Sem Ensaios para a Vida
22 Oportunidade
Notas iniciais
Pas de deux.
A música entoava melodicamente do piano, quebrando o silêncio dominante. Os casais espalhados pelo salão estavam compenetrados em executar os passos, o som das sapatilhas mal podendo desviar o foco de cada um deles.
Oliver Nash e Katherine Hillard eram a personificação de foco e concentração. Cada passo realizado era uma garantia de segurança. Cada gesto era preciso. Cada expressão de seriedade era uma máscara.
Kat estava tensa, mas disfarçava da forma que sabia. Desde que fora para a Inglaterra, o controle emocional estava a toda prova. Conseguia se controlar, a menos que os casos fossem realmente extremos, como aconteciam em certas aulas, geralmente de Dechamps. Fora isso, conseguia dissimular as emoções. Não era nenhuma novidade.
Já para Nash, aquilo parecia ser mais complicado. Era bem mais difícil. Estava tão acostumado a esconder-se. Sua expressão de impassividade e aparente tédio eram tão naturais, quanto os atos mais banais da vida... mas curiosamente naquele dia estava tendo problemas.Não estava acostumado a “sentir.” Emoções eram algo relativamente novo, e não estava sabendo o que fazer. E pior: não podia fugir.
Fugir era sempre uma opção a ser considerada. Nunca uma fuga covarde, e sim algo discreto, com ares de indiferença e poder, assim como as pequenas rejeições. Era fácil rejeitar. Ou ao menos parecia ser. Mas não podia fugir. Não dali.
O problema era sua parceira. A jovem loira em seus braços. Ela o fazia sentir algo diferente, estranho, mas nada que fosse ruim. Nada que soubesse definir, mas era incômodo.
Ao fim, tiveram de se afastar. Praxe para o último alongamento. Nash sentiu-se meio que órfão daquele contato, mas disfarçou, com a face mais impávida que conseguiu. Porém, teve de controlar seus olhos, que insistiam em acompanhar os movimentos sinuosos de sua parceira, que trocava algumas palavras com sua companheira de quarto.
Poucas palavras, pois foram interrompidas pela chegada de um rapaz. Um daqueles que pareciam até fazer sua segurança, de tão próximo que vivia dela. Os dois estavam sempre por perto... a dupla estava formada, e Katherine, blindada pela proteção deles.
Pelo menos era isso o que parecia. Eles mal a deixavam sozinha. Na verdade, pouco viu sua parceira sozinha. Apenas naquele dia em que ela o encontrou caído na sala de dança, quando a ofendera... e no dia em que era ela quem estava sozinha na mesma sala, ensaiando.
Poucas vezes, mas sem dúvida, memoráveis.
Pena que em poucas ocasiões pôde conversar e dizer as coisas certas. Ela parecia ser uma pessoa legal. Alguém diferente daquelas que conhecera.
Um universo diferente. Ela parecia ter vindo de outro mundo. Uma outra cultura, outro ambiente, outros tipos de interesse. Não era como lidar com alguém qualquer, no automático, como sempre fazia.
Uma pena que tivesse de ofendê-la para se dar conta disso.
Katherine não parecia fazer questão de lembrar disso. Tentava conforta-lo a esse respeito quando conversavam, mas ele sabia que havia vestígios de suas más palavras. Havia algo estranho entre eles, quase como uma sombra e só podia ser por essa razão.
Suspirou. Por que só havia começado a dar atenção a sua presença quando ela virou sua parceira? Onde esteve durante todo aquele tempo para não se dar conta de que havia alguém como Kat por perto?
Mas não adiantava lamentar. Certas coisas não tinham como serem apagadas. Foi isso o que ele pensou quando Kat saiu do alcance de sua visão, devidamente acompanhada.
ooOOoo
- Kat, aconteceu alguma coisa?
- Hã? Como assim?
- É que o Nash tem te dado umas olhadinhas...
- Jenny...
- O que foi? Vai me dizer que não percebeu?
- Você percebe coisas demais. Até coisas que não existem.
- Ah, Kat. Não tenho culpa se você é tapada.
- Muito obrigada pelo elogio, valeu mesmo.
- Não tem de quê. Fico feliz por ajudar.
Kat rolou os olhos. Piadinhas de Jenny Hunter eram impossíveis de conter. Inevitáveis e irreversíveis.
- Ele deve estar pensando mal da gente. – completou Jenny.
- Como assim?
