Sem Tempo para o Amor
15 Egoísmo e Sinceridade
Notas iniciais

SEM TEMPO PARA O AMOR
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CAPÍTULO XIV – EGOÍSMO E SINCERIDADE
Albert Einstein dizia que tudo aquilo que o homem ignora, não existe para ele. Por isso o universo de cada um, se resume no tamanho de seu saber. E deitado naquela confortável cama, tentando relembrar tudo o que aconteceu desde o momento em que passei a beber sem pensar no amanhã, eu só conseguia sentir uma espécie de frustração e inquietude por todos os acontecimentos dos últimos meses.
Ergo minha mão e vejo um anel intrigante em meu dedo anelar esquerdo. Eu não fazia a mínima ideia do motivo de usar o acessório, mas havia algo naquele anel com desenho de cartas de baralho que me fazia querer permanecer com ele no dedo. E então a imagem de Hillary vem em minha mente e mais uma vez sou tomado por aquele sentimento que eu havia passado a odiar desde que Carol destruiu meu coração por completo.
E nesse momento, compreendo as palavras de um dos maiores físicos do mundo. Até conhecer Hillary, toda a minha experiência com o amor havia sido dolorosa e desgastante. Desde a nossa primeira até o nosso primeiro encontro, nosso primeiro beijo e a primeira vez que fizemos amor. Tudo tinha sido forçado e vergonhoso, principalmente, por tudo ter sido compartilhado com todos da faculdade e de forma lastimável.
Mas com Hillary, tudo aconteceu de maneira tão natural e ao mesmo tempo tão intensa que eu nem mesmo sabia como reagir. Ainda que eu me lembrasse muito pouco do que aconteceu na noite anterior, eu ainda tinha frações de memória que me fazia sorrir como um idiota.
A porta do quarto é aberta, mas não me dou o trabalho de conferir quem entrava, afinal, a melodia cantarolada da marcha nupcial que vinha do invasor já me dava a certeza de que se tratava de Clint. Continuo a observar o anel em meu dedo, ciente de que era alvo do olhar divertido de meu melhor amigo. É claro que ele não deixaria de comentar o fato de eu ter dormido com Hillary.
— O que você ainda está fazendo deitado? O avião já chegou e está esperando por nós. Ainda temos que fazer checkout, você se esqueceu? Por quanto tempo pretende ficar no mundo da lua sonhando com a sua esposa? – Indaga Clint com humor. Suspiro e finalmente viro meu rosto para encarar o homem parado na porta com uma revista em mãos e a sua pequena mala ao lado.
— Hillary está bem? Ela por acaso parecia chateada pelo que aconteceu? – Questiono, ignorando suas provocações. O excêntrico bilionário ergue uma das sobrancelhas e sorri presunçoso.
— Preocupado que sua esposa te odeie? – Retruca Clint e eu bufo, levando as mãos ao rosto. Levanto-me e o encaro com frustração. – Não se preocupe. Ela te ama demais para ser capaz de te odiar por causa de uma noite de bebedeira.
— Será que dá para você parar de levar tudo na brincadeira e me responder com seriedade? – Pergunto e Clint sorri daquela forma irritante dele, que mostra que ele sabe mais do que eu imagino.
— E quem disse que eu estou brincando? – Clint então joga a revista que segurava em minha direção. Por ainda estar com os sentidos afetados pela forte ressaca, a revista acaba acertando meu rosto. Resmungo e Clint ri, mostrando que ele havia feito de propósito.
— Babaca. – Retruco, pegando a revista que tinha ido ao chão. Clint me encara com aquele ar de superioridade e cruza os braços.
— Veja com seus próprios olhos o acontecimento histórico que está sendo comentado em todas as partes do mundo. – Ironiza meu melhor amigo e eu arfo ao ver estampada com destaque na capa da revista uma foto minha quase beijando Hillary em uma espécie de capela, com um cover de Elvis Presley atrás de nós, sorrindo surpreso.
