Sem Tempo para o Amor
23 Retorno ao Lar
Notas iniciais

SEM TEMPO PARA O AMOR
⏳
CAPÍTULO XXII – RETORNO AO LAR
— Ah, lar doce lar! Como é bom estar de volta, ainda que essa seja apenas a segunda vez que eu esteja aqui. – Comenta Hillary, abrindo os braços assim que para na sala de estar do apartamento. Acabo rindo de seu entusiasmo. Ela olha em volta e se vira para mim. – E eu ainda não sei se vou me acostumar com o tamanho desse lugar.
— Bom, eu ainda não me acostumei. Mas o que eu posso dizer? Eu só moro aqui há quatro dias. – Respondo, dando de ombros. Dessa vez é Hillary quem ri. Ela suspira e se aproxima das petúnias que continuavam no lugar que ela havia deixado. – Estou tentando cuidar delas de acordo com as instruções da florista da loja onde eu as comprei.
— Elas são tão lindas. – Sussurra, acariciando delicadamente as pétalas das flores.
Sorrio, colocando as nossas coisas sobre um dos sofás e me aproximo. Ao lado de Hillary, encaro a bela vista da cidade. De todos os detalhes daquele luxuoso apartamento, as janelas da sala de estar eram de longe a minha decoração favorita. Eu não me cansava de observar Hawkins e todas as suas deslumbrantes luzes.
Daquele horário, em especial, era possível ver o sol se pondo e o céu banhando a cidade com suas aquarelas. Era uma visão de tirar o fôlego. E a situação se tornava ainda mais mágica ao ter minha esposa ao meu lado, após passar longos e intermináveis três dias longe dela. Eu sentia como se um peso tivesse sido tirado de meu coração.
Não fazia sentido algum. Só estamos casados há seis dias, mas eu a sensação que eu tinha era a de que nos conhecíamos a nossa vida toda. Esse sentimento se tornava ainda mais irracional se pensarmos que antes de nossa viagem para Las Vegas e do acidente onde ela salvou a minha vida, nós não conseguíamos trocar mais do que uma ou duas palavras.
— Essa vista é incrível. – Comenta Hillary, abraçando-me por trás. Sorrio e a encaro por cima do ombro. Ela então rodeia o meu corpo até parar de frente para mim. – Parece que estamos sozinhos no mundo.
— Sim. Acho que é isso que torna esse lugar tão especial. – Afirmo, apertando ainda mais o nosso abraço. – Todas as vezes em que eu me sentia sozinho durante esses dias em que esteve longe, eu gostava de vir encarar essa paisagem. O brilho das luzes da cidade me lembra galáxias, assim como os seus olhos.
— Gosto quando diz que meus olhos parecem galáxias. – Murmura Hillary, erguendo ficando na ponta dos pés. Ela então me beija calmamente e sorri ao fim. – Eu te amo.
— Eu também te amo. – Declaro, sentindo meu estômago se revirar e meu coração bater como um louco em meu peito. Ela me abraça apertado e vira o rosto para continuar encarando a paisagem.
Permanecemos mais alguns minutos abraçados, observando, em um silêncio confortável, a noite dar seus primeiros sinais de vida, assim como as luzes se acenderem. E eu acho que nunca me senti tão completo como naquele momento.
— Você ficou todos esses dias sozinho nesse apartamento? – Pergunta Hillary, quebrando o silêncio entre nós. Ela se afasta e vai até o interruptor da sala de estar para ligar as luzes, já que estava escurecendo.
— A maior parte do tempo, mas a sua mãe e a minha vieram algumas vezes para cuidar da nossa mudança. – Respondo, sentando-me no sofá. Acabo dando uma risada anasalada ao lembrar da animação das mulheres ao saber que daríamos continuidade ao nosso casamento e que moraríamos naquele luxuoso apartamento. – Eu nunca vi duas mulheres realizarem duas mudanças tão rapidamente quanto nossas mães.
— No mínimo estavam com medo de que mudássemos de ideia. – Supõe Hillary, sentando-se ao meu lado. Ela então se deita com a cabeça em meu coloco e eu passo a acariciar seus longos cabelos negros, sem esconder o sorriso idiota em meus lábios. – E como ficou a sua casa? Você vendeu?
