Sem Compromissos
1 Prólogo - Melhores amigos ligam na madrugada
Notas iniciais
Prólogo — Melhores amigos ligam na madrugada
É uma quinta-feira calma com apenas alguns carros correndo pela rua na frente do apartamento de Castiel no centro da cidade. Num sono tranquilo ele pensa na sua rotina matinal no escritório, quantos livros o esperam para serem traduzidos, sonhando com um bom hambúrguer no almoço e talvez uma sobremesa para ser apreciada enquanto assiste ao documentário sobre abelhas na televisão ao chegar em casa.
Claro, seus planos de um calmo fim de semana terminam no instante em que seu telefone toca. Castiel tenta não prestar atenção a ele, mas é tarde da noite e poderia ser seu irmão ou talvez alguma emergência na empresa. Bufando, ele se vira preguiçosamente na cama, atendendo ao aparelho cm a voz rouca de sono:
– Castiel falando...
– Ei, adivinha!
Não é seu irmão, tão pouco a empresa, e é claro que tinha de ser seu amigo – um dos poucos que possuía.
– Dean? – esfregando o rosto, Castiel tenta olhar para o relógio da cômoda, mas sua visão ainda está embaçada – Que horas são?
– Uma da manhã, eu acho. Mas então, tenta adivinhar.
–...O que está havendo, Dean?
– Você não tem graça. Então, a Lisa me deu um pé na bunda.
– O que?!
Isto é absurdo. Dean e Lisa estão juntos há um ano. É a relação mais longa de Dean sem que ele tenha feito algo estúpido. Porque ele tem um histórico, okay? De ser aquele que acaba fazendo besteira com suas namoradas. De qualquer forma, ele estava contente com Lisa, e ele adora o filho dela, Bem, como se fosse seu.
As pessoas do seu círculo interno de amigos estavam felizes por eles, ao passo em que muitos advertiam Dean sobre o quão bom ele devia se comportar para não perder a “mulher dos seus sonhos”.
Mas a notícia surpreendente é: dessa vez não foi Dean quem ferrou com tudo.
– É eu também fiquei em choque... – Dean responde depois de algum silêncio, a voz soando cansada – Olha eu meio que saí na pressa, teria como eu parar aí e ficar no sofá?
– É claro.
Castiel não precisa pensar duas vezes. Dean pode ficar o quanto ele quiser. Cas começa a pegar alguns lençóis e pijamas, os colocando na larga sala de estar. O apartamento de Cas é grande o bastante para um cara solteiro. Tem uma suíte, outro que ele usa de escritório, a sala de estar é conectada a cozinha criando um largo espaço no meio do lugar para pelo menos vinte pessoas circularem sem problema algum.
Ajustando alguns travesseiros no sofá Castiel escuta a campainha sendo toca impacientemente. Ele se envolve no roupão azul marinho, porque clima está ficando bem frio, e abre a porta encontrando Dean ensopado dos pés a cabeça, trajando uma expressão desgostosa.
– Eu odeio esse clima. – Dean entra no apartamento esfregando seus braço, removendo os sapatos e a camisa e os jogando numa cesta que ele sabe Cas tem na cozinha. O moreno apenas suspira com a ideia de ter de secar o chão mais tarde.
– Vou apanhar uma toalha.
No tempo em que Castiel está de volta do banheiro, Dean já removeu seu jeans, tremendo no lugar enquanto assopra um vento quente nas mãos. Castiel respira fundo por um momento, balançando a cabeça.
– Podia ter esperado, sabia? – implica ele.
– Ah, vai se ferrar! Não era você quem ‘tava com a bunda congelando nas calças!
Rindo, Castiel oferece o pijama que ele havia posto antes no sofá. Dean veste apenas a calça cinza folgada, feliz por sua cueca ter se salvado da inesperada chuva.
Castiel o vê se ajeitando na cadeira alta da cozinha olhando ao redor no seu apartamento – um lugar que ele conhece de memória. Dean olha os arredores, mas não direciona seu olhar a Castiel, e ele por sua vez está ciente de que Dean está evitando uma conversa, ou uma roda de perguntas que ele não quer responder.
