Sem mais desculpas. Sem arrependimentos.
35 Capítulo trinta e cinco - Você aceita ser só meu?
Notas iniciais
— Eu quero só ver o que vou vestir no dia do aniversário da Yumi.
— Menina, pare de ser tão vaidosa. Sabe muito bem que não precisa de nada muito elegante, a gente só vai comemorar o aniversário da menina no barzinho com alguns amigos dela – repetiu Benjamin, convencido de que não precisaria mais falar a mesma coisa como uma coruja e que só mais aquela vez seria o suficiente para pôr de uma vez por todas na cabeça da ruiva o que vinha dizendo há minutos.
— Me poupe, olhos verdes, me poupe! Eu já preciso de qualquer maneira dar uma volta pelo shopping neste fim de semana – murmurou Bárbara para o descontentamento do amigo. A menina revirava o seu armário de cima para baixo enquanto Ben continuava na mesma posição: deitado na cama da ruiva com o gigantesco pimpão da menina. Pimpão era o nome do urso de mais de um metro de altura que dormia com ela.
— Tudo bem, aproveite para comprar alguma coisa para mim também. – Ben revirou os olhos para trás, entediado e com uma dor de cabeça rompendo suas têmporas. Já tinha tomado um comprimido para ver se aquilo passava logo. (têmporas = região lateral da cabeça)
Havia mais do que três semanas desde que Yuri voltou para casa. Yumi decidiu, nesse meio tempo, trancar a faculdade por um semestre para poder ficar por perto do irmão ainda em recuperação. O qual, diga-se de passagem, havia se recuperado muito bem, apenas o braço que quebrara no acidente doía de vez em quando.
A mãe de Benjamin tinha se convencido de que não adiantava ficar de cara virada com o filho por mais dias já que ele havia voltado definitivamente para casa. Inclusive, a doutora começou a pagar aulas particulares de redação para o caçula uma vez por semana. Se era para ele voltar a tentar medicina na UFSC, então, que enfiasse a cara de uma só vez nas apostilas.
Na metade de setembro, Yuri retornou à faculdade, mas mesmo assim continuou a dar uma mãozinha para o seu melhor amigo. O difícil para Benjamin era se concentrar estando sempre a poucos centímetros dos lábios que mais desejava atualmente. Só que Yuri era um professor difícil e exigia mais dedicação do amigo:
— Se tu não parares de tentar me beijar a cada vez que explico uma lei matemática, vou parar de te ajudar e nem vou querer saber o seu escore na porra do vestibular – brigou Yuri.
— Ok, Ok, mas a culpa não é minha que tu seja tão gostoso – amargurou Ben, se ajeitando na cadeira de escritório no quarto do japonês.
O japa só tirou aquele gesso incômodo dois dias atrás – já estava cansado de depender da carona de sua irmã e de Benjamin. Yuri achava engraçado como a situação dos dois mudara bastante, afinal até o começo do ano, quem dependia das suas era o menino de cabelo claro que não tinha completado a autoescola.
— Ben, está ansioso pela noite de hoje? – questionou Báh, parando de mexer nas suas roupas e olhando fixamente para o amigo folgado.
— O que eu tenho esta noite, guria? – Ben se fez de desentendido. – O aniversário da Yumi vai ser só quarta-feira e estamos no sábado ainda.
A Bárbara jogou contra o amigo a primeira coisa ao seu alcance, uma caixinha de maquiagem, que fez o menino despreparado gritar assustado.
— Tu sabe muito bem o que tem que fazer hoje à noite, não me faça ir com vocês e ainda forçá-lo a fazer o tão aguardado pedido da atualidade – brincou ela, fazendo ele rir, constrangido.
— Acha mesmo que devo fazer isso? Quer dizer... vai que eu e ele como namorados não funcione muito bem como funcionamos agora?
A menina virou os olhos enquanto se jogava ao lado do menino de olhos verdes na sua cama cheia de edredons.
— Ah, nem venha com isso agora, por favor, né, meu amor. O japa te ama demais da conta e sei que tu também ama ele demais, se não fosse assim, por que teriam enfrentado tudo o que já enfrentaram até aqui?
Benjamin adorava quando sua amiga punha sua cabeça no colo dela e afagava os seus cabelos lisos à medida que conversavam algo importante.
