminar o que ia fazer com a cara dele naquele dia da praia. E que se ele for tão macho quanto se considera ser, me enfrentará sem recorrer à areia ou aos amigos dele.
Joshua está digitando...
– Ben, você já está pronto para irmos? – perguntou Pedro no corredor.
– Velho só um minuto. Me espera aí.
Joshua:
Calma, parceiro! Que está rolando contigo? Esquece aquele filho da puta, ele é um merda mesmo. Tu já deu uma surra nele, pra que estender aquilo para mais violência? E outra, não apoiei o que ele fez contigo e o que tentou fazer com o Yuri. Nem estamos mais conversando desde a terça passada.
Benjamin:
Foi mal, precoce, mas por ter ajudado ele aquele dia pensei que estava com ele. Foi mal, brother! A Báh me contou meio que por cima o que aconteceu, tu pode me contar?
Joshua está digitando... Ben achou que o amigo levou uma eternidade para responder, só que na real levou apenas três minutos para digitar tudo.
Joshua:
O japa foi à academia do Fred para bater nele porque jogou terra nos teus olhos e tal. Só que ele não estava sozinho lá e então, o Fred e seu amigo partiram para cima do japa. Os caras deram alguns socos no Yuri, mas o japa se deu melhor e bateu mais neles do que apanhou. A pancadaria só acabou quando dois frequentadores da academia do Fred interferiram e ameaçaram bater nos garotos. O próprio Fred sem nenhuma vergonha na cara me contou isso.
Benjamin:
Cara, o japa se machucou muito? Não sei o porquê de ele ter procurado aquele fdp. Não precisava ter ido me defender, acho que já tinha dado uma surra no Fred.
Joshua:
Ben, relaxa! O japa não se machucou nada, tanto que já foi viajar naquele mesmo dia com a namorada. Não comentei nada com contigo porque pensava que ele já tinha te contado sobre tudo que aconteceu lá.
Benjamin:
Joshua, valeu de verdade por me contar. Agora preciso sair, o puto do Pedro está gritando há horas aqui. hahaha. Ah, o Pedrão vai à Floripa comigo no sábado já. Então, pode ficar frio que poderão se rever.
E foi mal por ter achado que tu estava do lado do Fred. Abraço, seu puto.
Joshua:
Bem capaz que eu ia ficar do lado daquele filho da puta. E que bom que o Pedro está vindo pra cá nesta semana, bora sairmos todos juntos no fim de semana. Abraço
Benjamin contou tudo para o seu amigo. Pedro não se mostrou surpreso e revelou que o Fred já tinha ligado para ele na semana passada para contar sobre tudo aquilo. O menino de olhos verdes não sabia o motivo de ter ficado tão irritado, já que sabia desde sempre que o Pedro e o Fred mantinham uma forte ligação assim como ele e o Yuri.
Pedro não fez nenhum comentário pró ou contra o Frederico, apenas disse que era muito foda tudo aquilo e que não queria ter que escolher um lado. Ben concordou mesmo a contragosto, não iria arrumar brigas com seu anfitrião, embora essa tivesse sido a sua intenção ao dizer:
– Aquele viado da porra não teve coragem de me enfrentar sem trapaças. Quando vê-lo vou quebrar alguns dentes daquela boca e tu vai ficar sabendo. Pode crer no que estou dizendo.
O shopping era imenso, todo de vidro na entrada e no teto. Como Ben não havia marcado nenhum horário, precisou esperar uma hora para conseguir ser atendido no salão. Embora o lugar fosse descrito como unissex, oitenta por cento da clientela naquele fim de tarde era formado por mulheres ricas.
– Olá, é a primeira vez que te vejo por aqui – começou uma mulher com seus cabelos tingidos de amarelo gema –, então, não sei qual é a sua preferência, se quiser pode olhar os nossos catálogos com modelos para te ajudar a decidir.
– Eu já sei o que quero, pelo menos acho que sei. – Ele riu. A mulher adorou seus olhos e seus lábios carnudos, eles eram tão rosados que parecia que o menino sempre usava batom. – Na verdade, eu estava deixando o cabelo crescer para manter aquele estilo lumbersexual. Só iria ter o trabalho para deixar a minha barba ficar tão comprida. Sofro com isso desde a adolescência.
– Sério? Seu rosto é tão fino e com contornos tão sensíveis que acho que este estilo não combinaria com você.
Ben corou em seguida, já tinha ouvido aquilo da sua mãe e da Bárbara. Todas elas contra o rapaz adotar aquele estilo tão largado.
– Vou querer manter um corte com topete. Assim eu consigo valorizar os meus dez meses de muito cuidado para deixá-lo crescer – confessou, sentindo-se vencido por ela. – O que tu pode fazer por mim?
