Sem Querer, Juntos!
1 Capítulo 1 - Eu
Sem querer, juntos.
Capítulo 1 — Eu
Odeio gente otimista. Principalmente aquelas que te abrem um grande sorriso e te aconselham com frases do tipo:
“Os problemas são colocados em seu caminho para torná-lo um ser humano mais forte”;
“Sorria, a vida é bela, quando você sabe vivê-la!”;
“Se a vida lhe der limões, faça uma limonada!”
E mais um bando de “Blá, blá, blá!” sem sentido!
Humpf!
Idiotice. Falsa propaganda. Hipocrisia humana.
Na verdade, a grande maioria dos seres humanos é individualista, capitalista, arrogante, racista e sensacionalista. Mas essa mesma maioria se munem de máscaras e fingem que são desprovidos da parte podre.
Saber que alguém está no fundo do poço e bater nas suas costas dizendo: “Você tem que superar, pois dias melhores virão...” é só um alivio para sua própria mediocridade.
Faz bem para o ego humano saber que o vizinho tem problemas maiores que os seus.
Felicidade é outro sentimento o qual não ponho fé. Do meu ponto de vista, felicidade é um paradoxo, se não dizer: algo irreal; fantasioso.
A felicidade está ligada a sentimentos repulsivos como: o egoísmo, o egocentrismo e a ganância. Ser feliz é ter tudo aquilo que você almeja e esse desejo por si só é egoísta, independente do grau.
A diferença é que existem pessoas que acreditam que não são egoístas por desejarem coisas simples. Enquanto outras, o egoísmo é tão extenso, que nem o céu é o limite. Mas para mim, egoísmo é egoísmo, indiferente do nível.
Por isso, ao invés de usar o termo “felicidade” eu prefiro fazer uso de um termo mais prático e real, tal como: “satisfação”.
Eu não sou um ser humano feliz, tenho momentos de satisfação. Existe reciprocidade nesse sentimento, o que o torna mais nobre que a felicidade. Por exemplo, se estou satisfeito com o meu emprego, é porque consegui desenvolvê-lo a contento e fui bem remunerado por isso. E se fui bem recompensado pelo meu empregador, é porque ele também está satisfeito com o meu desempenho, que lhe trará lucros. Ou seja, a satisfação é como um círculo, ou aquele ditado “dar para receber”.
Agora, a felicidade, na maioria das vezes, é uma via unilateral. Para uma pessoa se sentir feliz ela não precisa, necessariamente, ter feito outra pessoa feliz. Existem pessoas que se sentem felizes, até mesmo, com a desgraça do outro.
Existem ainda aqueles que são felizes por nada. Os que eu nomeio como “bobo da corte”. Afinal, como alguém pode ser feliz por nada?
Em minha opinião, somente os idiotas.
E é exatamente por eu ter esses pensamentos considerados ‘negativistas’ é que sou tido como um ser amargo e mal-amado.
Mas, a verdade é que essa tal felicidade não me faz falta.
Esse ano, para ser exato, daqui duas semanas, farei trinta e três anos. Sim, eu já sei. A idade de Cristo. Sei disso, não por ser religioso, mas porque trezentas e setenta e cinco pessoas já me deram essa informação, — como se eu tivesse contato com tudo isso de gente. Foi uma ironia. Ironia por não entender o porquê sempre fazem esse comentário quando respondo quantos anos irei fazer. Informação que sou obrigado a dar graças aquele maldito quadro de “aniversariantes do mês” que o RH coloca todo o santo início de mês ao lado do relógio de ponto.
“Você faz aniversário esse mês, Sasuke...” — a observação óbvia vem normalmente de pessoas que já me conhecem ao longo desses dez anos de empresa e estão cansadas de saberem que meu aniversário é em Julho.
Resmungo em afirmação ou digo “pois é”. E aí vem o complemento mais previsível de todos: “Quantos anos irá fazer?”; acompanhado do pior de todos: “Vai ter festa?”.
