- O que? – Julie pergunta, ansiando ter escutado errado.

- Para o Rio, filha.

Julie fica perplexa, se sente sem chão e com medo. Ela esboça uma expressão indecifrável.

- Não... – Ela sussurra.

- Ju, eu sei que é difícil, mas—

- Não, não sabe! Não faz ideia do que vou perder! – Julie corta seu pai, descontrolada.

- Eu entend—

- Aliás, deve saber sim. Desde o começo, quando aceitou esse emprego! Se entendesse, teria desistido dessa viagem!! – Julie se levanta furiosa e desequilibrada.

- Eu perderia o emprego, Julie. – Seu pai tenta raciocinar com ela.

- Ótimo! Ficaríamos aqui com nossa vida!

- Não é mais tão simples. Ficaríamos sem ter como nos sustentar, enten—

- Pode arranjar outro emprego!

Seu pai se levanta para olhar para Julie, procurando manter a calma. Brigar não iria resolver nada, só iria piorar.

- Não posso abrir mão de um emprego estável, Julie. Não é mais tão simples.. – O pai de Julie demonstra tristeza. – ...Sua mãe não está mais aqui para nos ajudar. – Ele olha para baixo. Julie para de gritar, de praguejar. Ela está sem ação. Seu pai junta forças para continuar acalmando-a. – Não estou feliz com isso, mas não tenho escolha...

Realmente não era nada fácil, teriam que deixar para trás toda uma vida.

Julie se sente fraca, suas pernas estão bambas. Não se contém e derrama muitas lágrimas, as quais molham e escorrem por todo seu braço, ao tentar esconder o rosto com suas trêmulas mãos. Julie estava se conformando bem com a história de sua mãe, mas agora ela vê essa situação persistindo em desagradar, e agora interferindo na melhor época de sua vida. Seu pai a abraça. Ela continua a desabar em lágrimas, cada vez mais.

Depois de alguns minutos, sentada, Julie consegue dialogar, ainda soluçando de seu histérico choro.

- Ah desculpe pai! Eu não devia gritar, não é sua culpa!.. – Julie o olha para seu pai com os olhos vermelhos, cheios de lágrimas.

- E nem sua. – O pai de Julie a acaricia os cabelos.

- Eu.. Eu quero voltar pro meu quarto...

Julie retorna devagar até seu quarto, onde encontra seus amigos demonstrando preocupação. Bia, Félix e Martim na cama de Julie e Daniel do outro lado do quarto, de braços cruzados, parecendo querer distância de alguém. Julie tenta ficar composta, mesmo que seu rosto passe a ideia e que ela está sofrendo. Até que.

- Eu ouvi você gritando, Julie, o que é que houve? – Pergunta Félix, se levantando.

Julie começa a chorar de novo. Daniel se espanta, ele nunca a viu tão mal assim, então, por algum impulso caloroso em seu coração frio, vai tentar ajudar. Mas logo ele se vê barrado de Julie, com todo mundo já envolta dela.

- Eu..eu vou buscar água com açúcar!! – Diz Martim

- Nãao! Não queremos um copo flutuando por aí! Eu vou. Julie, já volto, amiga. – Diz Bia.

- Não Bia, não vai! – Julie abraça Bia pelo pescoço. – Por que você também não vai ficar, por que? – Julie balbucia palavras sem sentido enquanto chora.

- Julie. – Daniel a chama, calmamente. Julie para de chorar olha para ele. Daniel tem esse .. dom .. de fazer ela prestar atenção nele, em qualquer circunstância. – Pode explicar o que está acontecendo? – Ele a pergunta, olhando dentro de seus olhos, o que a acalma.

Julie afrouxa o abraço que deu no pescoço de Bia, abaixa a cabeça e se dirige até sua cama, para se sentar. Todos se entreolham, surpresos com o que Daniel conseguira fazer, mas logo voltam a atenção para Julie. Félix e Martim sentam de cada lado de Julie e Bia fica de frente para ela, novamente impedindo Daniel de ver Julie, mania de que ele não gostava. Ele chega mais perto também, mas longe de Martim.

- Eu... vou me mudar para o Rio de Janeiro. – Ouvem-se suspiros de espanto, menos de Daniel, claro, ele só expressa espanto.

