Sem mais desculpas. Sem arrependimentos.

43 Capítulo quarenta e três - Segura as pontas!


Notas iniciais
Benjamin relata aos policiais e a sua família como fugiu das mãos dos sequestradores até ser resgatado por uma família gaúcha. O encontro entre Ben e Yuri promete ser intenso. O menino ferido é surpreendido com a chegada de uma pessoa que nem imaginava estar se importando com ele. Quem será? "Amores, amores, amores! Feliz natal a todos! Aproveito já para desejar um feliz ano novo e prometo dar dois capítulos de presentes na primeira semana do ano novo. A FIC COMPLETOU SEU PRIMEIRO ANO; eu fico emocionado e agradecido por ter visto tantos novos seguidores, tantas recomendações (por saber que posso contar com o apoio de muitos, que me escrevem no inbox e nas suas reviews ♥). SOU UM ESCRITOR APAIXONADO POR VOCÊS TODOS! Um ano novo começa e eu quero desejar tudo de mais especial nesta vida a todos vocês. Sério! Muito amor, aventura, surpresas alegres e que continuem comigo até o fim da história - que, em breve, daqui a alguns capítulos chegará ao fim! Mas já estou pensando numa nova história pra não deixá-los tão órfãos de SMD. SA. ~ ~ Peço que respondam, por review, a uma questão sobre o capítulo. Beijos, amores! Feliz ano novo! Felicidades sempre!"

—... A gente já tinha feito o saque máximo naquele caixa eletrônico, então o líder dos três me obrigou a voltar pro carro e me disse que pensariam numa maneira de me soltarem. – Uma escrivã da polícia tomava nota de tudo que o menino de olhos verdes relatava sobre o sequestro relâmpago. Era assim que os policiais se referiam ao caso do menino: um comum sequestro relâmpago.

No seu quarto do hospital, Manuel, Marisa, Miguel e Moacir assistiam ao depoimento. A mãe do garoto foi convidada a se retirar pelo seu marido, que se preocupava com o seu estado emocional por causa gravidez. E ele estava certo, a cada situação narrada, a mulher punha as mãos sobre a boca.

Nem Manuel nem Benjamin já vira o Miguel tão puto da cara quanto o garoto de olhos azuis estava por conta daquele sequestro.

—... mas os caras mudaram de ideia no meio do caminho. Daí, o líder olhou pros seus comparsas e me disse – A sua voz estava embargada ao se lembrar do que ouvira e os seus olhos carregados – que teriam que me matar porque eu já tinha visto demais.

Marisa soltou um grito, totalmente horrorizada, e pôs a sua cabeça sobre o ombro do marido com o intuito de esconder as lágrimas do filho.

— Miguel, por favor, leve a sua mãe para tomar um ar lá no corredor – pediu Manuel, acariciando os fios loiros de Marisa.

— Nem a pau, pai, que eu vou perder a história toda.

O homem olhou fulminantemente para o filho antes de ouvir da sua esposa:

— Chega, Manuel! Gravidez não é uma hipertensão, não. Eu vou ficar aqui e ouvir o resto da história. – Ela se referia ao fato de poder suportar as emoções fortes.

— Depois de rodarmos mais uns quilômetros por uma estrada sem iluminação e aparentemente não asfaltada já que o carro tremia demais. Eles estacionaram dentro de um clarão de árvores no canto daquela estrada e me tiraram a força do carro, e me obrigando a se ajoelhar diante deles.

Ben fez uma pausa para se lembrar dos detalhes que vieram em seguida.

— E aí, garoto, já fez as suas preces? Chegou a hora de comer a grama pela raiz – soltou o mais jovem dos três bandidos com um imenso sarcasmo na sua voz.

O menino de olhos verdes sentiu a ponta do cano da arma empunhada contra sua nuca e, de repente, aqueles homens começaram a rir enlouquecidos, que até se empurraram entre si antes de darem um chute no meio das costas do Ben. Depois do golpe, ele foi de encontro com o chão, ralando os seus braços na tentativa de proteger o seu rosto.