— Eu só estou com um nó na minha garganta, mas já estou decidido a pedi-lo em namoro desde o acidente. Só que a realidade me mostra outra perspectiva, afinal nunca havia me imaginado namorando um garoto. Justamente um garoto, Báh. Será que tu entende isso? E se fosse tu apaixonada pela Fernanda, por exemplo?
A menina esboçou um sorriso com o canto direito dos seus lábios, formando uma covinha.
— Eu teria o prazer em namorá-la se fosse o caso. Isso o que fará só significa uma oficialização de algo que vocês têm praticamente vivido pelos últimos três meses. Nada será diferente, a não ser pôr uma aliança de prata em um dos seus dedos e outra, no dele, guri.
— Você talvez tenha razão... mas a gente não pode assumir esse namoro para as nossas famílias. Tu já sabe a barra que o japa está enfrentando na casa dele com o nascimento do bastardinho e eu na minha, com a gravidez da Paula e a imaturidade do Miguel em ser responsável por outra pessoinha.
Bárbara riu escandalosamente.
— Eu acho tanta maldade ouvi-los dizendo: bastardinho. Ele é um fofo pelas fotinhas que a Yumi me enviou pelo Whats.
— Também achei o bebê uma graçinha. Não puxou tanto para o lado oriental do pai, inclusive ele é bem moreninho, né? A Yumi está completamente apaixonada pelo Luigi enquanto o Yuri ainda continua meio distante e ressentido mais por causa da mãe dele.
— Entendo o lado do japonês, mas voltando a questão de vocês se assumirem ou não. Tudo tem um tempo, não precisam correr com as coisas. Hoje, vocês se assumem um para o outro. Daqui a alguns dias, estarão preparados para se assumirem para todos os seus amigos e, num outro qualquer, para as suas famílias. Nem todos estarão a fim de entender o amor que surgiu entre vocês, porém só por um estar ao lado do outro, tenho pra mim que ninguém poderá derrubá-los.
— Bárbara, tu é a melhor amiga que alguém poderia ter. Acho que se não fosse tu e a Yumi, eu e o meu japinha estaríamos encrencados.
— Ain... que fofo! Eu amo demais vocês dois e sabe que estarei aqui para o que precisarem.
— Agora, eu aceito comer aquele pedaço de torta que sua mãe deixou esfriando pra gente no forno – sugeriu o menino de olhos verdes após olhar em seu relógio de pulso que as horas continuavam aceleradas e de que, daqui a pouco, teria o tal jantar com o oriental.
Benjamin nem voltou para casa, após passar o dia com a amiga, já que ela ficava no norte da ilha e para facilitar a sua logística até a casa do Yuri achou melhor permanecer ali até o horário que desse.
Como o Yuri ficou sem carro após o acidente e também não havia ganhado permissão do seu médico por enquanto para dirigir – Ben deveria ser o seu motorista particular, usando as mesmas palavras do japa.
— O que tu achou desta roupa que comprei especialmente para a minha noite com o Yuri? – perguntou ele. O menino de olhos verdes estava vestindo uma calça jeans da Calvin Klein meio desbotada, uma camiseta branca de manga comprida e com gola em “V”, naquele tipo de tecido slim que gruda na pele e não quer mais soltar.
O menino de olhos verdes aparou, no salão, alguns centímetros do seu cabelo na parte de cima da sua cabeça, para ainda poder fazer vários tipos de topetes, e decidiu raspar novamente o resto do seu cabelo para continuar com um visual mais moderninho.
— Achei que ficou muito gato, assim eu vou morrer de ciúmes, olhos verdes – brincou Báh, ajeitando o cinto e o cós traseiro da calça do amigo. – Agora, vá, porque caso contrário, vocês podem perder a reserva do restaurante.
— Olha...! Falando nisso, não sei se a comida de lá é tão boa, mas eu estou confiando na sua palavra.
A menina mordiscou os lábios, nervosa pelo horário.
— Sim, pode confiar em mim. Eu e o Arthur já fomos lá duas vezes e nunca reclamamos do atendimento ou da comida.
— Ok, ok, ruiva. Caso contrário, te mato na segunda-feira quando te ver no cursinho – provocou novamente a amiga. Enquanto falava, ele ajeitava o seu topete em frente ao espelho da porta do guarda roupa da amiga uma vez mais.
— Vá logo buscar o seu quase oficialmente namorado, guri. Caso contrário, largo o Thur e pego o seu japinha pra mim.