Às vezes penso que ‘eles’ fazem isso só para me irritar, por gostarem de me ver vermelho de raiva. Quem sabe, meu tom nervoso de voz seja sexy. Mas se todos os anos eu repito que odeio festas, porque não enfiam isso de vez na cabeça? Por que insistem nessa maldita pergunta? Não creio que meus colegas de trabalho sejam tão inocentes ao ponto de acreditarem que minha personalidade irá mudar da noite para o dia.
O mais revoltante ainda é quando aquelas mulheres solteiras, com idade igual ou superior a minha, talvez, beirando a menopausa e com desejos insanos de casar e ter filhos, comentam irritantemente: “Já está passando da hora de casar, né, Uchiha-san?”
Eu sempre sinto algo arder e se revirar dentro de mim ao ouvir isso. Mas procuro me controlar, me limitando a responder de uma forma que deveria não dar margens para a réplica:
“Sou gay.”
“Gays não casam?”
Pois é. Sempre existem aquelas que após fazer um esforço tremendo para esconder a decepção e o choque, forçam um sorriso e ainda procuram continuar a conversa.
Lembrar-me desse fato sempre faz uma veia latejar fortemente na minha fronte e ainda são dez horas da manhã, — acabei de confirmar no relógio do computador — e como só faltam três páginas do arquivo que tenho para revisar, preciso enrolar o máximo que puder até dar o horário do almoço, que no caso, são às onze e meia.
Sou revisor, trabalho em uma editora de porte médio. Mesmo eu tendo me formado em jornalismo, o mercado saturado não me permitiu conseguir um emprego como jornalista. Mas não reclamo do que eu faço, é um emprego que me paga o suficiente para sobrevivência, nem mais e nem menos. A quantia é suficiente para eu cumprir com o longo financiamento do meu apartamento na periferia da cidade e da motoneta. Além de dar para os meus gastos pessoais, que são poucos, já que não tenho luxos.
Não sei se vou viver o suficiente para um dia ver o lugar que moro quitado, mas não me importo, já que não irei deixá-lo como herança para ninguém. Não tenho família e nem pretendo construir uma. Sou gay e casais gays não podem gerar filhos; a não ser, que queiram adotá-los ou gerá-los através de uma barriga de solidária, fazendo inseminação artificial, o que está longe de ser meu desejo.
Não quero ter filhos. Ponto. Crianças são detestáveis. Ponto. E eu sei que é sorte das futuras mamães e dos futuros bebês eu ser um gay. Assim, não sou obrigado a cumprir com o protocolo e ter uma família.
Se alguém acreditava que ser homossexual era uma desculpa minha, para me livrar das cantadas das minhas colegas de trabalho, se enganaram redondamente. Eu não preciso inventar desculpas, eu não gosto de mentir e nem preciso. Não me importo se a verdade não agrada as pessoas medíocres. Se elas não querem ouvi-las, melhor que não perguntem. Pelo menos, não para mim.
Todavia, devido há alguns problemas que tive sendo sincero demais, hoje em dia, tento me segurar e omitir o que penso. Mas se o indivíduo insistir em ouvir minha opinião eu irei expô-la de maneira sincera, aí a culpa já não é minha se esse indivíduo não gostar.
Sim, eu sei. Eu sou uma pessoa antipática e antissocial. Por isso, pessoas alegres, otimistas, divertidas, simpáticas demais, me irritam profundamente e eu as evito.
Trabalho em uma sala sozinho, por opção minha, óbvio. Não suporto o barulho do setor editorial onde tem inúmeras ilhas com pessoas conversando ao mesmo tempo, — conversas cujo assunto nem sempre é pertinente ao trabalho — na maioria das vezes, estão fofocando ou contando piadas.
Também sei que o motivo de muitas dessas piadas sou eu. Pois quando sou obrigado a passar pela sala de editores, o silêncio predomina durante minha passagem e retoma com força assim que saio.
Como já disse: eu não me importo.
