Sem mais desculpas. Sem arrependimentos.
16 Capítulo dezesseis - Que merda de comemoração
Notas iniciais
Benjamin, Yuri, Bárbara e Arthur ficaram na algazarra por mais algumas horas. O menino de olhos verdes só chegou em casa quando já era passado das oito da noite.
Mesmo ele estando sujo, fedido e grudento, seus pais não pouparam cerimônias para dar aquele abraço especial. Estavam ansiosos para vê-lo e dizer o quanto se orgulhavam do caçula.
Marisa já tinha irrompido em lágrimas e mal podia acreditar que o filho tinha sido aprovado em 3º lugar geral da sua nova turma.
— Precisamos fazer uma festa e chamar toda a nossa família e seus amigos. Precisamos comemorar todos juntos a sua aprovação, filho.
— Calma, mãe! Eu não quero festa alguma. Amanhã, irei comemorar com os meus amigos no Meu Escritório.
— E como fica o resto da família? Como poderão te cumprimentar e comemorar a aprovação? – perguntou Marisa.
— Nós podemos marcar um jantar bem simples aqui na semana que vem, mas nada exagerado – sugeriu Ben.
— Já sei, Benjamin, não quer toda a sua família reunida para comemorarmos. Prefere sair com seus amigos e nos deixar em segundo plano?
— Marisa, sem crises. Ele não está falando que não quer comemorar com a gente, só que já marcou um barzinho para amanhã. O nosso filho ainda é muito jovem e precisa comemorar com os amigos, sim.
Benjamin interpretou muito bem a cara que sua mãe fazia naquele momento, estava decepcionada. Esperara tanto tempo para gritar ao mundo que seu filho havia sido aprovado em medicina, que qualquer coisa a menos do que imaginou já era por si só decepcionante.
— Mãe... Eu, o pai, tu e o Miguel podemos sair para jantar juntos depois de amanhã, hoje é só terça-feira. No sábado é aniversário da Bárbara, não poderia marcar outra festa em cima desta data de qualquer maneira.
— É isso mesmo filho, eu e tua mãe aceitamos o acordo. Quinta-feira, sairemos para jantar, afinal o seu irmão também só vai chegar de viagem amanhã de tarde mesmo. Não precisamos fazer uma festa para a nossa família, só o prazer de que todos saibam já é o suficiente.
Marisa continuava com os olhos baixos. Benjamin abraçou e beijou sua mãe e depois, seu pai, que estava todo emocionado.
— A matrícula começa nesta sexta e vai até qual dia, filho? – indagou Marisa, vencida.
— Pelo que ouvi na rádio vai até a próxima terça-feira e deve ser feita lá em Blumenau, na própria faculdade.
— Eu tinha me esquecido de que a FURB não fica tão perto assim de Floripa. São quase cento e cinquenta quilômetros, algo em torno de duas horas de viagem. O meu caçula já vai sair de casa, vai? – falou Manuel, abraçando o filho junto do sofá.
Durante o trajeto da casa de Yuri para a sua, Benjamin parou para pensar naquela questão. As suas aulas já começariam dali a uma semana e meia. Não teria tanto tempo suficiente para pensar e tomar uma decisão. Mas só de pensar em continuar no cursinho por mais quatro meses sem poder garantir que alcançaria outra aprovação era insuportável. Por outro lado, dar adeus a sua cidade natal e que amava de coração, se afastar da sua família e dos seus amigos também lhe parecia uma ideia absurda.
— Pai, eu ainda não tenho nada certo, mas creio que devo fazer a minha matrícula na FURB.
— Como assim não tem nada certo, Benjamin? Tu acaba de ser aprovado em uma boa universidade do estado e vai se matricular, sim. Um final de semana ou outro, tu pode vir pra casa e quando não conseguir, nós vamos a Blumenau para vê-lo. São apenas duas horas de carro daqui até lá.