— Eu vou contar até vinte e, quando olhar pra você, quero te ver o mais longe possível se não eu vou atirar nas suas costas – ameaçou o gorducho, levantando a cabeça do menino com violência após puxar o seu cabelo para trás.

Benjamin se levantou o mais rápido que pôde assim que os três começaram a fazer a contagem. Ele disparou na penumbra do amanhecer, sem olhar para trás com medo de que os homens mudassem ideia e obrigassem-no a ficar ali por mais algumas horas ou fizessem o pior com ele.

No meio daquele tempo em que corria, tropeçou e quase caiu, só que o seu pé direito torceu abruptamente. Nem toda aquela dor que irrompeu foi capaz de fazer o menino de olhos verdes parar de correr o mais rápido que pôde – claro que o seu corpo lhe cobraria o preço por aquele ato mais tarde.

Ben só parou de correr para conseguir recuperar o fôlego antes de continuar a fugir e isso só quando sentiu que já tinha se afastado o máximo dos bandidos.

Quando o sol já tinha se levantado, ele decidiu continuar, agora, tentaria apenas caminhar no meio da mata já que mal podia encostar o pé direito no chão. Ele se sentia humilhado pelo que havia passado nas mãos dos três delinquentes.

Após ele andar por pelo menos uma hora naquele lugar desconhecido, saiu numa rodovia asfaltada. Quando Ben viu que tinha um carro parado no canto estrada, disparou para lá.

Um casal de meia idade, acompanhado por um adolescente, de não mais do que quinze anos, trocava um dos pneus traseiros da sua pick-up.

— Socorro, por favor! – gemeu Ben em prantos. – Eu fui sequestrado nesta madrugada e acabei de ser solto numa estrada qualquer. – A mulher olhou apavorada para o rapaz todo sujo e sangrando, depois, para o marido. – Se puderem me emprestar um celular, eu ligo para os meus pais virem me buscar.

— Meu Deus! Você está bem, menino? Venha comigo que eu vou pegar a minha bolsa – disse gentilmente ela, recobrindo os ombros do menino com seu braço.

— Eu e o Vini já trocamos o pneu do carro, amor – comentou o esposo dela. – Menino, pode entrar no carro que levamos você até o hospital mais perto daqui – sugeriu, fechando a porta malas.

— Não sabe o quanto fico agradecido pelo socorro de vocês.

Marisa estava emocionada e, ao fim dela, já estava grudada no filho, que continuava deitado na cama inclinada para frente mecanicamente. O tenente Moacir agradeceu a escrivã pelo serviço e dirigiu a palavra para a família, agora, consolada.

— Com o seu depoimento e o retrato falado do bandido que tu passasse a maior parte do tempo, tenho certeza de que vamos chegar a esse trio de desgraçados e vamos prendê-lo.

Marisa forçou o sorriso para parecer tranquila. Mas a verdade, após ouvir o que eles obrigaram o seu filho a passar, era outra: a mulher desejava que eles fossem mortos e não apenas presos, não.

O tenente pediu licença e saiu do quarto. No corredor, o homem deu de cara com o Yuri e a Yumi que vinham em direção ao quarto.

— Senhor, como você... êhr! êhr! — Ele não sabia como se portar diante do pai do seu amigo morto. – Como você e a sua família estão?

— Estamos indo bem, Yuri. Agora, estou mais feliz por termos chego ao Benjamin. – O japonês percebeu nitidamente a brusca mudança de assunto. Realmente, falar sobre o Pedro ainda devia doer demais para aquele pai. – E o melhor, é que o rapaz se saiu muito bem diante de todo o perigo que passou nas últimas horas.

Yuri sorriu com os lábios fechados, se despedindo do homem com um aperto de mão bem dado.

— Japa, tente se controlar na frente de todos os familiares do Ben. Acabei de espiar por aquela janela do quarto e todos estão lá perto da cama dos olhos verdes – sugeriu Yumi, piscando para ele.