A minha sala é aqui, dentro do arquivo. A funcionária que trabalha no próprio arquivo, normalmente, não me atrapalha. Ela é só uma aprendiz. Os aprendizes da empresa mudam de seis em seis meses, às vezes chega a um ano. Ela (ou ele) tem a função de organizar os arquivos em caixas e gavetas e protocolar tudo no computador que fica aos fundos. Nesses dez anos de empresa já devo ter conhecido mais de quinze jovens, mas nenhum marcou suficiente para me fazer recordar do seu nome. A realidade é que em minha mente eu abstenho o nome desse novo funcionário e o batizo com um apelido que o identifique melhor.
A atual é a Usagi-chan[1]. Ela se parece com um coelho assustado; os cabelos descoloridos, presos em ambos os lados da cabeça, lembram vagamente as grandes orelhas de um coelho, por isso o apelido. Mas a verdade é que ela é muito tímida, e quando ela fala comigo, tem um tique estranho: franzir o nariz, como os coelhos fazem, por isso, ela é a Usagi-chan. Mas até que é um apelido fofo. Combina com ela.
O maior cargo que pode se alcançar em uma editora é ser o editor-chefe; cargo que não me interessa. Lidar com aquele bando de gente hipócrita da outra sala não é bem meu sonho de consumo e “satisfação”. Mas a pessoa que está nesse lugar o exerce de forma exímia.
Hoje, posso afirmar sem receios, que a editora-chefe, Haruno Sakura, é uma das poucas pessoas que admiro nesse mundo. Porque ela foi a única que eu não consegui espantar com meu “humor do cão” — como ela mesma nomeou.
Eu conheci a Sakura na faculdade, mas eu aprendi a gostar dela bem depois. Na sala de aula, a Haruno parecia mais uma garota do tipo fútil. Falando com suas amigas sobre coisas da moda, artistas famosos, artigos de revistas, bandas, assuntos que me irritavam profundamente. Ela era mais detestável ainda quando falava alto no celular ou estava rodeada de outras garotas que por algum motivo estranho, ficavam puxando o saco dela, dizendo o quanto ela era “descolada” com aqueles cabelos curtos e de tom rosa. As mesmas “amigas” que peguei várias vezes falando mal dela pelos corredores.
Durante as aulas, sentávamos um do lado do outro e quando havia necessidade de desenvolver atividade em duplas, Sakura se encostava mais ao meu lado para fazermos juntos, sem que houvesse necessidade de eu vencer meu alto-egocentrismo pra pedir esse favor — o que gerou em mim uma leve simpatia por ela.
Descobri muito tempo depois que Sakura sabia que suas colegas da faculdade apenas fingiam serem suas amigas, e um dos motivos, de acordo com ela própria, era porque essas garotas acreditavam que Sakura e eu fossemos amigos de verdade, pelas vezes que fizemos trabalhos juntos. E que esse motivo poderiam ajudá-las a se aproximar de mim. O que me gerou uma repulsa ainda maior por aquelas garotas.
Sempre fui um cara apresentável, apesar de achar que isso não me traz benefício algum, nem mesmo no mundo homossexual. Que, aliás, também é outro mundo de pessoas hipócritas. Ser um gay bonito serve para ser disputado como um troféu a ser exibido pelos outros; ou serve para despertar a obsessão de gente que acha que está apaixonado, só porque se deparou com alguém deslumbrante. Porém, eu, particularmente, adoro frustrar pessoas com esse tipo de pensamento pobre.
Não. O mundo gay não é diferente do mundo heterossexual. Afinal, gays são humanos e tem a parte podre como qualquer outro.
Mas, voltando ao foco. Sakura, para mim, sempre me pareceu uma garota bonita, apesar da aparente futilidade quando a conheci. Ela não é do tipo atraente para os caras que se dizem “macho”. Afinal, a Haruno é bem magra, cabelos curtos, atributos não muito exagerados, do tipo que eu, particularmente, acho bonito em uma mulher. O que me remete ao fato de que talvez o motivo por eu achá-la bonita seja exatamente esse: ela ter atributos tão discretos ao ponto de me fazer confundi-la com um rapaz.
