Sem Ensaios para a Vida
16 Conselhos e Milagres
A manhã seguinte seria repleta de atividades. As aulas não seriam diferentes das habituais, e em como todo começo de semana teria de enfrentar Dechamps. Era nisso que estava pensando enquanto avançava pelos corredores. Dechamps certamente deveria ser o seu maior problema, o maior obstáculo a ser enfrentado. O mais estranho foi o conselho de Nash a esse respeito: esquecer todas as lembranças fosse quais fossem, especialmente se fossem ruins.
Realmente fora estranho, afinal sequer mencionara o nome de Dechamps ou de seus problemas com ela. Aliás, praticamente não mencionou seus problemas. Tudo ficou girando em torno do que o próprio Nash dissera, de sua frase mal dita, mal interpretada. Foi estranho ter recebido tantas atenções sem ter de contar sequer a metade. Era um alívio sair deste tipo de situação sem nenhuma cobrança.
Era nisso que tentava se concentrar, nos conselhos dele. Colocou todo seu foco nisso, mas foi muito difícil especialmente quando ouvia aquela voz irritante.
- Acabou a hora do recreio, senhoritas. – disse Dechamps, batendo palmas após os últimos movimentos dos preparatórios. – Em suas posições... vamos começar.
Não houve muito o que pensar. Logo a música começou e todas as garotas de leotard preto, meias rosa e coques começaram a criar vida. Os movimentos eram iguais, e realizados por todas numa sincronia perfeita, tão perfeita que chegava a ser irritante. Dechamps tinha a mania da perfeição e sua busca por ela chegava a ser doentia. Essa era a razão de sua fama.
Aquela seria uma música prolongada. Um exercício de alta concentração e provavelmente o de maior nervosismo. Chamadas uma a uma, elas seriam avaliadas individualmente. Não que aquilo fosse realmente uma prova, mas sim um momento onde todas ficariam incrivelmente expostas: estariam sob os olhares atentos e ferinos de todas as prováveis concorrentes e de uma professora com poucos ares diplomáticos.
Dechamps chamaria-as pelo nome. Não entrariam em ordem de fila, ou alfabética. Seriam chamadas conforme o bel-prazer de um carrasco. Kat não tinha a mínima noção do que pensar, sabia apenas o que deveria fazer.
- Donna...
- Adrianna...
- Millena...
- Melanie...
- Sonya...
- Maurreen...
- Beatrice...
Muitas foram chamadas a sua frente. A Kat restava apenas observar o desempenho de todas as outras.
- Jennifer...
Jenny executou a coreografia com toda a sua personalidade, ousadia e insolência. Mesmo com seus gestos impregnados, eles ainda couberam perfeitamente nos prováveis achismos de Dechamps a respeito de seu papel.
- Valerie...
Valerie, partner de Gabriel e uma tremenda provocadora, entrou e iniciou a execução. Kat e todas as outras estavam prestando atenção nela enquanto praticamente deslizava pelo salão numa execução totalmente perfeita.
- Katherine...
Era a última a entrar. Sentiu um frio na barriga ao ouvir seu nome. Estava com medo, não ignorou isso, mas sabia que deveria deixar tudo de lado. Todas essas conjecturas duraram o insuportável tempo de milésimos de segundo, pois não hesitou em assumir sua posição. Se hesitasse, entraria atrasada e perderia o ritmo. Então, foi para o centro do salão já executando a coreografia, na postura mais ereta que conseguiu, tentando encontrar a leveza em cada gesto e ao mesmo tempo tentando esquecer tudo o que se passavam em sua cabeça, seguindo assim o conselho de Nash.
E assim o fez, tendo a impressão de que estava ali há mais tempo que elas. Ainda assim continuou dançando, esperando que a professora lhe desse alguma ordem. Se errasse, não seria por omissão.
Pelo andamento da música, percebeu que lhe caberia o final. Era uma daquelas das quais já conhecia todos os percalços e os prováveis prolongamentos... então Kat soube o momento exato em que deveria se colocar na atitude final, e assim o fez, terminando a coreografia. Ainda manteve-se na posição por dois segundos e levantou mesmo sem o aval de sua professora. E dela veio apenas um olhar que pareceu dissecá-la.
