Sem Rumo
1 Capítulo 1 - Destino ou mera coincidência?
Uma forte chuva se debruçava sobre os moradores de um dos pequenos feudos de Arcádia, nomeado como Veridiana. Vários casebres com pequenas plantações rodeavam a grande e imponente Fazenda Valença, localizada no coração do feudo, da qual se irradiava todas as estradas da região.
A família Sartre era a solitária regente de Veridiana, ostentando grandes cafezais em sua propriedade, com um pequeno contingente de escravos à sua completa disposição. Nos fundos da fazenda, uma grande mansão, com quase mil metros quadrados, confortava generosamente a pequena família privilegiada.
Contrapondo a moradia dos Sartre, os escravos negros e mulatos sofriam com condições precárias de habitação. Distante da luxuosa mansão, localizava-se a senzala nada confortável onde comiam, sofriam e dormiam cinquenta escravos.
Na frente do abrigo, havia um grande tronco com uma corda para enforcamento e tortura. Os castigos eram feitos em frente de todos os habitantes da senzala, o que abalava ainda mais o espírito dos fracos corpos trabalhadores. Havia grandes janelas com grades e só era permitido aos escravos saírem para trabalhar ou para apanhar, sendo acorrentados ao anoitecer. Os corpos sujos e machucados repousavam no chão duro de terra batida.
A rotina dos escravos era ditada pelos soldados de pele clara e cabelo preto, que trajavam uma espécie de uniforme. Os guardas vestiam uma túnica vermelha sobre o tronco, com um uniforme de algodão cáqui por baixo e botas de couro, munidos de rapieiras em bainhas na cintura.
Os vinte soldados que guardavam a propriedade e garantiam a segurança dos Sartre se alojavam em um casebre modesto e confortável, que dividia espaço com um pequeno estábulo. As chaves das grades e correntes da senzala permaneciam no alojamento dos soldados, com uma cópia na mansão dos nobres.
Todos os soldados prestavam continência e respeito à Adolf Sartre, o patriarca. Adolf era um homem de meia idade, alto, esguio, de cabelos loiros e um vultoso bigode. Seus olhos verdes carregavam uma crueldade peculiar. Casado com Carmila, Adolf impunha sua autoridade à esposa, desdenhando de suas opiniões e batendo-lhe sempre que desafiado.
Carmila era a esposa submissa e de poucas palavras, baixa, de pele clara, cabelo loiro e olhos azuis. Todos os guardas se encantavam com a beleza da senhora, mas sempre desviavam o olhar na presença de seu amo. Certa vez, Adolf percebeu que um dos guardas encarava Carmila e, pessoalmente, o torturou no tronco da senzala até uma morte dolorosa.
Da união de personalidades tão opostas surgiu Catarina, a adolescente de dezesseis anos que carregava todos os detalhes da aparência de sua mãe. Catarina, porém, era comunicativa, sorridente e gentil com todos ao seu redor.
Adolf não confiava nos guardas, muito menos em escravos masculinos para servir Catarina. A mansão contava com uma equipe de cinco servas, brancas, com cabelos negros, que permutavam entre cozinhar, costurar, limpar e atender aos desejos da família. Embora houvessem servas brancas na casa, Adolf designara uma escrava negra conhecida como Senza para atender pessoalmente a sua filha.
Senza havia chegado à fazenda com oito anos de idade, após ser comprada num lote de 49 escravos homens e jovens. O leiloeiro, com pertinente crueldade, colocara Senza naquele lote, pois sabia que, de certa forma, abreviaria sua morte nas mãos do futuro comprador. As leis de Arcádia não permitiam a divisão de lotes de escravos e os adquirentes deveriam matar os escravos que não lhe interessassem. A quantidade ou sexo dos escravos eram determinados pelos leiloeiros e, raramente, poderiam ser feitos lotes sob encomenda. Não era comum a venda de escravas mulheres ou crianças. Era consenso entre os nobres a preferência de brancos para ocupar as posições de servidão em suas residências. Os escravos, negros e mulatos, deviam realizar os trabalhos braçais e render cada centavo gasto em sua compra.