Quando os dois entraram no quarto a mãe do garoto estava dizendo:

—... a sua vó e as suas tias de Joinville disseram que vão para Floripa lhe ver assim que voltarmos para casa, Ben – noticiava Marisa no instante em que o Yuri e a irmã entravam sorrateiramente no quarto, atraindo a atenção do Benjamin. – Isso não é maravilhoso, filho? A vovó e as titias indo para lá só para ver como você está?

— É! É...!

A mulher olhou para trás após ver a fixação do seu filho na porta. Manuel já apertava as mãos e dava um abraço no Yuri naquele momento. Yumi cumprimentava o Miguel com um beijo e um abraço.

— Yuri! Como você está? – disparou Benjamin com a voz trêmula e as mãos pulsando.

O oriental pulou os cumprimentos do resto da família e se dirigiu diretamente para o seu namorado. O impulso de roubar um beijo daqueles lábios foi o ponto máximo daquele encontro, mas o Yuri apenas apertou o máximo que pôde aquele menino.

Um abraço desesperador e que por pouco não partiu para outra coisa mais íntima. O Ben deixou as suas bochechas roçando a do outro enquanto afagava os cabelos da sua nuca, a barba do oriental estava por fazer e senti-la foi tão gostoso.

Meu, tu não tem noção de como eu surtei com o seu sequestro. Me perdoe por não ter feito nada para evitar aquilo. – As suas palavras foram audíveis o bastante para todos os presentes.

— Vá se foder, japa! Tu não podia fazer nada e, aliás, tu também foi agredido antes de eles me levaram da trilha. Eu me lembro de que você apagou completamente com aquela coronhada. Você está bem, meu a...

— Estou melhor agora! – respondeu ele, começando a chorar emocionado.

— Que tal a gente dar uma volta para que o Yuri e a Yumi possam ficar a sós com o Benjamin? – sugeriu Manuel. – Os seus dois amigos também precisam de um tempo com ele para poderem dizer as suas coisas um para o outro.

— É claro! – concordou Marisa, sorrindo para a japonesa do outro lado da cama. – Benjamin, nós vamos comer alguma coisa lá na lanchonete, mas se precisar da gente pode pedir para que nos chamem.

Antes mesmo de a Yumi fechar a porta do quarto, Ben já abria os braços para dar um abraço apertado no seu namorado. Quando a menina olhou para os dois, eles já estavam se beijando.

Cês estão loucos, né? Porque já não se declararam quando se viram na frente de toda a sua família Benjamin? Quer dizer, se eles não perceberam a troca de olhares e aquele abraço não sei mais se posso acreditar na sanidade da família Furlanetto.

Os meninos riram, mas perceberam logo que a japonesa continuava séria e o que falara parecia uma preocupação real da menina.

— Eu quase lhe beijei na frente dos seus pais mesmo. Foi muito difícil não fazer isso. Poxa, o meu namorado foi raptado, se machucou e ainda pensamos o pior.

Benjamin pressionou a cabeça do japa entre os seus braços e o seu peito. Yumi pôs as mãos na cabeça como se estivesse rendendo-se. Ela torceu os lábios, revoltada.

— Pior eu – Ben começou a rir sozinho – que quase te chamei de “meu amor” por causa do costume.

Yuri se derreteu todo ao ouvir aquilo. Sua irmã ao contrário fechou ainda mais a cara.

— Porra, meninos! Eu não quero ser chata, porém os dois precisam se assumir para os nossos pais de uma vez por todas. Quero dizer, antes que isso acabe de uma forma pior. Entendem o que quero dizer, boys?

— Claro que sim! Claro que sim, Yumi, mas ainda não estamos prontos para isso. Os meus pais nunca aceitariam o fato de eu estar amando outro cara. Isso foge de toda a realidade da nossa família.

— Só que vocês já pensaram que o Frederico está contando isso para todos?

— O quê?

