Sem as Linhas
8 VII - A Vadia Intragável
Notas iniciais
Eu me acabava na minha guitarra. Dedilhando nota por nota, fazendo aquele som estridente ecoar por todo o meu quarto.
Cada vez mais insatisfeita com o som, aumentava a pressão, fazendo os meus dedos ficarem marcados pelas cordas, deixando-os doloridos.
Enquanto tocava a guitarra sem parar, lembrava ainda da cena que acontecera há poucas horas atrás.
*Flashback on*
–Ei! –Chamei meio baixo.
Ele não ouviu, ou fingiu que não ouviu.
–HEY! –gritei. – Então, ele se virou pra mim com os olhos arregalados.
–O que você quer, agora? –Ele disse olhando nos meus olhos.
–É... Hum...Você poderia me dar uma carona? –Falei apontando para o seu guarda chuva que ele segurava e em seguida encarei os meus próprios pés.
–Ah, agora você se arrependeu de fazer aquele gesto obsceno por eu ter um guarda-chuva? –Disse ele me olhando de cima abaixo, parando os seu olhar no meu, tentando decifrar em meus olhos se realmente eu estava arrependida.
–Ah, me desculpe. Mas, eu realmente sentia muito e-
Num ímpeto ele me puxou pelo braço e foi me empurrando porta a fora, rumo debaixo da chuva, só que estávamos protegidos sobre o guarda chuva transparente dele.
Andando debaixo do guarda chuva e perto dele, aproveitei para dar uma olhada no homem que estava andando do meu lado, ao mesmo passo que o meu.
Seus cabelos eram negros, lisos por toda a sua extensão, exceto nas pontas que eram levemente cacheadas, dando um ar de preguiçoso.
Seu rosto era liso, mas se encostássemos cara a cara, tenho certeza que sentiria uns pelos da barba pinicarem em minha face. Seus olhos eram pretos também, e de alguma forma exalavam perigo e mistério. Seu pescoço deixava pelo ambiente um cheiro doce e masculino, provavelmente era o seu perfume.
Seus dentes eram brancos e no canto inferior da boca, do lado direito tinha uma pintinha marrom e que deixava um ar charmoso por todo o seu ser.
Assim que ele percebeu o meu olhar meticuloso, desviei o olhar.
Senti minhas bochechas carbonizarem de vergonha.
–Hum, então... qual o seu nome? –Perguntou ele enquanto caminhávamos cuidando se alguma gota iria cair sobre nós, mesmo com a proteção do seu guarda-chuva.
–Estefani. –Falei olhando para o chão, desviando de uma poça — E o seu? –Olhei novamente para o seu rosto.
–Alex. –Disse rindo enquanto ele analisava a minha expressão.
–Do que você está rindo? –Perguntei.
–Você não acha que foi muito engraçado aquele barraco? –Ele perguntou agora gargalhando ao meu lado.
Fiz uma carranca.
Ah, qual é?Eu tentei ser amigável, você não permitiu. Ao invés disso, foi muito grosso por sinal. Então, você pediu barraco, eu lhe dei.
–Você não me deu nem a chance de ser legal com você. –Eu disse, ainda caminhando ao lado dele, embora quase estivéssemos na parada de ônibus e a chuva estivesse quase cessada.
–Então, você está me devendo uma. –Ele disse analisando a minha expressão de horror.
O QUE?! Você que faz as merdas e eu que levo a culpa? Eu queria era quebrar a sua cara linda.
O QUE?! Eu pensei mesmo nisso? – “Linda”? – Mas que diabos há comigo?
Balancei a cabeça espantando esses pensamentos loucos.
–Como assim, você que me faz passar vergonha com a sua estupidez e agora eu que te devo uma? –Disse bufando de raiva, fazendo a minha franja se arrastar para cima da minha testa.
Ele não respondeu nada. Só apontou para o guarda chuva e colocou o dedo indicador sobre os meus lábios, indicando que eu deveria ficar quieta e aceitar a situação.
MAS QUE DROGA!
–Olha, garoto, você conseguiu me irritar hoje! –Disse me desvencilhando do guarda-chuva, dando-me por convencida que a chuva havia acabado.
–Mas pra te irritar não precisa muito não é estressadinha? –Disse ele em tom irônico, franzindo os lábios para o lado direito, dando o contorno de um sorriso irônico.
Ah, aquela pintinha...
–Vá se catar, Alex. –Eu disse avistando o meu ônibus, dando graças a Deus, por me livrar dele em daqui a pouco.
Esperei o ônibus parar e embarquei no mesmo. Procurei uma poltrona do mesmo lado o qual eu estava com Alex, na parada de ônibus.
