Sem Querer, Juntos!
8 Capítulo 8 - Recomeço - Final

*Arte original da fanart by Sanaa
Sem querer, juntos.
Capítulo 8 — Recomeço
Neji me encarava duramente. Apesar de não ter certeza da expressão que ele fazia por estar com o tronco curvado para frente, enquanto visualizava meu rosto pálido no reflexo no piso espelhado da sala dele.
Mesmo o conhecendo muito pouco, eu tinha a certeza de que Neji era do tipo de cara discreto, tanto quanto sua gentil esposa Hinata, e por isso eu não me surpreendi, — mas fiquei aliviado; confesso — quando ele não procurou saber os meus motivos e apenas se resignou em aceitar meu pedido de desculpa por estar rejeitando a vaga que ele havia me oferecido em seu escritório.
— Caso mude de ideia novamente, sabe onde me encontrar, Uchiha — ele acrescentou, estendendo a mão na minha direção.
Voltei a ficar ereto, assenti com a cabeça e apertei a mão que ele havia me estendido.
Após os cumprimentos formais eu me despedi, pedindo para que Neji enviasse a Hinata meus sinceros pedidos de desculpas, por não me despedir dela e do bebê apropriadamente.
Eu não queria perder mais tempo. Sentia urgência em pôr fim em tudo aquilo o mais rápido possível.
Fiz uma breve ligação, algumas horas de carro e cheguei ao meu destino.
...
A casa onde Sakura havia nascido, crescido e vivido parte da sua juventude era bem modesta, porém aconchegante. Inúmeros porta-retratos dela com a família, do nascimento ao casamento, enfeitavam a parede e a copa de alguns móveis.
Fui convidado a me sentar justamente de frente a uma mesinha cujo porta-retrato central saltou às minhas vistas. Ele exibia uma Sakura radiante, talvez com seus nove anos de idade, pois o vestido de alcinha branco que ela vestia não exibia nenhum vestígio de seus atributos femininos, ela usava um chapéu de palha na cabeça e seus cabelos rosa e os verdes dos seus olhos se destacaram mais devido ao dia claro que fazia na foto.
Engoli em seco.
Aquele ambiente, de certa forma, me remeteu a uma câmera de tortura. Sem que eu me desse conta meus olhos haviam marejado. Era dolorido ter a certeza do quanto Sakura havia sido amada e do quanto ela ainda seria, caso não tivesse falecido.
— Sabem... — a minha voz saiu rouca, um pouco engasgada, tanto que tive que limpar a garganta com um pigarro antes de prosseguir. A mãe de Sakura, uma senhora loira e com aparência ainda jovem, parou de servir o café para me observar. Continuei. — Eu perdi meus pais quando eu era muito pequeno. Meu único parente vivo, meu irmão mais velho, teve que começar a trabalhar cedo para poder nos sustentar e desde então se tornou ausente. Assim que surgiu uma oportunidade de ganho melhor fora do país, ele não pensou duas vezes em aceitar a proposta e me abandonar. Eu ainda era adolescente. Sozinho, eu precisei sufocar as lembranças dos momentos que fui feliz, porque elas me machucavam. Eu cresci um cara amargo, cheio de neuroses, antipático e egoísta. Não queria amar ninguém, me apegar a ninguém, só queria me saciar com prazeres momentâneos e depois voltar a ser vazio. Essa foi a forma que eu encontrei pra não sofrer mais: não criar laços.
Dei uma pausa, suspirei fundo e prossegui.
— Mas quando encontrei Sakura, foi inevitável não amá-la. Tanto que cheguei a colocar em dúvida minha própria homossexualidade. Por isso que eu não me conformo com sua partida. A única coisa em que penso desde que ela se foi é: por quê? Por que ela que tinha tudo, um marido, pais, amigos, uma filha e não eu que nunca tive nada?
Precisei dar mais uma pausa forçada, tomei fôlego e apanhei a xícara de café servida pela metade pela senhora Haruno. Tomei somente um gole, o suficiente para empurrar aquele nó que se apertava na minha garganta. Encorajado novamente, ergui os olhos e encarei aqueles dois rostos cansados a diante de mim, então concluí.