Yumi ficou em maus lençóis e sabia bem disso. O Yuri se afastou alguns centímetros da bochecha do outro e começou a fitá-la também.

— A Bárbara me contou há alguns dias que o Frederico espalhou a história dos dois naquele restaurante para mais amigos seus. Inclusive, para um pessoal da sala do japa.

Ben não viu a reação de surpresa e de raiva que esperava ver no rosto do seu namorado, e aquilo lhe deixou com uma pulga atrás da orelha.

— Yuri, você sabia disso e não me contou nada?

— Claro que não! A Yu me contou isso vindo para cá agora pouco. Eu juro que se soubesse disso antes te contaria.

O menino de olhos verdes ficou tão puto que chegou a socar o colchão. Ele levantou os olhos para o teto, puxando uma rajada de ar antes de soltar:

— Filho de uma puta! É isso que aquele loiro maldito é... Um filho da puta!

— Eu já decidi, Benjamin, que irei contar para a minha família depois do seu aniversário.

— Hãn?! Tá louco? – berrou Benjamin, virando o rosto do garoto para si. – Eu te proíbo de fazer isso, Yuri. Eu não quero que faça isso.

A Yumi e o Yuri se entreolharam antes de o menino de cabelo claro prosseguir:

— A sua mãe é paciente da minha, e se ela souber não dou uma semana para que a minha também saiba e para que o inferno esteja montado na minha casa quando voltar do cursinho.

A japonesa se preparava para replicar quando o Yuri fez um sinal com a mão de “stop” para ela.

— Yumi, eu posso pedir para nos dar licença, por gentileza? – pediu Yuri, irritado. Ele queria ter aquela conversa a sós com o namorado. Ben achava que a menina tinha se magoado com o pedido.

— Antes de eu sair do quarto, só quero falar pros dois que cedo ou tarde, eles todos saberão desse relacionamento, seja através de vocês mesmos ou através de alguma fofoca maldosa. E tenho certeza de que os nossos pais souberem pelos outros, as coisas podem ser ainda bem piores.

— Nós sabemos que tu tens toda a razão, Yumi, porém ainda não conseguimos fazer isso. Não é sempre que um filho chega em casa e diz: pai, eu descobri que sou gay e que amo o meu amigo de infância, tá bom?

Yuri concordava com tudo que Benjamin dissera, mesmo assim complementou:

— Não conhecemos os nossos pais suficientemente para garantir que eles não vão fazer de tudo para que nos separaremos. Ainda somos dependentes financeiramente deles, Yu.

— Guris, eu entendo perfeitamente o medo dos dois, contudo o amor dos dois já está ficando bem explícito. Se tivessem no meu lugar quando os dois se abraçaram, saberiam o que eu quis dizer. – A garota mantinha o olhar sobre os dois mesmo já dando alguns passos na direção da porta. – Benjamin, o teu pai é um amor de pai e tenho pra mim que ele já desconfia do amor dos dois.

— Não fale um absurdo desse, Yumi.

Ela franziu a testa o menino de olhos verdes.

— Se lembram como eu descobri?

— Eu te contei, — apressou Yuri, se ajeitando nos ombros do namorado.

— Vai se foder, Yuri. É claro que não, você só me confirmou aquilo que eu tinha percebido sozinha naquela semana que fiquei aqui. A maneira como vocês se olham, brigam e se tocam é incrível. Eu juro que é.

Os meninos se entreolharam sorrindo, achando aquilo muito fofo, ignorando que tudo aquilo também servia de indicativo para os outros confirmarem essa suspeita.

— Eu amo o Yuri e, hoje, não tenho mais dúvidas disso, Yumi, só que o meu medo é ainda maior.

O japonês deu um beijo de língua no menino assim que ouviu aquela declaração, deixando a sua irmã encabulada como se nada daquelas ideias que estava defendendo valia a pena.

— O que faria no nosso caso? Se fosse você que tivesse se apaixonado pela sua melhor amiga e que não conseguisse mais se ver com outra pessoa a não ser ela?