- Vamos continuar, garotas...
Continuaram a aula. Não demorou para que terminassem, mas apesar do pouco tempo foi um custo manter-se alerta. Ao fim, tentou se arrumar depressa, não querendo ficar mais que o estritamente necessário.
- Ei? O que houve? Por que tanta pressa? – perguntou Jenny, vendo que Kat simplesmente colocou uma calça por cima do letoard e trocou o calçado antes de sair.
- Não quero ficar mais tempo lá do que o necessário.
- No salão ou perto da Dechamps?
- Os dois. – respondeu, com as sapatilhas ainda na mão, abrindo a bolsa para guardá-las.
- Não sei porque isso logo hoje... depois de tudo o que fez...
- Tudo o que fiz? O que eu fiz?
- Ainda pergunta? Você arrebentou naquele exercício!
- Ah... aquilo... – disse, com ar descrente.
- Não acredita?
- E por acaso eu deveria acreditar? Eu sei o que posso fazer, Jen... eu estava nervosa demais pra fazer alguma coisa decente.
- Se fez aquilo nervosa, imagino o que seria se estivesse calma... se tivesse visto a cara da Valerie...
- Deve ter sido cara de zombaria. Ela adora zombar de mim. Bem que eu me senti como se estivesse sendo fuzilada com os olhos.
- Ela estava te fuzilando mesmo... mas a cara não era de zombaria. Se fosse ela estaria sorrindo e o que eu vi foi uma carranca.
- Tanto faz. – Kat deu de ombros – Acho melhor não saber.
Jenny resolveu parar com aquele assunto. O desinteresse e a incredulidade de Kat eram sinais mais do que suficientes para saber que ela não estava querendo levar esse tipo de conversa. “Uma pena”, pensou. “Ela deveria mesmo ter visto a cara da Valerie”.
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Dias depois – Refeitório.
Kat estava sentada, tomando café da manhã. Sozinha porque Jenny descobrira na última hora algo muito urgente pra fazer. Algo normal: uma de suas saídas básicas, porque afinal os fins de semana não eram suficientes. “Não posso manter minha sanidade mental só com esses míseros dois dias”, costumava dizer. Fosse como fosse, a sanidade mental de Jenny no meio da semana garantia a Kat alguns momentos de privacidade.: elemento escasso e muito vindo. Poderia comer como quisesse e era isso o que estava fazendo. Desfrutando do resultado de suas escolhas com toda privacidade que lhe foi permitida. Seus planos eram simples, envolvendo apenas comer o que escolhera após uma cuidadosa análise. – uma maça e uma caixinha de suco – e pensar em outras coisas diferentes de prováveis saídas para interrogatórios e piadas de Jenny.
- Isso é um aperitivo, não é? – ouviu dizer uma voz masculina bem no seu ombro.
- A minha idéia não é essa, senhor nutricionista. – respondeu irônica, sabendo que era Gabriel, antes de vira-se para vê-lo melhor – E aí? Por onde você anda? Tem tanto tempo que a gente não se vê...
- Continuo no mesmo lugar, como sempre. – atendeu o pedido gestual dela, sentando-se e fazendo companhia. – Você que anda distraída por aí.
- Eu, distraída? Impressão minha ou isso é uma reclamação?
- Imagina... impressão sua. É que certos milagres tomam tempo para serem realizados.
- Milagres?
- Tô falando de seu partner. Percebi que ele tem tentado usar a própria voz pra se comunicar.
- É... de vez em quando milagres acontecem. – concordou. – Mas isso não quer dizer nada. Além do mais, você também anda bastante distraído... a Valerie deve ser a responsável.
- A Valerie não é um milagre. Pelo contrário, está bem longe disso.
- Isso é jeito de falar de sua parceira?
- Qual é, Kat? Ela é tudo menos uma parceira... você sabe disso, ou deve saber... eu não acredito em certos milagres.
Riram.
- Você parece estar bem íntima dele. – insinuou, referindo-se a Nash.
- É meu partner. Isso deveria ser esperado, não?
- Não espero muito de Nash. Ainda mais depois de tudo aquilo.
- Ele me pediu desculpas.
- Sério? – pareceu decepcionado. – Mas foi desse jeito? Só isso? Ele pediu desculpas e ficou tudo bem?
