Sem as Linhas
21 XX- A Viagem e a Estupidez
Notas iniciais
Assim que cheguei a minha casa a única coisa que sentia vontade de fazer era chorar e chorar. Queria expulsar de dentro de mim todo aquele ódio misturado com tudo o que estava entranhado em mim.
Aquele sentimento de culpa voltava a me atormentar à cada instante, a saudade do meu melhor amigo também e a pressão sobre a sexta-feira voltava a me atormentar.
Eu não tinha ideia de como reagir quando visse Rui no aeroporto e eu tinha medo de me arrepender de arriscar viver tudo isso com ele e depois machucá-lo friamente.
...
O resto da semana passou bem rápido, as provas começavam a se aproximar, mas mesmo assim minha mente só conseguia pensar em tudo o que estava acontecendo comigo naquela semana.
Na quinta-feira não vi Alex.
Na sexta-feira não fui à aula, então não o vi também.
Na sexta-feira acordei uma hora antes do normal: Fiz as entregas dos jornais, cheguei em casa, tomei banho, arrumei os cabelos coloridos, maquiei os meus olhos de preto, e coloquei uma roupa elegante para ir buscar o Rui no aeroporto.
Nesse dia, decidi colocar uma saia preta cintura alta, uma camisa branca social, uma meia calça fumê e uma sapatilha branca.
Assim que terminei de me arrumar, chequei o relógio e estava adiantada cerca de meia hora, provavelmente Rui ainda estava no avião.
–Mãe estou indo! –Eu gritei para minha mãe ao pé da escada e ela já estava se arrumando para trabalhar.
–Tudo bem, boa sorte, filha! –Ela gritou de volta, mas foi até a beira da escada no andar de cima para me fitar.
–Eu vou trazê-lo para almoçar aqui, mas como você só vai estar de volta do trabalho à noite, então você vê ele depois. –Eu disse.
–Tudo bem, a gente se vê de noite. –Ela disse, sorrindo.
Dei as costas e estava prestes a sair pela porta quando ouvi ela me chamar de volta.
–Ei, filha... –Ela disse.
Me virei para ela e encarei-a esperando o que ela ia falar.
–Você está linda! –Ela falou descendo as escadas rapidamente e vindo dar um abraço em mim.
–Ah, mãe, obrigado, mesmo. –Eu disse feliz. –Mas, agora eu tenho que ir. Ainda vou pegar um táxi para ir até o aeroporto.
–Tudo bem. Te cuida, até a noite. –Ela abanou.
Saí pela porta e fui caminhando em direção ao ponto de táxi que tinha perto da minha casa. De ônibus eu não chegaria a tempo.
Chequei o relógio, ainda tinha uns vinte minutos. Tempo suficiente para chegar ao aeroporto e ainda comprar alguma coisa para tomar café da manhã.
Entrei no táxi assim que o primeiro ficou disponível e falei o meu destino ao homem.
O trânsito estava tranquilo e eu observava Porto Alegre da minha janela. O tempo estava meio nevoado, sem dúvidas que iria fazer um pouco de calor naquele dia, já que sentia calor àquela hora.
Mas, o nervosismo corroia a minha alma, como os momentos que havia passado com Rui me perturbavam a cada minuto em que chegava mais próximo do aeroporto. Aqueles instantes quando estava chegando ao aeroporto enlouqueciam-me então pensava
Finalmente irei te encontrar... Depois de tanto tempo desejando, finalmente, Rui.
Mas o que me assustava era que o entusiasmo não era tão grande quanto eu esperava, mas sim pelo contrário: O nervosismo me dominava.
Quando o táxi parou e eu não tive escolha a não ser descer e encarar de perto o aeroporto, um frio na minha espinha atingiu-me e as mãos estavam congeladas, apesar do calor. E o suor frio nelas me atormentava.
Entrei no aeroporto e decidi escutar um pouco de música, talvez assim eu me acalmasse um pouco. Dirigi-me até uma lanchonete e a fome que eu sentia quando eu saí de casa havia desaparecido, então comprei uma garrafinha de água e balas de menta.
Sentei-me numa cadeira próximo ao telão onde indicava os voos. Logo, localizei o voo do Rui: “Avião no pátio”, era o que eu tinha lido.
DROGA!
Parecia que meu coração iria pular do peito a qualquer momento e eu sentia um nervosismo intenso.
Ainda, conseguia lembrar-me da voz de Rui no telefone ontem à noite quando me ligou.
*Flashback On*
–Ei, Téfi, preparada para amanhã? –Perguntou ele e eu pude sentir certo humor e entusiasmo em sua voz.
–Ainda não sei e você? –Eu parecia uma boba apaixonada.
–Também não. –Ele respondeu. –Talvez eu esteja com um pouco de medo.
–Medo de eu ser uma psicopata e fazer picadinho de Rui quando você chegar aqui? –Eu disse, rindo.
–Não, imagina... Eu confio em você. O problema é conhecer sua família e tal... –Ele disse.
–Ah, mas eu já disse pra você que minha família é a minha mãe. –Eu disse, dando de ombros do outro lado da linha. –Minha irmã mora na Espanha, meu pai morreu e meus avós também.
–Sim, mas sei lá... Não sei o que pode acontecer. –Ele falou.
–É... Isso nem eu sei. –Eu disse. –Bom, eu vou desligar, ainda tenho algumas coisas pra fazer.
–Tudo bem, Téfi. Até amanhã. –Ele disse, com o humor ainda carregado em sua voz. –Você pegou o horário e o número do voo?