A menina engoliu em seco e coçou as sobrancelhas quando foi questionada pelo irmão. Ela se sentiu intimidada como se estivesse num tribunal, porém concordava que aquele que sugere demais precisa apontar também uma solução.

— Viu? Até você não saberia o que fazer – acusou Ben numa inocência boba.

— Quê? Vai se foder, Benjamin. Vocês me tacam uma pergunta dessas e não me dão um minuto para pensar no que eu faria e já vêm com dez pedras na mão.

Mana, ele estava brincando.

Ben torceu os lábios, franzindo a testa.

— Não quis te ofender!

— Tá, tá! Eu que peço desculpas, afinal me ressenti sem nenhuma razão.

— A gente te ama demais e agradecemos a sua preocupação com tudo isso. Nós vamos bolar juntos uma maneira de que todos finalmente saibam sobre o nosso namoro nem que isso signifique o fim da nossa relação amigável com as nossas famílias que já não são tão unidas assim.

— Que absurdo, Ben! As coisas não são tão por aí também – falou a garota abrindo a porta para sair.

O menino de olhos verdes sabia que prometer aquilo era bem mais fácil do que aplicar aquela ideia na sua vida real. Como ele queria que as coisas ocorressem sempre como em um livro de contos de fadas, mas não, a vida real era bem mais crua e cruel com dois amantes do mesmo sexo.

— Vou deixar vocês a sós para conversarem um pouco, mas peço para que cada um fique bem longe um do outro, afinal qualquer um pode abrir essa porta a qualquer momento e pegá-los com a boca na botija.

Yuri sabia que a irmã tinha usada do sarcasmo para atacá-los de alguma forma. No momento em que a japonesa se preparava para sair, deu de cara com uma ruiva já muito conhecida pela turma toda.

— Miguel! Que bom que trouxe a Bárbara até aqui – disse Yumi em um tom de espanto e quase gritado, abraçando a garota em seguida. A Báh estava acompanhada do irmão do Benjamin.

Por muito pouco, eles não foram pegos com a boca na botija conforme a Yumi acabara de falar. Deu tempo dos dois afastarem os seus corpos grudados, mas não de ficarem a muitos centímetros de segurança.

— É que a menina estava perdida lá na recepção – avisou Miguel, nem dando conta da proximidade dos dois garotos. Por sorte, o Miguel nem entrou no quarto como fez a ruiva.

O Yuri se afastou do namorado com o pretexto de cumprimentar a ruiva, que já sacava toda a cena e se constrangia com eles. Essa foi a melhor maneira que encontrou para não levantar suspeitas do susto que levaram.

— Que máximo que está aqui, minha querida – soltou Yuri, vermelho e beijando o rosto da amiga.

— Eu não podia esperar o Benjamin voltar para casa para vê-lo. – Ela olhou para o menino de cabelo claro com medo do que veria.

E como a Bárbara já sabia, o seu amigo não parecia estar feliz por ela ter aparecido ali. Apesar disso, ela se aproximou dele e o abraçou como pôde. Para o alívio dos meninos, o Miguel saiu dali acompanhado da Yumi em direção ao refeitório do hospital.

— Poxa, que susto eu levei ao receber o telefonema do seu irmão mais cedo. Diga-me como tu tá, olhos verdes.

Yuri olhou para o namorado, nervoso, precipitando uma reação grosseira por parte do de cabelo claro.

— É muito gentil que tenha viajado todos esses quilômetros para me ver, porém o Miguel fez errado ao ligar para você. A gente não está nada bem e já estávamos um bom tempo sem nos falarmos e era melhor que continuássemos assim, Bárbara.

Os olhos da menina se encheram. Ela sentiu aquele arrepio que sentimos toda vez que alguém acaba com os nossos felizes sentimentos. A ruiva, para se mostrar forte, sorriu forçadamente, resistindo ao impulso de chorar.

— Eu vou encontrar sua família agora, Benjamin. Dessa maneira, os dois podem ficar a sós para conversarem.