Benjamin olhou para Marisa após ouvi-la, olhou para o chão e suspirou profundamente tentando imaginar aquela situação. Teria que ficar longe de Yuri, Bárbara e de Arthur. As três pessoas mais essenciais para ele na vida.
— Amor, o deixe pensar. A escolha deve ser unicamente dele, não podemos nos intrometer.
— Manuel, tu estás louco, meu bem? Este já é o segundo ano que ele tenta o vestibular e foi aprovado em terceiro lugar, quer bênção mais maravilhosa do que essa? – Benjamin não conseguia desviar os olhos da sua mãe. Já conseguia sacar que a mulher nunca lhe permitiria ficar na cidade após ter sido aprovado na FURB. – Está decidido, eu vou com o Ben a Blumenau já na sexta para matriculá-lo.
— Que porra é esta, mãe? – Ela arregalou os olhos e lhe deu um tapa na cara. Benjamin ficou estático, pondo uma de suas mãos para massagear a pele latente do seu rosto. Não conseguia acreditar que levou um tapa por nada. – Agora, além de ser obrigado a sair da minha cidade, eu apanho por isso?
— Me desculpe, Ben – implorou Marisa, quando o filho saiu com a cabeça quente e subiu as escadas. – Me desculpe, meu amor.
Que porra ela pensa estar fazendo? Sou obrigado a fazer um curso lá na pqp e ela ainda me dá um tapa na cara para me obrigar? Ela que vá se foder. Porra! Porra! Porra, odeio que os outros tentem me obrigar a algo.
Ele entrou no quarto, batendo a porta bem forte e se trancando lá dentro. Nem se lembrou de que estava sujo, pulou na cama sem conter as lágrimas. Sentia toda a alegria por ter sido aprovado escorrer de cima a baixo e se perder. Queria mandar todo mundo a sua volta para puta que o pariu.
Não se sentia preparado para desistir do seu sonho maior, que era ser aprovado em medicina na UFSC. Não se sentia a fim de se distanciar de todos que tanto amava.
— Benjamin, me perdoe... Abra a porta para conversarmos, meu amor... – implorou Marisa atrás da porta.
— Não quero falar contigo mais hoje. Me deixe em paz, por favor.
Mesmo a contragosto, ela se retirou e foi para o seu quarto. Benjamin ficou por mais alguns minutos deitado na cama e só então, tirou as roupas para tomar um banho. Permaneceu vários minutos debaixo do chuveiro ligado, refletindo na decisão que tomaria em breve.
Quando acordou no dia seguinte, estava ainda mais preocupado pela aprovação do que ontem. Pelo menos, não veria a sua mãe naquela tarde, já que ela estava no hospital e isso poderia ajudá-lo a pensar melhor sem nenhuma pressão. Ao descer as escadas, ficou surpreso por ver que seu irmão já voltara de viagem, ele comia sucrilhos e assistia ao Globo Esporte.
— E aí, Benjamin? Tu passou, né? Parabéns, cara, mandou muito bem. O pai me ligou ontem para contar a notícia. Vai desmamar antes mesmo do que eu e valorizo isso. Aproveita que não terá a Marisa pegando no seu pé o tempo todo.
Ben riu, entrando na cozinha.
— Não sei se vou fazer a minha matrícula. Ainda quero muito ficar na UFSC – confessou ao voltar à sala com uma bandeja cheia de sucrilhos e leite.
— Ben, é bom estudar numa federal, mas pense que lá na FURB, tu não terá que lidar com todas as greves das federais. Além disso, tu moraria sozinho, saindo na hora que bem quiser e voltando bêbado quando bem entender. Teria um apartamento só para tu e as tuas gatinhas.
O menino não respondeu, continuou a comer em silêncio.
— E outra coisa, Blumenau é aqui do lado. Não vai levar nem duas horas pra vir de lá para Floripa. Se for louco, dá pra tentar ir e vir todos os dias.
— Ah, claro, Miguel. Sair de casa às cinco da manhã todos os dias e torcer para que não aconteça nenhum imprevisto pela estrada. Isso seria a coisa mais sensata a se fazer.
