Sem Você (Eu Sou Um Desastre)
1 Parte um.
Notas iniciais
Rabisquei a lista, fiz uma bolinha de papel e me livrei dela.
De um modo geral, nos últimos oito anos, não há muita coisa que eu tenha feito na minha vida além de ser algo entre uma pessoa normal e uma estrela do rock. Exceto que eu nunca fora muito normal.
Você imagina que a vida de um cara de vinte anos é uma maravilha. Quero dizer, você não tem que fazer nada além de ser legal e ficar o dia todo pra cima e pra baixo com a sua namorada. Acontece que, pra mim, esse estereótipo não valia de nada.
Naquela manhã, quando eu e meu gêmeo pegamos o avião de volta para a Alemanha, eu estava pensando em como a minha pseudo-vida era uma merda. Enquanto ele se sentava distraidamente ao meu lado e colocava os fones no ouvido, eu apenas permaneci lá, com a minha solidão de sempre. Porque, bem, não era nem um pouco comum que eu ficasse sozinho, nem um segundo sequer, mas isso não queria dizer que eu não pudesse me sentir sozinho, coisa que era comum acontecer na maior parte do tempo. Eu imaginava que voltar para a Alemanha nessas férias poderia ser uma coisa legal, passar um tempo com a família e tudo o mais, mas o avião nem tinha pousado e eu já estava pensando que fora uma péssima ideia.
A verdade era que eu estivera tendo muito sucesso em esconder de todo e qualquer ser vivo da face da Terra (até mesmo eu próprio) o que sentia por aquele cara que estava sentado ao meu lado dentro do avião. De um modo ou de outro, não é o tipo de coisa que você conta pra ninguém, mesmo. Isto é, além da coisa religiosa e tal por trás disso tudo, tem também a parte legal. Eu não acreditava muito em Deus, mas com certeza acreditava em cadeia. O problema era que, de uns tempos pra cá, eu vinha começando a falhar na arte de fingir estar tudo bem e passar alguns dias confinado em uma casa com ele não ia ajudar nem um pouquinho. Percebi isso quando Tom pegou no sono no meio do caminho e sua cabeça tombou no meu ombro.
Suspirei.
Não havia muito que fazer a respeito, eu já tentara afogar esse sentimento indecente de todas as formas possíveis, mas com nenhuma delas surgiram muitos efeitos. No começo, eu esperava que fosse somente alguma maluquice minha, que ia passar logo, logo, que era coisa de hormônios... e me senti muito sujo por causa disso, mas quando – alguns anos depois – não passou, eu percebi que tinha alguma coisa muito errada. Quero dizer, éramos gêmeos idênticos, com certeza, aquilo era ridículo. Mas eu não podia fazer muito mais agora. Talvez, se eu houvesse tentado abrir os olhos e percebido como eu estava errado desde o início ao invés de ignorar e esperar que passasse, as coisas estivessem mortalmente diferentes. Mas não. A única coisa que eu podia fazer agora era tentar esquecer.
Comecei a cogitar a ideia de deixar Tom em casa e ir para um hotel quando o avião pousou na Alemanha; ele ainda estava dormindo no meu ombro e eu lamentei ter que acordá-lo, mas tinha que fazer isso. Se dependesse de Tom, poderíamos ficar ali até o avião levantar vôo outra vez e só ia acordar quando estivéssemos de volta à Los Angeles. Revirei os olhos e tirei um dos fones do ouvido dele.
- Tom, chegamos. – Sussurrei, assoprando-o. Ele abriu apenas um dos olhos, me encarou e voltou a fechar, se aconchegando ainda mais no meu ombro. Bufei. Como, por Deus, eu poderia esquecê-lo, se ele não conseguia entender que perfeição tem limites? – Acorda logo, vamos!
Chacoalhei o ombro e ele me abraçou para que eu ficasse quieto. Bufei. Ele riu.
- Bom dia, Bius! – Disse ele, me soltando e se espreguiçando.
- Bius é o caramba. – Respondi, ficando de pé e agarrando minha mochila. – Levanta logo essa bunda gorda daí e vamos embora que eu estou moído!