— Não, não saia de forma alguma! Eu errei não só com o Ben, mas com os dois, então o que tenho a dizer serve para os dois.

— Ruiva, eu não estou magoado contigo. Os dois precisam se acertar, porque o que aconteceu magoou mais o seu melhor amigo do que o meu namorado, se é que me entende.

Ela sorriu constrangida, esperando uma patada do seu melhor amigo. Algo que para a sua surpresa não veio.

— Ben, eu peço para que ouça o que a Bárbara tem a dizer sem inferir nada precipitadamente.

O japa saiu do quarto, o que aumentou o desconforto da garota. Benjamin deixou a Bárbara segurar uma das suas mãos, que já foi o suficiente para que ela desabasse.

— Benjamin, eu sinto tanto! Eu sinto tanto! Por favor, me perdoe por ter sido aquela escrota. Tu me conheces muito bem e sabe que não tenho aqueles pensamentos sobre ti ou sobre quem quer que seja por causa da sexualidade ou raça.

O menino não conseguiu manter aquele escudo invisível nem por um segundo, e também começou a chorar, porém permaneceu calado e fitando as lágrimas que escorriam dos olhos azuis da melhor amiga.

— Eu quero muito mesmo que possamos passar uma borracha sobre o meu erro.

— Chega, Bárbara!

Ela levou um susto quando ele tampou a boca dela com a sua mão livre. Depois, ele secou as lágrimas da garota e puxou o corpo dela para um abraço bem dado, daqueles que todos ouvem as costelas estralarem.

— Eu queria ser mais duro contigo, mas quem eu estou enganando? Senti tanto a sua falta. Tu e o Yuri são aqueles amigos que sempre estiveram comigo desde o fundamental, por isso se tornaram fundamentais para mim. Eu odeio admitir isso, confesso. – O garoto roubou um sorriso da ruiva. – Eu também preciso me desculpar, afinal fui um ogro ao dizer todas aquelas barbaridades sobre tu e o Arthur. Como o seu melhor amigo nunca poderia ter te culpado pelo fim do seu namoro. Deveria ter ficado do seu lado, meu, sou um otário... Terminar um namoro não é fácil para ninguém. Fui um insensível e um ogro mesmo. A partir de agora, meu apelido tem que ser ogro, O.K.?

A ruiva começou a chorar mais do que antes e sentiu as mãos espalmadas do Benjamin escorrerem ao longo das suas costas expostas naquele “v” da blusinha que vestia.

Ela afastou o seu corpo do dele só para ter uma visão completa do seu rosto, também inchado por ter chorado.

— Eu te amo, meu Shrek, e nunca mais quero ficar tanto tempo sem trocar uma palavra contigo. A sua amizade é muito importante para mim. Eu faço de tudo pra ver a tua alegria e sempre farei, mas me diga quando estou indo longe demais... quero dizer, não sou a sua mãe...

O menino gargalhou, finalizando com um sorriso bem grande como se fosse ser fotografado.

Bár-ba-ra, desde que eu te conheci, tu é assim e não vai mudar, e nem quero que mude pelo o amor de tudo que é mais sagrado. — Ele imitou uma voz infantil.

Ela disparou a rir, dando um forte abraço no seu amigo.

— Obrigada por me perdoar, meu amor!

A porta do quarto foi aberta repentinamente.

— Nossa, que coisa mais fofa!

Benjamin reconheceria a voz da sua mãe com os olhos fechados, mas não, esse não foi o caso, ele viu nitidamente o rosto da doutora ao entrar.

— Oi, doutora Marisa – cumprimentou a Bárbara, enxugando os olhos ao se virar em direção à porta.

— Como faria questão de que vocês dois rompessem a barreira da amizade e ficassem juntos como um casal – brincou Marisa, fazendo a menina sorrir constrangidamente.

— Mãe! Tu tá cansada de saber que ela é a minha melhor amiga e apenas uma amiga— vociferou Benjamin, vendo a reação de espanto dos seus pais.