Como disse, anteriormente, inicialmente eu a achava fútil, era essa impressão que eu tive na faculdade. Porém, de todas as garotas fúteis daquela sala de aula, Sakura, pelo menos, não saía falando mal de ninguém pelas costas.
Todavia, essa impressão de futilidade foi desfeita quando terminei a faculdade e acabei reencontrando-a ali, na editora. Descobri uma mulher talentosa, apaixonada por livros e esportes de lutas. Também descobri que ela havia sido uma garota sem graça na adolescência e cheia de complexos. E que tinha “lindos” defeitos como: ser péssima na cozinha, odiar salto-altos, maquiagem e vestido justo no corpo.
No fundo, comecei a pensar que Sakura seria um “parceiro ideal” se ela não fosse uma garota. E a minha opinião sobre ela mudou tanto, que teve uma época que passei a duvidar da minha homossexualidade. Fazia três anos que estávamos trabalhando juntos e comecei a pensar que estivesse apaixonado por ela. Afinal, Sakura me mostrou que tinha uns diferenciais que me atraíam: sempre foi muito sincera; pouco sensível e muito pé no chão. Mas, não era perfeita e além de exibir defeitos peculiares dela mesma, tinha aqueles que quase toda mulher têm: fala demais, sente-se insegura, chora quando decepcionada e sempre era um pé-no-saco no período Pré-Menstrual.
Porém, era óbvio que Sakura não me enxergava como “homem”, eu era apenas o “amigo gay”, um tipo de substituto para o papel da “melhor amiga” — a qual ela não tinha — e por isso, eu acabava sempre ouvindo dela seus desabafos e suas frustrações amorosas. Durante muito tempo, através dela, vi e ouvi as estranhas fases femininas: a euforia por estar saindo com alguém novo, o qual ela depositava todos os anseios, seus pedidos de conselhos pós-primeiro-encontro, seus desabafos ao descobrir que havia se iludido e sua depressão quando tudo terminava.
Foram várias as vezes que ela me chamou em sua sala só para saber se ligava para tal cara ou não. Quando os conselhos não eram suficientes, saíamos para beber e eu ouvia dela mais lamentos, que prosseguiam por uma noite toda. Até tê-la que deixá-la em casa de madrugada, por ela estar muito bêbada e não ter condições de conduzir seu veículo.
Foi em uma dessas ocasiões que me questionei sobre a minha sexualidade. Até então eu nunca tinha me sentido atraído por nenhuma mulher, mas quando deixei Sakura no sofá da sala naquela noite e notei suas roupas desalinhadas, senti meu coração bater diferente.
Com a desculpa de que iria apenas “ajeitar” as roupas desalinhadas dela, acabei tocando em sua pele e gostei da sensação. Por uma pequena fração de segundos senti um impulso enlouquecedor de beijá-la e teria conseguido, se, não fosse a intromissão daquele cara. Por algum motivo ele tinha a chave do apartamento e estava esperando por ela no quarto. Assim que ele ascendeu a luz da sala e viu a cena, veio pra cima de mim com olhos abrasados em fúria, me puxou para longe dela e começou a me golpear como se eu fosse um maníaco que estivesse tentando estuprá-la.
O mesmo maldito de quem ela está noiva hoje.
Sakura acordou e mesmo ela gritando loucamente para o idiota parar, informando que eu era gay, ele continuou me espancando até dar-se por satisfeito.
Ah, sim. Eu o odeio, óbvio. Mais que tudo nessa vida. Mais que elevadores cheios. Mais que filas de bancos. Mais que trânsito engarrafado. Mais que bolo duro amanhecido. Mais que crianças birrentas chorando no supermercado. Mais que...
Acho que já entenderam.
“Você está mentindo, Sakura! Esse cara não tem jeito de boiola! Ele estava tirando suas roupas! Estava em cima de você! Eu vi com meus próprios olhos!”
