Notas iniciais
Ei, leitor! Por favor, comente! Quero muito saber o que você está achando! (se é que alguém ainda lê isso...)

- Pra onde estamos indo? – Kat perguntou.

- Não sei, pra onde você quiser. Tem alguma sugestão?

- Acho que sim, mas não sei se você vai gostar.

- Por que não tenta?

Ela aceitou o desafio, e assim acabaram no parque. O mesmo onde Gabriel a levou quando estava triste. Achou estranho levá-lo até lá, mas se Nash havia concordado...

Decidiu parar de pensar nisso.

- Hum... então é aqui? – olhou ao seu redor, com uma expressão de quem parecia ter algum interesse. – Você é uma daquelas que gosta de natureza... verde...meio ambiente?

- Gosto. Toda minha vida estive perto disso. Gosto de natureza.

- Onde você morou pra te fazer ser tão amante do verde?

- Bem, nasci em Sidney, na Austrália. Depois fui morar na Califórnia...

- Rata de praia?

- Digamos que não tive outra escolha.

- Puxa, mas a sua pele é tão branca, como sobreviveu?

- Chapéu, filtro solar, hábitos caseiros... simplesmente não sei.

Estavam andando a passos lentos, dando um passeio e vendo a paisagem. Estava frio, mas o sol fraco ainda cumpria um pouco de seu papel aquecendo-os ainda que minimamente.

- Engraçado como nos conhecemos tão pouco. Já dançamos juntos há algum tempo e não sabemos nada um sobre o outro.

- Sermos partners não significa nos conhecermos. Significa apenas dançarmos juntos.

- Tá, já entendi. Foi culpa minha.

- Eu não disse nada sobre culpados, Nash. Disse apenas que dançar juntos não implica em ter qualquer outra forma de intimidade. Não temos essa obrigação.

- Pensei que te incomodasse nós estarmos tão próximos e não saber nada sobre mim.

- Eu estranhava, não achava que isso fosse comum. Nos lugares onde estive as coisas não eram assim, mas enfim, me acostumei.

- E como eram as coisas onde você estava?

- Ah... as pessoas pareciam ser mais íntimas, mais afetuosas. Aqui não é assim. É mais... – procurou uma palavra pra definir – Frio. As pessoas são mais frias.

- É que aqui nós não temos sol.

Era uma piada e Kat não fez qualquer caso em dar um sorriso e demonstrar que tinha achado graça. Mesmo que não fosse tão boa assim.

- Quer dizer, falta de calor, calor humano...

- Ei, calma! Não precisa explicar porque eu já entendi. Sou loira mas não sou burra.

- Peraí, não foi isso que eu quis dizer...

- Calma! Eu sei! Tô só brincando, Nash.

Ele riu, aliviado. Sua expressão de alívio parecia sincera e pela primeira vez aparentou estar desarmado. Até mesmo indefeso.

- Lá é tão diferente assim? – tentou se recompor.

- É, pelo menos até o momento. Se bem que a academia não é o melhor lugar pra se procurar esse tipo de coisa. Todos estão ocupados demais pra isso.

- Com certeza. Você diz que se acostumou, mas parece sentir falta.

- Sinto sim. Só porque a gente se acostuma não quer dizer que não sinta falta ou que não precisamos mais daquilo.

- Bem, sendo assim acho que mesmo tendo se acostumado ainda deve ser desconfortável dançar com alguém que não conhece ou sabe tão pouco... deve ser como se estivesse às cegas.

- Mais ou menos isso. – Kat olhou para o lado por breves segundos e ajeitou o cabelo que um vento fraco insistia em jogar na frente de seus olhos. – É desconfortável, não vou negar, mas nem tudo na vida a gente sabe como vai acontecer. Isso já é mais ou menos como estar às cegas.

- Está querendo dizer que viver já é estar às cegas? – perguntou-lhe, parecendo interessado no assunto – Olha, pra quem odeia livro de auto ajuda, essa citação me deixou em dúvida.

- Ah, desculpa. Eu não resisti. Confesso que já li alguns... algum trecho deve ter ficado na memória – riu – Recaídas acontecem.