— Então, achas que a coisa mais sensata é perder uma vaga difícil de conseguir para continuar lutando às cegas? Acredito que deva rever o que é sensatez e o que é loucura, quiridú.
— Vá ver se estou na esquina, Miguel – vociferou, se dirigindo ao píer da casa.
Continuava a chover, ele ficou ali sentado em completo silêncio contemplando as gotas da chuva que escorriam pelo vidro. Ele sabia que seu irmão e sua mãe tinham razão. Talvez, fosse melhor se conformar em desistir da UFSC e começar medicina em outra instituição.
O resto da tarde passou mais rápido do que Benjamin podia imaginar, antes de sair para ir encontrar os seus amigos no bar, ligou para o pai e disse que como beberia bastante, passaria a noite no apartamento da Bárbara para não precisar dirigir. Manuel aprovou a ideia já que ela morava a poucos passos da UFSC e do Meu escritório.
Quando chegou ao condomínio Athenas Park, que ficava de frente para o campo de atletismo da UFSC, sua amiga já lhe esperava na garagem coberta. A ruiva estava vestindo uma calça jeans azul escura, bota e casaquinho vermelhos, ambos de camurça. Os seus cabelos estavam ondulados e encheram os olhos do amigo.
— Uou, quiridá, tá até bonitinha hoje. Erramos a data e hoje é o dia da sua festa?
— Rá, rá, rá... Vá se foder Benjamin Belucce, vá se foder bem gostoso. Não tem a mínima ideia do quanto estarei poderosa no sábado. Espera só para ver, garoto. E, tu, nem pra vestir uns panos finos para ir ao bar?
Obviamente, a garota estava caçoando do menino, ele usava calça jeans branca, um tênis da Nike preto, camiseta rosa da Billabong e um moletom branco da Nike.
— Onde está o Arthur? Ninguém veio para cá?
— Ah, eles já foram para o barzinho. Eu que quis te esperar aqui para abrir o portão. – Ela abraçou o amigo pela cintura e saíram juntos do condomínio. – O putão do Pedro vai vir, sabia? Acho que com ele, o Fred também vai querer aparecer.
— Porra, Báh.
— Calma, gatinho. Tu não precisa conversar com ele se não quiser, mas ele é o nosso amigo também.
— Claro, eu até entendo isso, mas só que a comemoração é pela minha aprovação. O japa também não vai curtir muito a ideia de tê-lo por lá. Se esqueceu de eles brigaram para valer?
— Só que o Yuri já perdoou o loiro. Eles até saíram hoje de tarde junto com a Yumi e o Pedro para irem almoçar no Trindade Shopping.
Não creio que eles saíram de tarde e nem me convidaram. Um bando de filhos da puta, como puderam me ignorar desta maneira? Como tu, japa, teve coragem de fazer esta macaquice comigo?
— Espero que esteja tudo bem por você, amigo. Mas ele nos disse que já pediu desculpas para você.
— Ah, pediu, mas deixei-o sozinho. Quem mais vai vir na comemoração? Não me diga que a mexicana também vai, porque se ela vir eu me mato aqui na Edu Vieira debaixo do UFSC Semi-direto.
Báh soltou o amigo e o encarou com severidade.
— Por que é tão dramático? A Gi não te odeia como tu pensava, ela só não quer mais manter contato contigo. Tu pegou ela e depois não quis assumir um namoro sério, quiridú.
— Não estava apaixonado por ela, simples assim. Agora isso é motivo para ser tão estúpida e querer ignorar os amigos? Foda-se ela e quem quiser defendê-la. Isso vale para você também, Bárbara.
— Ogro, cavalo e estúpido, eu estava brincando. Não precisa ser tão mal-educado. – Bárbara ficou chateada. – E respondendo a sua pergunta: o precoce, a Fernanda e o namorado dela, o Pedro, o Fred, eu, a Yumi, o Yuri e o Arthur, e não, não se preocupe, a Giselle não vai vir. Ela ainda está viajando com seu novo namorado.