— Não. Eu vou alugar. Como aqui já tem todos os móveis, deixei na casa e isso deu uma melhorada no valor. Eu até pensei em vender, mas eu me apeguei demais a ela e não acho legal vender imóveis. Ainda que não seja muito, o aluguel dela pode ajudar nas finanças. – Conto e Hillary aquiesce. – E o que fez com a sua casa?
— Bom, a casa era da CIA, na verdade, então deixei nas mãos da Naty. Para a minha mãe, eu apenas disse que era alugada e que ela deveria falar com a Naty para devolver a chave. – Explica, passando a brincar com uma de minhas mãos.
— Entendo.
Um silêncio confortável recai sobre nós, enquanto observávamos a sala de estar. De repente, sinto o olhar de Hillary e a encaro de volta. Ela parecia estar no meio de uma lutar interna intensa. Eu quase podia ver seu cérebro trabalhando compulsivamente em busca de uma resposta e isso desperta ainda mais o meu interesse.
— Shawn... – Começa Hillary, hesitante.
— Sim?
— Eu estive conversando com o Dakota e... bem... eu pensei que talvez... – Ela se levanta e respira fundo antes de me encarar. – Talvez eu esteja sendo um pouco apressada demais ou, eu não sei...
— Hillary. – Interrompo a garota com seriedade, vendo que ela ainda parecia temer me dizer o que se passava em sua mente. – Nós nos casamos. Sei que tudo aconteceu muito intensamente e em um curto período, mas nossos sentimentos são verdadeiros, assim como o nosso desejo de tornar essa união duradoura, certo?
— Certo. – Responde Hillary, dando um tímido sorriso. Pego nas mãos de minha esposa e entrelaço seus dedos nos meus.
— É por isso que se quer dizer alguma coisa, pode me dizer. Não quero que esconda nem fique imaginando quais seriam as minhas reações. Eu quero que nosso relacionamento se desenvolva com muito respeito e confiança. Se você perguntar para mim, eu irei responder com sinceridade. Jamais mentiria para você e espero o mesmo de você. Então não esconda nada de mim. É melhor uma verdade dolorosa do que uma mentira que conforta. Porque por pior que seja verdade, se confiarmos um no outro e trabalharmos juntos, eu sei que seremos capazes de enfrentar qualquer obstáculo. – Digo com sinceridade, encarando seus olhos com intensidade. – Estamos de acordo?
— Sim. – Concorda Hillary, parecendo mais aliviada. – Desculpa. É que eu estive tanto tempo sozinha e tive tantas experiências complicadas com relacionamentos, que não sei como reagir. Tenho medo de acabar fazendo alguma idiotice e você acabar se arrependendo de ter se casado comigo.
— Como eu poderia me arrepender de me casar com a mulher mais brilhante, radiante e encantadora do mundo? – Pergunto e posso ver o rosto de Hillary ganhar uma coloração avermelhada. – Eu não posso apagar o seu passado, Hillary, mas podemos construir um futuro no qual possamos nos orgulhar. Eu quero te apoiar e ser o seu porto seguro para os momentos bons e ruins. Infelizmente, eu não posso te prometer que nunca vou te machucar ou que vou sempre acertar o que dizer. Eu sou humano e tenho muitas falhas. Mas eu prometo que farei o meu melhor para compreender você e me tornarei alguém em que você confie para compartilhar todos os seus medos e inseguranças.
— Você já é. – Garante Hillary, sorrindo emocionada. Ela deixa um beijo demorado em meus lábios e acaricia o meu rosto com a mesma delicadeza que havia usado mais cedo nas pétalas das petúnias. – O que eu fiz para merecer você?
— Eu tenho me feito essa mesma pergunta desde que nos casamos. Acho que eu fui uma pessoa incrível em minha vida passada. Essa é a única explicação para ter conseguido me casar com a supermodelo e superagente Hillary Leblanc. – Sussurro e ela ri, desviando o olhar, parecendo envergonhada. – Mas e então? O que você queria me dizer? No que estava pensando que te fez ficar tão hesitante? E por que estava conversando isso com o tal Dakota e não comigo?
— Está com ciúmes do Dakota? – Questiona Hillary, erguendo as sobrancelhas, enquanto exibe um sorriso divertido nos lábios.
— Primeiro responde as minhas perguntas. – Resmungo, envergonhado. Eu não queria parecer um idiota por estar questionando as amizades de Hillary, mas é que ela fala o tempo todo nesse Dakota. Não tem como não me sentir incomodado.
