Sem Reservas
4 Divisão
Notas iniciais
Ana e Rosalie passaram dois dias na casa dos Cullen entre afagos e carinhos, ambas sabiam que não poderiam se acostumar com aquilo, já que ao fim desse tempo, seriam apenas as duas no apartamento de Rose.
Esme fizera questão de redecorar e adaptar o apartamento de sua amiga para a chegada de uma criança. O quarto antes vazio, que Irina usava nas poucas vezes em que visitava a irmã, a pedido de Anna, tornara-se seu. Esme tentou trocar a roupa de cama, mas Anna negou veemente, afirmando que o perfume da mãe ainda estava ali, mesmo depois de todos os tecidos terem sido lavados.
Rose tentou argumentar, dizendo que aquilo não faria bem à menina, mas ela fingia que não ouvia enquanto organizava pilhas e pilhas de brinquedos na estante do quarto e outros esparramava por cima da cama e pela cômoda.
Rosalie rendeu-se, sabia que contrariar a garota seria pior, ela poderia se revoltar ainda mais, achando que a tia estava tentando tirar-lhe os últimos resquícios que tinha de sua amada mãe.
Da porta, a loira observava a garotinha lendo um livro infantil enquanto mostrava as figura para Puff e os outros bichos de pelúcia espalhados ao seu redor, sem perceber deixou que uma grossa lágrima rolasse por seu rosto, limpando logo em seguida para que a garota não percebesse. Anna até então silente fechou o livro e olho para a tia, que lhe sorriu de volta, mas seu sorriso não alcançava mais os olhos, era apenas um gesto vazio e carregado de dor.
—Eu sinto falta dela.- Anna confidenciou.
—Eu também, querida.- Rosalie disse se aproximando da sobrinha e lhe fazendo uma afago nos cabelos loiros como os de Irina.
—Estou com fome.- Anna disse.
Rosalie sabia que a sobrinha estava tentando cortar o curto contato que tiveram, foi assim desde o primeiro dia, Rose tentava se aproximar e ela se afastava como se uma doença contagiosa pudesse ser passada à ela. Mas o que a tia da garota não sabia, é que mesmo sem deixar transparecer, Anna gostava muito dela, apenas tinha medo que sua mãe onde quer que estivesse se entristecesse com ela, por achar que estava substituindo-a por Rose.
—Vou preparar algo para nós.- Rosalie disse cansada, seu semblante abatido.
Quando chegou à cozinha, ela tentou seguir as instruções que Esme lhe dera antes: "Crianças gostam de comidas simples, querida!"
Apesar de ser uma grande chef, Rosalie nunca havia cuidado de uma criança, nunca esteve tanto tempo na presença de uma e não sabia exatamente o qe fazer para satisfazer Anna, isso tronou-se um dilema nos poucos instantes que se passaram desde que saia do quarto e ia para a cozinha.
—Huum vejamos...- ela disse para si mesma enquanto vasculhava a geladeira.
A geladeira da chef parecia a de uma cozinha gourmet de um requintado restaurante. Onde olhava-se via ingredientes sofisticados e alguns até raros, nada sendo o que uma criança comeria.
Como a mulher não sabia o que fazer e acreditava que Anna era como ela, resolveu fazer um sofisticado peixe ao molho de ervas. Quando o forno apitou notificando que o tempo estipulado por ela no marcador havia acabado, Rose sorriu retirando-o do forno, sentiu o aroma inconfundível que exala de todo e qualquer prato que tenha sua assinatura.
—Perfeito!-ela disse para si mesma, engrandecendo-se pelo que considera magistral na cozinha.
A mulher colocou a mesa para duas pessoas, os talhares incrivelmente organizados como no restaurante em que ela trabalha, tudo incrivelmente polido e brilhante. Após acabar a arrumação da mesa, das saladas e acompanhamentos nas travessas, ela pôs-se a andar em direção ao quarto de Anna.
—Anna, está pronto.
—Demorou um pouco não é?!- a garota fez piada levantando-se da cama e passando pela tia enquanto corria esfomeada em busca da comida.
Assim que Anna colocou os pés na pequena sala de jantar da casa de Rose e observou os pratos perfeitamente colocados, com o peixe repousando numa travessa de vidro, a expressão de Anna contorceu-se em uma careta, soltou um suspiro e andou pesadamente até a mesa.
Rosalie pareceu desmoronar quando observou a expressão frustrada da sobrinha.
—É isso que vamos comer?- A menina disse descontente.
—Está muito bom Anna, prove.- Rose pediu com esperança estampada em seu semblante.
—Não quero.- ela fez birra.
