Sem Querer, Juntos!
10 Epílogo
Sem querer, juntos.
Epílogo
~*~ Naruto ~*~
Naquele dia, saí na frente, a cabeça fervendo, depois de compartilhar aquele constrangedor abraço triplo.
— Além de flagrá-los abraçados sou obrigado a compartilhar o mesmo abraço que vocês? — reclamei para Sakura assim que saímos para rua, onde eu havia estacionado o carro. — Por que vocês precisam estar sempre agarrados? Isso é ser gay, Sakura? Então eu também quero ser gay! — exclamei irritado, entrando no lado do motorista e batendo a porta.
Sakura se manteve calada, parada ao lado da porta do passageiro e quando viu que eu não faria nada ela bateu no vidro. Destravei o cinto que havia acabado de colocar, dei a volta no carro e a vi com o rosto fechado, os braços cruzados, batendo o sapato no chão. Sem pestanejar, abri a porta para ela entrar.
— Melhor assim — ela esturrou, entrando.
Fechei a porta, dei a volta e entrei de novo no lado do motorista.
— Agora sim. Respondendo a sua pergunta, meu amor. Se você acha que precisa ser gay para tolerar o meu amigo gay, então aprenda ser um — ela falou. — Sasuke vai fazer parte da nossa vida quer você queira ou não.
...
O que me consolava era que a nossa aversão era recíproca. O maldito Sasuke não me suportava tanto quanto eu não o suportava. Mas o que eu mais detestava nele era o fato dele ser esse falso-gay! Afinal, precisa ser um cara tão bonito para ser gay? Gays não precisam rebolar? Usar roupas chamativas e ter uma voz forçada para o feminino? O que aquele maldito tinha de gay? Era isso que não me fazia aceitar. Qualquer garota que passasse por ele se apaixonaria.
A prova havia sido hoje no último ensaio de casamento, a Hinata e ele nunca se viram na vida, e estavam conversando com se fossem amigos de infância. E vão querer argumentar que é a simpatia do cara? Minhas bolas que é! Todo mundo fala que ele é um grosso e antipático. Aliás, é visível na sua eterna cara de bunda. Mas enfim, dane-se! Já que ele fez o desprazer de comparecer ao último ensaio, acho que serei mesmo obrigado a aprender ao menos tolerá-lo.
— Pensativo? — ouvi a pergunta dócil da minha querida Sakura enquanto ela envolvia meu pescoço com seus braços; tive que me forçar para desfazer a cara fechada.
— Um pouco.
— Não é comum, né, meu amor? Só espero que não seja outra mulher que esteja dominando seus pensamentos, afinal, eu peguei você mais de uma vez olhando na direção em que a Hinata estava.
— Não era pra ela! — eu me defendi rapidamente. — Eu estava olhando o Sasu... ke... — Não sei o porquê, mas senti meu rosto aquecer imediatamente, principalmente, quando vi a minha noiva arquear uma das sobrancelhas; desconfiada.
Ao invés de me justificar acabei metendo os pés pelas mãos!
Ah! Como eu odeio esse cara!
...
Mesmo que eu fosse bom com as palavras, não saberia descrever a felicidade que se sente quando se está no altar e tem diante dos olhos a mulher que considera a mais linda do mundo. Além disso, poder dizer somente uma palavra: “sim” para tê-la por uma vida inteira.
O casamento foi perfeito. Tão perfeito que eu sentia minha felicidade transbordando. Tanto que cheguei a sentir uma estranha angústia; medo. Medo que aquela felicidade fosse roubada de mim a qualquer instante.
Mas, durante o baile, aqueles estranhos sentimentos se esvaíram com o suor. Não consegui conter o sorriso que parecia petrificado na minha face. Nada e nem ninguém poderia estragar aquela noite. Nem mesmo quando Sakura e eu puxamos Hinata e Sasuke para o salão. Nem mesmo quando trocamos de par e eu passei a ser guiado por ele. Poderia ser impressão minha, poderia ser somente um reflexo da minha própria felicidade, mas o maldito Sasuke parecia menos antipático àquela noite. Seus olhos me encararam de um jeito gentil e de perto pude admirar pela primeira vez e confessar, apenas para mim, o quanto ele tinha um rosto estranhamente bonito.
Tive a impressão que ele queria me dizer algo. Talvez os votos de felicidade, que certamente ele se esforçou para sufocar com seu orgulho. Mas eu não estava me importando, a música mudou e facilitando a coisa pra ele, trocamos de par novamente e eu voltei a ter minha mulher em meus braços, para sempre!
...
Eu não acreditei quando saí do banho e sentei diante do computador e vi o chat do Skype aberto. Sakura estava conversando com aquele maldito na nossa lua de mel?
Aproveitei que ela estava ocupada no banheiro e vasculhei a conversa deles, para ver se encontrava algo suspeito. Nada. Ela estava apenas enviando algumas fotos que tiramos na praia. Abri uma imagem na qual ela estava deslumbrante com uma saída de praia feita de barbantes rosa e não resisti, quando dei por mim, estava beijando a tela do computador.
Sem querer bati a mão no teclado e, quando abri os olhos para ver merda que tinha feito, me deparei com algo estranho. Muito, muito estranho.
— O que está fazendo?
A pergunta de Sakura às minhas costas me fez acionar a tecla “power” do teclado e desligar o computador sem ao menos pensar.
— N- nada não, Sakura-chan...