Hillary me encara por mais alguns instantes e logo cai na gargalhada, parecendo se divertir com a minha cara. Até tento ficar com raiva, mas a risada dela é um dos melhores sons que já ouvi na minha vida, então quando dou por mim, estou admirando a beleza estonteante de minha esposa com uma expressão idiota no rosto.
— Não precisa ficar com ciúmes do Dakota. Para começo de conversa, nós somos amigos há mais de dez anos e ele é gay. Então mesmo que eu quisesse, jamais aconteceria nada entre nós. Depois, acho que ele é a pessoa que mais torce pelo nosso relacionamento. Inclusive, ele não para de me cobrar um encontro entre vocês. Ele quer te conhecer oficialmente, já que ele só te conhece vista e pelas fotos das revistas de fofoca. E bom... ele é meu agente quando eu estou como modelo e meu braço direito quando sou agente da CIA. E como estamos sempre juntos, eu acabo falando muito dele, mas na verdade, ele é como meu irmão mais velho. Nada além disso. Eu juro. – Revela Hillary e eu acabo me sentindo ainda mais idiota. Minha esposa ri e deixa um beijo em minha bochecha. – Você fica fofo com ciúmes.
Ela ri mais um pouco e minha única reação é bufar. Eu sabia que não havia motivos para ficar envergonhado. Não tinha como eu saber que o agente dela, já que ela não havia me contado nada e Clint havia feito questão de fazer um grande mistério só para me deixar mais incomodado.
— E sendo o grande fã de Shills, como ele gosta de nos chamar, Dakota sugeriu que tirássemos uns dias de folga para termos nossa lua de mel. Então eu pensei que poderíamos tirar uma semana para viajar à Seattle para visitarmos minha família materna, onde passaríamos só o fim de semana, e depois irmos para algum lugar que você queira conhecer. O que você acha? Não sei se você consegue tirar esse tempo no seu trabalho...
— Eu consigo. – Afirmo, surpreso com a sugestão de Hillary. Não que eu não tivesse pensado em termos nossa lua de mel, mas imaginei que ela acabaria adiando por causa dos dois empregos que ela possui.
— Mesmo? – Indaga a garota, desconfiada. – Isso não vai te atrapalhar no seu trabalho?
— Não. Eu tenho alguns abonos para tirar. Se eu falar com antecedência com o meu coordenador, eu tenho certeza de que ele não vai se importar em me dar esses dias para viajar. – Garanto e ela assente, lentamente.
— Então você não se importa de... conhecer minha família mesmo que tenhamos nos casado há tão pouco tempo? – Pergunta Hillary, parecendo insegura. – Eu já adianto que meus irmãos mais novos são umas pestes e meus tios podem ser bem inconvenientes.
— Eles agora são minha família também. Então é claro que não me importo de conhecê-los. Na verdade, eu estou ansioso para isso. – Respondo com sinceridade. – Além disso, eu também já estava pensando em nossa lua de mel desde o nosso jantar no dia em que você foi para Londres.
— Eu só espero não estar causando problemas. Pelo que eu vi hoje, enquanto eu te visitei na universidade, você é bastante popular por lá. Não sei se suas alunas vão conseguir ficar tanto tempo longe de você. Principalmente aquela da sala onde você estava dando aula quando eu cheguei. – Comenta minha esposa, surpreendendo-me.
— O quê? Que aluna? – Pergunto, confuso com o comentário de minha esposa.
— Aquela que estava se jogando para cima de você para mostrar um simples caderno. – Responde Hillary como se não estivesse realmente interessada. Encaro-a por alguns instantes e nesse momento percebo que dessa vez é ela quem está com ciúmes. Seguro o riso e resolvo me fazer de desentendido para ver até onde ela iria.
— Que estava se jogando para cima de mim? – Questiono, fingindo não fazer ideia do que ela estava falando.
— Aquela garota de cabelos longos castanhos lisos, olhos grandes pretos, sardas nas bochechas, que usava um gloss que achei exagerado e que tinha grandes seios. – Descreve Hillary, encarando-me com os olhos semicerrado. – Acho que o nome dela era Hannah.
— Ah, a Lana! – Respondo, como se tivesse acabado de me lembrar. Vejo Hillary morder o lábio inferior, visivelmente incomodada. Ela estava tão adorável, que me fazia querer provocá-la. Ainda mais depois de sua provocação quando eu falei sobre Dakota. – Ela realmente ficaria um pouco incomodada, mas ela é assim mesmo. É uma das minhas melhores alunas. Ela é brilhante e bastante dedicada. Tenho certeza de que se tornará uma grande astrofísica algum dia. Lana tem muito potencial e interesse.