Nessa hora Rose pensou na irmã, pensou em como tudo seria mais fácil para ela se sua irmã ainda estivesse ali para ajudá-la e orientá-la. Irina mesmo sendo mãe solteira sempre soube como cuidar de Anna, como consolá-la e fazê-la sentir-se bem. Rosalie era o oposto da irmã, sempre sobrecarregada de trabalho, estressada, mal sorria e o pior, não sabia como fazer outra pessoa feliz, pois ela própria não era feliz, pelo menos, não totalmente.
—Não temos mais nada. Coma ao menos a salada, por favor!- Rose pediu.
Anna nem se deu ao trabalho de responder, cruzou os braços sobre o peito e desceu da cadeira marchando pesadamente até seu quarto, deixando a tia irritada para trás.
—Anna, você precisa comer.- Rosalie disse alto da cozinha para que a menina ouvisse.
Outra vez não houve resposta, apenas um estrondo de porta batendo.
Naquela noite, após o jantar, Anna agarrou-se ao urso e pediu que Deus ajudasse à ela e também a tia, pediu que Deus devolvesse sua mãe, mas ela sabia que isso era impossível, sabia que sua mãe não voltaria para ela, nunca mais.
Rosalie sentou-se na sala e ligou a televisão em um filme qualquer, agarrou-se à ponta da coberta e chorou baixinho, pensou em ligar para Esme, mas não queria incomodá-la então apenas dicou lá, sentada sozinha enquanto tentava chorar discretamente, com medo de acordar a sobrinha e demonstrar sua fraqueza. E foi ali mesmo que ela adormeceu, no sofá, pensando apenas em como sua vida mudou tanto em questão de dias, pensando na injustiça que fora perder sua irmã.
—_______________________________________________
No dia seguinte, Rosalie acordara assustada com a campainha tocando, ela esquecera que Esme ligaria para uma agência de babás para que mandassem alguém para sua casa por alguns dias enquanto a papelada de transferência de Anna não saía.
—Já vou. — ela gritou.
Rose abriu a porta e seu queixo caiu diante da aparência da garota que estava postada ali. Era mais baixa que Rosalie, trajava roupas negras que pareciam ter saído de um filme gótico. Nos olhos, uma maquiagem escura borrada por praticamente todo o rosto, assim como os olhos, os lábios também se encontravam escuros. Na mão direita da garota, pendia um cigarro ao qual ela tragava de tempos em tempos olhando com desdém para Rosalie.
—Bom dia?- A saudação de Rosalie saiu mais como uma pergunta mediante a sua surpresa.
— E aí, cadê a pirralha?- a garota perguntou, seu hálito cheirando bebida.
—Quem?
—A pirralha que vou olhar.
—É... Eu..- Rosalie gaguejou pensando se poderia confiar naquela garota para olhar sua sobrinha.
Ainda parada na porta, a garota revirou s olhos como s não quisesse estar ali e fosse obrigada à isso, estava visivelmente incomodada em ter que olhar uma "pirralha".
—Então?- A garota perguntou para Rosalie lhe lançando um sorriso debochado.
—Entre.- a loira pediu procurando pelo relógio em cima da porta.
Rosalie apenas aceitara a babá esquisita tomando conta de Anna, pois viu que estava extremamente atrasada. "Minha fama não se sustentará sozinha, e muito menos minhas contas se pagarão sozinha" ela pensou.
—Ok, Anna está dormindo, tome conta dela direito. Ah, e isso,- ela disse pegando o cigarro de entre os dedos da moça apagando-o num cinzeiro.- não é pra ser aceso dentro desta casa.
A garota mais uma vez revirou os olhos e se jogou no sofá pegando o controle da televisão e parando num canal onde um filme sangrento passava. Rosalie mais que depressa pegou sua bolsa e o casaco grosso para poteger-se da neve que caía, sem nem mesmo se preocupar em trocar o restante de suas roupas já que ela havia dormido com roupas que costumava usar para trabalhar, como jeans e blusas de tecido fino e de manga longa.
Assim que Rosalie terminou de pegar suas coisas, passou pela TV e a desligou, não querendo que a sobrinha visse aquele tipo de programa e depois tivesse pesadelos.
—Ela é uma criança. Nada disso também.- ela disse apontando para a TV.
A garota fechou a cara mas concordou, então colocou os pés em cima da mesa e pôs-se à ler um livro de capa escura.
A loira pegou as chaves no descanso ao lado da porta e correu o mais que pôde ao descer as escadas, parando apenas quando chegou em frente à porta do apartamento de Jacob. Ela bateu três vezes e ele mais que depressa atendeu, o que a fez sorrir, isso economizaria seu tempo.
—Jake, será que você poderia dar uma olhada em minha sobrinha pra mim algumas vezes durante o dia?- ela pediu.