- Já estou indo, calma! – Disse ele, pegando a mochila das minhas mãos e pendurando no ombro. – E minha bunda não é gorda. Ela é gostosa, o que é muito diferente.
Revirei os olhos, concordando mentalmente.
- Certo, então leve-a para fora do avião, sim?! – Respondi, empurrando-o na direção da saída.
Tentamos passar despercebidos enquanto pegávamos nossas malas e saíamos do aeroporto. Tom estava chamando um táxi quando meu celular tocou.
- Bill? É o Jost.
- Oi, David. – Respondi, me apoiando no carrinho das malas enquanto observava Tom voltar em seu passo irritantemente calmo e despreocupado. Tive que desviar os olhos dele para me concentrar no que David estava falando.
- Onde vocês estão? Correu tudo bem? – Perguntou ele. Eu quase podia vê-lo andando de um lado para o outro com o telefone preso entre a orelha e o ombro, agrupando papéis e CDs virgens.
- Sim. – Respondi. – Tom acaba de nos conseguir um táxi. Ninguém nos reconheceu até agora, mas se ele continuar andando com aquele passo de tartaruga, não vou me admirar, se alguém o fizer. E ainda vai dar tempo de chamar toda a imprensa e lotar o saguão.
- Não diga que não avisei! – Disse David soltando uma risadinha pelo nariz – Eu disse pra vocês esperarem os seguranças, mas vocês são dois cabeças duras!
- Não se preocupe, vamos nos ajeitar. – Respondi revirando os olhos quando Tom parou ao meu lado e começou a puxar o carrinho em direção ao táxi. Desencostei da geringonça e o segui de perto. – Era só isso?
- Na verdade, não. Bill, lembra quando eu disse que deveríamos ter ligado antes para os seus pais e vocês insistiram em chegar de surpresa?
- O Tom quis chegar de surpresa. – Corrigi-o – E daí?
- Bem, sua mãe me ligou à uma hora dizendo que ela e Gordon iam visitar a família em Magdeburg.
- O que? – Gritei e escutei quando David derrubou o telefone. – Desculpe – Acrescentei, quando ele o pegou de volta. Tom arregalou os olhos ao meu lado, a meio caminho de colocar uma mala absurdamente grande no porta-malas do táxi. Coloquei uma mão em seu ombro como pedido mudo para que esperasse. – Como assim, David? Isso quer dizer que eu e Tom viemos para nada? Vamos ter que pegar outro avião e...
- Não, não. É melhor vocês dois ficarem por ai. Aqui está um caos, cartas, e-mails e telefonemas chegam a todo momento por que alguém disse que viu a namorada do Georg. E todo mundo sabe que o Georg não tem namorada! Tem noção de como isso aqui está hoje? Fiquem por ai, sua mãe disse que deixou uma cópia da chave com a empregada. Descansem, tomem um ar, componham uma música, sei lá. Mas não voltem agora, por favor!
- Certo. – Respondi com um suspiro. – Vou conversar com Tom, qualquer coisa, voltamos a te ligar. Obrigado por avisar.
- Por nada. – Respondeu David, logo depois gritando com alguém e desligando o telefone.
- O que aconteceu? – Perguntou Tom. – Posso colocar a mala no carro?
- Pode. – Respondi com um sorriso mínimo.
Tom terminou de colocar a mala no porta-malas do táxi e entramos.
- E então? – Perguntou.
- Simone e Gordon estão em Magdeburg. – Respondi colocando uma mão no seu joelho de leve. Sabia como ele planejara aquela surpresa e temia que ficasse desapontado, mas ele apenas sorriu e pegou minha mão.
- Tudo bem. – Disse ele. – Desse jeito temos mais tempo para descansar.
Abri a boca para dizer que talvez eu devesse ficar em um hotel, mas não consegui, então a fechei e dirigi o olhar para fora da janela do táxi. Eu sabia que, se ficasse lá, provavelmente ia me magoar, mas se não ficasse, ele ficaria magoado.
Era uma coisa estranha, mas o que eu estivera fazendo durante todos esses anos se não fingir que estava tudo bem?
