Sem mais desculpas. Sem arrependimentos.
1 Capítulo um - Mais um dia naquele limbo
Notas iniciais
Benjamin Belucce Furlanetto não era daquelas pessoas que pulavam da cama ao soar do primeiro toque de seu despertador. Na verdade, estava bem longe disso. Ele só levantava depois de colocar três vezes seu aparelho no modo “soneca de 5 min.”. Como não seria diferente naquele dia, uma sexta-feira chuvosa de Florianópolis, ele seguiu o mesmo ritual: postergou sua saída da cama, escovou os dentes, vestiu uma calça jeans, camiseta, tênis – ao maior estilo de skatista, que era de fato nos bons dias ensolarados da capital catarinense –, penteou seu cabelo castanho claro, massageando-o com a ajuda de seu fixador favorito (seus cabelos estavam na altura das orelhas. Estava deixando crescer para manter um estilo lumbersexual sem aquela barba toda). Por fim, se juntou à mesa do píer da sua casa que tinha uma vista de uma cachoeira artificial que sua mãe mandara construir, desembocando na piscina em formato de T.
A sua família estava reunida, seu pai, médico cirurgião cardíaco, sua mãe, médica ginecologista e obstetra, e seu irmão mais velho, estudante de engenharia mecânica na UFSC. Sua mãe estava com os cabelos negros presos em um clássico rabo de cavalo e projetava um olhar furioso para o caçula.
— Filho... a sua mãe insiste em dizer que você está chegando muito tarde no meio da semana e não tem obtido excelentes pontuações nos simulados do seu cursinho – o doutor Manuel tem a mesma cor de olhos do filho mais novo, verdes. Ele estava usando um de seus ternos caríssimos para clinicar no seu consultório particular.
— Ah, pai... como sempre ela está exagerando. Eu cheguei às onze horas da noite, ganhei uma carona do Frederico até aqui em casa porque fiquei sem grana para o táxi. A gente estava ESTUDANDO (disse isso olhando para sua mãe) com a galera até tarde no cursinho e depois fomos à beira-mar comer um hot dog— a doutora Marisa engoliu em seco aquilo. – E desencana, pai, este ano o vestibular é para mim. Se não rolar a UFSC de novo, certeza que eu passo em alguma faculdade pela ACAFE.
— Mesmo assim, filho, eu quero que comece a chegar mais cedo durante a semana. A vida não se resume apenas a estudar pro cursinho e curtir com os amigos até tarde – ponderou o Dr. Frederico.
Benjamin quase derramou um pouco de suco de uva do seu copo na camiseta branquinha ao terminar de ouvir aquela repreensão.
— É sério mesmo isso, pai? O Miguel deita e rola em todos nesta casa e chega bem a hora que quer e ninguém fica pegando no pé dele. Só porque ele já está na faculdade? Quero direitos iguais, somos maiores de idade e ainda por cima, homens.
— Me deixa fora disso, quiridú! Que porra! – reclamou o irmão, que assistia a tudo calado para que não sobrasse para ele.
— Que boca suja! – berrou a mãe, esbofeteando o ombro do filho mais velho. Ela odiava acima de qualquer excesso dos meninos ouvi-los pronunciar quaisquer palavrões. Afinal, não foi esta a educação que uma mãe médica, dona de casa, deu aos seus filhos.
— Mas de agora por diante, Ben, você estará em casa mais cedo durante a semana. Se quiser sair com os amigos, que o faça apenas nos fins de semanas, sem ser aqueles com os simulados marcados.
— Pode deixar pai. Eu não vou mais me matar durante o dia todo na sala do cursinho.
— Afinal, o seu melhor amigo já está terminando a primeira fase de medicina na UFSC e em breve o encontrarei nas minhas aulas de ginecologia ao invés de encontrá-los juntos como sempre foi – disse Marisa com a voz enciumada. – Vocês estudaram juntos desde a segunda série da educação básica e hoje, ele é calouro e você continua sendo um vestibulando. Você sabe que a mãe dele é minha paciente e não para de me dizer o quanto lamenta por você não ter sido aprovado neste último vestibular e que espera muito que consiga no final do ano e blá-blá-blá.