O engraçado seria é se ele tivesse “visto” com olhos de outra pessoa.
Pois é, eu percebi naquele momento que o tom loiro da cabeleira espessa que ele tinha era natural e fazia jus ao dito popular de que os loiros são burros. Ele é do tipo de idiota que nem se constrange em ser pouco inteligente.
Infelizmente, eu não era forte como ele naquela ocasião. Não era, porque depois daquilo, decidi seguir os conselhos de Sakura e passei a fazer boxe. Não consegui dar uns bons socos na fuça dele naquele dia, mas minha revolta ainda está guardada para uma oportunidade futura.
Mesmo com a boca inchada do sangue que escorria pelas laterais da minha boca eu revidei a agressão com minhas palavras ferinas:
“Você a faz chorar, seu palhaço. Bunda mole. Cérebro de ameba. Depois vem querendo dar uma de machão? Foda-se! Perdedor! Infantil! Medíocre!”
É, vocabulário digno de um moleque de rua.
Eu quase apanhei de novo. Mas a Sakura segurou o homem e pediu para eu sair antes que a situação piorasse. Eu fiz. E algumas semanas depois descobri que eles haviam reatado.
Ela diz que foi tudo graças a mim. Que depois daquele incidente os dois passaram a ser mais tolerantes e os sentimentos deles se fortaleceram. Ou seja, ela acha que eu fui o cupido.
Então, adivinhem?
Adivinhou quem respondeu que ela quer que e eu seja o padrinho do casamento. Mesmo ela sabendo que o tal cara e eu nos odiamos.
Naruto Uzumaki não esconde sua antipatia por mim, o que é a única coisa que me agrada nele, já que gosto de pessoas sinceras. Mas, todas às vezes que nos encontramos, as alfinetas são recíprocas. Ele é exatamente do tipo de gente a qual me referia no começo: o tipo que eu odeio. Ligado no 220; metido a comediante; alegre e feliz, do tipo bobo da corte. Além de esquentadinho e pouco inteligente.
Mas o que me deixa mais irritado é que a Sakura tem ciência da nossa incompatibilidade — e do nosso “ódio à primeira vista” — e, mesmo assim, ela insiste que eu seja o padrinho do casamento; do futuro filho, e essa baboseira toda de festas em família e tudo que repudio do fundo da minha alma.
“O Naruto não te odeia, Sasuke...” ela argumentou na tentativa de me convencer do contrário e aceitar ser seu padrinho de casamento.
“Sei. Não odeia pouco, você quer dizer”, eu a corrigi.
Mesmo eu sendo persistente na negativa, está complicado fazê-la mudar de opinião.
Esta aí! Outra coisa que nós três temos em comum: somos todos cabeças-duras.
Sobressaltei ao ouvir a porta abrindo e a cabeça da nova aprendiz surgir entre o vão.
— A senhorita Haruno tá te chamando! — ela exclamou, franzindo o nariz daquele jeito que a deixa parecida com um coelhinho e, em seguida, voltou a fechar a porta em um baque.
Ela sempre faz isso. Será que a coelhinha acha que eu mordo?
...
Mesmo enrolando o percurso, o prédio não era muito grande, por isso, não demorei tanto pra chegar à sala da editora-chefe e ficar diante daqueles olhos verdes tão efusivos. Suspirei quando a vi de pé, braços cruzados no peito e batendo o escarpam no assoalho, em seu sinal mais comum de impaciência.
— Porque matou o ensaio do casamento outra vez, ontem, Sasuke? — ela foi direta ao ponto.
— Será que é por que desde o começo eu não aceitei ser o seu padrinho? — rebati.
— Sasuke... — ela suspirou, mudando o tom nervoso para forçadamente melancólico. — Eu estou preparando esse casamento faz um ano. Um ano! Você entende isso? Faltam duas semanas para a cerimônia. Eu estou com os nervos à flor da pele. Simplesmente, não posso aceitar que um dos meus padrinhos, o mais importante, falte aos ensaios do casamento.