É exatamente por isso que ele vem ao seu melhor amigo primeiro. Se ele fosse à casa de Sam, seu irmão iria insistentemente o questionar sobre sua vida com Lisa, que ele havia feito de errado, o que ele fará sobre Bem... Dan não quer falar dessas coisas agora. E Castiel é familiar o bastante com ele nos últimos dezessete anos para compreender Dean Winchester com seus olhos fechados. Dar espaço ao seu amigo para respirar e ponderar consigo mesmo é o melhor a se fazer por hora.
Ao invés de questionar, Castiel anda até a cozinha e liga a maquina de café. Assim que está pronto, ele coloca um creme de amêndoas que Dean gosta – mas nunca admite – dando a bebida quente a ele.
Resmungando um ‘obrigado’ Dean bica a bebida dando um sorriso torto com o gosto doce, ao mesmo tempo em que olha de lado para ter certeza que Castiel não o viu.
– Então... A lisa me chutou.
Dean fala duma vez depois de respirar fundo, rindo da sua pobre e miserável vida.
– Pensei que vocês estavam bem. – Castiel oferece sem entrar em muitos detalhes.
– É, bom, eu pensei também. Mas aparentemente Lisa quer mais.
– Mais?
– É, sabe? Mais para… Nós.
Castiel inclina a cabeça para um lado, apertando os olhos em contemplação.
– Como casamento?
– Sim, exatamente.
Castiel aquiesce, bebendo seu café, ponderando quais palavras ele deveria usar para não aborrecer Dean. Ele deve ser tratado como um animal selvagem: precisa vir até você, não o contrário.
– Ela disse algo a você? – Castiel pergunta, enfim.
– Cara, ela me deu uma lição sobre o assunto.
– Com quais intenções ela o fez?
Dean, pela primeira vez na noite, mostra a Castiel um sorriso sincero. A maneira como seu amigo fala sempre divertiu Dean. Suspirando, ele começa:
– Eu cheguei em casa do trabalho e depois do jantar ela mandou o Ben ‘pro quarto, dizendo que precisávamos conversar. E isso nunca é bom.
Castiel concorda silencioso.
– Ela veio então, e me pergunta ‘o que você quer da vida?’ E eu falo ‘nada, eu estou feliz’. Daí ela retruca ‘mas eu não estou. ’
Castiel sorri levemente com a imitação de Dean da voz de Lisa.
– Então ela lhe falou sobre casamento?
– Então ela fala de casamento! – Dean repete jogando os braços no ar – Quer dizer, eu entendo. É uma coisa de mulher e tudo mais, mas qual é. Nós estamos nos nossos trinta e poucos, ela tem um filho, nós temos bons empregos e estamos morando juntos a quase seis meses! Quão mais ‘casados’ podemos ficar?!
– Entendo...
Castiel não insiste no assunto. É uma questão muito delicada para Dean. Mesmo que Castiel tivesse suas próprias ideias sobre a situação, seu amigo está precisando de conforto, não discussões filosóficas. No entanto, é claro, Dean notou a hesitação dele.
– Fala logo, Cas. – Dean fala pesadamente após bufar.
Terminando seu café, Castiel aperta os lábios enquanto encara Dean. Porque ele sempre tinha de ser aquele colocando juízo na cabeça do amigo?
– Acredito que a sua razão em não querer casar com Lisa gira em torno do fato de você não a ver em seu futuro.
– Que?! Isso é ridículo! Estamos juntos há um ano! Eu não tive problemas com isso!
– Isto significa que você estava acomodado, não feliz.
– Ah, vai à merda Cas! O mundo não funciona desse jeito! Não tem isso de ‘pessoa certa’. Você acha alguém que aguenta suas merdas e pronto!
– Lisa aguentava as suas ‘merdas’?
– Sim! Quer dizer... Na maioria das vezes. Ocasionalmente.
Ela não gostava do excesso de bebida, ou o fato de ele e Sam saiam para caçar uma vez ao ano desde que seu pai havia os ensinado a segurar uma arma, dizendo que era algo sem sentido e brutal. Mas ei, tradições de família! Lisa também detestava como Dean gastava tanto dinheiro no carro que era claramente ‘fora desse século’. Ela não o deixava tocar suas musicas no rádio dentro de casa nos fins de semana, mas tudo bem, Lisa não é obrigada a ter o mesmo gosto musical.