A menina fez questão de dizer o substantivo namorado de forma lenta e bem pronunciada a fim de destacar o fato de ela ter esquecido completamente o menino de olhos verdes. Bárbara entrou no barzinho de cara fechada, o que já chamou a atenção do seu namorado e da Fernanda.
— Aí está o novo calouro de medicina da FURB – gritou Pedro, vindo abraçar o amigo.
— #FURBvátomarnocu – emendou Fernanda, para o delírio da galera. – #UFSCamaiordosuldanação.
— Chupa FURB – gritou Matheus, o namorado da Fer. Todos riram, menos Yuri e Benjamin.
Os demais amigos vieram todos cumprimentar o novo calouro, o japa foi o último e deu um abraço carinhoso no amigo. Benjamin ficou com medo de que os outros percebessem algo de estranho entre eles. Viu que não estava sendo fácil para o japa agir como se nunca tivessem ficado.
Ontem, antes de o Ben entrar no carro, Yuri ficou bem próximo do rosto do amigo como se esperasse que o menino de olhos verdes rompesse os poucos centímetros que restava entre eles, e lhe beijasse na boca.
O grupo de amigos tinha se reunido em um canto do Meu escritório (um famoso barzinho, que fica na frente do CTC da UFSC, um dos maiores centros de ensino da instituição. Por isso, o lugar era mais frequentado por estudantes da universidade do que por quaisquer outros e até mesmo nas férias).
— Joshua, estaix empolgado para começar a faculdade na próxima semana? – perguntou Matheus. A Fernanda estava deitada sobre o peito do namorado, que vestia apenas uma regata da AAAMEDUFSC (a atlética da medicina).
— Ô se estou. Meu, eu não vejo a hora de começar a estudar aqui na faculdade.
A Fernanda, o Yuri, o Matheus e o Pedro começaram a zoá-lo por estar tão empolgado para começar o curso, o que eles achavam uma loucura.
— Isto é coisa de calouro mesmo – gritou Fernanda.
— Que calourice, calouro – berrou Pedro, bebendo um pouco de cerveja.
— Quero só ver esta empolgação quando pegar a primeira prova de embriologia e de bioquímica – afirmou Yuri, olhando para a sua colega de sala; a Fernanda.
— Já vai queimar na largada – retomou Matheus. – Benjamin, não vaix se empolgar tanto que nem o calouro aí ô. Pois isso é a maior burrada na vida.
— Tenho saudades de quando pensava que o cursinho era o pior limbo que podia existir em nossa vida – reclamou o japa, pondo as mãos na cabeça como se dissesse: estava completamente errado.
À medida que as garrafas de cerveja iam ficando vazias, mais e mais as substituíam. Alguém que visse de fora aquele grupo certamente pensaria que ninguém estava nem um pouco se importando com seu fígado.
Bárbara continuava a ignorar o amigo de olhos verdes. Ele conversava com Joshua e Yumi no momento.
(...)
— Ben, tu tem que pensar com muita calma. Eu sei que parece que nunca vamos conseguir passar, mas sempre há alguma esperança no fim do túnel. Cara, tu sabe que não passei na primeira chamada da UFSC, fui convocado só na terceira, isso no final de fevereiro. Eu abri mão da minha vaga de medicina na PUC do Paraná e na UNIVILLE para me matricular no cursinho de novo quando vi que não passaria aqui.
— Sério, precoce? – perguntou Yumi. – Eu levei dois anos fora o terceirão para entrar na USP, que sempre foi o meu sonho. Vocês se lembram do quanto eu falava daquela faculdade. Fiquei até o terceiro ano aqui, no Energia, e no final daquele ano passei na UFSC, UFPR e pelo ENEM entrei na UFRJ.
— CDF – provocou Benjamin, com um sorriso à mostra.