Benjamin cuspiu o suco que acabava de colocar na boca dentro do copo e sentiu um fogo arder em suas entranhas – sem dúvidas, queria soltar um baita palavrão, mas estava refreando estas empolgações nas últimas semanas por um objetivo maior: o carro que seus pais prometeram lhe dar nas férias de julho assim que fosse aprovado na prova prática do DETRAN. O que seria daqui a duas semanas.
Por que ela adora me comparar aos meus amigos? Meu saco! Minha mãe é muito má! Só pode ser isso. Eu não passei porque sou burro, quiridá!
— Ele não é um ser normal, quando vai entender...? Ele é um japa! Japas são máquinas criadas para dominar o universo todo.
Todos na mesa riram da brincadeira feita pelo Benjamin. Ele adorava provocar seu amigo dos olhos puxados e mesmo não sendo aprovado no vestibular de 2015, ficou muito feliz com a aprovação do melhor amigo. O rapaz até organizou um trote bem sujo para o Yuri, já que a faculdade de medicina da UFSC não permite qualquer manifestação grotesca de trote. Ele foi até na festa da matrícula do japa e ainda por cima, ficou com duas futuras colegas do amigo enquanto bebiam todas.
Yuri não conseguiu dormir bem durante aquela noite, também pondera, ficara acordado até às quatro da manhã em cima dos conteúdos finais de bioquímica para a última prova agendada para as 08h20min da manhã em plena sexta-feira. Ele odiava bioquímica e a divisão dos conteúdos massacrantes da disciplina e principalmente dois dos seus três professores que a lecionavam.
O japonês tomou um banho frio para começar o dia, a fim de espantar o sono e poder ficar ligadão até o final da tarde – onde teria outra aula pesada; biologia celular, com a sua professora sonífera instantânea. Tomou o café da manhã, preparado pela empregada, sozinho na sala de jantar. Os seus pais estavam viajando a trabalho para a França, na verdade, seu pai estava a trabalho e sua mãe apenas o acompanhou por ter conseguido uma folga no tribunal regional.
O seu telefone apitou com um breve sinal de palmas e logo seus olhos sobrevoaram o aparelho e conseguiu ver antes da tela se apagar o sinal de mensagem do WhatsApp recebida. Era do Benjamin.
“Benjamin:
E aí, japa! Não grudou mesmo os olhos durante esta noite? Ficamos de cara por você ter dispensado um dog pertinho da sua casa para estudar. A gente sabe que você podia até faltar nesta prova que já estaria aprovado em bioquímica. Japa cdf!!!
Yuri:
Vsf, Ben!!!! Eu não quero um IA ridículo no meu histórico acadêmico.
Benjamin:
Tem razão! Isso não é a sua cara. Por isso eu te amo, mané! Uma vez cdf sempre cdf! Até porque a colônia toda de japas lhe deserdariam caso tivesse um IA menos do que 9,5. De noite eu apareço na sua casa para saber como foi na prova e não adianta falar que não está a fim de falar sobre ela porque sei que ama isso, maluco...
Yuri:
Eu já te mandei ir se foder hoje?
Benjamin:
Hahahaha. Boa prova, japa!”
Benjamin pegou carona com sua mãe para o cursinho, que ficava no centro. Eles moravam em uma das praias mais visadas e caras de Florianópolis: Jurerê Internacional. Um point para os jovens com seus inúmeros atrativos, casas de shows, barzinhos e o P12 – local conhecido pelas suas grandes pool parties e seus grandes shows de cantores nacionais. Quando Miguel nasceu, a doutora Marisa tentou convencer seu marido a se mudarem para mais perto do centro, longe daquela badalação toda, com medo de que seu filho se perdesse no mundo do escárnio. E isso só piorou quando pariu Benjamin. Mesmo assim, o doutor Manuel conseguiu enrolar sua esposa e criaram seus filhos a quarenta minutos do centro, indo de carro é claro e sem contar com o trânsito caótico da ilha.
— Vocês já escolheram o carro que vão me dar?
— Que carro, fedelho? – Marisa se fez de boba.
— Pare com isso, mãe! O carro que eu mereço pelos meus dezoito anos, quase dezenove.
— Quiridú, se preocupe em ser aprovado naquele exame. O máximo que acontecerá é ter que dirigir um dos nossos carros usados.
— Mas mãe... O Miguel ganhou um Corolla novinho quando tirou a carta de dirigir. Eu acho que mereço algo novo também. Acho que sou um filho brilhante por ter escolhido o mesmo caminho de você e do pai. – Tentou puxar o saco da mãe em vão.
