Sem Compromissos

26 Capítulo 26 - As não-vantagens de se ter um namorado gostoso


Hoje era o dia da festa da empresa. Alfie nunca havia participado de um evento de gala, precisando pedir ajuda a sua mãe. Após as inúmeras horas ouvindo sermões sobre o porquê não tê-la ligado essa semana, ele finalmente pode falar da festa.


Tudo foi mais simples do que Alfie pensava. A maioria da roupa ele tinha, faltando apenas um bom terno que pudesse compor com sua blusa vermelha. Ia acabar com sua renda da semana, mas ia valer à pena. Até porque, Benny tinha concordando em ir com ele.


Na frente de seu armário, Alfie sorriu feito um bobo de orelha À orelha, lembrando-se do primeiro encontro – de verdade – que tiveram há quatro dias.


Terça-feira, 19h


Alfie estava nervoso outra vez, mas agora tinha um motivo real: ele ia sair com Benny dali a alguns minutos.


Depois de debater consigo mesmo qual seria a melhor roupa para usar – e sério, ele já não havia passado por isso? – Alfie ficou andando de um lado ao outro no seu apartamento, roendo as unhas dos dedos. Se antes ele achava angustiante não saber se estava num encontro, imaginar em como deve se portar, o que vai acontecer, é pior ainda.


E se ele falar alguma besteira? E se ele fizer algo idiota? E se Benny perceber que Alfie é apenas um pirralho qualquer?!


Os medos escorreram cérebro abaixo quando a campainha tocou. Alfie deu um pequeno pulo assustado e correu até o interfone de seu apartamento. Engolindo seco, seu dedo pressiona o botão e a voz sai quase com cem por cento de clareza:


- S-sim?


Merda, ele tinha que começar gaguejando.


- Alfie? É o Benny.


- Ah, sim. Eu já vou descer. Só, só um minuto!


Pediu atrapalhado, não ouvindo a resposta de Benny e, voando até seu quarto, olhou-se mais uma vez no espelho. Blusa lisa verde clara, calça jeans e sapatos lustrados. Cabelo devidamente posto no lugar e um rosto singelo, sem nenhuma barba aparente.


Droga. Ele parecia um daqueles escoteiros que vendia doces de porta em porta.


Bufando em frustração, Alfie desiste de ficar sentindo pen de si mesmo, apanha sua carteira e chaves e desce as escadas do apartamento o mais depressa que pode – sem ficar suado.


Do hall de entrada, Alfie podia ver a cabeça de Benny do outro lado da porta de vidro. Ele vestia uma blusa branca, com um colete por cima. Um colete! O garoto nem acreditou que ele havia se arrumado desse jeito. Seu cabelo e barba estavam cortados e no lugar e, e.... Ele parecia cada vez mais um daqueles modelos de revistas que Alfie com certeza não tem debaixo da cama.


Foco. Alfie precisava de foco. Balançando rapidamente a cabeça ele a ergue, saindo do apartamento e ficando frente a frente com o maior.


Na mesma hora o rosto de Benny se voltou a ele, mostrando um meio sorriso sincero:


- Olá. – cumprimenta.


- O-oi.


- Está pronto?


- Claro! Mais do que pronto! Digo.... Estou.


Alfie sentiu as bochechas arderem, mas ignorou logo ao ouvir uma breve risada vinda de Benny:


- O que foi? – indagou o garoto.


- Nada. Só te achei fofo.


Okay, aquilo só serviu para colocar uma cor ainda mais vermelha na face de Alfie. Pigarreando a fim de se recompor, Alfie para ao lado de Benny com as mãos nos bolsos, baixando o queixo ao dizer:


- Você está muito bem.


- Ah, obrigado. Gostei da sua blusa.


- Gosto de verde. – Alfie responde, dando de ombros ao entrar num nível de conversa mais natural.


- Oh, vou me lembrar disso.