—Claro Rose, hoje estou de folga, meus filhos vem me visitar. Se quiser eu posso levá-la conosco ao parque.
—Duvido muito que ela queira ir. Hoje eu precisei chamar uma babá, mas ela é super estranha, não estou confiando muito.
—Eu vou lá olhar ela, pode deixar, fique tranquila. Qualquer coisa eu ligo pra você.- ele disse sorrindo.
—Obrigada, você é um amor.- ela sorriu e beijou sua bochecha deixando ele com um sorriso bobo estampado no rosto.
—Quem sabe um dia, seriei o seu amor?!- ele lhe lançou uma piscadela e adentrou seu apartamento.
Rosalie sacudiu a cabeça rindo das investidas tão comuns de Jacob enquanto corria pelo restante dos lances de escadas. Hoje a loira não dera sorte, teve de andar algumas quadras até encontrar um ponto de táxi para ir ao trabalho. Quando o motorista parou o carro, ela lhe dera além do valor cobrado pelos serviços, uma gorjeta bem generosa.
—Bom dia, senhora atrasada!-sua chefe lhe disse assim que Rose entrou.
—Minha vida está uma loucura.- Foi só o que ela respondeu enquanto seguia para a cozinha do Pallais.
—Rose espere, precisamos conversar.- Dayse a chamou, mas ela não parou.
Quando Rosalie abriu as portas duplas de sua cozinha, notou que uma música instrumental tocava em algum lugar. Todos os seus funcionários estavam num clima leve e descontraído, estavam tão atentos à uma homem fazendo gestos de dança enquanto cozinhava que nem prestaram atenção à chegada da chef.
—O que está acontecendo aqui?- ela falou alto o suficiente para que o seu tom de voz sobressaísse a música.
—Rose, eu tenho que falar com você. Tentei te explicar, mas você não parou.- Dayse esbaforida tentou colocar sua mão sobre o ombro da loira, que desviou assim que sentiu a aproximação de sua chefe.
—Eu fico menos de duas semanas sem aparecer por causa do que aconteceu, e por quê fui obrigada por você, — ela disse apontando para Dayse.- pois me obrigou a tirar essa licença, e quando volto, voc~e já me substituiu por qualquer um.
—Ei, eu não sou qualquer um.
Assim que o homem se virou em sua direção ela soube quem era. Seu mundo estava caindo, ela havia sido traída por um membro de sua "família". Ela pensava que sua família do coração, já não era tão família assim. Pensava que sem dúvidas eles sabiam que ela estava de licença do trabalho e não pensaram duas vezes para apunhalá-la pelas costas.
Os renomados Cullen, clientes especiais, com certeza tinha cacife e porte para colocar o filho mais velho em seu lugar. Por um instante, a loira sentiu raiva de si mesma, enquanto encarava o homem à sua frente que sorria puramente, mil coisas rondavam sua mente, inclusive pensando em como aquele homem lhe parecia falso, com aquele sorriso que parecia sincero, mas não esperara nem que ela se recuperasse da perda da irmã para que lhe tomasse o emprego que tanto amava e que tanto se dedicou para conseguir.
—Você!- ela disse com desdém.
—Eu. — ele respondeu brincalhão, ainda não tinha entendido a gravidade das coisas que Rosalie pensava.
—Você sabia de tudo que estava acontecendo e não pensou duas vezes antes de tomar meu lugar não é mesmo? Bem que me disseram que seu sobrenome abre portas.
—Ei, calma! Eu nem sabia que você trabalhava aqui, pelo menos não até ontem.
—E mesmo assim preferiu usurpar meu avental.
—Não, você está entendendo errado. Eu até disse para Dayse que só ficaria se você concordasse, é sua cozinha.
—Lá fora, agora!- a loira disse apontando para as portas duplas do restaurante, não queria fazer uma cena na frente de seus comandados.
Emmett fez que sim com a cabeça e obedeceu retirando a doma e o avental e deixando-os sobre a bancada atrás de si. Dayse fez o mesmo, acompanhara ambos para saber o desfecho daquela situação, afinal, ambos eram grandes e renomados chef's, ela não gostaria de perder nenhum dos dois.
—Você é um canalha!- Rosalie disse apontando o dedo para Emmett que mal entendia a reação dela.
—Eu já disse, não quero roubar o seu lugar, só fico se concordar.
—Agora que já entrou aqui, conquistou todos os meus funcionários, que eu escolhi à dedo, colocou até uma música cafona para fazerem bagunça na MINHA cozinha, como vou dizer que não?
—Ei, a música que estava tocando é uma música clássica, não tem nada de cafona. E eu não conquistei ninguém não, apenas agi como uma pessoa normal e fiz amizades. Pelo jeito não sabe o que é isso.- ele disse, pela primeira vez naquela discussão alterando-se um pouco.