A casa continuava quente e espaçosa, exatamente como eu me lembrava. Cada móvel em seu lugar, cada porta retrato devidamente disposto sobre a lareira.
A primeira coisa que fiz foi arrastar minhas malas para o andar de cima enquanto Tom conversava – sobre qualquer coisa que fosse – com a empregada. Parei em frente à porta do meu antigo quarto e sorri. Finalmente paz, finalmente casa, finalmente eu poderia...
Então percebi que me enganara sobre tudo estar como eu me lembrava. Abri a porta do quarto e me deparei com uma infinidade de instrumentos musicais espalhados e apenas um sofá branco que antes pertencia ao meu quarto permanecia no mesmo lugar.
- Que diabos?! – Praguejei, indo até a porta diretamente à frente, onde costumava ficar o quarto de Tom, já preparado para encontrar, sei lá, uma base intergaláctica, mas ele continuava exatamente igual; o velho violão encostado à porta do closet, a cama box exageradamente grande, as cortinas pesadas.
Fui até a outra porta. Eu ia mesmo ter que dormir no quarto dos meus pais? Bufei e girei a maçaneta.
Trancada.
Arregalei os olhos e parei, tentando ter algum pensamento racional. Eu não estava acreditando, mas parecia que eu ia ter que dormir na sala dessa vez.
Deixei minha mala no quarto de Tom, apenas para não ficar no meio do corredor, e desci as escadas batendo os pés. Era só o que me faltava!
Pulei por cima do encosto do sofá, me sentei de braços e pernas cruzados e fiquei encarando a parede até Tom finalmente deixar a empregada onde quer que ela estivesse e entrar.
- Bill? – chamou ele. Sua voz parecia vir da cozinha.
- Estou aqui na sala! – Respondi, sentindo meu rosto se contorcer num bico irritado.
- Oi. Seguinte, dispensei a empregada. – Disse ele, todo animado. Cogitei acabar com a graça dele, mas ele continuou falando antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. – Acho que podemos nos virar sozinhos esses dias.
Engoli em seco ante a perspectiva de passar os dias completamente e apenas com Tom, sem nem uma viva alma para contar a triste história de Bill Kaulitz, o garoto que amava o irmão gêmeo. Bufei pela enésima vez naquele dia.
- O que foi? Você não disse que ia desfazer a mala? – Perguntou Tom, sentando-se do meu lado e pegando meu “bico” entre os dedos médio e indicador.
— Eu ia. – Respondi, batendo em sua mão para afastá-la. – Mas parece que Gordon transformou meu quarto em um estúdio particular.
- Isso quer dizer que você vai dormir no quarto dele? – Perguntou Tom, erguendo uma sobrancelha; provavelmente sabia que tinha alguma coisa errada com essa alternativa também. Parecia simples demais para eu estar ali embaixo emburrado.
- Trancado. – Falei com um suspiro. – Isso quer dizer que eu vou ter que dormir na sala! Eu odeio ter que dormir na sala, esse sofá é lindo, mas não é nada confortável.
- Você pode dormir no meu quarto, se ele também não houver sofrido alguma mudança drástica. – Disse Tom com um sorriso. Por um momento, me perdi naquilo, mas retomei a consciência mais cedo do que esperava.
- Não seja idiota, eu disse que esse sofá é horrivelmente desconfortável, não vou dormir na sua cama e deixar que você durma aqui só porque meu quarto está ocupado. – Respondi descruzando os braços.
- Bius, nós podemos dividir o quarto, certo?! Ele é grande o bastante. – Acrescentou ele quando arregalei os olhos. A questão era que eu podia suportar passar alguns dias sozinho com ele (porque ele provavelmente nem iria parar em casa), mas dormir no quarto dele? Com ele? Como quando éramos crianças? Eu achava que não ia aguentar.
Desviei o olhar para qualquer lugar longe o bastante dele.
Tom ligou a TV e se sentou no chão, diretamente à minha frente, apoiando a cabeça nas minhas pernas que eu mantivera cruzadas. Eu não consegui reprimir o impulso de tocar-lhe as rastas e fazer o contorno delas com a ponta dos dedos. Quando me dei conta, ele havia inclinado a cabeça para trás e meus dedos estavam seguindo a linha de sua testa, despenteando sua sobrancelha espessa e contornando seus olhos.