Ben sorriu com os lábios bem abertos, depois, deu um beijo e um abraço na amiga antes de sair do quarto e daquele apartamento.
— Eu te amo, Bárbara Ronsoni – confessou o menino.
Ao girar a ignição do seu carro e sair pelo portão da garagem do condomínio da ruiva, o celular do Ben começou a tocar e ele sem mesmo checar quem era pôs, automaticamente, o aparelho no suporte que o conectava ao sistema do carro.
— Onde você está?
O menino conhecia bem aquela voz zangada.
— Oi para você também, meu amor – provocou-lhe.
O Yuri riu do outro lado da linha e voltou a falar em um tom sério:
— Pensei que já tivesse pulado fora e que me daria um belo bolo de jantar.
— Só vai achando seu otário... Eu quero você só para mim, tu entendeu? Mas entendeu bem?
Novamente, o japonês começou a rir. Havia amado ouvir aquela declaração, na verdade, quem não ficaria feliz ao ouvir aquilo?
— Mas falando sério, onde você está a nossa reserva é para às 20:40, Benjamin, e, agora, são 20:12.
— Me desculpe, eu acabei dormindo com a ruivinha... quis dizer, na mesma cama do que ela, não...
— Ha ha ha! Eu entendi, silly. (*silly em inglês quer dizer: bobo)
— Acho que vou levar mais uns cinco minutos pra te pegar, estou aqui perto da Beira Mar. Acho que tu pode me esperar lá embaixo já para a gente não se atrasar mais – explicou ele, tentando manter a graça. No fundo, Benjamin estava tão nervoso quanto o oriental sobre a reserva dos dois. – Pode ser, meu amor?
O outro pareceu pensar antes de concordar:
— Tudo bem, eu já vou descendo aqui então. Te vejo daqui a pouco, amor.
— Ok, nos vemos em poucos minutos. Beijo!
Ben levou cinco minutos a mais do que havia previsto para chegar e ainda fez Yuri ter que atravessar toda a avenida para ir ao carro, já que parou no estacionamento do lado oposto ao prédio dos Takashi.
— Oi, meu japinha – disse Benjamin assim que o outro entrou no automóvel e veio na sua direção para beijá-lo.
Os dois deram um beijo de estalar a língua e com direito a uma rápida fungada na orelha um do outro.
— Eu não aguento mais não poder dirigir, Benzinho. Isso de depender dos outros está me matando – confessou Yuri assim que o amigo deu partida e deixou o acostamento.
— Porra, eu não me importo em te dar carona quando posso. Até porque eu amo te levar aonde precisa ir. – Ben sorriu exageradamente, tracionando ao máximo o canto dos seus lábios. – Adoro ter o controle daquilo que vai fazer – brincou.
O japa deu um soco no ombro do amigo enquanto dizia:
— Essa é a melhor parte, né?
— Você ainda tem dúvidas? – provocou, projetando um bico para um beijo ao parar na luz vermelha do sinaleiro. – Hei, fiquei esperando um beijo aqui e tu me deu um chute no saco agora, seu otário.
Yuri começou a rir enquanto aproximava os seus lábios dos do outro.
— Nem tinha visto, silly.
Foi só o tempo de darem um curto selinho para o sinal abrir.
— Eu fui ao médico inclusive, hoje, e o doutor me disse que até a primeira semana de outubro, ganharei sua liberação para voltar a dirigir. É na mesma semana que a fisioterapia vai acabar.
O médico tinha indicado algumas sessões de fisioterapia após tirar o gesso. É comum que os músculos engessados percam um pouco da totalidade de sua força com algumas semanas imóveis e, com fisioterapia, eles conseguem novamente retornar ao seu estado natural.
— É uma pena, não é? Não poderá mais ver a sua fisioterapeuta gostosinha duas vezes por semana.
Yuri riu.
— Adoro como tu fica com ciúmes de mim perto dela. Isso é só por que a Lau tem vinte e dois anos? Se ela fosse uma velha e gorda, tenho certeza que não sentiria ciúmes, não é mesmo, Ben?
— Você é esperto mesmo! Se ela fosse uma velha, gorda e rabugenta, seria perfeito – respondeu em tom de brincadeira.
— Sabe que horas são?
— Horas de largar a porra do celular e aproveitar a conversa com seu namorado... Ops! Digo, amigo. Por enquanto somos apenas amigos coloridos, não é?
— Ah, vá se foder!
