Sem mais desculpas. Sem arrependimentos.
42 Capítulo quarenta e dois - Viver sem ele? Eu rejeito!
Notas iniciais
— Já está decidido o que faremos com esse mauricinho – disse o ladrão mais gordo, olhando pelo retrovisor do carro do Ben.
Os outros dois pareciam ansiosos pela decisão. Passaram a última meia hora, discutindo entre eles para saber como se livrariam do menino de olhos verdes. O mais jovem dos três bandidos continuava a impor o cano da sua arma na barriga do outro jovem. O mais alto deles continuava no controle do volante e ia o mais rápido possível com a caminhoneta por uma pequena rodovia de pó.
— Vamos estacionar no próximo clarão do lado da estrada – informou o gorducho.
— Pode ser ali – apontou o motorista, reduzindo a velocidade até o ponto de manter, no máximo, uma velocidade de seis ou sete quilômetros por hora.
— Pode ser, sim – confirmou o gorducho, abrindo a porta do carro assim que pararam completamente num espaço de gramado rodeado por árvores e aquelas rochas típicas no canto de rodovias.
Benjamin sentiu um frio nascer no seu estômago e correr em direção as suas pernas assim que foi empurrado para fora do carro quando a porta à sua direita foi aberta pelo gorducho.
— Se ajoelhe, garoto!
A voz do gorducho soou ainda mais fria do que a temperatura do fim daquela madrugada tão longa para o manezinho de Florianópolis. Os primeiros raios de sol já começam a irromper no horizonte à leste donde estavam.
— E não esqueça de pedir perdão dos seus pecados a qualquer deus que você creia – zombou o mais alto deles.
— Mas vocês prometeram me soltar se eu cooperasse com vocês – gritou Ben, começando a chorar de uma forma como nunca havia chorado na vida. A sua voz saía a plenos pulmões e isso lhe apavorava ainda mais. – Eu fiz tudo que me pediu; passei as minhas senhas bancárias, fui com vocês em cada caixa eletrônico e não ousei fugir ou agredi-los.
— Eu sei, eu sei, mas você já viu os nossos rostos e não vamos ser presos por causa de um riquinho – confessou o gorducho, forçando que o menino se ajoelhasse ali mesmo no meio daquele clarão à beira de qualquer estrada de uma região qualquer entre Santa Catarina e o Rio Grande do Sul.
— Juro que não consigo reconhecer o rosto de nenhum de vocês. Está muito escuro ainda e estão com o meu carro, vão poder ir para qualquer lugar que quiserem.
— Quantos anos você tem, guri? – perguntou o mais alto.
— Faço dezenove anos no próximo sábado – respondeu em meio a soluços.
— Iria completar, você quer dizer – provocou o mais novo deles, segurando a ponta da sua arma na nuca do de olhos verdes.
Os três homens riram. Benjamin só conseguiu ver perfeitamente os sorrisos do gorducho e do mais alto. Aqueles homens pareciam se divertir por vê-lo naquela situação humilhante.
Ele fechou os olhos pensando na reação do seu namorado e dos seus amigos e familiares quando soubessem que a sua vida acabara tão precocemente como a do Pedro meses atrás. Por mais que quisesse parar de chorar, quem disse que ele conseguia? O seu peito doía ao mesmo tempo em que desejava fugir dali.
Horas mais tarde, em Criciúma.
Yuri desligou o chuveiro e se secou antes de ir ao encontro da sua irmã no quarto de hotel em que os dois se hospedaram depois de saírem do hospital. O oriental levou três pontos no corte que aquela coronhada, recebida antes de apagar na trilha, fez.
— Não deveria ter cedido ao seu capricho e ter vindo para um hotel enquanto o Benjamin continua desaparecido por aí. Ou mesmo, enquanto os seus pais correm de um lado para o outro atrás de notícias.
— Japa, não é um capricho! Tu não dormia desde ontem à noite e também precisava comer alguma coisa saudável. Não queria que meu irmão estivesse internado num hospital e recebendo soro na veia no momento em que seu namorado fosse resgatado. Isso é pedir muito?