— Ah, eu não tenho dúvidas de que ela tem interesse. – Retruca Hillary com o tom levemente irônico. Preciso me segurar para não rir. – E o que você acha dela?
— O que eu acho da Lana? Bem, ela tem se mostrado bastante talentosa desde que entrou para o meu grupo de pesquisa. Graças a ela, tivemos um grande avanço nas pesquisas que estamos desenvolvendo. Acho que ela é uma das alunas mais talentosas que já tive. – Continuo me fazendo de desentendido. Tudo o que eu dizia era verdade, mas também havia a parte onde eu não tinha nenhuma paciência para lidar com o jeito “puxa-saco” dela e por isso, ela trabalhava mais com o meu colega de trabalho do que comigo, então nosso maior contato era apenas em sala de aula.
— Sei. E você acha a Lana bonita? – Insiste Hillary e eu não aguento mais segurar o riso. – Do que você está rindo?
— Está mesmo com ciúmes da Lana? – Questiono e recebo um tapa no ombro como resposta. Isso me faz rir com ainda mais intensidade.
— Para de rir, idiota. – Resmunga Hillary, irritada. – Você é todo popular na UPTECH. As garotas só faltam levantar as saias ao falarem do professor Shawn. E essa tal Hannah parecia atirada demais para cima de você para o eu gosto.
— Lana. – Corrijo e ela me lança um olhar ameaçador.
— Tanto faz! – Exclama, irritada. Ela se levanta e me encara com os braços cruzados. E sendo sincero, ela nunca pareceu tão sexy como naquele momento. O rosto vermelho, os olhos encarando como se fosse me matar a qualquer momento e o bico inconsciente me faziam querer atacá-la. – Hannah, Lana... tanto faz. Ela obviamente está interessada em você.
Hillary pega a bolsa e o casaco dela que eu havia colocado sobre o sofá quando chegamos e apressa os passos em direção ao nosso quarto. Sorrio e não demoro a segui-la. Assim que a alcanço, puxo-a pelo pulso com cuidado e a faço parar de andar antes que alcançasse a porta do quarto.
— A Lana apenas me admira como um professor, assim como todos os outros alunos que você deve ter conversado e falado de mim. Por eu ser mais novo que a maior parte dos professores da UPTECH, eles geralmente se sentem mais à vontade para conversar comigo e tirar suas dúvidas. – Afirmo, aproximando-me de Hillary.
Ela ainda tenta dar alguns passos para trás, mas eu acabo puxando seu corpo mais uma vez e o pressiono contra a parede. Vejo a chama do desejo e da irritação brilhar em seus olhos e isso me faz sorrir. Aproximo meu rosto até ficar a poucos milímetros de seus lábios, sempre com os olhos fixos nos dela. E quando dou a entender que iria beijá-la, aproximo mina boca de seu ouvido.
Posso ver seu pescoço se arrepiar com minha respiração batendo contra sua pele. Ela arfa e aperta a minha camisa, como em um pedido mudo para que acabasse com aquela deliciosamente torturante distância entre nós.
— E mesmo que ela esteja interessada, eu tenho uma mulher incrivelmente sexy em casa e que é capaz de me fazer chegar próximo a insanidade só por ficar três dias longe dela. Então para que eu me daria ao trabalho de dar atenção a ela, quando tudo o que eu amo e desejo está bem diante de mim? – Sussurro e posso sentir o coração de Hillary bater mais rápido.
— Você não joga limpo. – Sussurra Hillary em resposta e eu me afasto para encarar os olhos cheios de desejo de minha esposa. Ela então passa os braços por cima dos meus ombros e enrosca suas pernas em meu quadril. – Mas isso é o que te torna tão gostoso.
— O que acha de estrear a nossa confortável cama? – Pergunto, apertando as pernas de Hillary, que arfa e sorri.
— O que ainda estamos fazendo aqui? – Questiona Hillary, sorrindo maliciosa.
E em meio a beijos afoitos e cheios de saudade, ando com minha esposa em meus braços até nosso quarto, ansiando para experimentar mais uma vez o sabor e o calor de seu corpo, algo que tenho sonhado desde o nosso casamento em Las Vegas.
Fale com o autor