- Foi, mais ou menos isso. – suspirou, não gostando do rumo que a conversa pretendia tomar – O que eu podia fazer? “ Não, não aceito. Você que se ferre”? Isso não combina comigo. Além disso pedir desculpas é o primeiro passo. O que vier depois é totalmente novo.
- E o que veio depois?
- Não sei bem... pelo menos está tentando. Já foi um milagre ter se desculpado. Acho até demais pedir por um segundo milagre, não acha?
Ele meneou a cabeça concordando embora não fosse bem isso que queria, e deram o assunto por encerrado, passando a temas mais banais.
Foi de noite que aquela conversa voltou a sua mente. Pensamentos a respeito de um segundo milagre que não esperava acontecer mas dava mostras de ser possível. Aos poucos, Kat percebia pequenas mudanças no jeito de Nash e que a seus olhos pareciam ser pequenos progressos, embora não soubesse se era definitivo ou apenas uma tentativa de agradá-la. Agora, quando estava por perto ele falava, ainda que fosse pouco, parecia mais atento às pessoas e tudo o mais a seu redor. Parecia mais atencioso e sociável, e até mesmo a sua dança mudou. Não soube se fora apenas uma impressão sua, mas estava mais suave, delicado com seu toque, menos apressado em seu ritmo e principalmente sem apressá-la também. Isso fez com que as aulas fossem mais tranqüilas. Parecia até mesmo preocupado com o seu bem-estar! Talvez devido ao seu súbito sentimento de culpa quanto ao desmaio... de qualquer modo eram coisas muito sutis. As vezes tinha a impressão de que nadam em Nash era explícito, sem ser sua auto estima. Mesmo assim, sutis ou totalmente escondidas, Kat sabia que as qualidades existiam. Isso dava-lhe um certo alívio. Imaginava que ainda havia esperanças.
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Últimas notas musicais: fim de mais uma aula de pás de deux. Um alongamento final e o encerramento foi formalizado. Assim que pôde, Kat foi diretamente à sua bolsa pegar sua garrafinha d´água. Tinha sede.
- O que foi, Katherine? Cansou?
- Não. – reuniu forças para responder após tomar um bom gole. – Só estou com sede.
- Certeza?
- Absoluta... mas por que tanta preocupação?
- Ué... você é minha partner. Isso não é um bom motivo?
- Seria uma boa desculpa, se eu não soubesse a razão. Não precisa me tratar como uma boneca de porcelana. Aquilo não vai acontecer de novo.
- E como pode garantir isso?
- Estou cuidando para que não aconteça, Nash. Já percebi que por mais que eu faça não vai adiantar nada, não vai haver proveito nenhum. Já aceitei que nada vai mudar mas sou teimosa o suficiente para ficar aqui até o fim.
- Você fala como se estivesse tudo determinado.
- No meu caso está. – tomou mais um gole. – Não vou mais me forçar a aquele ponto, sei que por uma razão ou outra vai ser inútil mesmo.
- Ei... quem te disse esses absurdos?
- Ninguém precisa me dizer. Comecei com todas: uma das melhores de onde vim... mas aqui não é a mesma coisa. Não é mais tão fácil. Estar aqui faz com que tudo pareça uma simples brincadeira.
- A única diferença é antes você ouvia elogios. Aqui temos o silêncio e as broncas. Continua exatamente a mesma, Katherine. Não deixe que eles de façam uma lavagem cerebral.
Ela o olhou como quem concorda, ainda que não fosse a verdade. Kat sabia, tinha a íntima certeza de que essas palavras eram para amenizar a culpa. Por mais que fossem palavras de pena ou consolo, achou melhor suportá-las.
- Você não acredita em mim, não é?
- Não tente entender o que se passa pela minha cabeça. Nada de excesso de intimidade.
Nash abaixou a cabeça e abriu um sorriso contido, como quem quer insistir mas desiste, pois sabia que podia causar problemas. Não queria aborrecê-la.
- Tudo bem. Não vou insistir.
- Ótimo. – ela riu, como quem ouve algo que a desagrada mas esquece num passe de mágica. Um sorriso em tom sério, mas ainda sim um sorriso em resposta ao dele.
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