O oriental deu um soco com punho fechado na porta do quarto. Isso fez a Yumi saltar para trás com o susto e, depois, fazê-la correr em sua direção.
— Pare já com isso, Yuri Takashi Neto! Tu não tá ajudando porra alguma com toda essa raiva. Trate já por se controlar ou eu juro que vou droga-lo para isso.
Ele se virou e abraçou a menina. De repente, ele estava ali nos braços da Yumi chorando novamente como uma criança que acaba de se machucar após cair de bicicleta.
— Eu não sei o que vou fazer sem o meu melhor amigo desde o primário, Yumi. A quem eu vou demonstrar todo esse amor se o meu menino de olhos verdes se for para sempre? Como poderei suportar tanta desgraça?
A menina fechou a boca do irmão com sua própria mão.
— Eu já disse que não vai acontecer nada de ruim ao Ben. A gente precisa confiar que a polícia irá encontra-lo seja lá onde ele estiver. – Os seus braços voltaram a comprimir o corpo do Yuri como se fosse sufoca-lo. – O doutor Manuel me prometeu ligar assim que a financeira do banco informasse para eles os lugares onde ocorreram as últimas movimentações do cartão do Benjamin.
— Sei lá, eu me sinto inútil aqui.
— Mas não podíamos fazer nada pelos olhos verdes. Não viu o que aconteceu com a mãe dele tamanho o nervosismo? Queria parar num hospital igual a ela? Aliás, você já sabia que ela estava grávida?
— Juro que não! Tenho certeza que nem o Ben desconfia disso. A propósito, se ela não tivesse desmaiado na delegacia nem a gente saberia.
Depois da Yumi dizer aquilo, os dois continuaram abraçados por mais alguns minutos sem dizer nenhuma palavra. Yuri recebeu todo o afeto que sua irmã podia partilhar com ele naquela situação, porém esse gesto nunca seria o suficiente para acalmar o coração do oriental e a Yumi sabia bem disso.
— Vou pedir um almoço decente aqui no quarto. Enquanto faço isso, por favor, meu japinha, vista alguma roupa quentinha e confortável.
— Acho que em certas culturas comer depois das 17 horas já é chamado de outra coisa – brincou ele, rindo em seguida. A Yumi achou aquilo um ótimo sinal para a situação do seu irmão, por isso entrou na mesma vibe do garoto.
Os dois almoçaram e/ou jantaram sem tocar no assunto que os levou até ali. Yuri permaneceu mais calado do que desejava enquanto a sua irmã contava sobre a opinião das suas melhores amigas da faculdade por ela ter trancado este semestre letivo.
De repente, o celular da Yumi tocou, mas o japa acabou atendendo ao ver na tela: Dr. Manuel chamando!
— Alô, Dr. Manuel, notícias do Ben? – disparou sem primeiro descobrir se era realmente ele que ligava ao invés da sua esposa.
— Por favor, japa, para de me chamar de doutor. Eu já disse que somos íntimos; eu te conheço desde que era um fedelho e também sou o pai do seu melhor amigo. — Yuri forçou uma risada mesmo sabendo que aquele não era o momento ideal. – A financeira do nosso banco rastreou as últimas transações feitas através da conta do Benjamin. Elas ocorreram em torno das seis e meia da manhã na cidade de Barracão no Rio Grande do Sul. Eles me disseram que por causa de tantas movimentações altas, a financeira já tinha bloqueado o cartão dele.
— Caralho, mas isso não prejudica o Ben?
— Pelo amor de tudo que é mais sagrado, não pense dessa maneira. Se alguma coisa acontecer com o meu filho, eu prefiro morrer a ter que enterrá-lo como fez o Moacir com seu caçula. — Yuri ficou péssimo ao escutar aquela afirmação, muito menos ele estava preparado para dar adeus ao olhos verdes. – Agora, eu e a mãe dele estamos indo para Barracão a fim de vermos com a polícia de lá alguma pista ou qualquer outra coisa que nos leve diretamente ou indiretamente ao nosso caçula.
