Sem desfecho
1 Prólogo
Notas iniciais
Naquela tarde de uma primavera, uma garota com cabelos cacheados não estava fora de casa, correndo pelos parques, ou em piqueniques como o resto das pessoas. Estava dentro de seu quarto pequeno, sentada na cama, rodeada de fotos. Seus olhos pesavam e estavam marejados por causa do choro. E o chão parecia não existir.
Então, ela sempre se lembraria como a porta abriu-se devagar, fazendo um gemido estridente, e dedos compridos e gelados cobriram seus olhos castanhos amarelados por um segundo.
Então, a garota apenas se virou para trás. E lá estava ele. Um segundo depois, a cabeça cheia de cachos loiros estava grudada no peito do garoto que havia acabado de chegar.
A menina chorava histéricamente, mas o rapaz era fechado em si mesmo. Não chorava. Por isso guardou para si, cada lamento, cada suspiro, lágrima e dor. Cada migalha daquela situação. Isso doía ainda mais.
O garoto de pele cor de areia sem o mesmo brilho habitual, surpreso, retribuiu o abraço, e o pedido silencioso por afeto, amor, ajuda.
Apesar de tudo, os olhos cinza dele estavam tristes. Realmente tristes. E seu peito parecia haver um buraco. Sabia que estava fazendo aquilo tudo em vão, digo, parecer forte. Mas foi ao que ele agarrou-se para escapar do luto.
A garota lançou-lhe um olhar de desaprovação em meio há tantas lágrimas quentes que escorriam pelo seu rosto repleto de sardas escuras.
- Shhhh, está tudo bem. — murmurou o garoto com olhos cinza. Ele a olhava como se fosse seu bem mais precioso, a coisa mais frágil da terra.
Naquele momento, encarando seus olhos, sentiu o buraco crescer ainda mais em seu peito. Sentia dor por ela e pelo rapaz.
O garoto levantou a cabeça da loira, com o polegar. Pareciam ter algum tipo de conversa silenciosa, até que ele enfim falou.
- Lou, ele te amava. Eu sei que amava. — Sussurrou, fazendo a jovem de talvez 20 anos chorar mais. Não sabia o que pensar, e tudo aquilo parecia tão surreal.
- Por que todos que eu ano se vão? — berrou, mais pra si que para qualquer um, a garota. — Ele era seu irmão! — choramingava a garota.- Não faz mal chorar. Não agora. Não hoje.
- Você é tudo que eu tenho, Lou. — Disse ele. Ela podia ouvir o coração acelerado do garoto em meio ao abraço. — A melhor amiga que existe. Se um dia você se for, aí sim, eu vou chorar por tudo que eu venho acumulando. — disse o jovem.
- Você lembrou. — murmurou em meio ao abraço. Os braços de ambos doíam, mas não se atreviam a soltar.
- Do que?
- Me chamou de Lou como eu pedi, como Eric fazia — quase não conseguiu terminar a frase sem desabar ao falar o nome dele.
Ninguém mais falou nada por alguns longos minutos depois disso.
Luísa lembrou-se como Eric e Leo tinham a mesma voz, e como ela se confundia sempre. Quando ligava na casa deles, ela nunca sabia quem atendia e faziam piada com isso. Hoje, a voz do garoto, era só mais algo no mundo para a lembrar de Eric.
Leo sentou na cama, e ela ainda abraçada a ele, ia citando as coisas bonitas da vida, como Eric havia a ensinado. Sempre que estivesse triste, era só falar o que a vida tem de bom. O sol vai nascer todos os dias apesar dos problemas, e as coisas boas ainda estão lá, mesmo que em memórias.
O amor que ela tinha por ele era grande. Gigante. Amor que cada dia a matava um pouco, a cada diagnóstico. Eram juntos, unidos por aquele amor, que enfrentavam. Apesar de tudo, ele sempre estava lá quando ela precisou. E o amor dela o manteve vivo por muito mais do que a medicina poderia prever.
As fotos pela cama, tinham um olhar diferente em cada. Um significado diferente cada uma. Olhos apaixonados encontravam-se em todas no entanto. São as memórias que eles congelaram para si mesmos. E agora eram tudo que Luísa tinha.
A promessa que ele havia feito estava quebrada. "Você nunca estará sozinha." E cá onde ela estava? Depois de tudo aquilo, tudo que viveram, as palavras rodopiavam em sua mente.
Ele jurou voltar. Falou que ficaria tudo bem, porque sempre ficava. Mas ele com certeza sabia que não. Que não estava tudo bem. Provavelmente sabia que era o fim.
O amor que eles tinham era lindo. Curativo. Cada dia aumentava, sarava feridas. Os médicos o haviam dado um mês. E cá estavam, um ano e duas horas depois.
Suas memórias eram aquilo. Seu coração nunca estava partido. Havia aprendido a dar valor a cada segundo. E o lembrar de seu amor por ele. Porque ela só queria o ter pra sempre. Mas, o sempre dela, é maior que o dele. Sempre foi.
E no meio das fotos, encontraram uma carta colada atrás de uma foto.
O coração da garota era migalhas, e seus olhos pesavam do choro. Seus dedos tremiam, ao ler cada palavra. Cada sílaba.
" Srt. Mantovanellie, Aninha, Ana Luísa, minha noiva e eterna namorada, amor de toda a minha vida,
Não existe palavras para descrever a minha loura. A garota que fez eu me apaixonar no prézinho da escola, e fez esse amor se estender por todos os dias da minha vida.
Alguém que vê as coisas boas, onde eu só vejo a escuridão. O abismo entre abismo vida e morte. O fim de tudo.
Você enxerga a luz, o fim do sofrimento, a paz. Você faz a morte ser algo bom sem perceber. E eu te amo cada dia mais, pois sei que pode ser o último que vou ver você. Dizer que estou bem, mesmo não estando.
Só queria dizer que a amo mais uma vez. A última. Mas que você nunca esqueça disso. Meu amor por ti durou a vida toda. Os segundos, minutos, todos. Eu passava pensando em você, a garotinha de olhos amarelos que ajudava a todos antes de si mesma. Minha noiva. Lou.
Quando eu estiver longe, é de você que eu vou lembrar, de como você me beijava e de nossos planos para o futuro. Nunca vou te abandonar, Lou. Sempre estou contigo. E cada vez que lembrar de mim, reviverei por meio de suas lembranças. Eu não vou morrer. Estarei com você. Em cada dificuldade, lembre — se de mim. Me faça presente. E eu estarei lá.
Espere a minha volta para casa,
Eric"
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