— "O casamento maluco de Hillary Leblanc e Shawn Kennedy em Las Vegas com Elvis Presley e lindas declarações de amor." – Leio, chocado com as informações. Rapidamente folheio a página até onde estava a reportagem. — Depois de salvar o astrofísico Shawn Kennedy de ser atropelado por um caminhão três meses atrás, a modelo internacional e o cientista se casaram. O casamento foi realizado de surpresa em Las Vegas, onde o casal cumpriu a todos os requisitos de uma boda clássica na cidade, improvisada e com um toque brega. A cerimônia foi realizada por um imitador de Elvis Presley em uma das muitas capelas de Las Vegas. Para a cerimônia, a noiva usou um vestido vintage longo marfim e de babados, acompanhado de um buquê de flores. O noivo, em seu primeiro casamento, usava terno escuro e gravata, e levava flores na lapela. Shawn ainda declarou: "Ela salvou a minha vida e me deu uma nova chance de viver. E é por isso que eu usarei essa nova vida que ela me deu para me dedicar por completo a fazê-la feliz". Muitas celebridades e amigos parabenizaram o casal. O empresário e historiador, Clint Barton, que é melhor amigo do noivo, por meio de suas redes sociais disse estar orgulhoso e feliz com o casamento de seu irmão de consideração, lamentando apenas não estar presente na cerimônia.
— Realmente. Eu fiquei bem chateado por não ter sido o padrinho. – Comenta Clint e eu atiro a revista contra ele, usando toda a minha força. Infelizmente, o desgraçado é ótimo em desviar de ataques e eu sou péssimo de mira. – Quanto violência!
— Por que não impediu que essa loucura acontecesse, maldito? – Indago e Clint ri mais uma vez, pegando a revista no chão para guardar. Arfo ao entender o que tinha acontecido. – Babaca! Você armou isso! Você queria que isso acontecesse!
— O quê? Agora eu virei um Deus? Eu sou uma criatura onipotente? – Ironiza Clint e eu avanço contra ele. Infelizmente, minhas ameaças nunca seriam capazes de amedrontar alguém que já lidou com máfias e acabou com o líder da maior organização criminosa do mundo. – Como eu poderia ter feito vocês dois se casarem assim? Se eu realmente tivesse armado o casamento, obviamente eu seria o padrinho, assim como você e Hillary foram o do meu casamento.
— Não brinque comigo, Clinton Barton. Eu sei muito bem que tem dedo seu nessa história. Eu posso ver no seu rosto o quanto você está se divertindo com a situação e como está satisfeito. – Retruco, pressionando o pescoço de Clint contra a parede com o meu braço.
Meu melhor amigo suspira e em um movimento rápido, ele se solta e puxa meus dois braços para trás, imobilizando meu corpo. Infelizmente, o cretino possuía muito mais habilidade de luta corporal do que eu.
— Usando meu nome completo? Uau! Há quanto tempo não ouço isso? – A voz recheada de sarcasmo de Clint me faz ter vontade de socar o rosto do babaca. – Não haja como se você realmente estivesse chateado com a situação. Você está feliz e eu posso ver isso.
— Feliz? – Indago, rindo sem acreditar. Puxo meus braços com agressividade. Ele me solta e me encara como se não acreditasse em minha reação. – Você tem noção de como a Hillary deve estar querendo me matar nesse momento? Já basta termos dormido sem que ela estivesse sóbria e agora um casamento? A CIA inteira deve estar surtando e você ainda faz questão de divulgar na internet que está feliz e orgulhoso pelo casamento? O que você tinha na cabeça quando permitiu que isso acontecesse?
— Eu não fui responsável pelo casamento. – Responde Clint com seriedade e eu bufo, afastando-me do homem, enquanto bagunço meus cabelos. – Pelo menos, não diretamente.
Viro-me para Clint e o encaro com desconfiança. Ele pode ser um idiota, mas meu melhor amigo nunca mentia. Quando o assunto era algo que ele não podia falar ou algo que poderia colocar as pessoas em perigo, Clint sempre preferia dizer que contaria no momento certo do que inventar uma mentira. Suspiro, dando-me por vencido.
— O que você fez? – Questiono, sentindo-me um pouco mais calmo.