Ela riu um pouquinho e continuou:
— Mas na USP não passei, a minha família toda insistiu para que eu me matriculasse em uma daquelas que havia passado e eu cheguei até a fazer o meu registro acadêmico na UFPR, mas uma semana antes de começar as aulas, eu joguei tudo para cima para realizar o meu sonho que era estudar na USP. – Yumi estava emocionada por lembrar-se daquilo. – Os meus pais não me entenderam de início, porém quando uma tia minha e do Yuri conversou com eles e explicou que para eu conseguir, deveria estar dentro de um cursinho específico para a universidade, aí os meus pais me permitiram mudar para São Paulo e me matricularam no Hexag.
Bárbara divagou a atenção da sua conversa com Fred, Arthur e Yuri para prestar atenção, do outro lado da mesa, na conversa de Yu e dos outros, que parecia mais interessante do que o assunto dos meninos sobre o visto para os EUA e da alta do dólar.
— Eu tive muito peso nas minhas costas, afinal larguei três federais e mais algumas particulares para voltar ao cursinho. No final do ano, passei para a segunda fase, mas levei bomba em física e em química na FUVEST. Chorei horrores. Tive que ouvir os meus pais me chamando de burra por ter trocado um ano de faculdade por um insucesso. Com a nota do meu ENEM consegui passar em medicina na UFRGS, só que escondi isso deles. Sabia que se eles soubessem me obrigariam a me matricular lá.
— Caralho, Yumi. Não conhecia todos os detalhes da sua conquista – confessou Joshua, surpreso. – Tu foste uma guerreira. Passar em quatro federais e dispensar todas elas para continuar no cursinho. Tu mereces todo o meu respeito.
A japonesa sorriu meio constrangida.
— Aí, em 2012, voltei pro Hexag, ainda mais determinada a passar naquela maldita universidade. Agora, já era uma questão de honra, poxa, tinha aberto mão de dois anos na UFPR. Hoje já estaria no penúltimo ano do internato. No fim do ano, fiz 86 dos 90 pontos da primeira fase da FUVEST e consegui ir muito bem nos três dias de provas da segunda fase. O resultado: fui aprovada na primeira posição geral do vestibular.
— Porque esta garota é muito foda – afirmou Báh, com um sorriso confiante. A garota já estava bem bêbada. – Aliás, os dois japas irmãos são demais. Por isso, Belucce, trate de ficar aqui para cuidar da sua amiguinha bêbada e do teu japa do coração.
Meu o quê? Que porra ela está falando. Vai ficar dando vexame aqui no meio de todas estas pessoas?
Arthur tentou acalmar os ânimos da sua namorada, mas já era tarde demais. De repente, todo o grupo voltou a se concentrar em Benjamin.
— O quê? O Ben vai ficar aqui para tentar a UFSC? – perguntou Fernanda.
— É isso aí, pré-calourinho: a UFSC é rainha e a FURB é nadinha – gritou Matheus. Era impressionante como ele e a namorada combinavam em relação a se comportarem iguais a perfeitos idiotas.
— Eu não disse isso, Fernanda. Estou quase cem por cento decidido a me matricular na FURB mesmo. Sempre quis UFSC, mas não sei se aguento mais alguns meses dentro do cursinho. Ando estressado, cansado e com muita preguiça de estudar.
— Isso, eu garanto a ti que nunca se perderá – confessou Matheus. – Estou na décima fase do curso e ainda tenho mô preguiça de fazer os plantões no HU. O bom é que não temos mais aquelas provinhas chatas do ciclo básico do curso.
Benjamin olhou o rosto de Yuri, que estava do outro lado da mesa. Ele parecia um pouco abalado ao ouvi-lo garantir que não queria mais ficar no cursinho – o que significava que realmente se mudaria para Blumenau.
Bárbara também ficara chateada por ouvir aquilo, sabia que a nova cidade do amigo ficava logo ali do lado, porém não tê-lo mais por perto para qualquer parceria parecia-lhe sufocante demais. Mesmo Benjamin sendo a pessoa que mais batia boca com ela, já que não aceitava todas as suas ordens, sem dúvidas, era o amigo que ela mais amava no mundo.