A mãe do jovem enciumado riu tanto que sua barriga começou a doer. Ela achava lindo como os olhos verdes do rapaz ficavam quando estava com bastante ciúmes de algo.
— Chegamos meu quiridú. Vá para a sua aula e se preocupe com o vestibular daqui a cinco meses. Quem sabe podemos ser bonzinhos com você.
Benjamin torceu os lábios, vencido.
— Mãe, eu não vou jantar com vocês hoje. Eu vou para a casa do Yuri de tarde e com certeza pediremos algo para comer.
— Tá, tá! Agora saia do carro! Estou trancando a rua.
Quando o carro da sua mãe dobrou na esquina, o rapaz entrou no cursinho. Ele continuou na mesma escola em que fez todos os seus estudos e o terceirão. Benjamin tinha um mantra que carregava debaixo das axilas: nunca mexa em um time que está ganhando. Mas para seu conforto, ele não foi o único a reprovar no vestibular, três dos seus outros melhores amigos continuavam ali: Arthur Guetter, que pleiteava uma vaga de medicina, Frederico Patrício René, que continuava em dúvida entre direito e educação física e a Bárbara Ronsoni, que sonhava em cursar arquitetura. Os seus outros melhores amigos de todo o ciclo escolar haviam obtido suas aprovações, Yuri, o japa, Joshua Baiano, que passou em medicina na UFSC para o segundo semestre, Pedro Alcântara, que sonhava em fazer medicina, mas desistiu e foi aprovado em direito na UFPR, Fernanda Mello, aprovada em medicina na FURG e UFSC, que obviamente optou pela federal e agora estava na sala de Yuri e por fim, Giselle Victoria, caloura de engenharia civil na UFSC.
— E aí, meu gatinho – disse Barbara assim que Benjamin se sentou na carteira entre a dela e a de Arthur. De fato, o menino de cabelos castanhos claros era muito bonito, um corpo esculpido pela academia, natação e surf o destacava entre a multidão.
— Oi minha princesinha – respondeu, beijando-a na bochecha rosada e apertando a mão de seu amigo. – Cadê o puto do Frederico?
— Onde você acha? Dormindo em casa mais uma vez – respondeu Arthur, sorrindo, revelando seu sorriso metálico proporcionado pelo seu aparelho dentário.
— Não sei como a mãe dele permite tanta folguice. Ainda mais porque o cursinho é muito caro para se vagabundear por aí – comentou Barbara, organizando seu estojo rosa ao lado da apostila e caderno colorido.
— A minha mãe me mataria. Hoje mesmo tive que escutar do meu pai porque ela disse que estou mandando muito mal nos simulados daqui. E de novo me comparou ao japa.
— Mas isso já é uma covardia. O japa é uma máquina de foder concorrentes e sem lubrificante diga-se de passagem – caçoou Arthur, recebendo um olhar de repreensão da garota.
Benjamin só parou de rir quando seu professor de matemática entrou e foi logo escrevendo o assunto daquela aula: função trigonométrica. O que já foi roubando uma expressão de descontente do menino de olhos verdes e de seu amigo.
Depois de três aulas seguidas veio o esperado intervalo. Bárbara aproveitou a pausa para dormir na sala enquanto os dois amigos seguiram em direção à cantina, abarrotada de alunos e cheirando salgados assados.
— Ben, tu não sabe o que eu fiz ontem depois que saímos daquele food truck. Eu e a Barbara ficamos.
— Sério? Eu não posso acreditar nisso, velho.
— Tu não sabe do pior, eu comi ela dentro do meu carro perto do condomínio onde ela mora.
O Benjamin arregalou os olhos e colocou uma mão sobre a testa franzida. Sabia que a menina sempre fora apaixonada por ele, só que nunca pôde corresponder o amor da amiga. Isso podia ser um bom sinal de que a mexicana estava seguindo com a vida após tantas decepções. O rapaz tinha certeza que ficar com uma amiga era a pior cagada do mundo a se fazer, já que tivera uma prova viva após pegar algumas vezes a sua outra amiga – Giselle. O clima entre eles nunca mais foi o mesmo após o lance que durou algumas festas no ano retrasado, embora houvessem combinado que aquilo não estragaria uma amizade de infância.