— Eu apostei com Natasha que você e Hillary ainda ficariam juntos desde que ela te salvou. Eu já tinha uma certa desconfiança sobre seus sentimentos quando vocês se viram pela primeira vez. As respostas ácidas e os olhares intensos eram o bastante para eu saber que com o empurrãozinho certo, vocês acabariam se apaixonando. E então quando vocês interagiram no hospital, eu tive a certeza de que vocês foram feitos um para o outro. – Conta Clint e eu acabo deixando um riso irônico escapar de meus lábios.
— E você decidiu que a gente tinha que se casar? – Indago, porque eu era incapaz de rebater a parte de estar apaixonado por Hillary desde que eu a vi no hospital.
No primeiro momento eu quis negar meus sentimentos, mas eu não sou tão idiota para não perceber que desde que nossos olhos se fixaram com intensidade pela primeira vez, eu soube que meu coração havia sido laçado pelos olhos de galáxia de Hillary. Entretanto, é claro que eu não diria algo assim em voz alta. Ainda que eu soubesse que Clint sabia exatamente o que se passava em minha mente sem que eu precisasse dizer nada, o meu orgulho jamais me permitiria dar o gostinho da vitória ao homem em dizer que ele estava certo em voz alta.
— Como eu disse, eu não tive nada a ver com o casamento. Não de forma direta, como você está insinuando. – Responde Clint, dando de ombros. – Tudo o que eu fiz foi convencer minhas sobrinhas a se hospedarem no mesmo hotel que você e eu coincidentemente estaríamos hospedados nos mesmos dias que elas. E pode ser que eu tenha ido ao cartório justamente quando Hillary apareceu e eu pedi a ela que cuidasse de você, que para a nossa surpresa, estava bêbado demais para distinguir o que era certo ou errado.
— Você é inacreditável. – Resmungo, sentando-me na cama. Suspiro e levo minhas mãos ao rosto, sentindo-me um canalha por realmente me sentir feliz por ter me casado com Hillary e está chateado por não me lembrar da cerimônia.
— Está decepcionado por não se lembrar? – Indaga Clint e eu o encaro por alguns instantes, antes de desviar o olhar, porque não conseguia lidar com a expressão convencida de meu melhor amigo.
— Cala a boca. A Hillary deve me odiar nesse momento. – Respondo e logo me sinto um pouco frustrado. Nós combinamos de sermos amigos, mas acho que depois dessa confusão, acho que nem mesmo amigos conseguiremos ser. E sendo sincero, na atual intensidade de meus sentimentos, eu duvido que eu consiga fingir que eu a vejo apenas como uma amiga com quem compartilho histórias malucas.
— Odiar? – Repete Clint com uma expressão pensativa. Seus lábios exibem um sorriso gentil e compreensível. Eu não fazia ideia do que se passava em sua cabeça. – Ela não sabe ainda o que aconteceu. Nesse momento, Hillary acredita que a mídia descobriu sobre a sua identidade e estão em alvoroço, porque ela dormiu com aquele que ela salvou de ser atropelado por um caminhão. No entanto, ao contrário de você, que apenas se recorda de uma parte da noite e o restante das lembranças do que ocorreu enquanto estava sob o efeito de álcool são descartadas, é apenas uma questão de tempo até que Hillary se lembre de tudo. Ela provavelmente vai aparecer em sua casa amanhã pela manhã, pedindo que vocês deem entrada no divórcio, assim como o Nick deve pedir para que ela faça.
— Nick? Quem é Nick? E por que ele tem algum poder para decidir o que ela deve ou não fazer? – Indago e Clint me encara por alguns segundos em completo silêncio, como se estivesse me analisando.
— Você fica adorável com ciúmes. – Comenta por fim, rindo. Bufo e reviro os olhos, enquanto meu melhor amigo continua a se divertir, brincando com a minha cara. – Mas não se preocupe. Eu estava me referindo a Nick Fury, o diretor da CIA. Então tecnicamente, ele tem o poder suficiente para decidir o que Hillary deve fazer para proteger sua identidade e garantir a segurança da agência.
Suspiro e volto a me deitar, encarando o teto do quarto. Eu sinceramente não sabia o que pensar e a maldita ressaca contribuía para que eu tivesse ainda mais problemas para chegar a uma conclusão dessa complicada equação que se tornou minha vida.