— Ótimo, eu e a Yumi vamos para lá agora mesmo. – A Yumi levantou a cabeça, atenta e curiosa, como quando um cervo ouve de longe a chegada de um predador. – Vamos colocar aqui no Maps e assim que tivermos lá, eu te ligo para nos encontrarmos.
— Yuri, mas não precisa disso, não! Aliás eu e a mãe dele só vamos para lá por causa do tenente Moacir que também está se dirigindo para lá. A chance do nosso menino ainda estar lá já tendo se passado doze horas é quase zero. Eu agradeço o que está fazendo pelo Ben, mas quando tivermos mais notícias te ligamos.
O japonês pensou em ser muito grosso na sua resposta, porém tranquilizou-se e respondeu assim:
— Eu já não suporto mais ficar aqui dentro desse quarto de hotel com a minha irmã. A propósito, não precisa me agradecer por nada, eu nunca abandonaria a pessoa que eu mais... – preciso nesta vida – pensou ele, dizendo: – amo... dentre todos os meus amigos, é claro! São tantos anos de amizade que eu jamais poderia me afastar agora e também por ele ter ficado todo o tempo em que estive em coma e depois, inclusive, ao meu lado. E, infelizmente, eu sou o culpado por ter nos metido nessa situação, se eu não tivesse dado a ideia do acampamento, nada teria ocorrido.
— Acho ótimo esta amizade entre vocês. Eu sei que o meu filho tem a sorte de tê-lo na vida dele, japa. Em nome da nossa família, eu preciso pedir desculpas pelas minhas e pelas palavras da mãe do Benjamin. Não queríamos ter agido compulsoriamente igual a dois nazistas sem coração. Só que nenhuma situação vivida por ela ou por mim em todos estes anos exercendo a medicina puderam nos preparar para sermos frios num momento igual ao do sequestro do nosso menino...— Yuri percebeu que a pausa que se seguiu foi por causa de que o doutor Manuel não suportou as próprias palavras e começou a chorar. A chorar de verdade!
— Doutor Manuel... Digo, Manuel, não vai acontecer nada com o nosso Benzinho. Ele vai aguentar toda a pressão gerada contra ele e não vai fazer nenhuma coisa imatura que possa pôr a sua vida em risco.
“O nosso Benzinho, Yuri? Mas que porra você foi dizer para ele agora, seu otário” — xingou-se mentalmente enquanto ouvia o home do outro lado da linha soluçando e balbuciando palavras.
— Obrigado, filho! Eu vou desligar agora. Prometo ligar assim que tiver qualquer novidade sobre o Ben.
Yuri desligou o telefone se sentindo horrível por continuar com as mãos atadas naquele mesmo quarto em que já estava a várias horas. Assim que ele repousou o aparelho da irmã sobre a cama, a menina veio para cima como se ele fosse desabar a qualquer instante, mas, ao invés disso, o apaixonado menino se ajoelhou ao lado da cama cobrindo o rosto com as mãos enquanto começava a chorar.
— Como eu posso dizer ao pai de alguém que essa pessoa vai ficar bem se nem eu mais tenho esperanças de que isso aconteça exatamente dessa maneira? Fico um lixo por ter perdido as esperanças, Yumi. Eu não sei como o Benjamin suportou ficar do meu lado enquanto os médicos já estavam perdendo a fé na minha recuperação.
A menina abraçava fortemente o irmão como se toda a sua vida dependesse daquela pressão exercida contra os ossos dele.
— Eu estive tanto lá, vendo ele sofrer, quanto aqui, lhe vendo sofrer dessa maneira, como se em ambos os momentos cada um de vocês tivessem a sua parcela de culpa pela situação. Só que nem você e nem ele tiveram culpa por tudo isso. Caralho, Yuri, tu só queria passar um fim de semana bacana com o seu namorado. Onde está a sua culpa por isso? Vivemos em um país onde a segurança é uma merda, onde não podemos dar um passo além dos murros das nossas casas sem ter o medo de que nunca mais voltaremos. Isso podia ter acontecido lá em Floripa mesmo, não havia como prever.
Ele deixou que a Yumi secasse as lágrimas dos seus olhos enquanto falava.
— Então chega de se autosabotar e ponha um sorriso nesse rosto lindo que tu tens, O.K.?