–Sim, peguei. Até amanhã, Rui.
*Flashback Off*
Assim que esperei uns cinco minutos e vi que algumas pessoas começavam à sair da porta que dava acesso à esteira das malas, levantei-me e fiquei ali perto, esperando ele.
Tomava mais um gole de água.
E, outro.
Mais outro.
Colocava uma bala na boca.
Verificava a hora:
Passou-se um minuto.
Mais um minuto.
Meus dedos tamborilavam no na barra de alumínio que eu segurava em minhas mãos, perto da porta.
Meu pé direito dava leves batidinhas no chão e a impaciência tomava posse do meu ser.
Verifiquei a hora de novo:
Mais dois minutos passaram-se.
Olhei o papel com o número do voo e a hora.
Verifiquei a hora: Estou no horário certo.
Olhei o painel: O voo está certo. “Avião no pátio”.
Até que decidi que nada daquilo funcionaria, senão olhasse para a porta e esperasse por uma cabeça ruiva no meio de tantas pessoas saindo.
Fui um pouco adiante, mais perto.
Até que eu o vi.
Mas ele não tinha me visto.
Esqueci como respirar ou tranquei a respiração, não sabia ao certo.
Era como se eu não quisesse que ele visse que eu estava admirando-o.
Mas minhas pernas moveram-se intensa e rapidamente em sua direção.
Ele ainda me procurava, com a mão direita na alça da mala. Mas quando ele me viu em sua frente nada mais importava.
Largou a mala no chão mesmo e o barulho que ela produziu não nos incomodou.
Apenas senti os seus braços envolvendo-me carinhosamente, calorosamente.
Eu apertei-o contra mim o máximo que eu pude. Sentia uma paixão devorar o meu coração. Um nervosismo avassalador. E, eu queria ser devorada pelo seu amor.
Queria que ele bebesse da minha paixão.
–Estefani... –Ele sussurrou pra mim quando se afastou um pouco e olhou fundo em meus olhos.
Seus olhos castanhos que tanto eu olhei somente por uma tela fria e rígida, agora estavam comigo, fazendo-me delirar naquele mar de doçura.
Eu não respondi o seu chamado, apenas fitava-o intensamente. Sentia-me com aquela paixão abraçando-me desprevenidamente.
Repeti diversas vezes para mim mesma que eu havia perdido o interesse nele e que estava com medo.
Grande mentira.
Mas só pude comprovar isso agora, nesse momento.
A utopia de encontrá-lo finalmente tornou-se realidade, então não era mais uma utopia.
Fitava-o ainda e ele também.
Sentia sua respiração se misturando com a minha, eu enxergava-me em seus olhos. Aquilo me deixava louca, me alucinava. Meu coração disparava e pulava intensamente. E meu peito colado ao dele, provável que ele tinha sentido as minhas palpitações, mas não me importava, eu também sentia as palpitações dele.
E então senti os seus lábios abraçando os meus num lindo e doce beijo.
A partir daquele momento, acreditei que mais nenhum sonho fosse verdade, que nenhuma caixa de som produzisse um som decente além da voz dele que era a trilha sonora para a minha felicidade, fazendo com que a felicidade vinda dele se fizesse como um acorde para a minha vida sensata e para erros que desconcertassem uma música perfeita com rifes de guitarra, que atingissem meu coração, lá no fundo...
Para mim: Ele... Tudo o que há descrito de mais belo no mundo.
Todas as verdades, todas as saudades, todas as mágoas, todas as loucuras...
Parte de um amor quase impossível, mas que não quer dizer que não possa se tornar realidade...
O beijo cordial tocava-me intensamente... Tocava minha alma com carinho.
Assim que ele se descolou de mim, ele segurou a minha mão e ele carregava sua mala.
Levei-o até a saída do aeroporto e pegamos um táxi até a minha casa.
Há cada semáforo que parávamos ele fazia alguma observação da cidade e elogiava a elegância da mesma, fazia comparações com São Paulo dizendo que lá era muito poluído.
Chegamos rapidamente em minha casa.
–Então, Rui, aqui é a minha casa. –Eu disse abrindo os braços e apontando para a mesma.
Ele adentrou minha casa e deixou sua mala no hall. Assim, peguei sua mão e fui guiando-o pelos cômodos.
Ele elogiava todas as peças, deixando-me às vezes constrangida.
–Rui, pega a sua mala, vamos subir que eu vou te mostrar o meu quarto. -Eu disse fitando-o.
Ele assentiu com um aceno de cabeça e subimos em direção ao meu quarto.
–Então, aqui que é o meu cantinho. –Eu disse.
–Nada mal, Téfi. –Ele disse, sorrindo.
–Você gostou? –Eu perguntei sorrindo também.
–Sim, achei muito bonito. –Ele disse admirado. –Então é aqui que você conversa comigo? –Ele perguntou apontando para a mesinha do computador.
–Sim, aqui mesmo. –Eu respondi.
Eu estava encostada no meu guarda roupas falando com ele, distraidamente.
Nem percebi quando ele se aproximou de mim, colocando os dois braços ao lado da minha cabeça, fazendo com que inevitavelmente eu olhasse em seus olhos.
–Rui? –Eu chamei-o.
–Fala minha linda. –Ele disse.
Não respondi. Apenas fitei seus olhos e selei os meus lábios nos dele.
Mas porque toda vez que sinto seus lábios Alex aparece na minha memória? Por quê?
Eu já tentei de tantas formas tirar todo esse sentimento por ele entranhado em mim...
Mas não é estupidez tentar tirar da mente o que na verdade está no coração?
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