— Eu ainda não tenho certeza da resposta para essa minha pergunta. Mesmo assim, eu não consigo deixar de me sentir culpado. Culpado por estar tão confortável no lugar que era dela. Eu me apaixonei pelo marido de Sakura. Eu amo a filha deles como se ela fosse minha, como se fizesse parte de mim. E é por isso que vim até aqui hoje. Eu tenho uma consciência, que é muito dura por sinal, e que martela a todo o momento o quanto estou sendo um parasita desprezível. Eu desejo roubar a felicidade da mulher que tanto admirei. Então, senhor Haruno, senhora Haruno, eu estou aqui hoje, agora, não só para me confessar, mas para anunciar que quero deixar aos cuidados dos senhores a felicidade da sua filha. Só que eles precisam ser amparados. Eu não vou partir tranquilamente e, certamente, a alma da Sakura não descansaria em paz se soubesse que Naruto e a filha ficaram sozinhos, sem o amparo daqueles que podem cuidar dos dois com o amor que só ela cuidaria. Peço perdão se causei ou estou causando algum transtorno, mas eu não tinha mais a quem recorrer.
O silêncio se promulgou. Eu ouvia o fungar discreto dos que choram calado. Nunca, a espera por uma resposta foi tão angustiante. Mas quando ela veio, veio em forma de um afago afetuoso da mão de uma mulher que já tinha sido mãe e que não perdera a magia de ser uma. A senhora Haruno se sentou ao meu lado, tocou meu ombro e depois os meus cabelos, até sua voz gentil soar me confortando.
— Sasuke-kun, né? — ela quis ter certeza do meu nome antes de prosseguir. Eu assenti e ela continuou: — Você disse muitas coisas bonitas, e dolorosas também. Sabe, meu filho, você não roubou nada da minha menina, foi uma fatalidade. Apesar desses dois velhos não aceitarem de qualquer jeito. Mas, indiferente a nossa tolice e ignorância, você está recebendo uma oportunidade vinda dos céus de ser feliz e, por mais que eu não compreenda muito bem como o sentimento entre dois rapazes seja possível, acho que quando se trata de amor verdadeiro, não se pode rejeitar.
— Haruno-san...
A mulher secou as lágrimas que haviam molhado seu rosto e então buscou uma das minhas mãos e a apertou entre as dela.
— Mas se está se sentindo tão pressionado, não se penalize tanto. Dê tempo ao tempo, coloque as ideias no lugar e volte quando se sentir mais seguro. Enquanto isso, ampararemos sim nosso genro e nossa neta com todo amor que eles precisarem.
Eu senti um alívio. Um grande e imenso alívio. Sorri para senhora Haruno e depois para o senhor Haruno que apenas concordou com a fala da esposa ao balançar a cabeça, enquanto ele também secava o rosto e assoava o nariz com um lenço. Então olhei para aquela Sakura sorridente e jovial na foto a minha frente e senti como se ela também estivesse de acordo com aquela decisão.
— Muito obrigado.
...
De volta a casa emprestada pelos Hyuuga, antes de descermos do carro, já ouvíamos o choro estridente da pequena Ayame-chan. Saí às pressas do veículos e entrei na casa.
Naruto andava de um lado para o outro com a bebê no colo, tentando acalmar o choro dela. Quando ele me viu já foi me questionando exaltado.
— Onde você foi, Sasuke? Eu liguei para o seu celular várias vezes e só está dando desligado. Liguei no escritório do Neji e ele disse que você só esteve lá durante a manhã. Onde esteve? A Aya-chan não parou de chorar e eu já não sei o que fazer e...
— Descarregou a bateria do meu celular — eu o cortei, já estendendo os braços para apanhar a bebê. — Me dá ela aqui.
Com a expressão exausta, Naruto nem pestanejou em me passar a Aya-chan. Eu a apanhei com cuidado e a embalei junto ao peito, mesmo assim ela não se acalmou.
— Calma, Aya-chan. Calminha.
— Será que posso tentar?
Os olhos de Naruto se arregalaram para a figura detida na entrada da casa.
— Claro — eu assenti, entregando a criança nos braços da avó que começou a embalá-la enquanto resmungava algo parecido com uma canção de ninar.