— Pedir um sorriso já é demais – falou ele e ela teve que concordar. Os dois riram até o telefone da japonesa começasse a tocar.
— Um número privado está me ligando. Será que o celular da mãe do Ben está mascarrado por algum motivo ou será que é a nossa mãe ligando lá de Brasília.
— Affê, Yumi. Deixa que eu atendo essa porra – bradou ele, tomando o celular da irmã após ela hesitar o bastante para atender a ligação. – Alô! Alô, quem fala? – repetiu sem puxar ar entre uma e outra palavra.
— Yuri, é você? Me diga que é você? — gritou a voz do outro lado da linha. – Sou eu, o Benjamin. Sou eu!
O japonês sentiu seu coração gelar imediatamente. Claro que ele não queria reagir assim, mas, de repente, ficou sem nenhuma palavra enquanto o Ben continuava respirando audivelmente do outro lado.
— Yuri, me diga alguma coisa? É você mesmo? Por favor, fale comigo — suplicou o menino de olhos verdes, alterando o seu tom para um mais ríspido.
— Benjamin, é você? Eu não acredito que seja realmente você, Ben... – A sua voz se alternou entre picos de frequência, ficando ora desafinada, ora forte demais. – Meu Deus, onde você está? Me diga que está bem!
— É o Ben? – perguntou a Yumi, empurrando o irmão que continuava em estado de choque.
— Calma! Calma! Eu estou no hospital, eu fui trazido para cá por uma família de estranhos porque eu machuquei a minha perna. Não posso falar muito porque...
De repente, a ligação ficou muda.
— Alô, alô, alô, Ben... – Ele quase jogou aquele celular contra a parede, mas ao invés disso deu o grito mais alto que conseguiu dar. – FILHO DA PUTA! EU VOU MATAR QUEM FEZ ISSO COM A GENTE.
— Hei, se acalme! – pediu a oriental, tentando controlar os chacoalhadas do seu irmão possesso. Ele também socava o colchão da sua cama. – Ele te disse onde está e se está bem?
O menino continuou a ignorar a irmã, que, logo, deu um berro daqueles:
— Caralho! Eu já perdi a paciência, Yuri. Você vai me dizer e vai me dizer agora o que eu lhe perguntei. Mas que porra!
Eles se olharam antes de ele responder:
— Sim, parece que ele machucou a perna e foi levado por alguém para um hospital, mas a ligação caiu antes mesmo de ele me dizer em qual cidade ele está. Droga! Eu não tenho mesmo sorte! A porra do número era privado! Ele pode estar em qualquer lugar.
— Mas o importante é que já sabemos que ele está bem e longe daqueles filhos de uma puta. Pense por este lado, Yuri. Temos que ligar para os pais dele para informa-los, quem sabe o tenente Moacir e a polícia consiga rastrear essa ligação?
No mesmo segundo, o telefone voltou a tocar. Só que dessa vez a japonesa se adiantou e puxou o telefone das mãos do irmão.
— Eu atendo o pai do Benjamin dessa vez!
Vá se foder, Yumi, eu que tinha que falar com qualquer pessoa sobre o Benjamin — pensou o oriental assim que ela começou a falar com o Manuel. A menina caminhou em direção ao espelho do banheiro para ver a espinha debaixo do seu queixo que doía demais.
Aquilo só aumentou a ansiedade do menino em obter novidades. Para o seu alívio, assim que ela desligou a ligação, a Yumi se aproximou com um sorriso de orelha a orelha, que já foi o suficiente para mudar o seu estado de ansiedade.
— Benjamin foi levado para o hospital de Caridade na cidade de Erechim. E por sorte, os pais do Ben já estavam indo para uma cidade muito próxima de lá, Barracão.
— Sim, sim, ele me disse na outra ligação que a última movimentação bancária do Ben foi de lá. O Manuel disse como ficaram sabendo disso? Se o Benzinho também ligou para eles ou algo do tipo?
A menina se sentou de frente para o irmão na cama de casal, segurando as mãos dele.