– Tenho certeza que combinaria com seus traços lindos um corte topetudo desnivelado estilo Elvis Presley, porém mais moderno. Deixo mais volume na parte da frente, pouco, atrás, e passo a máquina quatro nas laterais da sua cabeça. O legal deste corte é que você pode usar seus lindos cabelos castanhos claros como franja quando se cansar do outro penteado. Deixa eu te mostrar a foto de um modelo com este tipo de corte (OBS: por favor, olhe o link no topo do capítulo).
Depois de ele concordar, a cabeleireira começou a executar o corte. Pedro já estava cansado de dar voltas no shopping igual a uma patricinha em busca da sua compra perfeita. Quando voltou ao salão, a mulher de cabelos amarelos lavava o cabelo do Benjamin.
Foi quando tocou o telefone do Pedro e ele perdeu o ânimo ao ver na tela quem ligava. Saiu do salão para atender a ligação. Benjamin adorava que alguém mexesse em seus cabelos, ainda mais, mãos tão macias quanto às da mulher. Ele perguntou seu nome e ela disse que era Marcelle e depois ela lhe perguntou de qual cidade vinha, já que não reconheceu seu sotaque manezinho.
Ao todo, o corte levou meia hora para ficar pronto, entre cortar, lavar, cortar novamente e lavar outra vez. Benjamin curtiu seu novo corte de cabelo. Agora a ideia de deixar seus cabelos crescerem demais lhe parecia ridícula.
O jovem levou um baita susto ao chegar ao caixa para pagar e descobrir que o corte moderninho custara R$ 70,00. Ainda bem que estava com seu cartão de crédito, afinal não tinha nem a metade daquele valor em seus bolsos.
Setenta reais? Que absurdo. Alguém precisa dizer a eles que a cabeça já eu já trouxera de casa. E agora, cadê aquele puto? Aonde se meteu, porra?
Ele ligou para o celular do Pedro, que após chamar caiu na caixa de mensagens. Benjamin andou por todos os lados até ter a incrível ideia de procurar na entrada principal do shopping e lá estava seu amigo aos beijos com a Patrícia.
Do lado deles estava a Sabrina, que ao reconhecer o menino de olhos verdes abriu um mega sorriso e correu em sua direção como se acabasse de reencontrar seu grande amor. E lhe deu um beijo de olhos fechados. O menino não teve escapatória e o retribuiu.
Por que o Pedro nunca me conta nada que pretende fazer? Que merda! Mas confesso que estou adorando ficar com ela. Ela é tão... tão... quente! Não posso deixá-la se apaixonar por mim, não agora que estou em uma grande confusão. Melhor... posso me permitir se apaixonar por alguém, sim, sim... sim, Benjamin Belucce. Tu não é gay. Prove isso pra ti mesmo.
Sem pensar onde estavam, desceu suas mãos sobre a bunda da loira e apalpou seus glúteos macios, mas foi advertido por ela. Pararam de se agarrar daquele jeito e os dois casais seguiram para a praça de alimentação. Mais tarde, decidiram pegar uma sessão de cinema para assistir ao TED 2.
Na realidade foram ao cinema para não assistir a quase nada e só para trocarem uns amassos mais suaves sob o escurinho do cinema. A sessão do filme só acabou depois das onze da noite. Como hoje era apenas uma segunda-feira não encontrariam nada muito divertido para se fazer na noite curitibana, mas antes de seguirem para casa, os quatro foram comer um mega X-burger em um famosa casa de burgers no Água Verde, perto de onde Pedro morava.
As meninas se flexionaram diante do convite dos rapazes para dormirem na casa do Pedro, mas, no final, eles voltaram para lá sem as garotas. O que foi graças à bronca que cada uma recebeu de seus pais por dormir fora de casa na noite passada e sem ter avisado a eles.
– Piá, a Sabrininha está totalmente na sua. Pode bordar, tricotar e embalar para viagem. Foi mal por hoje, juro por tudo que não sabia mesmo que elas apareceriam por lá. Recebi uma chamada da Patrícia e não menti quando perguntou onde estávamos.
– Pedrão, sinceramente eu tô de boas. Adorei pegar aquela loirinha de novo. Infelizmente não conseguimos finalizar nada hoje – confessou Ben. Ele estava bêbado e mesmo assim continuava a ingerir uísque batizado pelo amigo com cachaça.
Pedro ligou o som na varanda sem se importar com seus vizinhos e já era passado da meia-noite. O dono da casa começou a dançar todo descoordenado e levantou seu amigo para também remexer o esqueleto. O frio não incomodou aos dois alterados pelo álcool, que já dominava seus sistemas nervosos.