— Cara e agora? – perguntou Benjamin, pegando um copo de chocolate quente da mão de uma das atendentes ao entregar para ela uma ficha de PVC escrito: bebida quente e R$ 4,00.
— Ben, eu não sei o que vou fazer agora. Tipo, eu e ela não trocamos palavra alguma após ela me cumprimentar quando entrou na sala antes de você aparecer. – O rapaz parecia culpado e inquieto. – Você podia conversar com ela por mim e dizer que foi um erro meu em misturar álcool com ansiedade do vestibular da ACAFE que já está chegando no próximo final de semana.
— Mas nunca! Você que fez merda que se limpe. Me deixe fora disso pelo um amor.
— Valeu, AMIGO. – Ele fez um gesto positivo com o polegar e o sinal marcando o fim do intervalo tocou.
~ ~
No início da quarta aula, Frederico apareceu com uma ressaca daquelas. Nem escondeu o desinteresse de estar ali em plena manhã de uma sexta chuvosa. Ele trocou algumas palavras com os amigos e debruçou a cabeça sobre a apostila e cochilou durante as próximas três aulas.
Já era passado do meio-dia quando acabou a sexta aula dos quatro e eles foram almoçar em um restaurante próximo do cursinho. A chuva já tinha dado uma trégua e o sol começava a aparecer. Frederico sempre comparava as comidas que eles comiam com as do restaurante da família, dentro do shopping Iguatemi, pertinho da UFSC.
Benjamin notou o desconforto entre Bárbara e Arthur, então quebrou o gelo falando sobre a prova de bioquímica que o Yuri devia ter feito naquela manhã para concluir o semestre em segurança. Todos emitiram comentários maldosos sobre a disciplina que dois deles em breve, com muita sorte, teriam que encarar.
Pontualmente às 13h30 os amigos voltaram para o cursinho, agora foram estudar na sala de estudos. Como sempre Bárbara se afastava dos três para se concentrar na resolução dos exercícios da apostila.
Frederico sempre contava com a ajuda dos seus dois amigos para entender as matérias que não assistia no período da manhã e para resolver as questões mais complicadas do material. No meio da tarde, Frederico se despediu dos amigos e foi para a casa da menina que estava pegando naquela semana. Perto das 19 horas foi a vez de Benjamin se despedir dos amigos. Arthur odiou a ideia de ter que ficar sozinho com a amiga até às nove horas da noite quando a mãe da garota viria a buscar.
Benjamin começou a rir da cara do amigo ao deixá-lo lá e entrou no ônibus que havia saído a pouco do Ticen – o terminal central de Floripa. Não demorou muitos pontos para apertar a campainha do ônibus e descer na Avenida Beira-mar, em frente ao imponente condomínio branco, com suas gigantescas vidraças no lugar do muro e portões, onde o melhor amigo morava. Assim que se aproximou do interfone, o portão se abriu, o porteiro já lhe conhecia muito bem e ao vê-lo pelas câmeras de monitoramento já permitiu seu acesso ao prédio.
— Boa noite, Edivânio, como vai as suas crianças e a esposa? – indagou Benjamin ao passar pela recepção do prédio.
— Vão muito bem, senhor Benjamin. Obrigado por perguntar.
Ao entrar no elevador, Benjamin pressionou a tecla digital que indicava o último andar do prédio. No caso era o trigésimo segundo andar. O elevador pareceu demorar uma eternidade para alcançar o andar do apartamento de Yuri – inclusive era o único do andar todo. O pai do garoto era dono de uma concessionária da Toyota, algo irônico já que também era japonês como a marca de carros. A mãe do seu amigo era advogada criminal. Ele tem uma irmã mais velha, pouca diferença de idade, que também estuda medicina, mas só que na USP.
Ao deixar o elevador, ele apertou a campainha da porta, que em seguida foi aberta pela empregada da família. Uma senhora oriental, de estatura mediana, chamada de Akiu. Ela o deixou entrar e informou que o rapaz estava em seu quarto e ofereceu algo para comer e beber, mas foi prontamente rejeitado pelo menino.
Benjamin já estivera naquele apartamento centenas de vezes e por isso sabia onde ficava o quarto do amigo. Subiu as escadas de mármore e vidro e depois foi logo empurrando a porta do quarto do japa, sem sequer bater ou se anunciar.