— Ela estava apenas brincando, Ben...

— O Ben sabe disso, Bárbara, mas se ele não for ríspido uma vez com a sua mãe, esse não é o nosso caçula, ou melhor, por enquanto nosso caçula.

— A ruivinha ainda não sabe da novidade, pai – garantiu Miguel, que entrou sem ser notado pelo Benjamin ou pela garota.

Benjamin começou a perceber algo que até então nunca imaginaria na vida, o seu irmão estava sendo muito gentil com a sua melhor amiga. Avisando a ruiva sobre ele, buscando ela na recepção e acompanhá-la e, agora, mas isso, preocupado por ela não estar por dentro da novidade dos Furlanettos.

De repente, Benjamin olhou para o irmão como se afirmasse que o Miguel, agora solteiro, estava dando em cima da Báh de alguma maneira – mas aquilo ele não permitiria.

— Qual é essa novidade que estou por fora? – indagou a moça, sorrindo com graça para o menino de olhos azuis.

— Que não teremos mais só o nenenzinho do Miguel na nossa casa. A minha mãe também está grávida – apressou-se Benjamin, fazendo questão de relembrar a garota sobre a gravidez da Paula.

— É verdade? – perguntou ela, cheio de excitação, pulando da cama para parabenizar os pais do seu amigo.

Enquanto a ruiva beijava e abraçava o doutor e a doutora Furlanetto, Benjamin encarava o seu irmão que sequer notara que o rapaz já tinha sacado tudo.

— Eu quero um abraço também, afinal ganharei um irmãozinho – falou o de olhos azuis com um sorriso no rosto.

Ben quis falar algo sobre aquilo, porém foi interrompido de antemão pela melhor amiga.

— Que máximo! Todos estão ganhando um irmãozinho; vocês dois e os japas. Eu quero um irmãozinho agora – brincou ela, levando os pais do Ben a rirem.

— E eu aqui já surtando com o trabalhão que os meus dois filhos gatões estão me dando desde começaram a limpar as próprias bundas sozinhos – caçoou Manuel, acariciando a barriga da esposa.

Todos riram, menos, obviamente, os dois mencionados, que se entreolharam e balançaram a cabeça, discordantes.

— Você está de quantos meses?

— Menina do céu, eu estou de quase três meses e só fui descobrir a um mês quando comecei a ter os enjoos matinais e vespertinos. Bem atrasados, inclusive!

— As duas podem sair do quarto, se forem para terem uma conversa melosa e feminina – blasfemou o Miguel, com uma expressão de tédio.

— Bem que poderíamos mesmo depois ter um papo de meninas, né, Báh?

— Sem dúvidas!

As duas riram. O menino de olhos verdes se perguntava por onde andava o Yuri e a Yumi, talvez, falando sobre a conversa que os três tiveram há pouco. O garoto olhava para os seus pais e para o seu irmão, desejando, que nem um louco, ter coragem de falar o que estava preso na sua garganta há meses.

Ele se perguntava se toda aquela paternidade em Manuel permaneceria ali quando soubesse que o seu filho peralta estava vivendo um romance homossexual. Ben temia mais a reação dele do que de qualquer outro familiar, afinal sempre fora Manuel que lhe apoiara em tudo naquela família.

Eu vou conversar com ele a sós. Sim, ele será o primeiro que eu vou contar sobre o meu namoro com o japa. Claro, Benjamin, tem que ser o seu pai o primeiro a saber de tudo! Espero que você continue me amando, pai... por favor, continue me amando igual agora!

O menino olhava para o seu pai enquanto ele conversava com os outros três presentes no quarto. E, involuntariamente, sentiu o seu peito apertar como se fosse chorar.

— Com licença, Dr. e Dra. Furlanetto – interrompeu o médico responsável pelo avanço do de olhos verdes. Ele era um senhor oriental, de aparentemente sessenta anos, alto e magro, e por detrás daqueles oculozinhos tinha um par de olhos negros muito altivos emoldurados, que fez o Ben lembrar os do seu japonês.