Com a compra do lote de escravos, Adolf imaginou a utilidade da criança como serva direta de Catarina, ainda era recém-nascida. Embora Senza fosse negra, o líder da família se incomodava com a ideia de matar uma criança e, ainda assim, alguma utilidade teria de ser dada à escrava. Carmila possuía uma saúde frágil e o marido temia que os cuidados com sua filha fossem prejudicados com o passar dos anos. Não era papel do homem educar e vigiar os filhos. Senza então foi adestrada para, desde cedo, servir a família Sartre.
Na adolescência de Senza, os olhos verdes de Sartre não enxergavam na escrava apenas uma ferramenta doméstica. Por vezes, em um transe luxurioso, Adolf observava a jovem mulata da cabeça aos pés, repreendendo-se posteriormente por desejar uma suja de pele negra.
Senza não tinha lembranças de seu pai ou mãe, lembrando apenas de viajar entre navios superlotados de escravos através de um grande mar, passando cinco anos em uma prisão costeira e sendo vendida em uma praça acorrentada com outros homens desconhecidos. Não havia rastros de seus pais na mente da escrava, apenas angústia e sofrimento.
No meio da noite, ninguém conseguia dormir com a tempestade que piorava. Trovões rugiam impedindo o sono de brancos e negros. Adolf caminhava de um lado para outro, em seu quarto amplo e confortável, inquieto e discretamente nervoso. Carmila apenas o observava, deitada na aconchegante cama, sem dizer uma palavra.
No quarto de Catarina, a jovem nobre se escondia nas cobertas e tremia a cada trovão inesperado. Senza permanecia em pé ao lado da cama da adolescente.
Catarina tinha empatia por Senza e, apesar da idade, repudiava secretamente a ideia de escravatura em Arcádia. As ideias revolucionárias de Catarina surgiram no decorrer de sua educação, moldada através de viagens a outros países e diversos professores estrangeiros. A cultura da escravidão era lucrativa em Arcádia, mas condenada em outros países distantes. Todos os escravos, independente de sexo, eram chamados de Senza. Em Arcádia, Senza era um nome pejorativo, que remetia a algo sem importância ou sem significado.
Com o passar dos anos, Catarina sutilmente tentava proporcionar alguma dignidade para Senza, seja compartilhando da fartura de suas refeições ou ensinando a escrava a ler e escrever.
Apesar de toda a tragédia e solidão, Senza sempre se sentia confortável com a presença de Catarina, admirando o bom humor contagiante e gentileza de sua ama. Quando estavam a sós, Catarina tratava Senza como uma velha amiga, contando detalhes de suas viagens e das coisas que viu e aprendera. Todas as únicas lembranças boas de Senza remetiam ao rosto da adolescente.
Ansiosa, Catarina levantou-se da cama e apressadamente seguiu para a porta do quarto:
—Vou pro quarto com a mamãe. Não estou me sentindo bem aqui. – Disse a adolescente acompanhada silenciosamente por Senza.
Adolf se dirigiu até a porta do quarto e ao abrir, ordenou ao soldado que permanecia em guarda:
—Quero que você cheque as celas dos escravos. Não vou tolerar fugitivos. – O guarda rapidamente desceu as escadas em direção à senzala no meio da tempestade.
Com a porta aberta, Adolf viu o aproximar de Senza:
— Quero um café forte e rápido, sua Senza imprestável.
A filha odiou discretamente a arrogância do pai, indo em direção à Carmila, que erguia os braços de forma convidativa. Um novo trovão ecoou pela casa e num forte abraço Catarina se escondeu.
Enquanto descia as escadas, Senza notava que não havia outros guardas pela casa. Não era comum que menos de seis guardas fizessem vigília na residência. Também não notou a presença das servas brancas que dividiam as tarefas. Em ingênua apatia, Senza seguiu para a cozinha localizada no térreo.
Longe dali, no alojamento dos guardas, um grupo de dez homens estranhos, com capuz e vestes negras assassinavam quatorze soldados dos Sartre em uma notável diferença de habilidades.
—Fizemos nossa parte. Aqueles cinco já terminaram? – Questionou um dos encapuzados para um estranho atrás da porta semiaberta do alojamento.
—Ainda não vi o sinal, mas tem um guarda saindo da mansão. Se preparem pra emboscar. – Respondeu o vigia.