Deu de cara com a bunda carnuda e definida de Yuri, que vestia uma cueca box apertada. Ele já tinha visto aqueles glúteos muitas vezes e por isso nem ficou constrangido ao vê-los de novo.
Yuri se assustou ao ver através da porta espelhada do seu armário o vulto de seu amigo, parado na porta, na sua retaguarda.
— Não sabe bater na porta, mané! Quase que me viu de frente, seu puto do caralho.
— Que droga! Por que eu só entrei agora? – brincou Benjamin como já fizera antes. – Aliás, eu não enxergaria nada, já que ele deve ser menor do que meu dedo mínimo. – E deu uma gargalhada atrevida.
— Vai se foder, mané. Meu pênis é maior do que essa tua cara lavada. Olha só! – E ele abaixou a parte da frente da sua cueca box, mas Benjamin no mesmo minuto desviou os olhos para a direita, não conseguindo ver nada.
— Vai tomar no cú, japa.
Yuri voltou a guardar seu pênis dentro da cueca e começou a rir mais alto do que seu amigo minutos atrás. Eles não tinham vergonha um do outro por causa de toda a intimidade ganha durante todos aqueles bons anos de amizade. O japonês terminou de se vestir, colocou a mesma regata que usava para malhar e um shorts largo de basquete.
— Como foi na sua prova de hoje? Mais um dez para seu currículo?
O rapaz balançou sua cabeça em discordância enquanto se jogava na cama de casal que tinha em seu quarto. O outro logo fez o mesmo e caiu de lado, encarando o amigo.
— Eu me fodi na prova. Meus dois professores prepararam uma prova de acabar com a turma. Acho que vou ir muito mal, algo em torno de 6 – 7.
— A que isso, japa. Sete é uma nota excelente, meu. Eu quero poder tirar este sete quando estiver lá também. Aliás, você tirou dez nas outras duas provas, de qualquer maneira seu IA será bom.
— Nem me fale dessa merda de IA. A galera da minha turma só fala dessa porra, parece até que se preocupam mais com ele do que com sua futura profissão. Até a Fernanda está alienada.
Benjamin riu sarcasticamente.
— A Fernanda Mello? Essa sempre foi alienada, mas isso é graças aos pais que tem. Falando nela, faz tanto tempo que não troco uma palavra com a criatura. Me diga como ela está indo na faculdade?
— Ela só tira notas altas, está brigando com mais uma menina pelo posto de melhor aluna da sala. Agora está ficando com um calouro nosso do segundo semestre, amigo do precoce.
— Eu tenho falado com ele. O Joshua me disse que não vê a hora de iniciar o segundo semestre para ele começar logo a fazer medicina.
— É por isso mesmo que o apelido dele continua sendo precoce mesmo depois de tantos anos desde que entrou adiantado no ensino fundamental. Ele adora ser precoce em tudo.
— Vai divulgar o apelido dele no trote?
— Pode ter certeza que sim. O precoce precisa ser partilhado com o universo da medicina do litoral e eu serei o porta-voz desse feito.
Os dois começaram a rir. Benjamin sabia que mesmo com todas aquelas brincadeiras que se seguiriam na faculdade por causa daquele apelido, seu amigo estaria nas nuvens só em realizar seu sonho de criança. E ele com sorte seria calouro do precoce no próximo ano, então precisava maneirar nas provocações.
— E tu, Ben, se preparando para seu grande dia?
— Que dia?
— O da aprovação, bobão. Qual dia seria melhor do que isso?
— No dia em que se declarar para mim e dizer que não vive sem mim – caçoou o menino de olhos verdes.
— Então tu nunca verá este dia chegar, bobão. Eu morro, mas não me declaro para outro homem – disse o japa com um baita sorriso. De todos os seus outros amigos o que mais amava sem dúvidas era o Bem, só que nunca admitiria isso a ninguém.
— Japa, eu estou ficando ansioso por causa da ACAFE no próximo final de semana, preciso passar nesta porra pra mostrar para minha mãe que também sou foda. Ela adora me jogar na cara como você é inteligente, mais fluente em quase tudo.
— Em quase tudo? Então reveja seus conceitos, sou melhor do que você em tudo – brincou, recebendo um soco no peito.
— Eu sou mais rápido do que você na piscina, japa do caralho.
— Isso é o que veremos amanhã na piscina do clube – replicou o japa, apertando o punho do amigo e uma briguinha de brincadeira se irrompeu na cama.
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