Essa era a pior parte em amar Tom: ele também me amava (embora de uma maneira bem diferente). Tudo estaria bem, no entanto, se ele não tivesse o incurável habito de deixar esse fato bem claro sempre que possível, fosse me abraçando e fazendo coisas pra mim, ou só dizendo o quanto me amava e como era orgulhoso de ser meu irmão; se quer saber, era um inferno. Isso porque eu sempre acabava me metendo em situações embaraçosas como essa, em que a única coisa que eu desejava era dizer a ele o quanto o amava – de outra maneira – e acabar com toda essa farsa de uma vez por todas. Mas, novamente, limitei-me a me curvar todo em sua direção e beijar sua testa, fazendo-o rir e voltar a atenção para a TV.
Suspirei e me levantei, pulando o encosto do sofá novamente.
- Aonde você vai? – Perguntou Tom, virando-se para me olhar.
Parei para refletir a respeito. Normalmente, eu iria para o meu quarto, mas digamos que eu estivesse um pouco... desprovido de quarto, no momento.
- Eu ia pro quarto. – Respondi com um suspiro alto, parando de chofre no meio do caminho entre o sofá e a escada. Tom riu.
- Fique aqui comigo, então.
- Mas... – Murmurei, tentando pensar em uma desculpa convincente. Eu não queria ter que ficar tão perto dele. Eu estava a fim de respirar e descansar nessas férias, mas estava sendo difícil, difícil mesmo. E não tinha passado nem um dia ainda! – Mas eu não estou a fim de ver TV. Quero dizer, fizemos isso todos os dias durante a turnê, então acho que vou dar uma volta para espairecer um pouco.
- Eu vou com você! – Gritou Tom, sorrindo daquele jeito encantador que eu não conseguia imitar (maldito gêmeo defeituoso eu era!), antes que eu pudesse dizer “e estou indo sozinho”.
Dei de ombros. Isto é, fica um pouquinho difícil não se apaixonar pelo seu irmão se ele simplesmente não te dá uma folga!
Saí de casa a passos largos, mas calmos, enquanto Tom trancava a casa. Quando me alcançou, começou a andar do meu lado com as mãos nos bolsos, daquele jeito largado e característico dele e no passo de lesma habitual. Revirei os olhos.
Eu implicava, mas no fundo gostava desse jeito descontraído que ele tinha para tudo. Ele era como um raiozinho de sol num dia cinza, alegrava tudo em que tocava e contagiava tudo à sua volta – ao contrário de mim –, então era muito fácil saber quando algo o incomodava. Como naquele momento. Não tinha nada a ver com a nossa conexão gêmea, eu simplesmente sabia que alguma coisa não estava certa, de repente. Qualquer um que passasse com ele tanto tempo quanto eu passava, saberia na hora; ele tinha fechado a expressão de um momento para o outro.
- Tom, você está bem? – Perguntei, logo depois me irritando com minha própria pergunta pateticamente óbvia. – Quero dizer, o que diabos pode estar errado? Acabamos de chegar, não tem como alguma coisa já estar aborrecendo você, a não ser que eu tenha...
- Não... – Me interrompeu ele, tão baixo que se tornaria inaudível. Exceto que eu ouvira; eu sempre ouvia. Não porque eu tivesse ouvidos muito bons nem nada, mas era porque era Tom. Eu tinha essa coisa maluca que me obrigava a me calar e ouvir quando ele estava falando alguma coisa. Suspirei e toquei seu braço de leve com as pontas dos dedos.
- Vai ficar tudo bem, seja lá o que for. – Falei. Ele sorriu pequeno e pegou minha mão, me guiando em direção à pequena praça do outro lado da rua.
Sentamo-nos em um dos bancos e eu agradeci mentalmente que ainda não estivesse nevando, então eles estavam relativamente secos. Tive que me encostar mais ainda em Tom, tentando aplacar o vento gelado. Ao mesmo tempo, era bom e ruim. Bom porque era ele e ruim porque alimentava meu desejo doente. Suspirei.