Senza adentrou a grande cozinha e logo começou a preparar o café de seu amo. Enquanto cumpria a tarefa, uma profunda melancolia tomava conta da escrava enquanto refletia sobre o passado. Não havia propósito em seu futuro ou esperança de melhoria. Todos os dias eram apenas um ciclo sem fim de ordens cumpridas e punições arbitrárias e humilhantes. A palavra Senza lhe pertencia perfeitamente, era um corpo físico caminhando sem destino.
—Nunca vou te perdoar se você me abandonar. – Disse Catarina quando, em uma conversa particular, Senza confessou planejar tirar a própria vida. As palavras da dama emocionaram a mulata, que abandonara a ideia e concentrava-se apenas nos pequenos momentos de felicidade proporcionados pela jovem nobre.
Adolf desistira de castigar a escrava várias vezes após intervenções da filha. Apesar de sua notável crueldade, o pai sempre se rendia aos caprichos da herdeira. Talvez toda a maldade e rispidez de Adolf tenham sido filtradas por Carmila ao gerar a única filha do casal.
Antes de preparar a bandeja para o retorno, Senza ouviu um barulho na direção da porta de entrada da mansão, o que imaginou ser o guarda retornando da senzala. Após limpar a cozinha e iniciar a subida dos degraus, a escrava escutava apenas o som da chuva, o que gerou certa inquietação.
No quarto do casal, ecoaram duas batidas na porta de mogno, entalhada com uma Rosa Vermelha, símbolo dos Sartre:
—Aqui está seu pedido meu Mestre, estou à disposição do seu agrado. – Dizia Senza em um tom perfeitamente profissional, aperfeiçoado nos seus dezesseis anos de servidão, enquanto adentrava e servia Adolf, a escrava notou rapidamente que o guarda deslocado para senzala ainda não havia voltado.
Sentado, cruzou as pernas e saboreou a xícara do café, produzido em suas próprias terras.
—Espero que desta vez não esteja uma merda. — O pai rapidamente recebeu um olhar desaprovador de Catarina.
Antes de levar novamente a xícara até a boca, Adolf foi subitamente interrompido com três batidas agressivas e intercaladas na porta de mogno:
—Você não sabe bater na porta como gente, seu desgraçado? – Adolf explodiu espontaneamente. As tempestades também afetavam seu humor.
Com um grande estrondo, que arrancou um grito de Catarina e fez Senza saltar para trás, a porta foi derrubada por um homem negro, vestindo um manto negro e capuz, com um sabre repousando na cintura. Catarina continuou berrando histericamente, o que deixou Carmila, Adolf e Senza ainda mais assustados com o que presenciavam.
—Já ouviu dizer que três batidas na madeira afastam o azar? – O desconhecido adentrou o quarto com os braços estendidos, como uma espécie de messias em um quadro religioso. As palavras calmas do invasor calaram a jovem dama.
—Guardas! Que merda! Quem... Quem é você? – A voz trêmula de Adolf demonstrava que não era tão bravo ou corajoso como ele acreditava.
—Primeira regra: você vai calar a boca e a partir de agora vai obedecer ao que eu mandar. Caso contrário, espero que esteja pronto pra ver sua filha morrer no tronco da senzala. – Continuou o estranho num tom ameaçador. Atrás do negro, adentrava outro estranho de pele, olhos e longos cabelos claros.
Senza estava paralisada. Suas mãos tremiam e como uma mãe, cogitava lutar a todo custo para defender Catarina. Nunca tinha visto um negro que não estivesse acorrentado ou em trabalho forçado.
—Segunda regra: você vai me acompanhar até o escritório no final do corredor e vai assinar todos os papéis que preparamos. Se você me obedecer, pouparemos você e sua família. Não acho que você tenha muitas escolhas disponíveis... – O sabre do estranho se libertara da cintura e a ponta da lâmina levantava o queixo de Adolf, que engolia seco e desarmava-se de toda grosseria.
O patriarca se levantou devagar, ainda com as pernas tremendo e lentamente seguiu o invasor negro para fora do quarto. Ao cruzar a entrada da suíte, percebeu que havia outras três pessoas encapuzadas e trajadas em negro, fechando as saídas do corredor principal ligado ao quarto e vigiando a entrada do escritório, que ficava à direita, no final do corredor. Não havia sinal dos guardas e Adolf estava totalmente confuso com a situação.