- Nash parece estar ensaiando pra se aproximar de você, mas sempre desiste. Acho que é minha culpa, e do Gabriel também.
- Não vejo sentido nenhum nessa conversa.
- Oh, sim claro. Deixe-me tirar você dessa caverna em que vive: Nash quer falar algo particular, mas Gabriel e eu estamos sempre no caminho. Nós somos verdadeiros chicletes que não saem do seu pé. Somos seus guarda-costas.
- São meus amigos.
- Amigos grudentos. – corrigiu.
- Que seja. Ele não nos deve achar muito fáceis. Deve crer que podemos morde-lo a qualquer momento.
- De você eu não duvido nada que possa acontecer.
- Ok, Kat. Um a zero pra você.
- Nada mais que a verdade.
- Não me provoca, ô oxigenada.
Kat riu do apelido. Jenny provocava, sempre tentando lhe arrancar alguma resposta malcriada, como se fosse uma espécie de favor. Uma missão de vida. Talvez um palavrão fosse o prêmio máximo, visto que a loira mal fazia mais que resmungar em voz baixa se algo a tirava do sério.
- Deve ser uma coisa bem particular... – a morena voltou a falar.
- Pensei que o assunto já tivesse acabado.
- Mas ainda nem começamos! Mas, como eu ia dizendo: pra ele ter medo da gente, deve ser muito sério.
- Eu não o condeno por ter medo. Não pelo Gabriel, mas você representa risco.
- Eu represento risco para quem merece ter medo, mas sou um doce de pessoa quando a pessoa faz por onde. Agora quanto a Gabriel...
- Quanto a ele o quê? Gabriel é um doce de pessoa.
- Sim, ele é, mas não pague pra ver.
- O que quer dizer com isso?
- Nada! Não quero dizer nada! Vamos logo porque eu tô exausta!
- E por que precisa que eu vá junto? Vá você!
- Uh! Quanta decisão. Pensei que estivesse cansada.
- E estou, mas cansada de ficar aqui. Acho que vou dar uma volta.
- Você? Dando uma volta em dia de semana??
- Qual é, Jen? É horário de folga, não vamos mais ter aula hoje. Eu queria andar um pouco.
- Quer companhia?
- Você está cansada. Já deixou isso bem claro. Além disso, qual o problema de eu sair sozinha?
- Uh, só fiz uma pergunta! Não precisa morder! – levantou as mãos em sinal de rendição.
- Foi você quem provocou. – disse, Kat rindo.
- Ok, já entendi.
O tempo que demorou para se ver livre daqueles muros foi apenas o de ir ao alojamento e pegar sua bolsa. Não tinha nada de especial para resolver lá fora. Foi apenas uma necessidade repentina de sair de lá e se distrair um pouco.
Sentir isso não era raro. Raro era atender a esse apelo.
Talvez fosse melhor dar ouvidos às suas próprias vontades de vez em quando. Especialmente quando no fundo eram apenas coisas pequenas. Talvez esse tipo de coisa fizesse a diferença mais tarde.
Soube apenas que foi um alívio pôr os pés para fora daquela prisão disfarçada de arte.
ooOOoo
Oliver Nash caminhava pelas ruas, parecendo não muito interessado por onde ia. Na verdade não estava interessado em muita coisa.
Não fazia diferença mesmo. Só queria sair um pouco. Há muito tempo a sua rotina envolvia aulas de ballet e volta pro apartamento. Nada mais que isso.
Sentia falta dos tempos antigos, de sair e beber com seus amigos ou sozinho, de arranjar uma garota e deixar que a noite simplesmente seguisse seu curso. Na verdade não fazia mesmo mais que isso. Sua vida era a de um bon vivant, com nome e dinheiro garantido por uma família conhecida por tradição nos negócios. Sem preocupações.
Coisas de quem tinha dinheiro... essa era a sua vida.Mas renunciara a isso quando quis uma carreira na dança.
Não se arrependia, mas nada lhe impedia de sentir falta.
Só queria pensar um pouco na vida. No que ela havia se tornado. Nem tudo parecia estar da forma que planejara. Precisava pensar um pouco.
Apenas isso. Andar e pensar. Só não esperava que outra pessoa resolvesse fazer o mesmo.
Justamente quem até pouquíssimas horas atrás estava dominando seus pensamentos.
Nash descobriu que não queria perder aquela oportunidade. E nem pretendia deixa-la escapar.
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