Mas a questão é que, Lisa gosta dele! Se não, porque ela ia querer casar?
Claro, tem algumas coisas que Dean não aprecia em Lisa também, mas isto é normal, ele pode aguentar isso, como a maneira meticulosa que ela arruma a casa completamente num TOC, ou o fato que ela enche o saco de Dean dizendo que o trabalho na oficina é meio ruim e que ele podia fazer melhor se voltasse à faculdade. Ou como ela não se importa com a segurança de casa, deixando todas as portas abertas e chamando Dean de paranoico quando brigaram sobre isso – e aconteceu mais de uma vez.
Merda... Havia tantas coisas ‘erradas’ entre eles? Dean nunca colocou a cabeça para pensar sobre isso, mas realmente parecia muita coisa, não é?
– Isto é uma merda... – Dean murmura após algum tempo.
Castiel o encara, compreendendo que seu amigo estava tendo uma profunda revisão da sua relação. Dean apresentou Lisa a ele oito meses atrás, e não muito tempo depois Castiel disse ao amigo que ele não achava que Lisa era a pessoa certa para ele. Claro, Dean o chamou de estúpido e o mandou ir se ferrar. Eles não se falaram por umas semanas, até Castiel se desculpas com Dean, porque nunca seria de outra maneira. Dean Winchester não se desculpa.
Lisa é uma boa pessoa. De verdade. Não é nada contra ela. É algo contra ela junto de Dean, só não combina. Se apenas Castiel pudesse prever esta noite ele poderia ter protegido seu amigo de se machucar de novo por alguém que ele se importava.
Respirando fundo, Castiel levanta-se da cadeira pondo mais café para eles. Ao chegar ao lado de Dean ele pões a mão sobre seu ombro, batendo duas vezes para o confortar, mas antes de remover a mão, Dean agarra seu pulso o mantendo ali.
– Ela conheceu outra pessoa.
Relaxando suas feições, Castiel coloca as canecas sobre a mesa e contorna a cadeira para ficar na frente de Dean, ainda segurando seu ombro, a mão de seu amigo imóvel ali.
– Eles não fizeram nada, só encontros, mas o cara quer... Sabe, casar e essas coisas. – Dean fala, não olhando para Cas.
– E o que Lisa falou?
– Ela queria que eu tomasse uma decisão.
– O que você decidiu, Dean?
Dean ergue a face encarando Castiel por um tempo, até encolher os olhos, parecendo derrotado e resignado.
– Não importa. Está feito. Não há necessidade de ficar remoendo.
Castiel queria perguntar mais, saber mais da história, mas o fato de Dean estar aqui no meio da noite sugere que ele escolheu deixar Lisa. Dean é sempre assim, pensando na felicidade dos outros antes da dele. Talvez ele não quisesse se casar, mas ele queria uma família. Lisa deu isso a ele, mesmo que só por um tempo, no entanto ela estava infeliz. Sendo assim Dean teve de dar um passo atrás, sair do caminho e deixar as portas aberta a ela.
– ah cara! – Dean exclama, esfregando uma mão no rosto – Eu preciso de uma bebida.
Dean lança um olhar infantil ao seu amigo e, okay, Castiel já conhece aquela expressão muito bem. Ele sabe do que Dean quer convencê-lo a fazer, e com certeza se embebedar uma noite antes do trabalho não é uma boa opção. Balançando a cabeça, Castiel dá um passo para trás.
– Oh, não. Você não vai me convencer disso!
– Ora vamos, Cas!
Envergando os lábios para baixo numa feição tristonha, Dean continua encarando Castiel, com seus olhos verdes quase brilhando, e que droga... Ele realmente passou tempo demais junto de seu irmão ensaiando esse olhar de cachorro perdido, porque tudo o que Castiel faz e bufar virando o corpo, andando em direção ao armário de bebidas.
E do vidro na porta do armário ele consegue enxergar o enorme sorriso de vitória no rosto de Dean. Ele não tem jeito mesmo...
Continua
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