Senza se aproximou da cama de casal e permaneceu em pé ao lado de Carmila, que abraçava a filha com força, colocando o rosto da garota em seu ventre.
—Você, escrava, lá para baixo. Você vai aguardar lá. Os Sartre aguardam aqui. –Disse o homem de cabelos claros, encostando-se na parede ao lado da porta caída.
Senza olhou para Catarina, completamente apavorada. A herdeira apenas assentiu com a cabeça de maneira firme, com lágrimas começando a escorrer pelo rosto. A escrava desceu as escadarias e se deparou com um grupo de cinco homens, que vigiavam no salão de entrada toda a movimentação fora da mansão. Por um momento, foi grata lembrou por Catarina ter lhe ensinado a contar.
—Aguarde aqui em silêncio. Não vamos te ferir. Se nos atrapalhar, vou ser obrigado a te matar. – Disse um dos cinco invasores.
Senza estava chocada. Por mais que tentasse, não conseguia compreender o que estava acontecendo.
No primeiro andar da casa, o negro colocava Adolf sentado na escrivaninha do escritório, cercada pela coleção de livros herdados e adquiridos pela família. Debruçado sobre vários papéis já redigidos, Adolf lia os escritos e balançava a cabeça de um lado para outro, negando silenciosamente as disposições.
—Você não tem escolha Adolf. Nós estamos te dando uma chance. Você assina os pergaminhos e despachamos você e sua família para fora do país. Vai ser uma pequena cortesia nossa. Se voltarem pra Arcádia, vocês morrem. É simples, não é?. – O nobre escutava as palavras calmas e intimidadoras do estranho que o conduzira sob a mira de uma lâmina.
—Se eu fosse você, seria um bom pai e assinaria os pergaminhos. É uma chance única de continuar com a sua família em qualquer lugar de merda que não seja aqui. Pense bem, vou te dar alguns minutos... – Continuou o algoz.
Os papéis lidos pelo nobre eram contratos de compra e venda já estabelecidos, que transferiam todas as terras e escravos dos Sartre em Veridiana para outra família nobre conhecida como Chevalier.
Adolf nunca tinha tido contato direto com eles, mas sabia que Chevalier era uma das seis famílias nobres hierarquicamente subordinadas à família imperial de Arcádia.
Nas últimas folhas, estava uma carta que imitava quase que perfeitamente a caligrafia de Adolf. A carta dizia que a família estava se mudando de Veridiana e que decidiria seu novo estabelecimento após uma viagem internacional, motivada pelas ideias da filha. Comunicava ainda a todos os vassalos dos Sartre, residentes em Veridiana, que a partir daquela data responderiam diretamente aos Chevalier.
—Como eu tenho a garantia... Como eu sei que vocês vão cumprir o acordo? – Gaguejou Adolf.
—Somos diferentes de lixo como você. Você me ofende ao duvidar da nossa boa vontade. – Retrucou o homem negro.
A mão de Adolf assinava a todos os pergaminhos com bastante lentidão, como se implorasse por um salvador inesperado ou que acordasse daquele pesadelo.
Em Arcádia, era comum que os nobres fossem educados para escrita e cada família desenvolvia uma caligrafia própria, como forma de identificação e legado. Algumas famílias admitiam escribas, mas Adolf era apaixonado por caligrafia, com um perfeccionismo que beirava a obsessão. Talvez, por ter sido ensinado por seu pai, fizesse questão de redigir e confeccionar os escritos da família.
Ao assinar o último papel, o assassino se posicionou atrás do nobre:
—Pronto! Adeus e muito obrigado, Adolf Sartre. – O pescoço do nobre foi envolvido violentamente com uma espécie de garrote. Os braços do negro eram fortes o bastante para impedir qualquer resistência.
Adolf debatia-se como um animal. Os olhos esbugalhados pareciam esmeraldas tentando saltar do crânio e sua língua se projetava para fora, tentando miseravelmente gritar por socorro.