— Espero que tu me foda e deixe eu te foder mesmo depois do jantar.
Yuri riu enquanto bloqueava a tela do seu telefone.
— É por isso que está me levando para jantar, seu interesseiro?
— E por que mais eu estaria pagando um jantar tão caro para você?
E os dois começaram a rir.
— Pronto, chegamos! – informou Benjamin, indicando com a mão para a direção onde ficava o restaurante.
Havia uma pequena fila de carros entrando no estacionamento do restaurante e lá no alto da entrada do lugar uma placa toda iluminada:
LAÇO DO CAMPO & SERRA
O melhor da serra catarinense em Florianópolis
— E nós chegamos atrasados, Benjamin, já era a nossa reserva.
— Mas que hora são? – perguntou, constrangido, enquanto entrava no estacionamento e procurava uma vaga vazia para eles.
— São oito e cinquenta. Nem adianta mais a gente tentar entrar – repetiu duas vezes ao ver Ben estacionar numa vaga.
Ben sorriu, tentando corrigir o seu atraso com simpatia.
— Não custa nada tentarmos algo com os caras da recepção, meu amor. Eu te amo, viu?
Yuri sorriu e deu um beijo de língua no outro.
— Eu também te amo! Não me importo se as coisas não acontecerem do jeito que planejamos, nem que tenhamos que terminar a noite numa banca de cachorro quente, pra mim isso já bastará por estarmos juntos.
Deram mais um curto beijo de língua e entraram no restaurante. Ele ficava no alto de um pequeno planalto. O acesso se dava por uma escadaria de madeira iluminada por candeias ao maior estilo campestre possível.
— Caralho, a Bárbara não estava mentindo ao falar que o lugar era o máximo – comentou Yuri, surpreso.
O menino de olhos verdes fez uma careta para o oriental, mostrando os dentes e pondo a língua de fora.
— Boa noite, senhores – cumprimentou uma das recepcionistas no hall. O lugar era todo cheio de vidros negros, ao se olhar do lado de fora para dentro dava para contemplar todas as mesas e as pessoas jantando nas mesas para até quatro pessoas, ao se olhar de dentro, podiam vislumbrar todas as casas iluminadas perto do lago da Barra da Lagoa – uma região nobre de Floripa, com inúmeros restaurantes.
— Tínhamos uma reserva às 20:40, mas como sempre o trânsito da ilha não ajudou – mentiu o menino de cabelo claro. Yuri se segurou para não rir.
— Está no nome de quem?
— Benjamin Belucce Furlanetto.
— Os nossos clientes podem ter um atraso de no máximo de quinze minutos e por sorte, o atraso de vocês não excedeu esse tempo. A Tanise irá acompanhá-los até à mesa. Tenham um bom apetite.
A moça que ela tinha indicado se aproximou do balcão e lhes conduziu até uma mesa em um mezanino, que ficava na direção oposta as grandes vidraças – o lugar permitia a vista de milhares de luzes de postes como se fossem pequenas estrelas no horizonte da cidade.
No acesso ao mezanino ficava uma fonte de água colorida que jorrava da taça de três cupidos e escorria em cascata para a base da fonte.
— Aproveite para pedir a nossa linha Premium de vinhos importados da Bélgica e ganhe cinquenta por cento de desconto em nossos queijos tradicionais – sugeriu a moça de cabelos loiros e olhos castanhos, que repetia aquele mesmo sorriso largo pela milésima vez só naquela semana. Dito isso, ela entregou o cardápio aos dois e esperou alguma resposta.
— Não vamos beber esta noite, ele está dirigindo e eu não vou fazer isso sozinho. Mesmo assim, muito obrigado, Tanise.
Ela ganhou a noite ao ouvi-lo dizer seu nome, já que isso não era tão comum entre seus clientes.
— Eu vi ela superinteressada em você, japa – informou Ben após ela se retirar e deixá-los. – Pra que vir tão bem arrumado? Blazer, camiseta social e calça jeans?
Yuri riu, mostrando suas covinhas. Ele segurou em uma das mãos do menino de olhos verdes por sobre a mesa.
— Sabe bem porque eu me vesti tão bem, aliás, tu também estás um arraso, meu italianinho dos olhos verdes.
— Calma aí, primeiro, vamos pedir a nossa comida, pode ser? – sugeriu Ben, morrendo de vergonha. Isso era bem visível, uma vez que ele ficou um pouco corado e mesmo com a baixa intensidade da luz, para trazer um clima mais elegante ao recinto, dava para o japa perceber aquilo.