— Vocês estão querendo encher a cabeça dele para ficar em Floripa porque não sabem o que é morar longe dos pais. Eu amo estudar a trezentos quilômetros daqui. Lá em Curitiba, os meus pais não sabem o que eu faço, com quem eu ando ou como anda as minhas notas na faculdade.
— E tu acha isso impressionante, Pedro?
O menino de olhos verdes lançou um olhar ligeiro e assustado para Bárbara. Ele tinha medo de que abrisse a boca por estar bêbada e contasse na frente de todo mundo o que só Benjamin sabia a respeito do Pedro.
— Se eu fosse tu, Ben, tentaria mais um ano aqui e caso não passasse iria para outra universidade com o ENEM ou, sei lá, através da ACAFE mesmo – confessou Fred, estabelecendo contato com o amigo pela primeira vez na noite.
Benjamin nem fez questão de respondê-lo ou, simplesmente, encará-lo. Yuri permanecia com os olhos vidrados no melhor amigo e se martirizando por não poder fazer nada para ajudar o amigo a ficar.
— Pensa assim, Benjamin, só a UFSC tem sete estrelas do INTERMED SUL e, ano que vem, estaremos em busca da oitava estrela lá em Criciúma. Podes escolher ficar do lado dos vitoriosos ainda – disse Matheus, cheio de glória. – Aliás, este ano a UFSC vai aderir ao ENEM pela primeira vez.
— Eu li sobre isso mesmo – concordou Arthur. – Pelo menos, teremos mais de uma chance para entrar na federal.
— Valeu, pessoal, pela força. Eu juro que vou pensar com muito carinho e quando tomar a minha decisão, eu comunico a todos vocês – garantiu Ben.
— Hei, Benjamin, ficamos sabemos que tu pegou uma baita gatinha lá em Curitiba – provocou Fernanda, que agora estava sentada no colo do seu namorado.
Benjamin olhou muito automaticamente para Pedro, que ria exageradamente. Assim como os demais, Yuri encarou o menino constrangido. Yuri pensava em como a Fernanda podia ser intrometida de vez em quando. Primeiro, se intrometeu na sua história com a Bruna e, agora, na história do Ben com a curitibana.
— Quando vai apresentar sua nova namoradinha aos seus amigos? – retomou ela após ser ignorada. – Vai, nos diga quem é ela. Estamos curiosos. Não esconda nada da gente. Todos somos os seus parceiros, Benzinho.
— O deixe em paz, Fernanda. Não percebe que ele não quer responder? – protestou Yuri, incomodado.
— Porra, vocês dois sempre estão defendendo um ao outro. Acho impressionante que um parece o pai do outro.
— Talvez, porque eles sejam namoradinhos – brincou Matheus.
— Vá se foder, cara. Qual é o teu problema? Só fala merda igual a tua namorada – cuspiu Yumi, exaltada. – Tem certeza que está preparado para ser um médico? Acho que o Benjamin terá uma formação muito melhor se for pra outra faculdade a não ser a UFSC, porque pra ter um babaca igual a você na décima fase é sinal de que a universidade não tem aulas de civilidade e sociologia na sua grade curricular.
Bárbara ficou incomodada por ter convidado o casal de malcriados. O corte que a irmão do japa deu na Fernanda pairou por vários instantes na mesa. Benjamin nunca tinha visto Yumi comprar briga com alguém.
— Qual é o teu problema, Yu? Não gosta de mim? É só falar, não precisa envolver o meu namorado no meio das tuas babaquices, guria.
— Shut up, bitch! (cale-se, vadia!)— replicou Yumi. Fernanda já estava prestes a se levantar para grudar nos cabelos da japonesa quando seu namorado a segurou pelos antebraços. – Não me diga que estava pensando em me agredir, sua vagabunda. Não tenho medo de periguetes da sua laia, hein.