— Se ela pedir o divórcio, o que você vai fazer? – Pergunta Clint, sentando-se ao meu lado na cama. – Você vai dar ou vai negar?
— Eu... – Hesito, porque não sei como responder essa pergunta. Sento-me na cama e encaro Clint. – Eu deveria... dar, não é? Não... não posso prender Hillary em algo que ela não deseja. Nós nem nos conhecemos. E antes de sair daqui, combinamos de sermos apenas amigos e esquecer o que aconteceu. Se ela pedir o divórcio, eu tenho que dar, não é?
— Está perguntando isso para mim? – Questiona Clint, rindo. Dou de ombros, sentindo-me o incomodo da incerteza. Meu melhor amigo se aproxima mais e empurra seu ombro no meu. – Eu sou o homem que lutou vinte anos até conseguir me casar com a mulher da minha vida. O lema da minha família é "seja teimoso e inteligente como um Barton". Se eu tivesse me casado com Natasha assim que começamos a nos envolver, assim como aconteceu com vocês, eu não a deixaria ir tão fácil assim.
— Então você não daria o divórcio. – Concluo, pensativo. Ele assente, levantando-se da cama para beber um pouco de água. A resposta de Clint não era tão surpreendente assim. – Bom, nossas situações são diferentes. Você e Natasha sempre foram apaixonados um pelo outro. Acho que dificilmente sua esposa teria pedido o divórcio se vocês tivessem casado quando se conheceram. Mas no meu caso, não há nada que possa fazer Hillary ficar. Nós somos o completo oposto e ultimamente, a minha presença só trouxe problemas para ela.
Clint deixa o copo de água sobre a mesa e pega seu celular no bolso. Ele mexe por alguns instantes no aparelho, até que parece encontrar o que procurava. O homem se aproxima de mim e me entrega o celular.
— Sabe, Einstein dizia que evitar a felicidade com medo de que ela acabe é o melhor meio de se tornar infeliz. E eu concordo com ele. – Comenta Clint, encarando-me daquele modo analítico que me frustrava. Suspiro e ele me entrega o celular dele. – Veja esse vídeo e me diga se realmente parece que Hillary te ver como apenas um amigo.
— O quê...? – Balbucio e Clint sorri, incentivando-me a assistir o vídeo que estava pausado na tela.
Ansioso, aperto para iniciar o vídeo e me surpreendo ao ver que se tratava de uma parte do que parecia ser o meu casamento com Hillary. O primeiro detalhe que noto é que mesmo com um vestido horrível como aquele, Hillary continuava a mulher mais bonita que eu já vi em minha vida.
Assisto aos meus votos de casamento, surpreso por saber que eu tive coragem de ditar tais palavras e declarar meus sentimentos a ela. É claro que eu sabia que o que essa loucura dentro de mim não poderia ser apenas admiração por ela ter salvado a minha vida e que estou mesmo apaixonado por Hillary, mas me assistir sob efeito de álcool deixava esse fato ainda mais real e assustador.
E então chegou o momento dos votos de Hillary. Suas palavras eram tão doces e pareciam carregar tanta sinceridade. Ela parecia emocionada e mesmo com o vídeo distante, era possível ver como seus olhos de galáxias brilhavam ao se lembrar de nossos momentos. Ela tinha razão. Nós sempre tivemos uma barreira entre nós que nos impedia de até mesmo desenvolver uma conversa, mesmo que tivéssemos passado tanto tempo juntos quando Clint e Natasha enfrentaram os seus piores inimigos.
— Eu te amo, Shawn Kennedy. – Declara Hillary por fim e tais palavras me fazem perder o ar por alguns instantes. Depois disso, tudo o que eu pude ver foi o nosso beijo, que foi surpreendentemente intenso.
— Ela... ela me... ama? – Sussurro, atordoado.
— Adorável, não? – Comenta Clint, sorrindo. Ele bagunça meu cabelo e parece realmente feliz. – Eu confesso que fiquei chateado por não ser o padrinho de casamento de vocês, mas quando você ficou triste por não me ter lá, eu perdoei vocês.
— Isso... isso é verdade, Clint? Esse casamento... ele realmente aconteceu? – Questiono, eufórico e perdido. Minha mente parecia ter entrado em curto-circuito. – Ela... ela realmente me ama?