– Ben, se eu pular daqui de cima será que você iria preso?
– Vá se foder! – O outro se aproximou do parapeito do apartamento e pendeu seu tronco para fora. – Pedro, tu fica brincando com coisa séria, né? Quero ver a tua cara quando cair naquele chão frio. Vai estar todo fodido e nem Patrícia nem outra louca vai querer ficar contigo.
O menino de pele negra começou a rir bem alto, do tipo que queria acordar a todos.
– Mas é claro, porque quando me quebrar no chão já estaria morto. Moro no décimo quinto andar. – Pedro se virou, tirou seu pênis para fora e começou a urinar na parede. Benjamin começou a rir do que estava vendo.
– Que cheiro forte, porra.
Pedro se virou na direção do Ben, tentando lhe acertar um jato de urina. O menino deu um pulo para trás, fechando a porta de vidro, que ficou toda molhada com aquele líquido quente.
– Ben, você quer dar uma cheirada em cocaína? Eu tenho uma da boa aqui no apê.
Benjamin engoliu em seco, não conseguiu responder. Nunca podia imaginar que seu amigo, filho de um policial, estaria metido com drogas. Aquilo já tinha ido longe demais.
– Tu tá louco, Pedro? Cocaína? Que porra é esta, mano? Tu tá brincando com a minha cara, né?
– Bem capaz, eu tenho um pouco de cocaína que comprei na sexta-feira. Se ainda não experimentou, não sabe o que está perdendo. – O rapaz entrou no apartamento e foi até ao seu quarto.
Porra, cocaína? Meu caralho. O que a Bárbara iria dizer se ouvisse aquilo? Ela me disse para não entrar na onda do Pedro. Porra! Um dos amigos que mais considero está metido com drogas. Não creio. Não creio.
Benjamin sentiu-se tentado a ligar para a amiga, mas já era de madrugada. Logo Pedro voltou com um saquinho com pó branco em uma mão e um canudinho de arte de praia na outra. O jovem não ficou inibido com Benjamin assistindo a tudo, puxou uma quantidade razoável daquilo através de sua narina.
E se já não fosse o bastante, o rapaz puxou mais outra porção. Seus olhos negros ficaram vidrados, o que Ben percebeu muito bem. Mesmo bêbado conseguia discernir seu amigo da tarde e aquele estranho diante de seus olhos. Ele disse inesperadamente ao ver Pedro se preparando para outra porção:
– Queres morrer, seu louco? Para com esta porra agora. Duas já não são o bastante para ti? Ainda precisa de mais? Não vou deixá-lo ter uma overdose enquanto estiver aqui. Se não parar, pego o primeiro voo para Floripa sem ti.
O outro soltou uma expressão de tô nem aí. Então Ben puxou o saco das mãos do amigo e tentou esconder quando ele tentou puxar das suas mãos, mas Pedro empurrou Benjamin contra a porta de vidro. Ao cair bateu a nuca na porta, contudo, por sorte, não a quebrou com a pressão.
Ele sentiu instantaneamente um galo daqueles crescer na região. Pedro olhava aquilo assustado, vendo que tinha ido longe de mais. Tentou ajudá-lo a se levantar, mas Ben o empurrou para longe e entregou o saco para o viciado e saiu em direção ao quarto em que estava hospedado. Não olhou para trás e nem disse sequer uma palavra.
Benjamin estava se sentindo revoltado pela manhã seguinte e já tinha arrumado suas malas a fim de voltar para casa naquele dia. Entrou através do 3G do seu telefone no site da companhia aérea e pesquisou alguns horários. Não tinha nenhum voo legal para Floripa. Pensou em ir à rodoviária por mais que achava a ideia de permanecer cinco horas dentro de um ônibus loucura, mas como não queria passar mais nenhum dia com seu amigo, aquilo era melhor.
A porta do quarto foi batida por Pedro, que logo pôs sua cabeça para dentro do quarto. Estava com muita vergonha do amigo e seus olhos já tinham voltado ao seu estado normal.
– Benjamin, quero te pedir desculpas por ter te jogado contra aquele vidro. Foi muito vacilo meu, podia ter te matado sem querer. Não quero que vá para casa hoje. Espera até sábado, eu vou contigo à Floripa. Prometo que não usarei mais nenhuma droga enquanto estiver aqui.
Enquanto estiver aqui, seu filho da puta? Quer dizer com isso que continuará usando estas merdas? Tu vai morrer em poucos anos ou vai acabar com toda a tua vida.
– Ben, sério, não vá, brother. As meninas estão vindo para cá, elas querem almoçar com a gente. Me perdoe pelo vacilo.