Se lembrar? Porque? Será que Benny já pensava num próximo encontro? Deus, mas e se eles não dessem certo, e se, e se—


O cérebro de Alfie ia explodir. O garoto agitou a cabeça de novo procurando se focar no momento em questão. Ele só precisava ser o seu melhor essa noite e, quem sabe, fazer Benny gostar um pouco mais dele.


Isso! Estava decido. Bastava utilizar todos os seus atributos para conquistar Benny, afinal, primeiros encontros tratam-se disso, não é mesmo?


O restaurante reservado por Benny não era u local pomposo, porém também não era nenhuma lanchonete de esquina. Assim que chegaram aos seus lugares, Alfie notou o quão distante da entrada estava – praticamente escondidos dos demais clientes.


Pensando demais consigo mesmo – algo comum à personalidade insegura do garoto – Alfie passou suas incertezas a outro nível: Benny poderia ter vergonha de sair com um pirralho feito ele. O convite do encontro foi apenas piedade, e agora ele estava forçando o mais velho a aturar sua presença.


- Ei, está tudo bem?


A indagação de Benny soou como um despertar divino do outro lado da mesa. Alfie ergueu o queixo apressado na direção dele, notando a expressão preocupada no rosto do maior.


- N-nada. – gagueja a mentira, bebendo do copo de água para disfarçar.


- Tem algo de incomodando.


Aquilo não foi uma pergunta. Alfie engoliu a água quase se engasgando com ela porque, quando foi que Benny começou a perceber sua linguagem corporal tão facilmente? Bem, ele não era exatamente discreto, ainda assim era um pouco.... Surreal.


- Só fiquei pensando.... Sobre essa noite. – admite.


- Alguma coisa errada?


- Não, não! De forma alguma Benny! E-eu só, digo.... P-pode me responder uma coisa, com sinceridade?


- Claro. – diz, abaixando o menu de volta na mesa, vendo o garoto respirar fundo em busca de palavras. Seja o que for parecia ser sério.


- Você queria mesmo sair comigo hoje? – questiona duma só vez antes que a ousadia escape, emendando dúvida atrás de dúvida – Quer dizer, se você ficou se sentindo culpado pelo o que aconteceu na cafeteria, eu entendo, mas não precisa fingir que gosta de mim. E t-também não precisa se forçar a vir num restaurante e, e esconder dos outros. E-eu sou maduro o bastante para entender—


- Ei, ei, Alfie.


Benny o interrompe antes que o próprio oxigênio o engasgue. Querendo ter um efeito ainda maior, ele coloca a mão sobre a do garoto, apertando-a de leve. Respirando fundo, Benny fala com uma calmaria sem igual:


- Primeiro quero que saiba: estou aqui, com você porque eu quero. Na cafeteria, sim, eu fique me sentindo culpado, mas não pelo o que você imaginou.


-.... Pelo o que então?


- Uh, por ter sido idiota e ter jogado fora a chance de um encontro com você?


Oh, certo. Benny já podia ganhar o prêmio de fazer Alfie se envergonhar, pois cada frase dita pelo mecânico ia direto para as bochechas do menor, as acendendo feito brasa.


- Oh. – murmura o garoto, permanecendo em silêncio.


- Quanto ao lugar do restaurante, eu pensei que seria melhor ficar longe de estranhos para conversar sem preocupações.


Certo, aquilo fazia todo o sentido do mundo. E claro, Alfie só parecia cada vez mais um pirralho inseguro diante de um adulto maduro. Seus planos para “conquistar” Benny aquela noite haviam sido arremessados pela janela e atropelados por um caminhão.


Contudo, antes de bufar sua frustração, a mão de Benny sobre sua persistiu firme, dando uma pequena apertada sobre ela, chamando sua atenção de volta ao olhar do outro:


- E também eu.... Gosto mesmo de você, Alfie.


Foi a primeira vez que a expressão de Benny pareceu um tanto quanto envergonhada, e por uma estranha razão aquilo relaxou a Alfie.


- Também gosto de você, Benny.