Paira um silêncio no quarto, ninguém tem como confortá-la, pois também precisavam de consolo, estavam prestes a perder sua amiga.

- Por que? Como isso aconteceu? – Pergunta Bia, sempre tentando resolver a questão.

- O emprego do meu pai.. está exigindo que se mudem para mais perto. – Julie diz fracamente.

- Mas deve ter outro jeito...! – Daniel tenta dar uma luz.

- Não tem, infelizmente, só tem esse jeito para o bem do emprego do meu pai. – Julie parece mais triste o que nunca. – Realmente não é mais como antes.

Bia entende do que Julie está falando e logo corta esses pensamentos negativos.

- Mas isso não vai interferir na nossa amizade!

- É, a Bia está certa, escuta a ela. – Diz Martim.

- A distância não vai mudar nada. – Diz Félix.

Nem que fosse um pouquinho, mudava sim. A banda, os conselhos de sua melhor amiga sempre por perto... Os desentendimentos com Daniel que acabavam engraçados.... Nicolas. Julie sabia que mudava, mas ela viu seus amigos tentando animá-la, então ela foi forte e deu um sorriso mesmo que por dentro ela estivesse desmoronando, ela não podia deixa-los pra baixo de novo. O que ela não sabia é que, para eles, também não era tão fácil como deixavam aparentar agora.

- E você não vai ter o Daniel pra te perturbar mais, como a gente ~infelizmente~ vai ter. – Martim tenta melhorar o humor de Julie, mas acaba tirando o sorriso de todo mundo.

Julie e Daniel se olham, eles sentem uma grande tristeza envolvida em perder um ao outro. Julie só não entende direito o porquê, vivem brigando. Mas ela sentiria muito mais falta de Daniel do que poderia esperar.

Enquanto se olham, parece que o tempo para, parecem estar ali numa eternidade e só os dois, mais ninguém. Até que.

- Eu posso passar a noite aqui, amiga? – Bia tenta mudar de assunto.

- .. Huh sim, seria muito bom. – Julie sorri de novo. – Tem até roupas suas aqui, pode se trocar.

- Então vamos deixá-las trocar de roupa. – Félix levanta puxando Martim para fora, antes que ele fale mais alguma coisa. – Né, Daniel?

Daniel é tirado de seus pensamentos. Não responde a Félix, mas sai do quarto de Julie também.

A noite foi passando, Julie já tinha que arrumar suas malas, pois logo no dia seguinte partiria. Bia a ajudou para se livrarem rápido dessa tarefa dura e que desgastava o humor. A cada peça de roupa, uma lembrança.

- Eu estava com essa blusa aqui quando tirei os meninos do disco... – Julie olha séria para a peça de roupa em suas mãos.

- Com essa daqui você cantou aquela música pra mim, amiga. – Bia mostra.

- É. – Julie sorri e outra roupa chama sua atenção. – Essa daí perto foi com a qual eu estava quando cantei “Meu Louco Mundo” pra todo mundo!

- Na escola.

- ..Com Daniel.. – Julie conclui. Bia sorri, Julie também. — ... Ah amiga, não aguento mais, vamos tacar logo tudo dentro das malas e das caixas! – Julie olha para as caixas. – Vocês não cansam de mim não né?!

Na edícula, Martim e Félix tentavam aguentar a ansiedade de ir falar com Julie.

- Mas a Bia já deve ter terminado de se trocar, vamos lá! – Martim insiste como uma criança.

- É, mas deixa a Julie se recuperar do que está acontecendo. Quando ela puder, vem falar com a gente, eu acho melhor assim. – Diz Félix.

- Não sei que fogo é esse que você anda tendo pra falar com a Julie. – Daniel diz, deitado no sofá, de olhos fechados.

- Não sei pra você, mas pra mim ela é uma amiga, e vou sentir muita falta. – Martim revida. Daniel olha sério para ele.

- Todos vamos sentir falta, Martim. Mas agora ela deve estar dormindo. Já chega vocês dois. – Félix vai tentar dormir, cansado dessa bobeira deles logo agora.