— Ela chora igualzinha a Sakura quando era bebê — comentou a Haruno-san, pressionando a barriguinha da neném por cima do macacão e logo constatando: — Está com prisão de ventre. Nada que um chá de ervas não resolva. Né, querido? Vem me ajudar. Ou pretende ficar aí fora esperando até o ano que vem?
O senhor Kizashi apareceu na porta um tanto desconfiado, olhou para dentro do imóvel, pediu licença e entrou, indo direto ao encontro da esposa que segurava a neta, olhando de esguelha a pequena em seu colo. Mas logo um sorriso iluminou sua feição antes enuviada.
— Oh! Ela realmente se parece com a Sakura — observou, mais animado.
— Não é, querido? Igualzinha.
Naruto encarava-os espantado. Depois que a neném acalmou o choro e os avós a levaram para cozinha, ele olhou para mim. E eu desviei do seu olhar e também pedi licença, segui para o quarto. Tinha muita coisa pra arrumar e uma estrada longa pra pegar. Queria estar em Tóquio ainda aquela noite.
Havia conversado mais com os pais de Sakura no caminho e aproveitei para explicar sobre a minha suspeita de Naruto estar com anorexia. Eles se propuseram a tomar conta da situação também, afirmando que fariam o possível para interná-lo para um tratamento.
Sem mais preocupações, terminei de fazer minhas malas e coloquei tudo dentro do carro.
Eu sentia que estava pronto para retornar ao meu mundo, pedir meu emprego de volta na editora, retomar o meu pequeno apartamento e transar de verdade, com gays de verdade, em uma vida gay de verdade.
Afinal, por mais que os pais de Sakura tivessem me apoiado, ainda havia um grande problema: Naruto. Nada se concretizaria se ele não quisesse. E eu já tinha esgotado minha última gota de paciência com alguém que eu não poderia moldar para se encaixar ao mundo que eu pertenço, da mesma forma que eu também não poderia me moldar para se encaixar ao mundo que ele pertence.
Sentiria muita falta da Aya-chan. Apesar de que estava totalmente fora de cogitação cortar meus laços com ela. Viria visitá-la, melhor dizendo, visitá-los, sempre que pudesse.
Sem querer, havíamos estado juntos, no entanto, não poderíamos continuar juntos sem querer.
Depois de tomar o café, o qual o senhor Kizashi havia preparado, eu segurei um pouco mais a neném enquanto a senhora Haruno terminava de lavar as louças da pia. A Ayame dormia como um verdadeiro anjo depois de tomar o chá-milagroso da avó.
— Você quer ir, não é, Sasuke-kun? — Ela perguntou ao secar as mãos no avental e estender os braços na minha direção, com a clara intenção de apanhar a neta. — Pode me dar ela.
Relutei por um instante, um pequeno e mísero instante, então suspirei fundo, me enchendo de coragem novamente, e a devolvi para o colo da avó.
— Sei que não preciso dizer isso para quem já criou uma filha antes, mas cuidem bem dela, por favor.
Ambos sorriram e assentiram.
— Ficaremos esperando sua visita, Sasuke-kun.
— Vá com cuidado na estrada, filho — o senhor Haruno alertou. — Tomaremos conta dos dois.
— Virei no próximo fim de semana visitá-los — avisei. — Todos.
— Obrigado — o avô da Aya-chan acrescentou, estendendo a mão na minha direção. — Por tudo que fez pela Sakura-chan, pelo Naruto e principalmente pela Ayame-chan. Desculpe a ignorância desses dois velhos que cegos pela dor demoraram tanto tempo a entender que só há morte quando se há vida. São dos vivos que precisamos tomar conta afinal.
Eu apertei a mão dele com força.
— Foi um prazer. De verdade, Haruno-san. Obrigado. Até mais.
Me curvei e saí da cozinha, esperando encontrar um Naruto ansioso por explicações no caminho até o carro. Porém, não. Não foi como eu imaginei. Eu não o avistei em lugar nenhum ao cruzar a casa, nem do lado de fora. Ele havia desaparecido de vista desde o momento que anunciei que iria fazer as malas. Talvez fosse melhor daquele jeito.