O menino de olhos verdes ficou com pena do seu amigo e decidiu perdoá-lo:
– Tudo bem, cara. Só que tu não pode mais usar drogas enquanto eu estiver aqui. Não quero ver meu amigo de infância tendo uma overdose. Nunca me perdoaria por testemunhar esta merda.
– Firmeza, eu prometo pra você.
Benjamin ficou irritado por ver que seu amigo não estava a fim de fugir daquele vício.
– Tu usa isso desde quando? Não me diga que está usando crack também?
– Não, não. Isto é coisa para favelados. Eu só fumo um baseadinho de vez em quando e consumo cocaína com mais frequência. Espero que não conte para ninguém, afinal se os nossos amigos lá de Floripa soubessem, meus pais também descobririam logo. O meu pai me mataria. Imagina o filho de um tenente usando estas drogas?
– Hei, mas tu não usava estas merdas enquanto morava lá, certo?
– Não. Eu comecei a usar na minha primeira festa da faculdade. Uns veteranos me ofereceram e eu curti. Mas não sou como aqueles viciados que roubam coisas dos outros para consumir a droga.
Benjamin balançou a cabeça negativamente, não podia acreditar que estava ouvindo aquilo da boca do Pedro.
– Grande merda de diferença existe entre vocês. Tu só não rouba porque tem pais se sacrificando lá em Floripa para te dar uma vida dos sonhos de muitos destes favelados como tu mesmo os nomeou.
– Parece a minha mãe, Ben. Vamos lá, esqueça isso. Logo, logo as gatinhas já estarão chegando aqui em casa para metermos novamente. Desfaça estas malas e bora curtirmos esta terça-feira de putaria.
O garoto não riu e também não conseguiu achar graça de mais nada naquela manhã. Ter aquele papo com o amigo acabou com o ânimo do Benjamin. Para ele, voltar para casa rápido seria o melhor presente naquela semana.
As duas amigas se atrasaram e quando por fim chegaram ao apartamento, Pedro já tinha assado uma carne no forno elétrico e feito maionese caseira. Como Benjamin não sabia nem fritar um ovo, permaneceu de companhia para elas. A Patrícia fez mil e uma perguntas sobre o menino de olhos verdes; por que ele estava solteiro sendo tão gato, por que escolheu cursar medicina, por que não prestava os vestibulares das particulares de Curitiba assim poderia ficar mais perto da Sabrina, e muitas outras perguntas sobre tudo que possam imaginar.
Quando estavam arrumando a mesa na sacada, a campainha tocou. Pedro não gostou de ver quem estava à porta – a síndica do condomínio. Benjamin viu de longe a cara gorducha da mulher encarando os visitantes. Ele imediatamente se lembrou da tia malvada de Harry, a Marge (aquela que ele transformou em um balão em HP e o prisioneiro de ). As duas pareciam irmãs gêmeas.
Mesmo Pedro fechando a porta às suas costas, os três puderam ouvir a voz ameaçadora da mulher.
– Meu jovem, uma hora da madruga não é hora de se ouvir música tão alta e ainda por cima na sacada do apartamento. Você está exagerando novamente. Esta já é a quarta multa que eu entrego aqui só neste ano. Não posso tolerar bagunças de vários universitários. Por isso odeio a ideia de estudantes dentro um condomínio residencial.
– Zenilda, não venha me amolar antes de eu almoçar. O apartamento é do pai do Felipe, ou seja, não pode fazer nada em relação a isso. Todas as multas, eu e ele pagamos no prazo certo. Você devia me agradecer, já que recebem uma bordoada de grana só deste jeito. Por que não enche o saco do 404 que não para de tocar aquela porra de trompete?
– Que boca suja, moleque. Seu descarado, male ducado. Vou procurar os pais do Felipe e impor a eles que retirem você daqui. Na próxima assembleia do prédio levarei seu... – Pedro fechou a porta na cara da mulher. – male ducado!
Quando ele escutou os passos apressados da sindica corredor afora, deixou a porta e voltou à sacada como se nada tivesse acontecido.
– Por segurando a vontade de rir.
– Não fiz nada! – defendeu-se Benjamin.
– Vocês acreditam que ela me multou em R$ 600,00? Em R$ 600 reais, cara.
Pedro começou a rir e os outros foram no mesmo embalo.
– Meus pais cortarão meus rins assim que entregar esta multa a eles. E nem me fala o que meu amigo vai dizer. Ele quer ser todo certinho, mas só caga no pau também. Se a velha falar com os pais do moleque provavelmente terei que sair daqui mesmo.
Fale com o autor