Notas iniciais
Não paro de olhar para a areia da ampulheta que cai
Se a colocarmos de ponta-cabeça veja, tudo começa de novo
Esse tempo que ficou marcado e se passou
Será que um dia eu estarei nele também?

– Julie, você tá legal mesmo? Está pálida, menina..! – Rebecca se preocupa.

– Huh estou ótima! Só.... Estou com sono, é isso! – Julie finge bocejar.

– Ah.... sim. – Rebecca estranha. – Então, .. okai, eu vou deixar você dormir. – Ela se levanta para ir embora. – Tchaau!

– Tchau!! – Julie finge estar muito alegre e com tudo bem antes de Rebecca ir. – Ah...... Droga. – Ela coloca as mãos no rosto.

Na rua, Rebecca vai andando para casa, se perguntando por que Julie começou a agir estranho do nada.

¨E foi logo depois que eu falei do Daniel. Eu não deveria ter falado...¨ Rebecca pensa. “Ela deve gostar dele.” Nisso, ela avista Daniel vindo em sua direção.

– Não foi muito longe, né? – Rebecca diz.

– Longe o bastante daquela conversa legal de vocês duas. – Daniel diz sarcasticamente, fazendo Rebecca rir um pouco. – Já vai por que?

– A Julie ... está com sono – Não tinha como Rebecca dizer outra coisa, mas também não acreditara nessa história.

– Sono? A noite nem começou ainda. – Daniel também estranha. – Então vamos, eu te acompanho.

– ...Não vai lá na Julie? – Rebecca se deixou ter certeza de que Julie gostava de Daniel, e ela torcia por eles.

– Mas você veio embora e disse que ela está com sono. O que quer que eu faça lá, carinho pra ela dormir melhor?

¨Seria perfeito, senhor Daniel.¨ Rebeca pensa, mas diz outra coisa. – Hm.. Tá.. – E vai andando para casa. Daniel a acompanha.

Eles vão por algumas quadras conversando. Até que chegam à frente do portão da casa de Rebecca, uma das poucas casas dentre um lugar cheio de prédios.

– Bem, obrigada, Daniel.

– Nada. – Daniel diz, antes de Rebecca, repentinamente, beijar suas bochechas como despedida.

– Tchaau! – Ela desaparece passando pelo muro correndo para dentro de sua casa.

–..Até. – Daniel fala, mesmo já estando sozinho. Ele coça a cabeça tentando entender o por que de toda pressa dela e vai de volta para o apartamento.

Na casa de Rebecca, ela estava encostada de costas na porta fechada da entrada.

– O que houve..? – Tadeu pergunta.

– Ah você está aí. – Rebecca vai em direção a ele. – É que o Daniel estava aí fora mas... eu não queria que ele entrasse.

– Ele não sabe de mim, não é?

– Não...- Rebecca não mente. – Eu não quero que ele se sinta.. sabe, ameaçado, só isso...

– Hm.

– Não fica chateado não.. – Rebecca abraça Tadeu.

– ...Tudo bem, eu não gosto quando eu tenho que ir trabalhar e você fica aqui sozinha. É bom que .. ele esteja por perto. – Tadeu tenta ver um lado bom de Rebecca estar andando com Daniel de novo.

– Obrigada, você sempre pensa em mim. – Diz Rebecca. – Mas eu não queria que ele tivesse vindo.. Eu queria que ele fosse com a Julie... Sabe, acho que ela gosta dele.

– O que? – Tadeu olha para Rebecca.

– É, é que ela ficou muito estranha quando eu a contei .. sobre .. ah aquilo, de que eu gostei dele e blá blá, você sabe.... – Essa parte, Rebecca não gostaria de dar muita ênfase ao falar com Tadeu. — Eu queria que ele tivesse ficado no apartamento com a Julie. – Ela sorri, mas Tadeu não parecia feliz com isso.

– Rebecca. – Tadeu segura Rebecca pelos ombros de frente para ele. – Isso não pode acontecer.

– Hã?

– Já sabemos muito bem que o Demétrius não gosta de fantasma falando com humanos, a punição é severa e pior, é gradual pra fazer o fantasma sofrer.

– Essa história de novo não.. – Rebecca se solta, mas Tadeu a segura de novo. – Me solta..

– O Daniel é seu amigo. Você não se preocupa com ele?

– Claro! que me preocupo!

– Então escuta. – Tadeu diz, causando um pouco de medo a Rebecca agora. – Um fantasma que é acusado de causar paixão a um humano recebe a pior punição possível.

– Eu vou proteger ele.. – Rebecca sussurra para não deixar sua voz falhar por causa da vontade de chorar.

– Se vai mesmo.. – Tadeu continua. – Então tira isso de gostar de fantasma da cabeça da Julie.

– Como é que eu vou fazer isso, Tadeu, não posso interferir esse sentimento!

– Você deve. – Tadeu fala bem sério, causando Rebecca derramar algumas lágrimas. – Se não o fizer, você não é amiga desse Daniel.

– Não fala isso! E tá, eu ..faço! Droga.. – Rebecca retira seu braço da mão de Tadeu e tampa o rosto agora cheio de lágrimas que insistiam em cair, se virando de costas para ele. – Seu grosso.

