Sem Lagarta não há Borboleta.
18 A Terapia
Aquela sala era pequena, era bem aconchegante. Haviam duas poltronas, uma mesa de centro e depois uma mesa de escritório. Além disso, haviam algumas estantes com livros e com plantas também. A decoração era bem pensada, pois transmitia um ar de conforto e casa, sabe? Eu fiquei com meus olhos fixos em uma das plantas observando e admirando a beleza dela. Estávamos já a 2 minutos em silêncio. A minha terapeuta se chamava Hannah.
Na psicanálise existem inúmeras linhas. Mas vou deixar aqui as 3 linhas que já pensei em seguir e principalmente receber a terapia. A primeira, clássica é a linha freudiana através do Sigmund Freud que tem as principais características do foco na escuta dos pensamentos, fantasias e sonhos analisados e até o seu silêncio. O analista ele questiona e leva ao paciente desenvolver a sua autoanálise. A Segunda linha: Winnicottiana. É uma linha onde existe mais receptividade com os pacientes, o analista segue uma linha mais próxima e ativa. A sessão requer que o analista vivencie um estado de relaxamento e espontaneidade, a fim de acolher o paciente e estabelecer uma base de confiança. E por último, a terceira linha: Lacaniana. O analista tem uma postura mais direta e impessoal – ele não responde perguntas, não fala sobre si e não emite opiniões. Eles utilizam o conceito do tempo lógico, ou seja, a sessão é determinado de acordo com cada situação, e podem haver sessões curtas ou ultracurtas, diferente da tradicional que são 50 minutos.
—Estou pensando ainda qual linha de psicanálise eu quero seguir. É normal você se sentir uma fraude? Eu quero dizer, minha vida não está tão organizada o quanto eu gostaria e mesmo assim vou ajudar as pessoas com as bagunças delas. Me pergunto se eu sou alguém com essa capacidade. — Eu refleti.
—Bom, se for pensar dessa forma eu nem deveria estar aqui e nem todos os terapeutas do mundo exerceriam a profissão — Ela era bem perspicaz. A Hannah deveria ter em torno dos 35-39 anos, eu não sabia absolutamente nada sobre a vida dela. É louco isso? Confiar em alguém em que você não faz a ideia de quem seja. Mas você está ali, colocando suas bagunças e quem você é pra fora para um completo desconhecido. Não existia uma troca entre nós duas para que eu estabelecesse confiança, simplesmente era vulnerável. A linha que a Hannah seguia era a Freudiana. No final, acabei optando por receber esse tipo de terapia.
—Bom ponto. — Fiquei em silêncio.
—Você gostaria da sua vida mais organizada, o que está tão bagunçado? — Ela continuou. Eu levava um tempo para conseguir processar meus sentimentos e pensamentos.
—Essa é talvez minha segunda vez que falo sobre isso aqui na terapia. A minha vida relacional. Ultimamente eu não sei mais o que pensar.
—O que você não sabe mais pensar? Existe alguma dúvida? -Ela continuou.
—Na verdade eu estou confusa. Eu não sei sobre meus sentimentos verdadeiros e... — Eu continuei contando como eu me sentia em relação ao John, falei sobre o JR, sobre o quanto complicado era a situação com a Laura.
—Você chegou em muitas conclusões Alice. — Ela pontuou.
—Mas como eu cheguei? Eu não me vejo chegando a conclusão nenhuma. — Eu continuei.
—O seu inconsciente está trazendo a superfície muitos sentimentos e talvez pensamentos esquecidos ou ignorados. — Ela afirmou. A Hannah realmente era boa.
—Você me relatou o quanto você estava confusa com o John e o JR. O que eles significam pra você? Vou pontuar mais objetivamente: O que o John significa pra você? — Ela continuou e isso me fez alguns segundos permanecer refletindo sobre o que ele significada pra mim.
—O John significa... CASA. — Eu fechei meus olhos e continuei tentando perceber meus sentimentos e o significado mais profundo.
—Ele é alguém que quando penso me trás essa sensação de conforto e lar. Vivemos tantas coisas e John viu tantos lados meus que nem eu imaginava que existia. — Assim que conclui ela continuou.
—E o JR? -Ela começou a anotar alguns pontos no bloco de anotações.
—JR... Ele é algo NOVO. JR desperta em mim sentimento de aventura e algo novo. Quando estou com ele é tudo muito intenso. — Eu refleti.