- Bill. – Sussurrou ele, ainda com a minha mão entre as suas. Olhei em seu rosto e quase me senti corar. Ele estava tão perto! – Você já se apaixonou?
Meu estômago afundou. Por que eu ainda tinha esperanças? Eu me fazia essa pergunta todos os dias, mas a resposta era sempre a mesma: eu não podia evitar, meu coração era um completo idiota, mesmo. Respirei fundo, desviando meu olhar.
- Sim. – Respondi baixinho. Ele apertou minha mão.
- Qual é a sensação? – Perguntou Tom e pude sentir a curiosidade em seu tom de voz.
Parei para pensar no que responder e milhares de imagens se passaram na minha mente.
- Bem, primeiro seu peito infla e parece que vai explodir, eu acho. – Respondi, olhando para as árvores totalmente sem folhas e os poucos tufinhos de grama amarelados perto dos bancos da pracinha. – Depois, você acha que está doente porque não consegue controlar seus pensamentos, e sua frio e se sente um idiota, você acha que pode morrer e então... acaba. – Completei, dando de ombros.
Tom arregalou os olhos e me observou confuso.
- Só isso? – Perguntou ele. Suspirei.
- Só isso.
- E acaba assim, sem mais e nem menos?
- Sim. – Respondi.
- Mas... – Tornou ele, parecendo indignado; era quase cômico. – E toda aquela história sobre faltar o ar, encher o coração de alegria e não poder suportar um dia longe da pessoa? Isso tudo não é sintoma de apaixonado?
- Creio que não. – Falei, entendendo o que ele queria dizer. – Esse tipo de coisa não tem nada a ver com paixão. Você só fica sem ar quando está perto da pessoa que ama.
- Então... – Recomeçou Tom, brincando com meus dedos. Eu estava com medo de onde essa conversa ia dar. – Você já sentiu isso?
- Sim. – Repeti pateticamente, meu peito se apertando incomodamente.
- E como é isso?
- Por que quer tanto saber? Pensei que não acreditasse nessa coisa de amor!
- É só que... eu só estou...
- Você sente como se não tivesse entranhas. – Comecei, interrompendo-o e tentando colocar em palavras o que eu sentia... quando estava perto dele. Era horrível ter que dizer isso a Tom sem realmente dizer a ele. – E seu coração fica tão apertado quando você está longe dessa pessoa que parece que ele resolveu tirar umas férias, mas deixou um rastro no seu peito que incendeia tudo por dentro. E quando você está perto dessa pessoa, ele acelera, ele pulsa tão forte que parece que tem força o suficiente para rasgar o seu peito. Todo o ar disponível parece ser insuficiente e seu rosto parece que poderia congelar em um sorriso. Ao mesmo tempo, há uma dor tão grande que te faz sofrer em agonia, só de ver aquela pessoa com outra, você sente que vontade de quebrar tudo, mas parece estar preso por correntes que não te deixam se mover nem raciocinar logicamente. Você quer guardá-la dentro de si para sempre, pra nunca correr o risco de perdê-la e, simultaneamente, você quer vê-la feliz. Na maioria das vezes, essa pessoa parece que só vai ser feliz longe de você e então você tem que deixá-la ir. A dor é tão grande que, assim como quando está apaixonado, você pensa que pode morrer, se sente tão idiota e tão sem ar e quer mais que tudo que essa pessoa esteja com você... Ela nem sempre está lá, mas você continua esperando que ela esteja, que ela volte, que ela sinta e te ouça. E você vai deixá-la livre, mesmo que isso te mate. E você vai continuar a amá-la, mesmo que isso deixe seu peito em frangalhos. Isso é que é o amor, Tom. É sofrer, perder e sentir dor.
Quando terminei, senti meu nariz arder e segurei uma lágrima. Eu estava ali e sabia que tudo o que eu dissera era verdade. No meu caso, eu achava que era ainda pior, mesmo que esse pensamento fosse egoísta. Então eu deveria deixá-lo ir, mas ele nunca iria de verdade, ele estaria sempre ali, nos arredores, sendo feliz... sem mim.