Após alguns minutos em uma espécie de dança da morte, o corpo já não demonstrava nenhum sinal de vida. O carrasco esboçou um leve sorriso de satisfação. Os pergaminhos foram enrolados e guardados e o corpo de Adolf foi abandonado em cima da escrivaninha.
Os três desconhecidos que vigiavam o corredor adentraram na suíte da família e encaravam Catarina e Carmila. Silenciosamente, Carmila se prostrou diante dos soldados e começou a chorar pedindo por piedade. Nunca em sua vida havia se prostrado diante de alguém. Como uma Sartre, os vassalos e súditos do império que se ajoelhavam perante ela. Contudo, naquela casa já não havia títulos, hierarquia ou dinheiro que fizesse alguma diferença prática. Carmila se importava apenas com a vida de sua única filha, desesperadamente se humilhando para salvá-la.
—Shhh... Shhh... Não precisa chorar... Você entendeu tudo errado. Não queremos machucar ninguém. Porque não me acompanha até o escritório? Adolf está assinando alguns pergaminhos e preciso que você os assine também, como garantia. Pode me acompanhar? – As palavras soaram com uma gentileza convincente, mas traiçoeira.
Carmila se levantou, olhou para Catarina com lágrimas nos olhos e seguiu lentamente pela direita no corredor. As palavras gentis do soldado logo se desfizeram e ao cruzar a porta do escritório, Carmila nunca mais veria sua filha novamente. Adolf agora tinha a companhia de sua esposa, em cima de sua escrivaninha.
Naqueles breves minutos, Catarina já havia imaginado todo tipo de situação e, de certa forma, já havia aceitado sua morte. Se seus pais estivessem mortos, não havia como lutar ou escapar dali. A tempestade que antes lhe aterrorizava agora era apenas uma coadjuvante no terrível cenário que se estabelecera. Senza lhe preocupava. Também temia pela morte dela. Catarina amava Senza como a uma irmã que nunca teve e doía-lhe perder a amiga na mesma intensidade que lhe feria perder os pais.
—Tome um pouco de água. Você está assustada e nosso objetivo aqui não é te deixar em pânico. — O vigia de cabelos claros ergueu um pequeno copo metálico contendo água. Catarina examinou o copo lentamente, mas não percebeu nenhuma alteração de cor ou cheiro na água. Nem mesmo o gosto estava diferente quando tomou. Foi ordenada a continuar esperando pelos pais, pois brevemente tudo estaria bem.
A jovem loira sentou na cama e após alguns minutos foi abatida por uma forte sonolência. Tentava resistir a todo aquele cansaço, mas logo se viu deitada. Olhando para a porta do quarto, a garota viu seus pais retornando com os encapuzados. Sua mãe lhe acariciava a cabeça enquanto seu pai lhe mostrava um sorriso desengonçado abaixo do grande bigode. Seu corpo estava paralisado. Catarina não conseguia mais respirar, mas aquilo não lhe causava dor ou sofrimento. Ainda delirando, viu Senza se aproximar da cama e, pela primeira vez, lhe beijar a bochecha. O sorriso da amiga lhe confortou o coração e em alguns segundos os olhos da adolescente fecharam para sempre.
Os cinco soldados que estavam no andar superior da mansão dos Sartre se reuniram e seguiram para as escadas, ao encontro dos outros cinco que aguardavam no salão principal.
—Tudo certo, Zumbi? – Questionou um dos vigias do salão.
—Tudo certo! — Assentiu o negro que havia arrombado a porta dos Sartre.
—Você vai nos acompanhar até a senzala. Os Sartre estão mortos. – Disse Zumbi para Senza como se tudo que acontecera fosse algo normal.
As palavras de Zumbi foram como uma facada agressiva e profunda que rasgava o peito e ardia dolorosamente. Ainda em choque, tentando acreditar nas palavras do estranho, Senza viu os desconhecidos abrirem completamente as portas da mansão, notando cinco carroças cobertas, posicionadas em frente à senzala.
A forte tempestade havia mascarado a chegada do comboio. E a escrava logo percebeu que os guardas e empregados haviam sido mortos.
