Sem Reservas
6 Leve tudo que tenho
Notas iniciais
Naquele dia, Rosalie sentia-se mais cansada do que jamais esteve. Quando acordou, sentiu que todos os músculos doíam, ou melhor, latejavam.
A garota olhou no relógio postado estrategicamente no criado mudo ao lado direito de sua cama, como aquele era seu lado preferido de dormir, ela sabia que assim que acordasse saberia que horas eram. Ela nunca usara despertadores, tinha arrepio só de ouvir a palavra, ela com todas as suas manias e regras, obrigava seu corpo e mente a acordarem pontualmente às 7:45, um hábito que adquirira desde menina.
A loira passou os olhos pelo relógio novamente e viu que naquele dia sua rotina tinha sido quebrada, acordara 20 minutos atrasada, isso a fez bufar. Instantaneamente algo passou pela sua cabeça, era como se estivesse atrasada demais para um compromisso, mas sabia que não era no Pallais, já que o mesmo, abre as portas para funcionários apenas às 14:00. Vez ou outra, Rosalie ia de manhã até o restaurante, apenas para levar a mercadoria fresca que comprara pela manhã no porto. Em plena quarta-feira, ela sabia que não deveria ser algo relacionado ao Pallais, apenas às sextas e domingos ela abria mais cedo, com permissão de Dayse.
A mulher, sem saber do que se tratava sua preocupação com o horário, levantou-se e fez sua higiene matinal calmamente, pensando que se fosse algo importante, ela se lembraria. Após terminar seu banho e desembaraçar os cabelos, ela escolhera uma roupa leve para vestir em casa, calça jeans e uma blusa floral leve.
Enquanto Rosalie não lembrava-se do compromisso que tinha, Anna estava sentada na mesinha de centro da sala de estar balançando seus pequenos pés de um lado para outro, uma mochila nas costas e seu inseparável Puff nas mãos. A menina, curiosa como sempre fora, apenas observava seu novo amigo, Jacob, ressonar tranquilo no sofá, ela pensava que ele era um ótimo pai para os gêmeos, então poderia ser um ótimo pai para ela também, já que ela nunca conhecera o seu.
Anna sorriu ao pensar na ideia de ter um pai como Jacob, mas em segundos seu sorriso se transformou em uma careta de dor. Ela lembrou-se que Jacob nunca poderia ser seu pai adotivo, sua mãe havia partido, não havia como ele se interessar por ela, não havia como ele se apaixonar pelo jeito destrambelhado de Irina, pelos olhos brilhantes e pelo sorriso contagiante. Deixando que as lembranças da mãe tomasse conta de seu coração, Anna levantou-se e correu para seu quarto, deitou-se em sua cama e ficou agarrada à Puff enquanto chorava baixinho.
Longos minutos se passaram desde que Anna tivera mais uma crise de choro, sentia falta da mãe. Rosalie saíra de seu quarto e fora diretamente para cozinha, pensando em preparar um café da manhã gostoso para Jacob e Anna, para agradecer ao vizinho pela ajuda. A moça procurou ingredientes para fazer panquecas doces, tudo com um toque de sofisticação.
Enquanto Rosalie cantarolava tentando tirar os últimos acontecimentos de sua mente, ela nem notou que Jacob havia acordado e à observava encostado junto ao batente da porta, ele sorria ao vê-la tão animada fazendo o que ele sabia que era seu maior amor, cozinhar. Anna aproximou-se de Jacob e encostou a cabeça na lateral de seu corpo, ele olhou para baixo e a pegou no colo quando percebeu seu olhar triste, passou a mão grande pelos cabelos da garotinha e deu-lhe um beijo na testa.
—Bom dia!- ele disse quando virou-se para os dois.
Rosalie ficou feliz de que Anna houvesse encontrado ao menos alguém em quem confiasse e gostasse de verdade, mas ao mesmo tempo, sentiu-se inútil, já que Jacob conseguira conquistar a garotinha em apenas algumas horas, o que ela não conseguira fazer em vários dias.
—Bom dia Jacob! E muito obrigada por ter ficado com ela ontem, eu não sabia que a babá ia dar problema, me disseram que era uma agência confiável.- Rosalie disse-lhe, visivelmente agradecida pelo carinho do homem para com sua sobrinha.
—Não foi nada Rosalie, ela se divertiu muito com os meninos, e me ajudou a cuidar deles até.- ele disse sorrindo ainda com a menina no colo.
Rosalie sorriu de volta para o homem em sua frente, nunca imaginara que ele era tão carinhoso como estava sendo, sempre pensara que com seus músculos grandes ele era uma pessoa totalmente diferente do que via agora, pensava que ele era um brutamontes que apenas interessava-se em conquistar as mulheres e levá-las para sua cama.