- É, Martim. – Daniel fala debochando. – Todos vão sentir falta. Só que uns mais e outros menos. – Concluindo, Daniel fecha os olhos de novo, com a cabeça para trás. Martim prefere não discutir, não era hora.

Daniel pode ter falado isso, mas não queria dizer que ele seria o que sentiria menos falta, muito pelo contrário. Ele só não iria admitir que está se sentindo como se perdera seu mundo, tudo o que ele acreditava iria embora com Julie.

As amigas continuaram arrumando as coisas. Quando terminaram, ficaram conversando, para distrair a tristeza. Elas estavam cansadas, mas Julie queria continuar acordada para estar bem cansada na hora de ir viajar e dormir, ainda mais porque seria de carro. Longa viagem a esperava.

Quando não queremos, a hora voa. O céu já estava clareando. Bia e Julie estavam quase desmaiando de sono, mas iriam jogar papo fora quanto mais pudessem. Inesperadamente, o pai de Julie chama à porta.

- Sim, pai? – Julie pergunta baixinho, fraca de sono.

- Vamos .. colocar as coisas no carro. – Essas palavras despertam a Julie e a Bia. Elas queriam perguntar “Mas já??”, porém tornaria as coisas mais difíceis.

- Tá bem, pai. – Julie responde mas alto, tentando arranjar ânimo, mesmo quase chorando de novo.

Julie e seu pai carregam as caixas para o caminhão de mudança que estava em frente a casa, e colocaram as malas com coisas que poderiam ser úteis durante a viajem no carro. Julie soltava algumas lágrimas enquanto retirava suas coisas de casa, mas as limpava antes que alguém visse. Bia tinha dado a desculpa de ir no banheiro, para chorar, ela não aguentava mais segurar e não queria fraquejar a sua amiga.

Após uns minutos, todas as coisas foram retiradas da casa.

- Bia? — Julie chama no banheiro de seu quarto. Bia abre a porta devagar, com a cabeça baixa. – Você tá passando bem? Passou um tempo aí dentro. – Julie se preocupa.

- Não... – Bia olha para Julie e escorrem muitas lágrimas de seus olhos. Julie sente seu coração bater muito mais forte, fica fraca e desaba em lágrimas também. Julie e Bia se abraçam e ficam chorando e soluçando juntas.

O pai de Julie passa pela porta de Julie e vê as duas. Estava na hora de partirem. Ele não estava de férias, e essa viagem deveria ter sido feita bem antes, então tinham de ir logo, pois assim que chegarem, ele já teria que ir para o trabalho.

Mas seria insensível ele não deixar elas se despedirem bem, além disso, é só de Bia que Julie tem tempo de se despedir. Então, ele dá privacidade a elas e vai esperar no carro.

- Estou com medo. – Julie sussurra, tentando parar de chorar.

- Fica online sempre que puder, você está me escutando bem? – Bia tenta limpar suas lágrimas para ver sua amiga.

- Conserta sua webcam o mais rápido possível!

- Sempre tenha a música no coração ... – Bia diz isso e elas choram mais ainda, de novo.

Elas saem do quarto e descem as escadas grudadas.

- A Thalita venceu, ela vai ficar com o Nicolas, amiga. – Julie segura as duas mãos de Bia.

- Você vai encontrar alguém que te dê valor desde o começo, então não ligue para isso!

- ... Vou tentar, estou sento obrigada a deixar o Nicolas pra lá mesmo ... – Julie admira a casa uma última vez e olha para a rua pela janela. – Para cá, quero dizer. – Elas se abraçam de novo. – Vamos, vamos falar com os meninos, vamos!

Elas correm até a edícula, chamam como doidas pelos fantasmas, ninguém aparece. Gritam por eles por toda a casa, mas ninguém aparece.

- ARGH e agora?? – Julie agacha e tampa o rosto, tremendo.

- .. Logo agora foram sumir! — Bia faz carinho em sua amiga, ainda olhando por aí para ver se eles aparecem.

O pai de Julie passa correndo em direção a edícula com o homem do caminhão da mudança.

- Esqueci de umas coisas!

- Quer ajuda? – Julie pergunta muito cabisbaixa.

- Não filha, obrigado.

