Notas iniciais
" Ainda não acabou... Aguente firme! "
Beatrice morreu.
Pelo menos era isso que deveria ter acontecido, porém, mesmo não podendo mais controlar o seu corpo, ela ainda possui sua consciência.

(PV — Beatrice)

Sinto-me estranha, coisas estão acontecendo com meu corpo, mas eu não sei bem o que é. Não consigo abrir meus olhos, mas posso sentir Adam ao meu lado, sussurrando apelos desesperados aos meus ouvidos, pedindo que eu fique bem. Sabe, queria que as palavras dele pudessem me curar, eu não quero mais me sentir assim.

Já passou uma hora desde o ocorrido, me sinto fraca, meus olhos lacrimejam e o local da ferida dói demais. Adam já fez outro curativo no local e está tentando manter a calma ao meu lado, mas posso sentir o seu desespero. Queria poder ficar bem, e tranquiliza-lo.

Acabei dormindo. Estou em um lugar calmo, bonito, com sons suaves de pássaros, então avisto Adam sorrindo e caminhando em minha direção, sorrio de volta e vou correndo até ele. Mas de repente tudo fica escuro, eu ainda posso vê-lo, mas parece que ele não pode me ver mais. Tento avançar, mas sinto-me envolta em um escudo invisível. Ele começa a me olhar apavorado, gritando e chorando. Até que corre, me abandonando nesse lugar escuro, sozinha.

Acordo ardendo em febre. Não sei mais distinguir o real do irreal, Adam está tentando falar comigo, mas suas palavras parecem distantes, seu toque parece leve, quase não atinge minha pele. Sinto meu corpo se mexendo, tremendo. Estou com frio, muito frio. Alguém faz parar, por favor. A voz do Adam some, assim como seu toque. A única coisa que eu sinto é um leve formigamento no lugar onde deve estar sua mão. Tento acalmá-lo, falar, mas não consigo me movimentar, sinto as palavras saírem sem sentido de minha boca.

Meu estômago se revira, minha garganta começa a esquentar, machucando e sinto um liquido espesso subir por ela, até sair por minha boca. Isso aconteceu pelo menos umas três vezes. Nada mais faz sentido, posso ver animais correndo pelo local. Pessoas rindo para mim, ou seria de mim? Minha cabeça está rodando, rodando. Tento mover-me, mas meu corpo inteiro dói, porém consigo abrir os olhos. Olho para Adam, que ao ver que meus olhos estão abertos aproxima-se um pouco mais. Mas não é o Adam, ele está estranho, seu rosto está contorcido, não quero lembrar-me dele desse jeito! Sinto uma lágrima quente, queimar meu rosto.

Então, penso que não posso mais continuar aqui, não posso permitir que Adam passe pelas mesmas coisas que estou passando agora. Então, tento me mover, tudo dói, mas eu não me importo, tenho que salvá-lo. Tento abrir a boca, e sinto as palavras saindo rasgadas por minha garganta, quase inaudíveis.

- Adam, eu acho que me sinto um pouco melhor, mas preciso ir ao banheiro. Pode levar-me até lá? – Demorou alguns minutos até que eu houvesse completado a frase.

Senti seus braços passando em volta da minha cintura, fazendo força para que eu levantasse. Tudo está doendo, mas eu faço meu melhor para não demonstrar, tenho de convencê-lo de que estou bem.

Tento controlar os gemidos de dor que tentam escapar pela minha boca. Tento não deixar Adam perceber as expressões dolorosas que surgem em minha face. Nunca o caminho até o banheiro foi tão torturador.

Ao chegarmos ao banheiro, faço de tudo para convencê-lo de me deixar sozinha. Ele hesitou muito, mas após eu ter forçado um sorriso, — o mais doloroso de minha vida – ele se deixou levar, porém pediu-me para que não trancasse a porta.

Uma vez dentro do banheiro, tentei encontrar uma forma de fugir e tinha de ser rápido. Adam perguntava se eu estava bem de cinco e cinco segundos. Falei-lhe que eu iria demorar um pouco. Então, com muito esforço, tentando não chorar de tanta dor, consegui subir na pia e me pendurar na janela. Passei primeiro uma perna e tive de morder o lábio inferior com muita força para reprimir o gemido que havia escapado. Passei a outra perna. Olhando daqui o chão parecia muito longe, estava se movendo, como se fosse um rio com águas agitadas só esperando-me pular. Então pulei, cai e me arrastei pelo chão, choramingando. Meu corpo todo dói, minha cabeça está girando, mas eu tenho que sair daqui. Posso ouvir a voz do Adam, se elevando a cada segundo, perguntando se estou bem.

Eu me escondo. Adam está agora olhando pela janela e gritando pelo meu nome, suplicando para que eu volte. Sinto meu coração quebrar em milhares de pedaços, os quais vão se instalando em cada parte do meu corpo, fazendo-me sofrer mais. Sinto o soluço e as lágrimas tomarem conta de mim, meu corpo se agita. Mas Adam está indo para a porta da frente, prestes a correr atrás de mim.

Está de manhã já, algumas pessoas já estão na rua e eu não quero que elas me vejam desta maneira. Então me lembro de uma casa abandonada que tem à um quarteirão daqui. Vou me escondendo em arbustos, carros e aonde posso, controlando-me para ficar em pé.

Até que chego à casa, ela parece menos assustadora agora. Olho para os lados, com dificuldade, – a luz do sol faz meus olhos arderem – procurando ver se alguém se aproxima. Depois de me certificar de que não há ninguém por aqui. Pulo a cerca e entro na casa.

Está tudo escuro, tiro algumas teias de aranha do meu caminho e alguns pedaços de madeira. Finos feixes de luz passam pelas frestas das paredes rachadas da casa. Eu empurro algumas tábuas que estão no chão até a porta, para impedir a passagem e estão, sinto meu corpo escorregar até o chão, tremendo. A febre parece ter aumentado, não sinto mais o meu braço afetado pela mordida. Não posso mais movimentar o meu corpo. Então, sem poder fazer nada, fico ali, parada, tentando não pensar em como Adam deve estar agora e pedindo para que ele não me encontre.

Já deve ter anoitecido, não sei, não posso sentir mais nada. Nem frio, nem calor. Não consigo abrir os olhos e nem movimentar meu corpo. Principalmente as pernas. Minha respiração está fraca, sinto meu coração parando. Está difícil respirar, meu maior desejo agora é que eu morresse, logo. Não aguento mais sofrer desse jeito.

Sinto o ar pesado passar pelas minhas narinas e descer queimando minha garganta, meu pulmão. Meu coração esforça-se para continuar pulsando, bombeando o que ainda é sangue em meu corpo. Então tudo escurece, estou morrendo.

Não sei quanto tempo se passou, mas tudo mudou. Não sinto mais meu coração pulsar ou o ar passar pelos meus pulmões, as dores passaram. Estou acordada agora. Mas parece que não tenho controle do meu corpo, porém ele esta se movimentando sozinho. Tento controlar meu cérebro, mas parece que não estou mais sozinha neste corpo.

Porém, a única coisa que sinto agora é fome, muita fome.

Notas finais
Esse capítulo ta meio estranho, mas espero compensar nos próximos.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.