Anna cutucou o ombro de Jacob e cochichou algo em seu ouvido, ele instantaneamente virou-se para Rosalie com um sorriso divertido no rosto, cochichou algo de volta no ouvido de Anna e pigarreou para chamar a atenção da loira.
—Acho que você se esqueceu de alguma coisa.- ele disse enquanto Anna fitava a tia sorrindo.
—Sabe que eu acordei com essa impressão hoje?! Mas não consigo me lembrar do que era.- Ela dise confusa virando uma panqueca na panela.
—Anna.- Ele disse simplesmente, trocando um olhar divertido com a menina que abandonara o olhar tristonho assim que ele a pegou no colo.
—Anna? O que tem a Anna?- ela perguntou confusa.- Ah, você está aí, bom dia querida!- ela disse, penava apenas que não havia desejado bom dia à garotinha.
—Hoje era o primeiro dia dela na escola, a transferência.- Ele disse rindo.
—Meus Deus, eu sabia! Anna, vamos, eu te levo.- ela disse desesperada largando a panela sobre o fogão sem ao menos apagar o fogo.
A mulher passou a correr como um furacão pela casa, Jacob e Anna riram cúmplices enquanto tentavam pará-la, mas não conseguiram.Um cheiro de Queimado e uma fumaça densa começaram a vir da cozinha, Jacob colocou Anna no chão na entrada da cozinha e correu para apagar o fogo e colocar a panela queimada dentro da pia, jogando água em seguida.
—Acho que está tudo aqui. — Rosalie disse cansada enquanto enquanto conferia a bolsa.- Vamos Anna.
—Rosalie..- Jacob à chamou.
—Rose, chame-me de Rose.- ela disse enquanto tentava encontrar as chaves do apartamento dentro da bolsa.
—Rose, Anna não pode ir hoje.- ele disse sorrindo e a garotinha concordou com a cabeça.
—Como assim? Se está tudo pronto, a transferência foi concluída, por quê ela não poderia ir?- ela perguntou encarando Jacob.
—Os portões já foram fechados, eles não permitem que entrem depois do horário.
—Mas..- ela não continuou, apenas olhou no relógio de parede que já marcava 8:50 da manhã, Anna deveria às 8:00 em ponto, sem atrasos, como a diretora lhe dissera no dia em que fora assinar os papeis da transferência.
—Ei, fique calma, você apenas se esqueceu.- Jacob disse enquanto se aproximava da mulher com a garota novamente nos braços, ele colocou a mão sobre o ombro dela e ela lhe sorriu de volta.
—Me desculpe Anna, eu sou uma péssima tia.- Ela disse com os olhos marejados.
—Tudo bem.- A garotinha a abraçou ainda no colo do amigo, quem visse a cena pensaria que eles eram um casal e Anna a filha dos dois, se quer pensariam na desgraça que acontecera na vida de ambas.
—Agora, eu acho melhor comermos, se não esfria.- Jacob disse interrompendo-as.
O rapaz colocou Anna sentada numa das banquetas ao redor do balcão da cozinha de Rosalie e sentou-se ao lado dela, os dois passaram a conversar animadamente sobre um desenho animado ambos gostavam, Rosalie colocava os pratos e talheres na mesa, observava-os enquanto servia seus pratos com panquecas com calda de morango perfeitamente montados com pedaços de frutas em cima, ela sorriu ao ver novamente como os dois se davam bem.
—Está tudo aqui, vamos comer.- a loira disse sentando-se de frente com a sobrinha, do outro lado do balcão.
Anna e Jacob comeram como se não vissem comida À séculas, vez ou outra um passava calda no rosto do outro fazendo-os gargalhar alto. Ambos trocaram um olhar cúmplice que Rosalie à princípio não entendeu, mas imaginou o que seria, os dois encheram as mãos de calda e aproximaram-se dela, um de cada lado do balcão fazendo barulhos como se fossem aqueles monstros de filme de terror, a loira gargalhou alto, como não fazia há tempos e encenou como se fosse fosse uma legítima mocinha amedrontada.
Quando as mãos dos dois atingiram-na, foi impossível não gargalhar mais ainda, seus cabelos estavam cobertos pela calda vermelha que ela prepara há pouco, o rosto todo pintado pelo líquido espesso e doce, mas o que mais fez Rosalie sentir-se feliz, foi ver Anna sorrindo de verdade pela primeira vez desde que tudo acontecera, os olhos da menina brilhando em contentamento quando Jacob à deitou no chão e fez cócegas em seu corpo pequeno. A mulher juntou-se à Jacob e ambos ficaram brincando com Anna, vez ou outro as duas juntavam-se para pegar Jacob, que foi mais esperto e correu para a sala.