— Não precisa ficar nervoso, meu amor. Eu esperei esta noite por tanto tempo que um jantar não vai me matar de ansiedade – provocou o oriental, fazendo o outro corar ainda mais.
O Furlanetto apertou a sua mão sobre a do amigo, ambos ainda as mantinham em contato enquanto procuravam no cardápio o que iriam comer. Depois, chamaram um garçom e pediram a sua comida.
Não demorou muito para serem servidos. No lugar da bebida alcoólica, pediram um guaraná.
— A gente pode beber um vinho bem gostoso no hotel para aonde vamos depois daqui – disse Yuri, sorrindo com os lábios fechados.
— É sério que vamos hotel depois daqui? É muito longe? – Benjamin guardou surpresa sobre onde jantariam e o japa, de onde passariam a noite.
Os dois conversaram durante todo o jantar sobre várias coisas, mas nenhum deles tocou no assunto do pedido de namoro. O engraçado é que os dois meninos estavam muito nervosos com a noite. Yuri foi aconselhado pela irmã antes de sair de casa assim como o outro foi pela ruiva.
Assim que terminaram de comer a comida e antes de pedirem a sobremesa, Benjamin achou que estava na hora de cumprir a sua palavra. Ele achava que quanto mais prolongasse aquele momento, mais difícil seria para fazer o pedido.
— Então... Ghr! Ghr! – travou por alguns segundos. Yuri pegou novamente na mão do acompanhante para encorajá-lo. – Não sei porque estou tão envergonhado – confessou –, talvez porque nunca pedi ninguém em namoro e nem sei muito bem como fazer.
Yuri riu, mas queria poder dizer: definitivamente não assim! Só que ele nunca brincaria em um momento igual aquele, porque o risco do menino de olhos verdes travar de vez seria grande.
— É! – Ben riu de nervoso. – Primeiramente, preciso que saiba que eu te amo. Não foi fácil eu aceitar isso para mim e, claro, que com isso lhe fiz sofrer inúmeras vezes, porém pra mim a pior coisa foi vê-lo em coma no hospital e escutar dos médicos a gravidade do seu acidente. Então tomei a coragem de dizer pra mim mesmo que eu precisava mudar, que você era e é uma pessoa com um grande coração, e que merecia uma pessoa não equivalente porque isso seria impossível, mas uma pessoa... Ghr! Uma pessoa que chegasse o mais perto possível desse grande coração e se eu não fosse capaz de ser essa pessoa, era melhor aceitar o convite da Yumi e cair fora de vez da sua vida. Só que eu já sabia que não poderia viver longe de você e muito menos suportar vê-lo com outra pessoa.
Os olhos do japonês começaram a se encher de lágrimas. Benjamin mordeu os próprios lábios, nervoso.
— A gente se conhece há uns doze anos pelo menos, e nesse tempo, nunca podia imaginar que me apaixonaria justamente pelo amigo que mais convivi dentre todo o nosso grupo de amigos de infância. O mesmo menino que colocou aparelho nos dentes quando eu pus, que me fez aprender a tocar piano e cantar só porque ele tinha vergonha de fazer as aulas sozinho. Aquele menino que já me bateu por eu ter quebrado seu controle de Super-Nintendo após cair de skate na rua.
O Yuri começou a rir ao se lembrar daquilo e foi seguido por Ben. Eles apertaram ainda mais forte as suas mãos entrelaçadas.
— Ou seja, eu nunca acharia que me sentiria tão bem em dizer que amo aquele menino, mas eu amo poder dizer a você e a qualquer outra pessoa que se interesse em saber que eu te amo não apenas como um amigo, mas também como um apaixonado. Eu, Benjamin Belucce Furlanetto, estou completamente apaixonado por você, Yuri Takashi Neto. Por mais clichê que soe e sei que soará, que se dane; eu não quero viver sem ter você só para mim. Por nosso amor sou capaz de abandonar tudo e veja que já fiz isso com a minha faculdade, mesmo quase sendo fuzilado em casa pela doutora Marisa.
Novamente eles riram.
— Eu preciso de você, eu preciso que fique do meu lado para ter coragem de enfrentar as nossas famílias e amigos por nome ao amor que sentimos aqui dentro – ele indicou com sua mão livre o seu peito. – Quero saber se me daria a honra de ser seu namorado. Você aceita ser chamado de meu namorado? Yuri quer namorar comigo?