— Me solta, Matheus, porque eu preciso dar uns tapas na cara desta filha da puta.
O garçom se aproximou da mesa do grupo e ameaçou:
— Se forem arrumar confusão, é melhor para todos que seja bem longe do nosso bar. Estão me entendendo?
Fernanda e Matheus se retiraram da mesa, pagaram a sua parte de consumo e saíram do barzinho sem se despedirem de ninguém.
— Está feliz agora, Bárbara? Tu convidou aquela guria e o namorado dela para cá, veja bem quem tu vai convidar para tua festa se não quiser que acabe em brigas – alertou Yuri, saindo da mesa e indo ao banheiro a fim de se acalmar. Estava estupidamente com raiva, talvez, por ter que lidar com a possível mudança de cidade do Ben, com a crescente atração que sentia por ele e por ter ouvido aquela besteira do Matheus.
— Deixa que eu vou falar com ele – anunciou Joshua, seguindo o Yuri pelo bar.
Yumi estava os braços sobre a mesa e com a cabeça mergulhada entre eles. Ela estava tentando se acalmar através de longas e pausadas respirações.
— Eu acho que devo ser a pior amiga deste mundo – reclamou Báh, chorando copiosamente. – Primeiro, ouço meu melhor amigo me dizer que não sei convidar as pessoas certas – ela gaguejava –, depois, duas pessoas que eu amo demais quase se esbofeteiam na minha frente e, se já não fosse o bastante, o Yuri solta estas coisas ácidas na minha cara. Eu não quero mais ser amiga de ninguém aqui. Vou ficar trancada dentro do meu apartamento para sempre. E, por favor, esqueçam-se da festa de vinte anos da Bárbara Ronsoni. Esqueçam ela também.
— Amor, já chega. Já está na hora de irmos para casa, são quase onze horas da noite – disse Arthur, conferindo a hora em seu relógio de pulso.
— Ainda está cedo, pessoal – comentou Frederico, quando Arthur se levantou para levar a namorada embora. – Benjamin, tu vai posar lá também, não vai?
O menino de olhos verdes torceu os lábios, confuso.
— Acho melhor não. A Báh não está falando comigo, vou embora mesmo.
— Tá louco, tu bebeu pra caralho, velho – assegurou Arthur. – Bárbara diga a ele que quer que pose no seu apê.
— Benjamin, não precisa ser babaca. Posa lá em casa – falou ela. Talvez, não de uma forma tão amigável quanto queria dizer.
— Só vou com vocês para pegar o meu carro e ir para casa.
Yumi segurou o braço do menino.
— Ele está certo, Ben. É melhor não dirigir embriagado, tu pode perder a sua carteira provisória ou uma coisa pior pode acontecer. Vamos lá pra casa, eu só fiquei a base de refrigerante a noite toda para poder levar o japa para casa. Posso te dar uma carona no carro do Yuri e, amanhã, te trago para pegar o carro no condomínio da Báh.
— Bem capaz... O Benjamin combinou comigo, ontem, de ir para a minha casa. Agora, terá que vir comigo e com o Thur – protestou Bárbara, puxando-o pelo colarinho da camiseta. – Vamos, Benzinho. Vamos com a Báh.
— Eu vou dormir na casa da Yumi, Bárbara. A gente conversa amanhã, se possível esteja sóbria. Não estou a fim de discutir contigo hoje à noite, isso vai ser o melhor para gente.
— Ah, então, vá tomar no cu – xingou ela, saindo acompanhada do namorado, que pagou a parte de consumo dos dois e depois saíram do bar.
Yumi e Benjamin foram para o caixa a fim de pagar suas partes da conta e esperar lá por Yuri e Joshua.
— Acho que ninguém esperava que a noite de comemoração acabasse assim, né? – comentou Frederico.
— Acho que só eu e você vamos ficar aqui por mais algumas horas – disse Pedro ao Fred.
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