Quando as duas o alcançaram, passaram a fazer cócegas por todo o seu corpo, ele se debatia e ria sem parar. A campainha do apartamento da loira passou a tocar insistentemente, ela levantou-se sorrindo e deixou a sobrinha com o rapaz brincando no carpete de sua sala enquanto ia atender.
Rosalie ainda sorria quando abriu a porta, estava tão apressada para voltar à brincadeira com a sobrinha que sequer deu-se ao trabalho de olhar quem era pelo olho mágico, talvez fosse uma nova babá que a agência mandara. Quando a mulher abriu a porta, seu sorriso transformou-se em uma carranca mal educada, do outro lado da soleira da porta, Emmett sorria com uma cesta nas mãos, "uma oferta de paz", ele pensou.
—O que faz aqui?- ela perguntou.
—Vim lhe trazer isso.- ele estendeu a cesta, ela olhou com desdém, mas pegou.
—Certo, agora já pode ir.
—Espera.- ele disse segurando a porta quando ela ia fechá-la em sua cara.
—Você já fez o que veio fazer, agora pode ir, estou ocupada.
—Eu preciso falar com você.- ele pediu.
A loira revirou os olhos, mas permitiu que ele entrasse, fazendo um sinal com a mão imitando o que ele fizera no restaurante no dia anterior, o que fez com o que ele sorrisse.
Rosalie voltou para a brincadeira com os dois que mal tinham notado que alguém chegara e os observava de perto da porta. Emmett sentia-se um pouco constrangido ao observar a cena, pensava que o homem ali poderia ser o namorado de Rosalie e que estaria incomodando-os.
—Jacob, você pode levar Anna para brincar no quarto dela?- Rosalie pediu.
—Claro Rose.- Ele respondeu prontamente.
Emmett sentiu uma pontada no estômago quando ouviu-o chamá-la de Rose, ele deduziu que aquele homem com certeza tinha algo com Rosalie, ele à chamava por Rose, todos à chamavam daquele jeito, menos ele, já que ela passara a odiá-lo.
Assim que Jacob saiu com Anna debaixo de um dos braços, levando-a como se ela fosse uma bola de futebol americano, Rosalie apontou o sofá para que Emmett se sentasse, imediatamente sua expressão passou de risonha e brincalhona, para uma expressão de incredulidade e raiva.
—Como conseguiu meu endereço?- ela perguntou quando ele se sentou.
—Minha mãe.
—Imaginei.- ela revirou os olhos.- o que você quer aqui?
—Antes de me atacar, escute o que eu tenha a dizer.
Ela continuou calada, incentivando-o a continuar.
—Eu juro que não sabia que você reagiria daquela forma, pensei que seria uma oportunidade muito boa para mim trabalhar com uma das chefs mais renomadas da cidade.
—Como se você precisasse disso! Sua família tem dinheiro e influência, além de tudo, você é tão famoso quanto eu.
—Eu não aceito dinheiro dos meus pais e muito menos aceito que a influência deles me deem coisas. Aqui eu não sou ninguém, posso até ser meio conhecido pelo meu trabalho na Europa, mas aqui eu ainda não sou ninguém.
—Ok, se era só isso...- ela disse levantando-se da poltrona ao lado do sofá em que Emmett estava sentado, ele pegou sua mão e puxou-a para baixo para que se sentasse novamente.
O toque não passou despercebido por nenhum dos dois, fora como se ambos se conectassem por aquele toque, como se algo os prendessem, mas tão rápido como começara, acabara.
—Não, não era só isso.- ele disse, ainda meio atordoado.- Eu quero que saiba,que eu vou sair do Pallais, eu nunca quis roubar seu lugar, você é a dona daquele cozinha e continuará a ser.
—Emmett, por favor, não faça esse joguinho se fingindo de coitado.
—Eu não estou fazendo isso, juro.
—Até parece! você pensa que eu não sei o que está fazendo? Se faz de vítima e depois eu é quem perde o emprego e ainda por cima fico com fama de encrenqueira. Se quer ficar lá tudo bem, fique, fique com tudo que é meu, leve tudo.- ela disse com os olhos marejando.
—Rosalie, por favor, me escuta. Eu não quero nada seu, eu só quero sua amizade, minha família gosta muito de você, eu aceitei o emprego porque te admiro muito, você nem imagina o quanto!
Ao ouvir essas palavras tão sinceras saindo da boca de Emmett, a garota levantou a cabeça que antes encontrava-se abaixada e presa entre suas mãos, seus olhos denunciando seu choro, ela fitou-o por um longo tempo e isso fora suficiente para ela entender o que realmente deveria fazer.
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