— Sakura...
— Sasuke, por favor? — ela me pediu com as mãos juntas e olhos já lacrimejados. Teatro. Claro. Como eu disse, ela é uma garota pouco sensível. Porém, determinada, por não desistir da ideia tola de me fazer seu padrinho.
— Sakura...
— Fora que, você precisa conhecer a garota que vai ser sua companhia.
— Uma garota? Pra quê?
— Você precisa fazer par com alguém, ora! E como você não me apresentou ninguém que irá acompanhá-lo, eu arrumei uma pessoa. Ela faz parte do grupo de amigos do Naruto, e está sem companhia, vocês vão se dar bem, eu sinto isso.
— Não fala como se isso fosse algo natural, Sakura. Eu nunca me dou bem com ninguém. Você sabe.
— Sasuke... — ela se aproximou de mim e apanhou as minhas mãos. — Nós dois sempre nos demos muito bem, mesmo você afirmando isso. Por favor? Eu quero o meu melhor amigo presente no dia mais especial da minha vida. Eu já lhe disse isso um milhão de vezes. Não vou desistir as vésperas do casamento.
— Será que vou perder essa batalha?
— Por favor?
Eu suspirei.
— Só porque odeio mulher sentimental as vésperas de casamento mais do que odeio mulher e...
— Já sei, já sei — ela interrompeu com um sorriso no rosto. — Mais do que odeia filas de bancos, caixas eletrônicos, cachorros que fazem xixi na calçada, moto-entregadores, lâmpadas queimadas... — ela me abraçou. — Sinceramente, Sasuke, seria mais fácil se você enumerasse o que você gosta.
Eu sorri, discretamente, e um pouco duro, correspondi ao abraço. Sentindo-me um pouco enjoado quando a fragrância adocicada do perfume que ela usava.
— Tá.
— Obrigada, Sasuke.
— Certo. Só me prometa que não vai tentar me empurrar para essa madrinha que deve ser uma tia velha e gorda daquele loiro. Você e o Bobo da Corte não tem a menor chance de conseguirem encontrar alguém que faça meu tipo.
— Engano seu. A Hinata é linda e doce. Do tipo que me daria ciúmes corrosivos, caso ela não fosse bem casada — Sakura me informou, piscando um dos seus grandes olhos verdes. — Mas o marido dela está sempre em viagem de negócios e, infelizmente, ele não conseguiu cancelar uma das viagens que coincide com a data do casamento.
Suspirei aliviado.
— É muito bom saber disso.
Estava quase tudo certo quando, por azar do destino, uma visita “muito agradável” nos interrompeu ao entrar na sala sem bater.
— Sakura... Oh! Estou atrapalhando? — o noivo exclamou teatralmente, ao adentrar o ambiente.
Sakura se afastou de mim imediatamente e foi na direção daquele individuo, recepcionando com um selinho nos lábios.
— Já é hora do almoço, amor? — ela perguntou inocentemente, mas nem esperou a resposta e já foi emendado um novo assunto. — Acabei de conversar com o Sasuke, desta vez, ele se comprometeu a ir ao ensaio do nosso casamento.
— É o último, né? Se ele não for nesse não irá a mais nenhum, já que não terá mais nenhum. E, sinceramente, eu acho que não vou ter essa sorte.
— Naruto, você está sendo grosseiro — Sakura o repreendeu. — Sasuke é meu amigo e ele vai ser meu padrinho.
— Oh, sim. O amigo gay que adora ficar agarrado com mulheres. Muito coerente da parte dele.
Ouvir aquele cara hipócrita falar do que é ou não coerente para mim, me fez perder a razão.
— Escuta aqui, dobe — apontei o dedo pra ele. — Você acha que pode definir o que é ou não coerente para a minha pessoa apenas com os dois neurônios que você têm dentro dessa sua cabeça loira?