Julie e Bia vão para fora e recebem uma onda de alívio. Elas avistam Daniel, Félix e Martim lá fora!

- AHHHH VOCÊES! – Julie corre e pula nos três, todos caem no chão. Se levantam rindo de verdade, o que não faziam há algumas horas. – CARAMBAA, eu gritei vocês por todo lado lá dentro!! – Julie dá um super abraço em Félix. Ela daria primeiro em Daniel, mas ele só olhava para baixo, se mostrando distante.

- Nós escutamos barulhos aqui fora, então te esperamos aqui! – Responde Félix, enquanto Julie abraça a Martim, e Daniel olhando sem paciência para o outro lado.

- Ai eu tô com calor, tô com medo, com as mão suando, EU NÃO QUERO IRR. – Julie surta.

- Juh, não se preocupa, você sempre estará com a gente. Olha, toma, fica com você. – Félix dá suas baquetas para Julie. Ela as pega e olha surpresa para Félix.

- Mas... Félix...! – Algumas lágrimas descem de seus olhos sem que ela permita.

- Assim você sempre me terá por perto. E ..é a garantia de que estaremos todos juntos de novo! Algum dia. E quando esse dia chegar, você me devolve. Só assim poderemos continuar com a banda, porque só você é e sempre será a cantora dos Insólitos. – Julie está sem reação. Ela segura as baquetas bem junto de si.

- É. – Martim enrola uma corda de seu baixo no pulso de Julie, fazendo-a abrir um sorriso lindo. Bia está encantada, eles são uma graça. – Ah, mais uma coisinha. – Martim coloca alguma coisa na mão de Julie, a fecha e faz ”shh”. Julie olha para o que tem em sua mão.

- Mais?? – Daniel pergunta impaciente.

- Daniel, sua paleta! – Julie diz alto e feliz olhando para sua mão.

- Comé que é?? – Daniel se espanta, chega perto e olha também.

- Obrigadaa, você é realmente demais!!’ – Dessa vez Daniel não escapou de um abraço de Julie. Ela estava chorando agora, deixando Daniel sem reação. Ele olha para seus amigos fantasmas, eles estão sorrindo.

Julie brinca com seus cachos dourados, Daniel gosta. Quando ele iria retribuir o carinho, Julie se solta de seu abraço, limpando os olhos. Por ela, o abraço duraria mais, mas Daniel parecia tão frio, desinteressado. Daniel retorna a ficar irritado com Martim. Julie percebe isso.

- Mas o que é que tá acontecendo aqui? – Julie pergunta, com as mãos na cintura. Ninguém responde. Julie se sente longe, mesmo todos estando um de frente para o outro. – Alguma coisa está acontecendo aqui e nem vou poder ver ficar tudo bem, ... feliz.

Julie corta o coração de todos, até o seu próprio. Daniel iria começar a falar algo, calmo de novo, do jeito que a Julie gostava, porém, ouvem o pai dela chegando perto à porta para sair.

Julie olha triste para Daniel, o qual apresenta uma afeição de ter perdido uma oportunidade.

- É me enganei, já botei tudo lá dentro!

- Acontece. – Saem o pai de Julie e o motorista rindo.

O pai de Julie a dá um sorriso fraco. Chegou a hora da despedida oficial. Julie abraça a Bia de novo, muito forte.

- Te amu, amiga. – Diz Julie, num tom baixo.

- Te amo também. – Diz Bia.

Julie entra no carro olhando para os fantasmas. O carro se movimenta e parte lentamente. Julie continua olhando para trás, todos estão acenando ... menos Daniel, que está de costas. Julie já não vê nada pois está com os olhos embaçados de lágrima, mas ela precisa vê-los o quanto puder, limpa os olhos e os continua olhando, mas ela quer ver o rosto de Daniel, ela anseia para que ele se vire! ... Mas o carro vira a curva, deixando seu bairro, sua vida,... Daniel, quem ela não viu quando mais queria... “Já era, só num futuro não determinado agora o verei. A todos eles.” Pensando assim, Julie chora calada.

Próxima parada, vida sem alegria nem esperanças.

Notas finais
Ai que coisa horrível .-. Comentem por favoor, assim posto mais hoje mesmo ;B