Mas foi abrir a porta do carro e descobri onde ele havia se escondido.
— Vamos? — ele perguntou, bem acomodado na cadeira do passageiro ao lado do motorista.
— Eu vou — confirmei, entrando, sentando e batendo a porta. — Você fica. A Aya-chan precisa de você.
Ele ficou em silêncio por um minuto, depois disso, destravou o cinto e segurou a maçaneta da porta. Meu coração retomou as batidas descompassadas. Eu sentia aquela compressão no estômago e era tão intensa que me fazia sentir ânsia. Umedeci os lábios, engoli em seco e suspirei. Precisava continuar firme.
— Então, tá — ele concordou simplesmente, depois de um tempo.
Quando ouvi o clique da maçaneta que abriria a porta do carro e o deixaria sair eu agi por impulso: o puxei de volta pelo ombro ao mesmo tempo em que ele também pareceu ter decidido voltar e acabamos batendo nossas testas e narizes.
— Ai!
Ambos reclamamos, rindo e massageando as regiões atingidas.
Então aquilo aconteceu. Mais calmos, nós dois fomos ao encontro um do outro, paramos poucos milímetros um do rosto do outro e nos encaramos. Foi ele quem envolveu minha nuca primeiro, depois eu fiz o mesmo com ele, e nos beijamos. A iniciativa não havia sido unilateral. Foi quase sincronizada. O beijo também fora recíproco. Rápido demais para saciar a ânsia que me consumia, infelizmente.
Nos afastamos de vagar, passando a língua sobre os lábios. Então o vi sorrir de canto, abrir a porta e descer depressa; voltou a fechá-la e deu a volta no carro, parando na minha janela.
— Quem sabe da próxima vez a gente não transa — ele sugeriu com aquela face corada e um rosto tão radiante que quase me fizeram desfazer a mala naquele exato momento. — Vou tentar engordar já que você tem tesão em gordinhos — acrescentou debochado, fazendo minha oscilação se dissipar.
— Pare de brincar com a minha cara e com a sua saúde — esturrei. — Cuide-se. Você precisa se manter forte pra cuidar da sua filha.
— Obrigado, Sasuke — ele disse sorrindo, o vento noturno soprando sua franja loira.
Eu não aguentei ficar só olhando aquele rosto tão bonito e que radiava algo novo, segurei-o pela nuca mais uma vez e o trouxe para mais perto, beijando-o novamente.
— Não tem de quê — respondi ao me afastar.
Naruto ficou me encarando, enquanto eu desejava mentalmente que meu estômago parasse de revirar.
— Naruto-kun, onde você guarda as roupas da Aya-chan?
— Eu te mostro, Haruno-obaa-chan.
Aquela foi a minha deixa, enquanto Naruto se ergueu para responder a sogra, eu coloquei o cinto se segurança, a chave na ignição e dei a partida no veículo. Ao ouvir o ronco do motor, Naruto se afastou, dando passos para trás. Eu aproveitei o espaço e manobrei o carro para fora da garagem. Na rua, buzinei e acenei com o braço estendido pra fora da janela, para finalmente ganhar a estrada e rumar de volta a minha vida.
...
Nunca as filas de banco, o barulho do tumultuado e grande centro urbano em ebulição, do trânsito abarrotado de veículos, dos bares cheios, das placas luminosas me pareceram tão confortáveis.
Retomei minha rotina. O emprego na editora e o meu pequeno apartamento.
Como havia prometido, no primeiro final de semana depois do meu retorno para Tóquio, eu voltei para visitá-los. Minhas visitas se tornaram regulares. Nessas ocasiões também aproveitava para visitar os Hyuuga e o pequeno Tora.
Apesar das minhas visitas serem contínuas, Naruto e eu mantivemos certa discrição nesses encontros na casa dos pais de Sakura, discrição que ia totalmente pelos ares em nossas conversas por telefone ou os videofones via Skype, quando ele fazia questão de ficar com o mínimo de roupa possível com a desculpa que queria me mostrar o quanto de peso ele havia ganhado.
O tratamento havia surtido efeito e Naruto se recuperou rápido. Ele também voltou a lecionar, conseguiu uma vaga na escola que estudou na infância, perto da casa dos sogros.