Ambos se encaravam com fúria, na verdade, Rosalie é quem estava furiosa. Emmett apenas estava magoado, nunca teve a intensão de cupar o lugar de ninguém, muito menos o dela.
Quando ele soubera no dia anterior quem era a chef daquele restaurante, ele ficara extremamente animado, ele sabia que era bom, mas não tanto quanto ela. Ele queria estar perto dela, conhecê-la melhor e servir como um complemento na cozinha do Pallais, não tomar sua cozinha, como ela havia dito.
—Já chega!- Dayse interveio.- Ambos ficarão. E você Rosalie, trate de se desculpar, ele veio à pedido meu, eu quero os dois trabalhando juntos, ele inclusive havia deixado claro que só ficaria se você o quisesse por perto.
—Mas Dayse, você sabe que eu trabalho sozinha.
—Não Rose, você não trabalha sozinha, olhe sua cozinha cheia de pessoas que fazem tudo que a chef Hale manda. O que você faz, é mandar sozinha.
Rosalie, não respondeu, ela sabia que era uma chefe de equipe nata, nasceu para comandar, mas contra esse fato, não havia argumento. Ela apenas fechou a cara, a expressão furiosa, e concordou com a cabeça.
—Emmet, você fica.- Dayse disse mais uma vez.
—Não até que ela diga que está tudo bem.- ele disse fazendo um gesto de cabeça na direção de Rosalie que o olhou como se fosse matá-lo.
—Rose...- Dayse pediu.
—Chef Cullen, você poderia nos dar a honra de ficar e cozinhar conosco agraciando esse restaurante com seu incrível dom?- ela pediu, deixando o sarcasmos transparente na voz e no sorriso falso que estampava seu rosto.
—Agora sim!- ele sorriu para ela que apenas virou a face.
—Rose, você quer pedir algo à ele?- Dayse perguntou à loira.
—Apenas que tire àquela música ridícula de minha cozinha, não consigo trabalhar com aquilo na cabeça.
—Tudo bem.- Emmett concordou.
—Agora, apertem as mão e voltem lá pra dentro.- Dayse pediu.
Rosalie estendeu a mão ainda sem olhá-lo, ele prontamente pegou a mão da loira e depositou beijo sobre o dorso. Rosalie não esperava por aquilo, ela o olhou incrédula e em seguida puxou a mão para cruzar os braços sobre o peito.
—Agora sim, tudo bem!- Dayse disse aliviada.- Voltem ao trabalho, e aprendam a dividir as coisas, pois a partir de agora, ficarão muito tempo juntos!
—Claro. — Emmett concordou.
Rosalie apenas acenou com a cabeça novamente. Ambos entraram pela porta dupla, Emmett foi na frente abrindo as portas e dando passagem à ela quem se quer agradeceu tamanha sua raiva.
Durante a correria para servirem o jantar, Rosalie não dirigiu uma palavra que fosse à Emmett, ele de tempos em tempos pedia alguma opinião, não que ele precisasse ou não soubesse o que estava fazendo, apenas queria puxar assunto. Ela respondia com acenos de cabeça ou palavras curtas.
O restante da noite passou assim, ela o ignorando e ele tentando fazê-la sentir-se confortável. Tudo piorou quando Dayse adentrou as portas duplas fazendo todos virarem sua atenção à ela.
—Estava tudo excelente, recebemos muitos elogios hoje.- ela disse e todos aplaudiram, exceto Rosalie que estava concentrada na montagem de uma sobremesa.
—Maravilha!- Emmett disse empolgado.
—E chef, o casal Tryger quer falar com você.- Dayse pediu.
—Estou ocupada.- Rosalie respondeu seca, sem nem levantar a cabeça para saber que Dayse se referia à Emmett.
—É com o Emmett.- Dayse disse quase num sussurro.
Todos na cozinha a olharam, observando sua reação. Ela retirou a doma, jogou-a sobre a bancada, foi à sua sala, pegou a bolsa e o casaco e foi em direção às portas.
—Tenham uma boa noite.- ela desejou.- Ah, e aproveite que eu terminei aquela sobremesa, entregue você mesmo ao cliente que pediu, aproveite e fique com os créditos de meu trabalho.- ela completou olhando para Emmett e em seguida andando apressadamente para fora do Pallais.
Todos se entreolharam e engoliram seco. Rosalie realmente estava furiosa, e Emmett sequer tinha reação.
Sem dúvidas, aquele dia que ele imaginava que seria uma boa oportunidade para conhecer a mulher espetacular da qual todos de sua família falavam, acabou tornando-se uma tremenda dor de cabeça para ele. E ele sabia que teria que suar muito para conquistá-la.
Fale com o autor