Tom me abraçou. Eu sabia que ele estava fazendo aquilo porque tinha consciência de que eu me emocionara e, embora achasse bastante gentil de sua parte demonstrar compaixão, eu desejei por um momento que ele desaparecesse. Eu nunca tivera esse tipo de pensamento, mas de repente eu queria que ele me deixasse sozinho, que ele fosse embora de uma vez por todas, que ele me deixasse em paz, que ele encontrasse alguém e saísse da minha vida. Eu desejei isso, mas sabia que era um pedido em vão. Isso nunca ia acontecer. Infelizmente, minha sina era carregar esse pecado para o resto da minha vida, sem poder, de fato, me livrar dele, sem poder nem ao menos dizer em voz alta.
Desvencilhei-me de seus braços da maneira mais sutil que consegui, tentando não parecer ingrato, e desviei meus olhos mais uma vez para tão longe quanto possível.
- Você entendeu a diferença? – Perguntei baixinho, meus dedos ainda presos aos dele como no início.
- Sim, obrigado. – Ele sussurrou, puxando minha mão. – Devemos voltar?
- Acho que sim. – Respondi, ficando de pé. Tom soltou nossas mãos e eu finalmente olhei para ele, notando ainda aquele olhar que dizia que havia alguma coisa errada, mas eu acreditava naquilo que eu dissera para ele: “tudo ia ficar bem, independente do que fosse”.
Voltamos para casa no mesmo passo lento. Tom ainda mantinha as mãos dentro dos bolsos e eu caminhava devagar, tentando conter a enxurrada de pensamentos que me acometiam e esquecer as lembranças que eu tivera. Já que íamos passar tanto tempo juntos, pelo menos eu deveria tentar torná-lo o mais agradável possível.
- Já pensou no que vamos fazer para almoçar? – Perguntei, tentando desviar o clima para algo mais leve. Tom pareceu ficar aliviado com a mudança de assunto. – Porque você dispensou a empregada, então sobrou para nós, não é?! Como nos velhos tempos!
- Pois é. – Disse Tom, rindo; de repente, estacou e estreitou os olhos na minha direção. – Que tal aquela macarronada com molho rosé que você costumava fazer antes?
- Como é que é? Tá querendo deixar a responsabilidade do almoço nas minhas costas? Foi você que dispensou a empregada, bonitão!
- Ah, Bius, deixa de ser chato, vai! – Disse Tom, me abraçando pelos ombros e me chacoalhando enquanto eu tentava destrancar a porta de casa. – Faz séculos que você não faz uma refeição digna pra mim.
- E por que eu deveria? – Perguntei, contendo o impulso de dizer “não sou sua esposa nem nada, pra ficar fazendo comidinha pra você!”.
- Porque você me ama e eu estou pedindo por favorzinho, irmãozinho do meu coração!
- Você é muito interesseiro! – Respondi, empurrando-o para o lado. – Tá certo. Eu faço essa birosca aí, mas que fique claro que é a primeira e a última vez que eu vou encostar minha barriga no fogão nessas férias, tá ouvindo bem? E você vai ter que fazer chocolate quente à noite, se não, nada feito!
- Fechado! – Disse ele, me abraçando novamente de um modo que poderia ter me partido em dois e beijando minha bochecha. – Cuide disso enquanto eu vou desfazer nossas malas!
E, dito isso, ele saiu correndo escada acima.
Revirei os olhos e respirei fundo, entrando na cozinha. Encarei as panelas e o fogão, pensando em que merda eu fora me meter, mas agora não tinha mais como escapar. Além disso, só de pensar no chocolate quente do Tom com esse friozinho, já era um ânimo novo!
— Mão à obra!
Já era quase meia-noite e eu e Tom estávamos esparramados na sala, tomando chocolate quente em frente à lareira, falando sobre como mamãe e Gordon deveriam estar naquele momento, provavelmente na casa da nossa tia-avó Berta, aguentando um falatório imenso sobre como os jovens de hoje em dia não se preocupam mais com nada ou sobre como eu e Tom estávamos magros, de acordo com aquela revista adorável que ela comprava na banca da esquina todos os dias. Fato que só ela achava o fanzine adorável. Rimos sozinhos de nossos pensamentos.