E sete meses se passaram em um piscar de olhos.
Quanto ao nosso estranho relacionamento?
Bem, ele continuou assim, estranho por um tempo. Não estávamos comprometidos, pois nenhum de nós dois havia feito verbalmente o pedido. Também não havia promessa de que um dia iríamos formalizar essa relação. Por isso, eu, pelo menos, me dei ao luxo de continuar saindo e me relacionando sem compromisso com quem bem entendesse. Imaginando que ele estivesse fazendo o mesmo.
Todavia, certo dia, eu estava bebendo com um colega em uma balada e bêbado acabei deixando que o meu acompanhante atendesse meu celular. Era Naruto. Ele desligou no mesmo instante e eu passei uma semana atordoado por ele não atender nenhuma das minhas ligações. Quando fui visitá-los no fim de semana seguinte aquela situação eu descobri que, pela primeira vez, após a morte de Sakura, ele havia convidado alguém para um encontro.
Desesperado por achar que havia colocado tudo a perder, eu fui atrás dele para me justificar. Estava até disposto a deixar meu espírito ‘barraqueiro-gay’ agir se fosse preciso, mas quando o encontrei no bar que a senhora Haruno havia me indicado, conversando animadamente com um cara de cabelo preto e pele pálida, eu perdi o rumo. Eu estava certo que seria uma garota. De toda forma, entrei no bar, pedi uma bebida e fiquei vigiando-os de longe. Depois que ele se despediu do cara, já na rua, eu criei coragem para me aproximar e exigir dele uma explicação.
Tivemos uma discussão bem fervorosa. Mas tão fervorosa, que acabamos aos socos e no findar da madrugada, na cama de um motel. Foi nossa primeira vez.
Não repetimos a dose tão cedo, mas voltamos a nos falar como antes e isso foi o suficiente para que eu abolisse totalmente as baladas e os amassos sem compromisso da minha vida.
Eu ainda estou criando coragem para pedi-lo em namoro e formalizarmos nossa relação. Porém, ainda tenho medo de ouvir aquilo que todos os tolos apaixonados temem: um alto e sonoro “não” ou “eu não estou preparado ainda pra levar um relacionamento a sério depois da morte da minha mulher”.
— Porque no fundo, apesar de ter se passado um ano, eu ainda tenho medo do que se passa pela cabeça loira do seu lindo-idiota-ogro-de-olhos-azuis, Sakura. É. Foi isso que aconteceu até agora — confessou o rapaz moreno, depositando o ramalhete de flores sobre o túmulo cuja inscrição na lápide dizia:
“Aqui, sob as pétalas de suas irmãs, jaz nossa sempre amada flor de cerejeira, Haruno Sakura”.
Após juntar as mãos e fazer uma breve prece, Sasuke se levantou e encarou o longo corredor de paralelepípedos, que era ladeado por frondosas cerejeiras de ambos os lados. Sorriu ao avistar vindo a passos lentos aqueles dois. O homem loiro trazia um ramalhete de flores em uma das mãos e com a outra ele segurava a mãozinha da menina que vinha andando a passos cuidadosos.
— Ei, Aya-chan, olha quem está ali.
A menina parou de olhar aonde seus pesinhos pisavam, para erguer seus grandes olhos verdes claros para o pai. Naruto fez um gesto com a cabeça, para que ela olhasse mais adiante e o obedecendo, Ayame olhou para frente e em seguida abriu um grande sorriso.
— Sa! Sa! Sasu! Sasu! Tou! Tou! Sasu, tou!
— É, eu sei. É o tio Sasuke. Vai. Continue andando.
Naruto soltou da mão da filha e a viu sair sozinha, tentando andar mais depressa. Sasuke se agachou, encostando um joelho no chão e abriu os braços para recebê-la.
— Vem, vem com o tio Sasuke. Vem. Isso. Tá indo muito bem.
Naruto a seguiu devagar, acompanhando os passos bambos da filha, pronto para acudi-la caso precisasse. Mas Ayame completou o caminho andando sozinha.
Assim que ela alcançou o homem moreno, Sasuke a apanhou no colo e a abraçou junto ao peito.
— Que saudades de você, pequena.