- Não se preocupe. Esses livros não são de todo ruins, mas sinceramente não fazem o meu gênero, principalmente quando viraram verdadeiros manuais de instrução.

- Sei do que está falando. Eu acompanhei essa “evolução”. – disse Kat, pronunciando a última palavra num tom bem irônico, bastante raro para ela.

- Leu muitos?

- Alguns, o bastante pra saber que são quase todos iguais.

Sim, Kat lera muitos. Não apenas de auto ajuda, mas também os livros policiais, de terror, suspense, romances... tudo o que lhe levassem. Por mais que seu tempo fosse escasso e seu tipo de leitura estivesse agora absurdamente restrito, discutir literatura ainda era um grande prazer.

- Com certeza, só que as pessoas acham bem mais cômodo seguir um manual de instruções. As vezes eu mesmo gostaria de ter um, mas nunca dá certo. – lamentou – A vida é bem mais complicada que isso.

- Não há manuais pra tudo... a gente passa por cada situação que não há bula de remédios que resolva. Eu tenho vários problemas e nenhum deles tem solução pronta, pelo contrário... bem longe disso. – suspirou – Os seus problemas também são tão complicados assim?

- Se são... – balançou a cabeça e arregalou os olhos, fazendo careta.

- Não duvido... quer falar sobre isso?

- Hã? Como? – Nash pareceu não entender. Seria aquilo uma proposta?

- Foi você quem falou sobre estar às cegas.

- É, tem razão. Fui eu quem começou.

- Não tô forçando a barra, Nash. Fica tranqüilo, não precisa falar. Tanto faz.

- É, mas eu sei um pouco de você. Minha posição é privilegiada, porque você não sabe quase nada de mim.

- Faz parte da vida. De qualquer modo não sei tão pouco assim. Sei que a sua auto estima é elevada, que você, ao contrário do que todos pensam não é mudo... e que pelo jeito não é tão mal educado quanto parece.

- Eu? Mal educado?

- É a sua fama. – deu de ombros, justificando o que dissera e temendo que ele levasse a mal.

- E eu que me achava tão popular... – riu, com sarcasmo. – Bom, eu nunca fiz nada pra que pensassem o contrário.

- Pelo jeito você não tem muitos amigos por aqui.

- Ih, nem faço questão de ter amigos. Aqui não é lugar pra isso. Não existe amizade onde existe competição... a mesma coisa quando envolve dinheiro.

- Estamos falando em pessoas. A academia pode não ser o melhor lugar, mas encontrei amigos lá. São poucos, mas o suficiente. Os dias ficam bem mais fáceis. Você deveria experimentar.

- Eu não gosto de pessoas... e elas também não gostam de mim.

- Puxa, estou falando com um sociopata então? Se fizesse um esforço as coisas poderiam mudar.

Ele deu um sorrisinho, coçando a cabeça, sem saber muito bem o que dizer.

- Acho que não tenho argumentos quanto a isso.

- Então, toda essa gentileza comigo é pura balela. – disse, como se aquilo fosse uma conclusão, num tom de quem se aborrece.

- Não. – foi enfático. – Estou sendo sincero com você.

- Devo perguntar a razão?

- Se quiser... só não garanto uma resposta.

- Uh! Esse é um panorama muito animador. – ironizou – Não sei o que pensar de você, Nash. Será que estou segura sendo sua partner?

- Espero que sim. – riu, preocupado com o que ela poderia pensar. – Têm coisas da qual não se pergunta qual a razão... eu sinceramente não sei que resposta posso te dar. Sou uma pessoa muito complicada: as pessoas costumam se relacionar comigo por conta de interesses... foi desse jeito que fui criado. É diferente pra mim ouvir falar em amizade.

- Elas existem, isso posso te dizer. – disse, tentando compreender. – Deve ser triste viver desse jeito.

- A gente só sente falta do que conhece. – deu de ombros.

- Você gosta de solidão?

- Gosto sim. De vez em quando é bom estar sozinho.