—Então você está me dizendo que o John te trás um sentimento de família, casa. E o JR é algo novo, que trás essa vontade de descobrir o mundo? — Ela me perguntou.
—Sim, isso mesmo. — Eu a respondi.
—Nós temos então duas pessoas completamente diferentes e que despertam áreas diferentes dentro de você. Você acha que tem que escolher? — Ela continuou.
—Eu... não sei. Eu acho que talvez sim. Eu queria que meus sentimentos fossem coerente e não assim. — Eu tentei entender o que eu havia processado naquele momento.
—Escolher um iria te privar o lado positivo do outro. É isso? -Ela tentou concluir. E droga era isso..
—Sim. Eu sei que não tenho essa decisão de escolher, o John não gosta de mim dessa forma. — Eu suspirei.
—Como você tem certeza que o John não gosta de você dessa forma? — Ela continuou com os olhos fixos em mim.
—Eu não sei... existe apenas uma certeza que sim. Racionalmente faz todo sentido, afinal ele namora a Laura. — Eu tentei concluir.
—O que você sabe são apenas suposições e a sua percepção sobre isso. Não sabe o que ele sente totalmente, apenas supõe isso. — Ela concluiu e eu mais uma vez suspirei frustrada.
—Como eram seus relacionamentos anteriores Alice? — Ela mudou o assunto.
Era muito confuso me abrir e falar sobre isso. Mas depois da minha paixão no John, o Jonas foi meu segundo namorado, mas o namorado de fato que eu perdi minha virgindade e digo que não foi uma relação saudável. Eu ainda estava processando algumas coisas. Enquanto, eu contava para Hannah sobre o meu antigo relacionamento com o Jonas, ela me deu um balde de água fria:
—Você acha que você foi abusada? — Ela me perguntou enquanto eu entrei em um ponto reflexivo. O fato foi que na minha virgindade, eu não queria ter relacionamento sexual com ele, eu estava bêbada de uma festa e nós estávamos no apartamento dele. Eu lembro de ter falado vários ‘’NÃO’’, mas ele continuava insistindo. Foi algo que não tive forças e não impedi. Eu reprimi total aquele sentimento e continuava negando que algo assim aconteceu. Depois daquela vez, tiveram outras vezes com consentimento, mas era algo sempre estranho.
—Eu acho que fui sim. Eu... estava bêbada — Antes de concluir, senti uma lágrima grossa escorrer no meu rosto e quando percebi, minhas emoções que estavam em tampa, começaram a jorrar dentro de mim.
—Você não é culpada Alice — Ela afirmou. Eram exatamente essa frase. Após o ato sexual eu me sentia envergonhada, culpada e com medo. Eu parei de andar em festas e beber, justamente por isso ter acontecido comigo. Depois de me recompor um pouco, ela continuou:
—Quem terminou o namoro?
—Eu terminei — Eu respondi mais calma.
—Por que? — Ela me perguntou.
—Ele era agressivo na forma de falar, muitas vezes me sentia pra baixo. Sempre me forçando a fazer coisas que não queria. Não diria que era sexual, mas as vezes queria que eu fosse pra tal lugar e eu não queria ir. Muitas vezes eu cedia e quando eu não ia, ele ficava muito bravo. Fora que era muito ciumento também. — Eu desabafei, compreendendo pela primeira vez que era o inicio de um relacionamento abusivo que eu estava entrando.
— Como você se sentia com ele? — Ela continuou.
—Eu me sentia do céu ao inferno o tempo inteiro. Além disso, fui percebendo aos poucos que eu estava resumindo meus 6 meses de namoro apenas eu e ele. Eu via cada vez menos meus amigos. — Eu conclui. Era um alívio também poder falar sobre isso, parece que foi algo libertador dentro de mim. Dolorido e libertador.
—Você confia em homens? — Ela me perguntou.
—Não — Eu respondi rapidamente.
E foi naquele momento que a nossa sessão terminou. Era algo que eu ainda precisava digerir e principalmente depois de algo ter sido destravado em mim. Eu nunca tive nada na minha infância que me deixasse essa falta de confiança, meu pai era sempre muito tranquilo. Eu apenas... não confiava me entregar em um relacionamento com medo. Eu percebi que o Jonas havia deixado muitos resquícios em mim, talvez isso pudesse atrapalhar muito meu presente e futuro.
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