— Sasu? Sasu? A Aya-tan aishu Sasu tá? Aya-tan aishu.
— O tio Sasuke também te ama, Aya-chan.
— Tou? Tou? Tou aishu Sasu, né?
— É... — Naruto concordou meio vacilante. — É você quem está dizendo, Aya-chan, não me comprometa.
— Sasu? Sasu aishu tou, né?
Sasuke sorriu e muito acanhando balançou a cabeça positivamente.
— E muito.
Os dois homens se olharam e seus olhares acanhados só foram interrompidos pelas palmas das mãozinhas de Ayame. Então ela virou os bracinhos pro lado do túmulo e falou.
— Oka? Tou, Aya e Sasu, aishu a oka!
A comoção marejou os olhos de Naruto e Sasuke.
Naruto passou por Sasuke e a filha e depositou o ramalhete de flores ao lado do outro que certamente havia sido deixado por Sasuke. Fez um breve carinho na lápide e se levantou.
— É, nós te amamos, Sakura.
— Kissu! — A criança anunciou de repente. — Aya Kissu, Sasu! — ela pedia, apertando o rosto de Sasuke e fazendo biquinho enquanto fechava os olhinhos.
Sasuke respondeu ao pedido, dando um selinho estalado nos lábios da menina. Em seguida ela se voltou pedindo o mesmo para o pai que depois de ficar corado, coçar a nuca, o nariz, a cabeça, o fez. No final, ela pediu para que os dois também se beijassem.
— Aola Sasu e Tou kissu.
Sasuke olhou para Naruto, como se precisasse do consentimento antes de beijá-lo. Naruto revirou os olhos e procurando evitar que o aquele momento ficasse mais constrangedor, foi ele quem tomou a iniciativa e beijou Sasuke nos lábios.
— Pronto. Agora chega de tanto beijo, Aya-chan — Naruto comandou, andando na frente. — Vamos almoçar.
— Não, tou, não. Sasu kissu. Sasu kissu tou.
— Ah! Chega, Aya-chan!
A filha juntou os lábios tremulantes, anunciando que começaria a chorar e Naruto se entregou.
— Certo, Sasu. Termina logo com isso — Naruto pediu, parando com os olhos fechados sob a sombra de uma das cerejeiras.
O vento balançou a copa das árvores, aumentando a chuva de pétalas de cerejeira que dançavam no ar. Sasuke sentiu seu coração bater mais forte e colocou a Ayame no chão, mantendo uma das mãozinhas dela na sua, com a outra livre, ele acariciou o rosto de Naruto que abriu os olhos para encará-lo.
— O que foi?
— Eu amo você. Eu não quero mais ficar nessa situação indecisa que estamos, por favor, Naruto, aceite sair comigo?
O rosto de Naruto se afogueou imediatamente, ganhando um tom de vermelho intenso.
— Está me pedindo em namoro dentro de um cemitério?
Sasuke arregalou os olhos.
— Desculpe-me. Esquece o que eu disse. Eu não sei onde estou com a cabeça para fazer um pedido desses aqui, em um dia como esse, diante do túmulo da Sakura e...
— Não. É melhor aqui do que nunca. E... Bem... tudo bem.
— Hã? Eu entendi bem? Está aceitando namorar comigo?
— Não torna isso mais constrangedor.
Sasuke não teve tempo de esboçar melhor sua surpresa, pois logo sentiu a mãozinha da Ayame fugir da sua e puxar sua calça ao se agarrar nela, ao olhar pra baixo notou que ela também segurava o tecido da calça do pai. Em seguida, ela ergueu a cabeça para olhá-los e franzindo o cenho ela os lembrou exigente.
— Kisuuuuuuuu!
Impulsionado pela pressão que a pequena Aya-chan fazia, Sasuke envolveu Naruto em seus braços e os dois enfim se beijaram. Desta vez, com querer, eles ficariam juntos.
FIM.
Vocabulário de expressões:
Tou: abreviação do termo japonês “otousa-san” (pai);
Aishu: abreviação do termo japonês “Aishiteru” (eu te amo)
Oka: abreviação do termo japonês “okaa-san” (mãe)
Kissu: é adaptação japonesa do termo americano “Kiss” (beijo).
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