— Ele me disse que quando o Benjamin chegou ao hospital, o casal que resgatou ele da estrada explicou a sua situação e, imediatamente, a atendente da emergência acionou a polícia. Que não demorou muito para informar o tenente Moacir, etc, etc, e etc...
— Vamos para lá agora mesmo! Fica no Rio Grande também?
— Fica, sim! Vá terminar de se arrumar enquanto eu ligo pra recepção e fecho a nossa conta.
— Eu te amo, mana. Tu és a melhor pessoa que poderia estar ao nosso lado num momento horrível igual ao que vivemos aqui e o de Balneário Camboriú.
A menina sorriu segurando as lágrimas. Para ela a felicidade do irmão era tudo o que lhe importava.
Hospital de Caridade. Erechim — RGS
Benjamin recebeu o abraço mais apertado que poderia receber dos seus pais no momento em que eles chegaram ao hospital e lhe viram recebendo soro na veia. Sem dizer que o menino de quase dezenove anos se sentiu constrangido ao ser coberto por beijos de Marisa e de Manuel já que a sala de soro estava lotada de pacientes e seus familiares.
— Pare, pai, eu já disse que dói demais quando você toca na minha perna – reclamou o de olhos verdes outra vez.
— Acalma-se, eu estou apenas lhe examinando, meu filho. Preciso ter certeza de que está tudo bem com você.
— Mas não é exatamente isso que os médicos daqui estão tentando fazer comigo? – brincou ele, fazendo os seus pais rirem.
Marisa começou a beijá-lo por todo o rosto novamente. Ela não desgrudou do menino desde que chegaram ao hospital e muito provavelmente não faria isso tão cedo. O ombro do menino de cabelos claros já estava começando a formigar por causa do peso da cabeça da sua mãe.
— Eu acho que tu fraturasse a sua tíbia direita. (Termo: Tíbia – o maior osso da nossa perna, entre os pés e joelho) – informou Manuel, olhando para os lados a fim de saber se os médicos já estavam providenciando um Raio-X. – Moça, moça, o meu filho deve ter fraturado a tíbia, quero que tirem um Raio-X dessa perna aqui o mais rápido possível.
— Manuel, tás tolo? Aqui não é o HU, tu não és médico desse hospital, homem – intrometeu-se Marisa.
A enfermeira abordada apenas sorriu e disse:
— Senhor, a gente já pediu para que façam um Raio-X dessa perna e do abdômen do filho de vocês já que ele tem um grande hematoma ali. – A voz da mulher era quase angelical e aquilo acalmou aquele pai ansioso.
— Vocês dois me ouçam com atenção: não há mais motivos para pânico, O.K.? Eu estou bem e seguro agora, aliás a mamãe faz questão de se certificar disso a cada cinco minutos quando me aperta e me beija como um bebê. – Ele sorriu para a mulher e retribuiu dando um beijo na sua bochecha.
Para o seu pai ele estendeu a mão direita e apertou bem forte a do seu pai enquanto afagava os cabelos loiros da Marisa.
— Eu tenho certeza de que vocês dois ficaram muito preocupados comigo, porém nada de mais grave me aconteceu. Agora, me digam como está o Yuri? Vocês viram ele? Não pegaram pesado com ele, né? Afinal ele não tem culpa alguma assim como eu não tenho.
Manuel e Marisa se entreolharam. Quando Manuel ia responder foi interrompido por uma voz conhecida:
— Aí, está ele! – Benjamin levantou os olhos e viu o tenente Moacir se aproximar. O seu coração deu um forte solavanco, não via aquele homem desde o velório do seu amigo de infância. Nem sabia o que dizer para ele, se algo sobre a morte do Pedro ou se algo sobre não ter mais ido atrás de notícias daquela família em luto. – Vejo que está se recuperando, meu filho.
Ele estava acompanhado de outro policial, um homem ruivo e cheio de cicatrizes de espinha, enquanto outros dois ficaram do lado de fora da sala de soro.
— Eu quero agradecer por ter vindo até aqui por causa do nosso filho – disse Manuel ao estender sua mão para um cumprimento mais formal.