— É claro que sim. E é exatamente por isso que serei muito bem recompensado pela minha linda e poderosa esposa assim que voltar para casa. Então, levante essa bunda grande da cama e vamos correr para o aeroporto, que o jatinho já está esperando por nós. – Responde Clint com um tom malicioso ao falar da esposa.
— Mas... e agora? Quer dizer, será que ela não falou isso da boca para fora? Ou por estar bêbada ela pode ter me confundido com o...
— Para de dizer idiotices. É claro que ela te ama. Se ela não te amasse, eu estaria errado e eu nunca erro. – Ironiza Clint e eu reviro os olhos. Ele ri e me dá um peteleco na testa, indo pegar minha mochila em seguida. – Depois de tudo o que ela falou nos votos de casamento, por que você ainda está cogitando ela ter te confundindo com o Freddie?
— Mas ela sempre foi apaixonada por ele. Há anos Hillary tem sofrido com um amor não correspondido. Como eu posso acreditar que em apenas três dias, ela tenha o esquecido e simplesmente tenha passado a me amar? Isso não faz sentido. Não tem lógica alguma, Clint. – Resmungo, andando de um lado para o outro, inquieto.
— E desde quando o amor tem alguma lógica? Nós não escolhemos por quem vamos nos apaixonar ou quanto tempo o amor vai durar, Shawn. – Clint deixa minhas coisas próxima de sua mala e pega em meus ombros. Seus olhos verdes se fixam nos meus e essa era uma das poucas vezes em que ele me mostrava uma expressão séria. – Você está com medo. Eu entendo. É normal sentir. Mas precisa confiar em Hillary, em si mesmo e nesse amor que nasceu em vocês. Como você disse, não é justo que alguém decida o que Hillary deve fazer ou não. Seja Nick, Natasha ou qualquer outra pessoa, os únicos que podem dizer que esse amor é real são vocês.
— Mas, Clint... isso é loucura. – Sussurro, dividido entre o medo e a intensidade do amor que pulsava em meu peito ao me lembrar de Hillary.
Clint ri e suspira, pensativo. Por fim, o homem me guia até a cama mais uma vez e encara o relógio em seu pulso, antes de se voltar para mim. Dessa vez, seus olhos expressavam compreensão e carinho.
— Contam que, uma vez, os sentimentos e as qualidades humanas se reuniram em um lugar da Terra em um dia como outro qualquer. Quando o aborrecimento havia reclamado pela terceira vez, a loucura, como sempre tão louca, lhes propôs: "Que tal brincarmos de esconde-esconde?", disse ela. A intriga levantou a sobrancelha intrigada e a curiosidade, sem poder se conter, perguntou: "Esconde-esconde? Como é isso?". A loucura, se aproxima. "É um jogo em que eu fecho os olhos e conto de um a um milhão, enquanto vocês se escondem, e quando eu tiver terminado de contar.", explica a loucura, encarando os sentimentos e as qualidade humanadas, "Ganha aquele que for encontrado por último".
O entusiasmo dançou seguido pela euforia. A alegria deu tantos saltos que acabou convencendo a dúvida e até mesmo a apatia, que nunca se interessava por nada. No entanto, nem todos quiseram participar.
A verdade preferiu não se esconder. Para que se no final a encontravam? A soberba opinou que era um jogo muito tonto, mas no fundo, o que a incomodava era o fato de a ideia não ter partido dela. A covardia preferiu não se ariscar e o medo temia o que poderia acontecer.
E então, o esconde-esconde se iniciou. A primeira a se esconder foi a pressa, que como sempre caiu atrás da primeira pedra do caminho. A fé subiu ao céu e a inveja se escondeu atrás da sombra do triunfo, que com seu próprio esforço, tinha conseguido subir na copa da árvore mais alta.
A generosidade quase não conseguiu se esconder, pois cada local que encontrava lhe parecia maravilhoso para algum de seus amigos. Se era um lago cristalino era ideal para a beleza; se era a copa de uma árvore era perfeito para a timidez; se era o voo de uma borboleta, melhor para a volúpia; se era uma rajada de vento era magnífico para a liberdade, e assim, acabou escondendo-se em um raio de sol.