Tadeu não queria tratá-la assim, mas se não o fizesse, ela não o escutaria. Ele insistiu porque não era só Daniel que estava correndo risco, mas Rebecca também. Tadeu tenta abraçá-la por trás, mas ela o empurra.

– Você é um grande monstro, sabia?! – Rebecca estava com o rosto molhado de lágrimas e muito vermelho, de tanta força que fazia para não chorar e só ficar brigar com ele. Tadeu só abre os braços, convidando-a para um abraço. – Argh!

Rebecca dá socos do peito de Tadeu, ciente de que não lhe causaria dor por ser forte. Parando, ela deixa seu rosto no peito dele, e se deixa ser acolhida pelos braços fortes de Tadeu. Eles ficam um tempo ali, no silêncio. Rebecca sabia que era teimosa, e entendia que Tadeu precisava ser rigoroso. Era só o tamanho e a voz grossa dele que assustava, ele não era mal. Ele a acalmava lhe fazendo carinho nas costas.

No começo da noite, Julie já havia ido deitar-se em sua cama. Ela recebera de volta uma mensagem de Bia. Na mensagem, ela só havia respondido “Amor, amor ;)”. Essa mensagem só deixara Julie mais apreensiva. “Amor, Bia?!..... Ah tá, amor, amor. Digamos que ele goste de alguém. Eu ou.. ela?”.

Quando o assunto era Daniel e Rebecca, Julie sentia sempre algo estranho e inquientante, algo que a fazia até não gostar de pronunciar Rebecca. “Acho que tenho ciúmes do Daniel com a .. com ela. Eh tenho certeza. Mas por que?”. Julie tem a resposta, e sente necessidade de ser sincera consigo mesma. “Se o Daniel está gostando de alguém, eu não estou diferente disso. Poque eu.. gosto dele.” Ela sente borboletas no estômago e sorri pelo fato de estar gostando de um fantasma, e um arrogante ainda por cima.

Ah ele tem sido fofo comigo.”. Julie coloca o travesseiro no rosto. ¨Julie, você só arrisca o coração onde não deve... Queria saber se ele sente alguma coisa por mim, afinal... a gente já quase se beijou!¨ ela sente que fica vermelha, mas não se importa, ninguém a veria. “Ah eu queria ter um jeito de saber..”. Julie vai dormir feliz, pensando no fantasminha do seu coração.

No outro dia, Julie se dirigiu para a escola de manhã. Ela havia ligado para Bia no caminho, sem ter companhia no ônibus e contara tudo também o que tinha admitido para si mesma de noite. Sobre Julie querer saber o que se passava no coração de Daniel, a resposta para Bia era simples.

– Pergunta para ele. Simples e rápido. – Bia diz, no celular.

– Desconcertante e rápido você quer dizer, né. Impossível, eu não vou fazer isso.. – Julie diz.

– Qual o outro jeito você tem?

– Não tenho nenhum jeito, Bia.

– Eu já te disse na mensagem ontem o que ele tem, amiga.

– E aquilo de ele e a Rebecca se gostarem antes? Vai que eles se gostam de novo?

– O que eu acredito é que ele gosta de você desde bem cedo, não iria parar com isso logo agora que ele .. digamos tirou a sorte grande de estar no mesmo quarto que você. – Bia ri.

– Boba... Ah não sei. – Julie cora.

– Você vai ver. Depois vão estar aos beijos aí e nem vão lembrar que eu sempre soube.

– Bia..! Olha, eu tenho que desligar agora, estou chegando na escola.

– Eu também. Mas rapidinho.. Não se esquece da minha mensagem, e aproveita.. Tipo, aí é um lugar muito bonito, romântico e talz. Sacou, né, amiga? – Bia diz, fazendo Julie rir sem graça.

– Tchau, Bia!

– O Daniel é que devia ter esse conselho meu né, mas tá. Tchau, Juh!

Julie chega a sua escola. Até a hora do intervalo, foi tudo normal, mas não continuaria assim.

– Oi, e aí Julie.

– Oi, Leonardo. Tudo bem, e você? — Julie diz.

– Acho que tudo bem também.. – Leonardo age um como se quisesse falar algo.

– .. Acha?

– Eh.. Julie. Eu queria te pedir uma coisa. Isso não é o que se pede normalmente mas.. Posso pedir?

– Ai, Leonardo, não sei .. Tenta.. – Julie estava curiosa ao que ele poderia pedir.

– Pode fingir ser.. minha namorada?

– Como é? – Julie fica pasma.

– Eu quero saber se a Anne sente alguma coisa, sabe.. por mim.. – Leonardo fica de cabeça baixa, um pouco envergonhado de sua própria pergunta.

– Se ela sentir alguma coisa isso vai ser dor.. Não pode ser assim.. – Julie diz. Ela desde o começo teve uma impressão de que esses dois compartilhavam de algum sentimento, mas achava melhor não contar, deixar que descobrissem por si só seria mais bonito.

– Sei que assim é ruim, mas não sei outro jeito..

¨Está na mesma situação que eu..¨ Julie, pensa antes de respondê-lo. – Olha, eu tenho que pensar.

– Tá bem, e .. obrigado.

– Hm.

Cada um vai para o seu lado. Leonardo não notaria, mas Julie se foi sem notar que alguém escutava a conversa dela com Leonardo atrás de uma pilastra próxima. Era Rebecca.

Notas finais
Será que isso ainda acaba bem, meninas? >~