Durante algum tempo fiquei com aquela estranha imagem na cabeça. O Skype estava conectado e o botão que eu tinha apertado acidentalmente me mostrou a imagem da outra pessoa na webcam. Os lábios encostados na tela, na direção exata onde os meus lábios estavam antes. Era óbvio que aquela boca era de Sasuke, pois era o único online no comunicador. Mas eu não quis pensar sobre aquilo e muito menos saber o que significava. Decidi simplesmente apagar aquele ocorrido da minha cabeça.
...
Mas quando voltamos a nos encontrar com Sasuke pessoalmente, depois que Sakura e eu retornamos da lua de mel, comecei a notar um olhar diferente dele sobre mim, especialmente quando ficávamos sozinhos no mesmo ambiente. Nessas horas eu não conseguia evitar ficar tenso. Seu olhar me perseguia, mesmo eu querendo evitá-lo. Relutei em acreditar que a aversão que ele sentia por mim havia se transformando de repente em “algo diferente” e continuei me fingindo de desentendido.
Aquela possibilidade bizarra, de que Sasuke pudesse ter algum interesse em mim, martelou na minha cabeça durante algum tempo, mas se desvaneceu por completo quando recebi uma das notícias mais feliz da minha vida: eu seria pai. Sakura não quis adiar para termos nosso primeiro filho e em menos de seis meses ficamos grávidos.
Entretanto, diferente da nossa época de namoro, do nosso noivado e do início do casamento, eu vi minha Sakura mudando aos poucos. Grávida, ela não era a mulher firme e determinada com quem havia convivido até aquele momento, ela se tornou uma mulher de humor instável, sensível, cheia de neuroses e dramas. Chorava por qualquer coisa e uma das coisas que ela mais lamentava era o fato de Sasuke ter se afastado dela justamente depois de anunciar a gravidez, o que a fazia acreditar que ele estava rejeitando ser padrinho da nossa criança antes dela convidá-lo oficialmente. Apesar de que eu tinha outra versão para aquele distanciamento repentino de Sasuke: a chegada da nossa filha anularia qualquer esperança que ele tivesse nutrido referente a mim.
Ainda assim, eu estava me sentindo obrigado a procurá-lo. Sakura não se tornou “sensível” por nada, ela estava mesmo tendo uma gravidez complicada. Chegou um momento que ela precisou ficar em repouso em casa, depois de me garantir que seu médico havia dito que ela não corria grandes riscos. Mesmo de repouso, Sakura trabalhava em casa e quando ela me pediu que enviasse um arquivo via e-mail para Sasuke, eu encontrei aí a desculpa perfeita para ir procurá-lo e passar o recado pessoalmente. Salvei o arquivo em um pendrive, vesti uma camisa que ganhei dela — a qual eu detestava por ter um tecido transparente e ser exageradamente gay —, passei meu melhor perfume, em uma quantia bem acima do usual, e fui até o escritório.
Afinal, uma coisa básica que todo homem-não-gay sabe é que todo-homem-gay é extremamente detalhista com questões de estética.
Foi constrangedor.
Estranho e constrangedor.
Sasuke deixou claro seu interesse em mim naquele momento. Ele se atrapalhou como uma adolescente apaixonada ao me ver e foi transparente como água em suas intenções. Não sei se foram os artifícios apelativos que usei que o incentivaram, apenas sei que naquele dia ele foi tão ousado, que cheguei a pensar que ele se atreveria a me beijar, mas não chegou tão longe.
No fim da visita, minha verdadeira intenção, — convencê-lo a visitar Sakura —, se perdeu e o meu esforço foi em vão.
...
A minha mente se apagou e meu chão desabou no dia que minha filha veio ao mundo. Durante muito tempo fiquei submerso em uma fria, dolorosa e profunda escuridão. Onde tudo que eu ouvia era um choro longínquo, soluços e uma voz sempre firme a me incentivar.
Quando finalmente despertei, estava em outro mundo, em outra casa e tinha nos braços uma criança, aquela linda menina com os olhos verdes da minha Sakura. A “Ayame”, nossa filha, minha filha.
Passaram-se meses até eu compreender e me conformar que Sakura havia mesmo partido. Se não fosse ele, Sasuke, eu não sei em que pé as coisas terminariam. Ele largou tudo, seu mundo, sua casa, seu emprego, para poder cuidar de nós. E como eu fui injusto e mal agradecido então.
A única coisa que eu sabia fazer era criticá-lo, feri-lo com minhas palavras duras, com minha angústia e dor. Ele recebia tudo em silêncio, até um dia explodir.
“E estou começando acreditar que exista essa idiotice de “amor”, porque jamais, nunca, eu escolheria alguém ignorante, grosso e estúpido como você ao invés de um cara do meu próprio mundo”.
Nesse mesmo dia ele também jogou na minha cara que só estava se sujeitando a tudo aquilo pela Aya-chan, para que ela não crescesse sem pais, como ele e eu crescemos, porque ele tinha certeza que se eu tivesse ficado sozinho, teria tirado minha própria vida.
Eu só não confessei que ele havia acertado.
Foi Sasuke quem me devolveu a razão e me fez enxergar que existiam outras formas de se continuar indo em frente. Mesmo assim a minha ignorância persistia em me cegar e foi preciso que ele voltasse para Tóquio para que eu percebesse o quanto eu dependia dele. O quanto eu o queria por perto.
— Eu amo você. Eu não quero mais ficar nessa situação indecisa que estamos, por favor, Naruto, aceite sair comigo?
Mas, somente quando ouvi aquele pedido, foi que tive certeza do quanto estive esperando por ele. Eu me rendi àquilo que eu também já tinha certeza.
Não é estranho o ato de amar. São os prejulgamentos que tornam o ato de amar estranho. Infelizmente, precisei perder a mulher da minha vida para vencer minha ignorância e entender que a minha vida pertencia a outro homem.
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