Já estava sentada e o ônibus não havia dado a partida, quando eu olhei para a parada de ônibus e Alex estava abanando sua mão em minha direção.
Mesmo com raiva dele, eu abanei de volta.
E, foi ali dentro do ônibus que eu reparei em suas roupas: Uma calça preta que estava bem colada à suas pernas, tinha um cinto envolvendo a sua cintura fina, o qual era preto e tinha uma corrente prata que fazia o formato de um “U” passando por um ponto de sua cintura, ia até certo ponto de seu fêmur e ia até próximo de suas costas, parando em sua cintura de novo.
Sua camisa era social, mas estava desabotoada até certo ponto, fazendo com que eu pudesse ver uma camisa branca mais fina por cima de seu peito. Seu cabelo tinha algumas gotas de água, deixando-o mais charmoso ainda.
E, claro... Ele usava nos pés um tênis lindo todo preto, com cadarço branco. Ele era brilhoso e reluzente por toda a sua extensão. E, claro o tênis era um All Star.
Assim que o ônibus deu partida, me lembrei de que tinha que conversar com Rui hoje à noite.
*Flashback off*
E, agora aqui estava eu descarregando esses pensamentos na minha guitarra preta, a qual eu tanto amava.
Já fazia alguns dias em que eu não trabalhava, mas amanhã apareceria por lá sem falta.
Quando me cansei da guitarra, tomei um banho delicioso e coloquei um vestido preto e velho que eu tinha. Para acompanhar, coloquei chinelos de dedos, porque não tinha nenhuma vontade de me arrumar.
Desci as escadas na geladeira da cozinha encarei mais uma vez o bilhete que minha mãe havia deixado.
“Filha vou à casa de uma amiga terminar um projeto do trabalho, não volto hoje.
Fique à vontade e faça o que quiser.
Beijos, te amo.”
Minha mãe havia vindo mais cedo para casa, obviamente e deixou esse bilhete. Ela é arquiteta, trabalha em uma empresa renomada, mas seu salário ainda era muito baixo. A ponto de me fazer ter que trocar de escola.
Meu salário mal dava pras minhas coisas como: roupas, sapatos e livros.
Por isso, ainda estava à procura de outro emprego, assim eu teria dois.
Decidi por fim, pegar uma maçã na fruteira em cima da mesa e voltar ao meu quarto, pois já estava quase na hora de entrar na internet pra falar com o Rui.
O que na verdade, alguma coisa dentro de mim estava dizendo que aquilo seria uma droga. Não sei por que, mas estava me sentindo incomodada com essa situação.
Quando já estava sentada na minha cadeira e ligando o computador, senti meu celular vibrar sobre o minha cômoda.
Avistando o número que aparecia na tela, arregalei os olhos.
–Fredi? –Disse com a voz sufocante.
–Oi Téfi, como está? –Perguntou com uma voz melosa.
–Bem e você? –Perguntei, tentando desconversar e distraí-lo das lembranças da última vez que nos vimos.
–Sabe... Não muito bem, mas vou indo... –Ele disse do outro lado dando uma risada fraca. – Mas gostaria de saber por que não está indo à escola? –Ele perguntou.
Imaginei-me com uma corda no pescoço, prestes a morrer a qualquer fração de segundo pelo meu melhor amigo.
–E-e-eu –Comecei, gaguejando e me odiando por isso na mesma hora, pois ele iria desconfiar do nervosismo que agora se instalara em minha voz – Eu estou com alguns problemas, mas em breve irei – Disse finalmente, esperando que ele não perguntasse mais nada.
–Tudo bem, então. Achei que você não estivesse indo, hum... Por mim, sabe... Por causa da nossa conversa. – Ele disse e eu senti o peso de culpa em sua voz.
–Não, meu amigo, não é nada disso. –Disse com a voz embargada e os olhos marejados. –Um dia você entenderá.
–Tudo bem... Qualquer coisa que precisar, é só me ligar. –Ele afirmou, com a voz triste.
–Tudo bem, Fredi, agradeço muito. –Disse esperando que ele desligasse o telefone. Queria desabar sozinha.
–Tchau, Téfi.
–Tchau, Fredi.
E senti a linha solitária, nem mesmo a sua respiração eu conseguia ouvir.
E senti meu coração solitário, também.
Eu era uma vadia intragável que mentia para o melhor amigo, não conseguia amá-lo suficientemente para corresponder o seu amor.
Balancei a cabeça desviando esses pensamentos e fui para a internet, para completar o meu papel de vadia.
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Pessoal, aqui embaixo vai uma foto do Alex, espero que gostem!

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