Era legal estar com Tom apenas sendo irmãos, sem nos preocupar em sorrir o tempo todo pra cada câmera ou esconder o máximo que podíamos de tudo dos paparazzi. Ser famoso era legal, mas manter a imagem era cansativo.
Naquele momento, no entanto, estávamos apenas ali, sendo Bill e Tom e nada mais, sozinhos como muitas vezes ficávamos desde sempre, apenas curtindo um a companhia do outro, sem nos preocupar com nada além do frio. Eu passara o dia todo pensando em como aquelas férias seriam as piores férias dos últimos dez anos, mas agora estava começando a mudar de ideia. Enquanto ajudava Tom a desfazer as malas depois do almoço, eu percebi como eu me apegara a algo que eu deveria saber que era impossível e decidira ignorar esse sentimento idiota, como eu fizera no começo. Percebi que meu maior erro não fora me apaixonar pelo meu irmão e sim esperar que ele também se apaixonasse por mim.
Quero dizer, gostar de Tom era fácil: bonito, descontraído, talentoso, engraçado, gostoso... Já comigo, a coisa era diferente. Talvez eu fosse bonito, muito provavelmente havia pelo menos uma centena de garotas que morreriam se eu as pedisse em casamento, mas me aguentar é que era o bicho. Eu era chato, sistemático, perfeccionista, barulhento, desastrado e, acima de tudo, ignorante.
Olhei para Tom e me perguntei como ele conseguia me aguentar. Então, o pensamento passou pela minha cabeça: talvez ele não me aguentasse. Talvez ele estivesse ali, agora, só pelo laço fraterno que nos unia. Talvez fosse só por obrigação.
No entanto, ele poderia convidar qualquer pessoa para ficar ali com ele durante esses dias ou ir para onde ele bem entendesse, mas estava ali comigo, deitado no tapete e tomando chocolate quente, rindo de idiotices e falando besteiras. Suspirei mais uma vez, encarando o fogo bruxuleante.
- Hey, acho melhor irmos dormir. – Disse Tom, pousando a caneca vazia em cima da mesinha de centro.
- É uma ótima ideia. – Respondi.
Deixamos as xícaras na sala, subimos as escadas calmamente e fomos até o banheiro do quarto de Tom juntos para escovar os dentes.
Enquanto colocava a pasta de dentes na escova, senti Tom me observando, mas resolvi ignorar e só olhei para ele através do espelho.
- O que foi? – Perguntei para seu reflexo.
- O que foi o que?
- Por que está me olhando desse jeito?
- Eu estava me lembrando de como era quando dormíamos no mesmo quarto e toda noite escovávamos os dentes no banheiro que ficava no fim do corredor da casa de Leipzig. Lembra-se do beliche e de como brigamos por causa dele? – Disse Tom com dificuldade, rindo com a escova entre os dentes. Cuspi a pasta na pia e ri da cara dele. – E naquela vez do acampamento, que a gente ficou longe um do outro por uma semana inteira? Foi um desastre, você lembra?!
- Isso faz quase dez anos, Tom. – Respondi, tentando não deixar minhas lembranças vagarem para aquela semana sombria.
- Você se lembra? – Insistiu Tom, colocando água na boca e cuspindo de volta na pia. Guardei a escova e a pasta, tentando adiar a resposta. Tom me cutucou.
- Eu lembro. – Respondi, saindo do banheiro e indo direto para a cama, sem olhar para Tom. Deitei e fiquei de costas, encolhido no canto mais distante possível.
Um momento depois, senti a cama afundar ao meu lado e Tom bufar.
- Bius, para de graça! – Disse ele, agarrando meu braço e me puxando para mais perto de uma vez só, o que fez com que meu cabelo todo fosse parar na minha cara. Tom riu, afastando-os dos meus olhos enquanto eu lhe lançava um olhar mortal. – Boa noite, Billa. – Acrescentou, me dando um beijo na testa.
Me senti corar e agradeci mentalmente que ele se virasse de costas.
- Boa noite. – Sussurrei. –... Tomeh.
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