— Claro, Dr. Zaka – permitiu Manuel, gentil.

Ben viu os seus orientais favoritos entrarem logo atrás como se fossem atraídos magneticamente pela presença do médico. Os dois irmãos viram o doutor entrar no quarto e como queriam saber o quadro clínico do ferido não deixariam de estar presente.

— Nossa, Benjamin, deve estar feliz por ser tão querido, porque para encher o quarto de visitas de uma vez só tem que ser mesmo – brincou Zaka, sorrindo.

— O segredo, doutor, é ser raptado. – Ben continuou a brincadeira.

Todo mundo começou a rir, provando que o susto já passara.

— Eu vim aqui dizer que saíram os resultados dos exames: você está bem num estado geral, sem nenhuma lesão no sistema nervoso central ou periférico, sem nenhuma lesão nos seus órgãos vitais. A única coisa que você apresenta, atualmente, que até o seu pai já suspeitava de início é uma fratura na tíbia distal, provavelmente porque continuou correndo quando tropeçou.

— Doutor, você pode explicar pra gente que não entende bulhufas desses termos loucos que insistem em usar?

O homem riu quando o Miguel disse aquilo. O Manuel e a Marisa riram, constrangidos.

— Você está certo, rapaz, é um vício médico e o conselho de medicina tem preconizado para que abandonemos esses jargões.

— Se é – comentou Manuel, abraçando o seu filho mais velho pela cintura. – Esse cabeção aqui adora provocar a gente lá em casa por causa disso.

Zaka riu novamente e explicou:

— O maior osso entre o nosso joelho e o nosso calcanhar é chamado de tíbia.

— E eu que achava que Tíbia era o nome daquele famoso jogo do início dos anos dois mil – brincou Miguel.

O médico achou graça outra vez das piadinhas do menino. Ben já estava ficando sem paciência com o seu irmão.

— Quantos anos você tem, Mig? Dez? – censurou Benjamin, gesticulando com as mãos. – Doutor, pode continuar, por favor.

Manuel e Marisa ficaram vermelhos por causa do comportamento dos seus filhos.

— Me desculpe, doutor – disse Marisa.

— Magina, eu também tenho filhos e eles são tão engraçados como esses dois.

Yuri e Yumi riram entreolhando-se.

— Voltando ao que estava dizendo: o Benjamin fraturou a parte debaixo da sua tíbia direita, perto do seu pé. E por causa disso, ele vai precisar fazer uma cirurgia simples para ajudar na cicatrização óssea.

— Mas eu vou poder andar normalmente? Ou vou ter alguma lesão?

— Claro que não! Você vai precisar usar muleta por um mês mais ou menos e, depois, vai conseguir caminhar normalmente. Só que vai ter que evitar qualquer atividade física muito intensa.

— Meu Deus, doutor, uma muleta? Eu não vou usar isso, não.

O homem voltou a rir da situação.

— Ué, Benjamin, eu usei um gesso por semanas, então tu também sobrevive, cara – comentou Yuri. O de olhos verdes torceu os lábios ao ouvir cara, considerava aquilo muito hétero para o seu gosto.

— Ele também vai precisar usar gesso, pelo menos por duas semanas depois da cirurgia.

Caralho! – gritou o menino, olhando em pânico para os pais. Manuel não sabia onde enfiar a sua cara. – Aliás, doutor, eu e estes dois aqui temos uma competição mês que vem.

— Novembro? Hmm... Infelizmente, não vai poder participar. Eu lamento, Benjamin.

Notas finais
Hei, amores! Espero que tenham gostado desse capítulo - desculpa quebrar o ship de muitos e o pedido de natal, só que os nossos garotos ainda não se sentem preparados para assumir o namoro pra sua família. E aproveitando, a pergunta tem a ver com esse dilema. 1) O que fariam se fossem um dos dois? Teriam coragem de se abrir para estes pais? Té a próxima semana, amores! =*