O egoísmo, ao contrário, encontrou um local muito bom desde o início, ventilado e cômodo, mas apenas para ele. A mentira se escondeu no fundo do oceano. Mentira, na realidade, escondeu-se atrás do arco-íris. E a paixão e o desejo, no centro dos vulcões. E o esquecimento, não me recordo onde se escondeu, mas isso não é o mais importante.
Quando a loucura estava prestes a terminar a contagem, o amor ainda não havia encontrado um local se esconder, pois todos já estavam ocupados. E enquanto procurava, encontrou um roseiral e carinhosamente decidiu se esconder entre as flores.
"Um milhão", gritou a loucura, começando a busca.
A primeira a aparecer foi a pressa, que estava apenas a três passos de uma pedra. Depois escutou-se a fé discutindo com Deus no céu sobre zoologia. Sentiu-se vibrar a paixão e o desejo nos vulcões.
Em um descuido encontrou a inveja, e claro, pode-se deduzir onde estava o triunfo. Não foi necessário procurar o egoísmo, pois ele sozinho saiu em disparada de seu esconderijo, que na verdade era um ninho de vespas.
De tanto caminhar, a loucura sentiu sede e ao se aproximar de um lago descobriu a beleza. A dúvida foi mais fácil ainda, pois a encontrou sentada sobre uma cerca sem decidir de que lado deveria se esconder. E assim foi encontrando a todos.
O talento estava entre a erva fresca, a angústia em uma cova escura, a mentira atrás do arco-íris. Mentira, ela estava no fundo do oceano). E até o esquecimento, a quem já havia esquecido que estava brincando de esconde–esconde, foi encontrado, ainda que a loucura não se lembrasse onde.
Apenas o amor não aparecia em nenhum local. A loucura procurou atrás de cada árvore, embaixo de cada rocha do planeta e em cima das montanhas. Quando estava a ponto de dar-se por vencida, encontrou um roseiral. Pegou uma forquilha e começou a mover os ramos, quando no mesmo instante, escutou-se um doloroso grito.
Os espinhos tinham ferido os olhos do amor. A loucura não sabia o que fazer para se desculpar. Chorou, rezou, implorou, pediu perdão e até prometeu ser seu guia.
E foi então que desde a primeira vez que se brincou de esconde-esconde na Terra, o amor é cego e a loucura sempre o acompanha. ¹ — Conta Clint com um sorriso terno em seus lábios. – O que eu estou querendo dizer, Shawn, é que você pode usar a lógica para muitas coisas, mas sentimentos são muito mais complexos que equações e cálculos físicos.
— Eu sei. – Respondo, sentindo-me vulnerável por estar expondo meus sentimentos tão abertamente assim. – Mas é que eu... eu não tenho boas experiência com relacionamentos e a Hillary... – Suspiro, sentindo meu coração se apertar. – O que eu deveria fazer?
— O que você quer fazer, Shawn? – Pergunta Clint, indo direto ao ponto. – Você quer assinar os papeis de divórcio ou quer viver uma vida de casado ao lado de Hillary?
— Eu... eu... – Gaguejo, sem saber o que dizer. – Ah, Clint. Ela é tão incrível. Tão única e brilhante. Essa é a primeira vez que eu me sinto tão ligado a alguém. Não quero que ela me odeie por causa do meu egoísmo e...
— O que você quer, Shawn? – Insiste Clint, sem me dar brechas para criar justificativas. Seus olhos são tão intensos e dominantes que acabo desistindo de explicar o motivo de estar tão confuso.
— Eu não quero o divórcio. Não quero perder a chance de estar ao lado dela. Não quero dizer adeus ou fingir que nada aconteceu. Não quero ser apenas o amigo de Hillary ou alguém que tem amigos em comum. Quero ser o marido dela e cumprir a promessa que fiz em meus votos de casamento. – Respondo com sinceridade e Clint sorri, satisfeito.
— Então você já tem a sua resposta do que deve fazer. – Meu melhor amigo me abraça apertado. – Parabéns pelo casamento e boa sorte. Você terá que enfrentar o mundo para estar ao lado dela, mas eu tenho certeza de que vai valer muito a pena.
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