Caminhando com os dez encapuzados na chuva, Senza não conseguia acreditar na morte de Catarina. Nada mais fazia sentido e as pernas não lhe obedeciam como de costume. Os pingos de chuva ocultavam as lágrimas da escrava, que sem escolha, seguia os desconhecidos.
Ao adentrarem na senzala, a escrava se deparou com mais cinco estranhos encapuzados que aguardavam em pé conversando.
—Pode entrar, você vai entender logo. – Disse o único negro entre os invasores, chamado de Zumbi, olhando para a escrava dos Sartre.
Na única entrada da senzala, Zumbi tomava a postura de um orador, falando em um tom que todos pudessem escutar:
—Meus futuros colegas. Devo explicar o que vai acontecer agora. Antes de tudo, meu nome é Zumbi e a partir de hoje vocês são homens livres. – Ao olhar para Senza, Zumbi se corrigiu com um sorriso cínico: — E temos também uma mulher livre.
—Com essa liberdade, gostaria de lhes oferecer um teto, família, comida e dinheiro, junto de meus outros colegas que me acompanham nesta operação. Estamos aqui hoje para dar fim ao império dos nobres e iniciar a vitória dos pobres! Assim como eu, vocês eram apenas escravos. Não tínhamos nome e nem futuro. Eu e meus colegas oferecemos uma nova vida. Vocês já viram um negro livre?
Zumbi se despiu do manto e capuz, mostrando um corpo atlético, mas cheio de cicatrizes. Suas costas e braços colecionavam inúmeras marcas de chicote.
—Devo lembrá-los de que os vassalos dos Sartre também tem poderes sobre vocês. Seguir comigo é a melhor opção. Se recusarem, pensem aonde irão, onde dormirão e o que irão comer. Não sejam tolos! Se aceitarem, vocês escolherão seus nomes, terão transporte e comida e não dormirão nunca mais nesta prisão! – Zumbi respirou fundo e com empolgação perguntou mais alto ainda: — Estão comigo?
Um grito uníssono dos escravos foi ouvido enquanto os homens levantavam os braços em riste com euforia. O nome de Zumbi era gritado repetidamente enquanto ele sorria satisfeito. As lágrimas que escorriam sob o rosto de Senza eram tão quentes quanto o café que servira para Adolf. Catarina era o contato mais próximo que Senza teve com o amor e, agora, na mansão dos Sartre só jazia sangue e dor.
—As carruagens aguardam os senhores lá fora. Na saída, vocês escolherão e nos dirão seus nomes. Este vai ser o início das suas identidades! Viva a nossa liberdade! – Zumbi gritou enquanto se tornava o novo líder daqueles sofredores. Os outros desconhecidos libertavam um a um os quarenta e nove prisioneiros. Senza, silenciosamente, soluçava e lamentava inconsolável.
Zumbi se aproximou de Senza e com empatia no olhar perguntou:
—Choras de felicidade?
—Vocês. Vocês a mataram... — soluçava Senza balbuciando as palavras enquanto suas mãos tremiam e seus olhos jorravam como a tempestade dos céus.
Zumbi se aproximou lentamente, como se pedindo permissão e abraçou Senza, que não conseguia esboçar outra reação além de um luto descontrolado.
— Esta é a sua nova vida. – Sussurrava Zumbi enquanto acomodava a cabeça de Senza no seu ombro, acariciando os cabelos da escrava num puro e simples gesto de carinho. O abraço do soldado recordava a mesma sensação dos afagos de Catarina, o que intensificou ainda mais seu desespero.
—Você finalmente está livre! É a sua hora de renascer! – Disse Zumbi com a ternura e a entonação de um pregador.
Após alguns minutos, a fila de escravos se esvaziava lentamente em direção à saída. Os desconhecidos embarcavam os escravos nas carroças cobertas com uma impecável organização.
Somente Senza e Zumbi permaneciam de pé dentro da senzala. A escrava se afastou com certo repúdio e caminhou em direção à porta.
Na saída, outro soldado permanecia aguardando e ao avistar a última escrava prontamente questionou:
—Antes de embarcar, você precisa nos dizer o seu nome.
Senza ainda com lágrimas, fitou profundamente os olhos do guarda desconhecido, respondendo em um tom quase ameaçador:
—Catarina.
Fim do primeiro capítulo.
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