— Parem! — Sakura explodiu. — Vocês dois são os homens mais importantes da minha vida. Meu futuro marido, que é a pessoa que amo e o meu melhor amigo, que amo como um irmão. Será que vocês não poderiam dar uma trégua pelo menos até o casamento passar?
Talvez, fosse devido à sensibilidade aflorada pelo nervosismo da aproximação da cerimônia, mas Sakura andava chorando por qualquer coisa; algo que não era comum dela. E, naquele momento, ela começou a desaguar em pranto. Desta vez, um choro verdadeiro.
Sakura era a única pessoa no mundo que ainda me fazia lembrar de que tinha um coração e que era capaz de doer por ver alguém triste. Acho que esta mesma sensação apossou-se do outro. Afinal, se havia algo em comum entre a gente, poderíamos afirmar que era o fato de termos o mesmo carinho pela mesma mulher.
Estava prestes a dar o braço a torcer e levantar a bandeira branca, quando me estarreci ao ver aquele cara idiota e orgulhoso, suspirar; ficar com as bochechas levemente avermelhadas, retirar as mãos de dentro do bolso da calça e a estender na minha direção.
— Trégua? — ele sugeriu primeiro. — Pelo menos, até depois do casamento.
Eu fiquei olhando por um tempo para aquela mão estendida na minha direção, antes de acreditar no que estava ocorrendo. Mas, por Sakura, inspirei fundo e espirei. Então, juntei a minha mão com a dele, correspondendo ao aperto de maneira firme. Selando assim, aquele “acordo temporário”.
Acho que era a primeira vez que trocávamos um cumprimento de verdade. Não entendi bem o porquê, mas gostei do aperto da mão dele. Naruto, apesar da estupidez, era do tipo de pessoa que te olha nos olhos quando firma um compromisso, demonstrando assim, seriedade quanto ao assunto. Foi à primeira vez também que encarei os azuis dos olhos dele sem estar revoltado pelas idiotices que saiam da sua boca.
Então, algo estranho aconteceu, eu me senti perdido, enquanto o cumprimento se estendia. Eu me perdi naquele olhar que em nenhum momento desviou-se do meu, fazendo algo comprimir fortemente em meu interior e um nó se entalar na minha garganta. Engoli em seco.
Foi Naruto o primeiro a se desvencilhar da minha mão e se voltar para a noiva.
— Viu, amor? Não chore mais. Está tudo bem. Sasuke e eu nos daremos bem de agora em diante — ele garantiu, abrindo aquele sorriso grande, que me fazia lembrar o Gato de Botas do livro a “Alice no País das Maravilhas”.
Sakura retirou as mãos que cobriam o rosto, mostrando-o todo borrado pela maquiagem, certamente, duvidando e esperando minha confirmação. Eu olhei de um lado e de outro e como não encontrei escapatória, forcei um sorriso breve e concordei.
— É verdade. Vamos tentar, por você. Agora pare de chorar e fique feliz.
Bem, foi aí que Sakura fez algo realmente constrangedor: uniu nós três em um único abraço. Ela no meio, eu e o outro, um de cada lado.
Mas em meio aquela forçada aproximação, senti que as coisas estavam ficando mais estranhas. Senti o perfume dela se misturando ao dele, o que gerou um terceiro perfume, cujo aroma era até agradável.
Notei que os olhos dele estavam apertados e o sorriso, agora estreitado, era mantido. Pude analisar o rosto de Naruto mais detalhadamente e notei o quanto sua pele era rosada; com pequenas e discretas sardas da cor bronze pintadas no nariz e parte das bochechas. O cabelo parecia ter uma textura macia. Ele era tão loiro que até a pelugem do rosto e os pequenos cílios dos olhos eram dourados. Tão perfeito, que fez meu coração acelerar.
Aquela admiração pelo noivo de Sakura foi tão inesperada e tão estranha, que fechei os olhos fortemente e acrescentei, mentalmente, no topo da minha lista de coisas que eu mais odeio: o abraço triplo.
Continua...
[1] Usagi = Coelho.
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