— É verdade, tenente Moacir, não temos muitas palavras para agradecer a você e aos seus colegas de trabalho pela ajuda – complementou Marisa, saindo de cima do Ben para o alívio do garoto, que teve seu ombro e braço esquerdo desocupado. Antes, ela segurava aquele braço como se o filho fosse uma criança que pudesse se machucar por conta do soro drenado na sua veia.
— Não há o porquê agradecer. Eu e eles estávamos apenas fazendo o nosso serviço.
— Só que tu foi além, Moacir, saiu de Florianópolis pelo o nosso Benjamin, e isso jamais vamos esquecer – insistiu Manuel.
O homem apenas riu humildemente e estendeu uma mão para o garoto, que retribuiu o contato.
— A gente vai esperar que você faça os exames médicos para só então fazermos um B.O e coletarmos todos os detalhes que se lembre do ocorrido.
— Mas os bandidos não vão acabar escapando assim, tenente? – perguntou Marisa, aflita. Ela estava feliz que o seu caçula estava bem, porém queria justiça como todos iriam querer numa hora dessas.
— Fique tranquila, Dra. Marisa. A polícia rodoviária já está com o número da placa e o modelo do carro em mãos, se os vagabundos ainda estiverem com o carro, logo, logo, nós saberemos.
— E se não tiverem?
— Marisa, já chega! Eles estão fazendo tudo o que podem para nos ajudar. O mais importante agora é que já estamos com o nosso bem mais precioso. – Benjamin se corou ao ouvir aquilo, talvez mais por conta do outro policial sorrir para ele após ouvir aquela declaração.
— Eu procurei por vocês por todo este hospital. – Ben não estava acreditando que estava ouvindo mesmo aquela voz. – Como você está, meu irmão? – perguntou Miguel assim que saiu atrás dos dois policiais e veio dar um abraço no de olhos verdes.
Manuel e Marisa sorriram como se ver aquela cena já valesse toda a pena por estarem ali. Miguel estava tão empolgado pelo reencontro – e Benjamin sabia que ele estava – que deu um beijo no rosto do seu irmão ao abraça-lo com toda a força.
— Estou bem! Acho que estou ótimo na verdade, Mig. Claro, só tirando a dor nessa perna e na minha barriga!
— Se eu pudesse pôr as mãos naqueles bandidos, eu juro que os matava sem dó e sem nenhuma misericórdia.
Ben riu e fez um sinal com a cabeça, indicando os dois policiais presentes. O menino de olhos azuis apenas sorriu para eles, que começaram a rir junto com os seus pais.
— Licença, pessoal, eu preciso pedir para que nos dê licença, a gente vai levar ele para fazer um Raio-X agora. Creio que depois dos exames, ele já vai ser acomodado em um quarto, daí todos podem ir para lá, O.K.? – informou a mesma enfermeira da voz quase angelical.
O seu pai e a outra enfermeira ajudaram a colocá-lo numa cadeira de rodas para transportar o garoto até o lugar do exame. Só que antes de ele sair por aí com elas, pediu:
— Alguém avise o Yuri onde estou, por favor. É muito importante que ele também saiba que estou bem, afinal de contas, deve estar muito preocupado.
— Filho, o seu pai já ligou para ele. Tenho certeza de que o japa e a Yumi estão quase chegando aqui. Pode ir lá para dentro bem tranquilo, O.K.?
— Ah, e eu liguei para a Bárbara antes de sair de casa – avisou Miguel, antes do seu irmão ser levado dali.
O quê? Ele ligou para a Báh, meu... o Miguel nunca se importa comigo e quando faz isso, acaba cometendo uma burrada dessas. Droga! Ela vai me ignorar totalmente e ainda vai ficar se achando por ele ter feito isso. Que porra, Mig! Que porra, cara!
Por outro lado, ele ficou feliz por saber que seu namorado já estava vindo para lá. Benjamin não via a hora de poder abraça-lo e vê-lo pessoalmente. O celular que ele usou para telefonar para o garoto era o da família que trouxera ele até o hospital em segurança. Mas a bateria acabou de repente e, logo, os seus pais chegaram então não teve outra oportunidade para ligar novamente.
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