- É, eu também gosto, de vez em quando. Mas existe diferença entre estar e ficar sozinho.

Nash não sabia bem o que fazer. Não gostava daquele assunto, muitos já tinham tentado falar sobre isso mas nunca dera ouvidos. Muitas vezes foi grosseiro com quem tentou esse tipo de conversa, mas por algum estranho motivo, não conseguia fazê-la parar. Nem queria. Sentia-se desarmado, sem argumentos para rebater, fosse de forma educada ou não.

Por que estava ouvindo o milésimo discurso sobre amizade, então?

- Nunca teve um colega de escola... nada?

- Bem, os lugares em que estive nunca foram muito propícios a isso.

- E onde você esteve?

- Colégios internos... festas idiotas. Nada muito interessante.

- Aristocracia inglesa? – perguntou, como se gracejasse, num tom brando.

- Não. Pais ricos mesmo, pelo trabalho e pela tradição.

- O que seus pais fazem?

- Meu pai é advogado, desses tradicionais que todo mundo quer mas poucos podem pagar. E minha mãe... – pareceu hesitar – É só a minha mãe.

- Irmãos?

- Sou filho único.

- Então, você é um garoto rico e mimado?

- Não conta isso pra ninguém. – ele riu, tentando imaginar qual imagem que sua partner estava tendo dele e de sua família. – E os seus pais, o que fazem?

- Nada tão interessante. Meu pai é engenheiro de uma petrolífera... minha mãe é editora de livros. Tenho uma irmã menor que mais ou menos dia vai entrar na fase em que vai querer competir e brigar comigo. Nada muito emocionante.

- É, já entendi a razão de seu interesse por literatura. – riu, entendendo um pouco mais sobre ela. – Especialmente de auto ajuda.

- Vai... vai zoando. Pelo que eu percebi você também já leu muitos.

- Alguns... – fez uma careta, brincalhão, olhando para ela como se quisesse disfarçar. – É, alguns que nem você falou. O suficiente para perceber que era tudo igual.

Riram, apesar de ser uma piada boba. Estavam rindo deles mesmos, das circunstâncias. Era simplesmente um passeio despretensioso, sem intenções ou obrigações.

- Do que está rindo tanto? – perguntou Nash, curioso ao saber a razão do sorriso dela.

- Porque eu não imaginava que você fosse capaz de manter uma conversa tão longa com alguém. Especialmente comigo, e ainda por cima sendo educado!

- Meu Deus, não tinha idéia que minha fama fosse tão ruim. Você deve ter me achado um monstro!

- Quase isso.

- E o que acha de mim agora?

- Um cara que não fala por vontade própria, mas que sabe ser educado e cortês quando quer.

- Bom, pelo menos pra isso a mensalidade cara daquele colégio serviu. – riu, pretendendo mudar de assunto. – E o enjôo? Como se sente?

- Tá tudo bem. – olhou para ele, um sorriso discreto. Realmente parecia melhor, não parecia mais tão pálida. – Não precisa se preocupar. Não vou passar mal de novo. E você? Tá curtindo o verde?

- É, tendo em vista que sou uma pessoa totalmente urbana isso aqui tá sendo bem divertido. Acho que a sua companhia está me fazendo bem.

- Acho que você está deixando a sua educação de colégio interno falar mais alto.

- Que tal a minha sinceridade?

- Com ou sem o sarcasmo?

- Sobre o verde ou sobre a sua companhia?

- Depende. Pra qual deles vai usar o seu sarcasmo?

- Se é pra falar de você, acho que a sinceridade já vai ser o bastante.

- Acho que ainda está sendo sarcástico.

Ele riu, sentindo que sua partner já parecia bem a vontade em sua presença. Um avanço considerável se pensasse em como as coisas estavam sendo há poucos dias atrás. E curiosamente não estava sendo irônico ou mentiroso com ela. Suas palavras vinham naturalmente. Algo não muito comum, especialmente nos últimos tempos.

O que está acontecendo?

ooOOoo

Notas finais
Ei, deixe-me saber o que está achando! Por favor, comente!