O japonês estava chorando, emocionado. Não podia acreditar que estava oficialmente sendo pedido em namoro, ele custava a acreditar em tudo que escutou. Era perfeito demais ouvir aquela baita declaração do menino de olhos verdes.
— Aceito! Aceito! Aceito! Aceito! Aceito! – respondeu, secando os olhos com a manga do seu blazer.
Foi aí que Benjamin tirou do bolso a caixinha com as duas alianças de compromisso. Os olhos do japa pareceram cintilar ao ver a aliança de prata polida contida ali.
— Yuri me dê sua mão, por favor – pediu ele, se levantando e indo em direção ao japonês.
— Não precisa se levantar – disse o japa, mas já era tarde.
Benjamin deu um beijo na mão direita do Yuri e, em seguida, colocou a aliança no seu dedo. Antes de qualquer coisa, o Takashi fez o mesmo, deu um beijo na mão do namorado e pôs a aliança em sua mão direita.
— O que vai fazer, Benjamin? – perguntou Yuri assustado ao ver o rosto do amigo se aproximar do seu e uma das mãos dele enrolando em torno do seu pescoço.
Benjamin não se importou com que estivesse dentro do restaurante, deu um beijo de língua no seu namorado. Yuri estava mais constrangido porque nunca esperaria uma forte atitude vinda dos olhos verdes. E quando pensou que tinha acabado, Ben ainda roçou seus narizes, soltando sua respiração lentamente sobre o rosto do japa.
Quando Ben voltou para a sua cadeira, os dois recebiam alguns olhares assustados e curiosos para aquela movimentação toda.
— Oi, tudo bem? – cumprimentou Benjamin, acenando para eles em sequência.
O Yuri começou a rir da audácia do menino de cabelo castanho claro.
— É isso mesmo! Eu não devo nada para nenhum deles, então que se fodam todos esses otários – comentou Ben para o namorado. – Vamos pedir a nossa sobremesa já?
Para ser honesto consigo, Benjamin não acreditava no que tinha feito em um lugar público. Ele sabia que estava movido de tanta adrenalina após dizer tudo que sentia para o amigo.
— Calma! Eu preciso dizer alguma coisa, não acha? Você me deixou sem palavras, porém, mesmo assim, preciso dizer alguma coisa.
O de olhos verdes sorriu, convencido. Os dois voltaram a dar as mãos.
— Eu sinceramente não esperava uma declaração de fazer chorar. Nossa! Eu chorei porque também te amo! Porque quantas vezes eu fui para casa ressentido por alguma atitude sua e sempre insistia em acreditar que a nossa relação poderia ficar melhor. Mesmo quando tu me dizia que era melhor só sermos os mesmos bons amigos de sempre, que estávamos confundindo as coisas e que tinha sido um erro o nosso primeiro beijo e aquele outro depois que voltou de Curitiba.
Benjamin parecia compreensível com o que estava ouvindo.
— E olha só como tudo tem sido perfeito desde que acordei do coma. Você realmente se transformou em um Benjamin que nunca imaginei em doze anos de amizade que poderia existir. Quero que saiba que seremos sempre eu e você contra o mundo, contra as nossas famílias ou mesmo contra os nossos amigos. Nunca vou te abandonar custe o que custar!
O Furlanetto sorriu mordiscando os lábios.
— E só mais uma coisa: não me lembro muito bem daquela história de ter te batido por quebrar o meu controle de videogame após cair de skate. O que me lembro é de alguém quebrando propositalmente o meu controle após ficar bravo por ter sido excluído da nossa brincadeira de mãe-pega.
Imediatamente, eles começaram a rir.
— Só que eu adorei relembrar que sempre fomos unha e carne. Como eu consegui te aguentar por tanto tempo?
— Porque tu tinhas interesse nas minhas provas. Tenho certeza que só por isso, japinha.
— Aham, tu tem razão, eu sempre fui um japa às avessas da colônia dos orientais e não estudava nunca para as provas – confirmou o japa, irônico, e sorrindo em seguida.
— Tu não vai acreditar, mas a Bárbara está me enviando mensagens no WhatsApp, há meia hora, perguntando como foi o pedido e para saber se eu não tinha arregado – comentou Benjamin, começando a rir.
O outro também não resistiu.
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