Trocando um meio sorriso, os dois perceberam o quão tolos estavam sendo por não deixar claros suas intenções desde o início. Mas, bem, para isso serviam primeiros encontros, não é mesmo?


Ao longo da noite puderam conversar sobre qualquer assunto sem sentir-se forçados. A comida foi outro ponto alto: simples, porém apetitosa, e, wow, Benny sabia mesmo comer. Dois pratos e uma sobremesa depois, e ele ainda queria tomar sorvete na saída do restaurante. Alfie riu baixinho, podendo ver as bochechas do maior vermelhas novamente, ganhando o restante do encontro.


Entretanto, o ponto alto da noite acabou no momento certo: na entrada do prédio de Alfie.


- Obrigado por hoje. – disse o garoto, menos aflito – Me diverti de verdade.


- Eu também.


- Você vai.... Trabalhar amanhã na oficina?


Só meio período, depois tenho a minha folga. E você?


- Tenho o estágio na empresa.


- Boa sorte amanhã.


- Obrigado....


Era estranho. Nenhum deles parecia querer terminar de fato o encontro, mas não sabia como proceder dali em diante. Alfie poderia chama-lo para uma xícara de café, ou algo assim, porém ele sentia-se acanhado demais para tê-lo de uma maneira tão rápida dentro de seu apartamento (e ele já entendia mito bem o que aconteciam nessas visitas pós jantar).


Num estalo, a face de Alfie se ascendeu quando uma solução prostrou-se diante dele:


- AH! Sábado agora a empresa vai dar uma festa!


Benny o encarou franzindo o cenho, e, bom, ele precisava de uma explicação à mais:


- É que, bem, tenho direito de levar uma pessoa, e, sei que é meio em cima da hora, mas se estiver livre....


Ele espera até que o mecânico diga alguma coisa. O quanto ele pensa é o suficiente para trazer à tona a ansiedade latente de Alfie, já procurando uma maneira de aceitar que não veria Benny tão cedo de novo.


- Tenho de usar smoking, certo?


É a pergunta que Benny faz, e por mais tola que pareça foi o bastante para reacender o rosto do garoto:


- Nada muito chique, sabe?


- Okay. Eu posso te pegar aqui as oito.


- O-oito seria ótimo!


- Marcado. – Benny fala sorrindo – Segundo encontro então.


As bochechas de Alfie se avermelham de novo, e nada podia o deixar mais alegre aquela noite. Na verdade, ele já estava pronto para se virar e entrar em seu apartamento, quando Benny deu um passo à frente, esgueirando a palma da mão pelas costas do menor e, num movimento preciso, o trouxe até o encontro do seu corpo, colando suavemente os lábios no dele.


Uma piscada, duas, e Alfie precisou respirar para conseguir entender o que acontecia, porém uma vez que o fez sua boca pressionou de volta. Seus braços foram subindo devagar pelo meio do peito de Benny, ficando prados na altura de seus ombros. Os dedos ficaram presos no casaco do maior e, mesmo que o beijo não passa-se de um selinho, ele conseguia sentir um intenso calor subindo por todo o seu corpo – irradiando de Benny para ele.


Alfie saiu do abraço de Benny ainda desnorteado, vendo o mais velho sorrindo no canto da boca.


- Até sábado. – ele diz, acenando ao se afastar pela calçada.


- Até....


É, bom, havia sido melhor do que ele esperava, isso com certeza. Ah! Mas isso queria dizer uma nova seção de ansiedade até a chegada do final de semana!


Bem, Alfie podia se acostumar com isso se pudesse beijar Benny dessa maneira de novo. Ao menos foi o que ele pensou ainda sorrindo ao chegar em casa.


(...)


Sábado, sábado, sábado. Dean só conseguia pensar que já era sábado, onde tinha aquela estúpida festa para ir. A única coisa o deixando firme no chão era imaginar a felicidade de Castiel. Claro, o moreno não demostrava em suas expressões o quão eufórico estava, porém havia outras maneiras de transparecer seus sentimentos além do olhar calculista:


- Dean, a que horas a lavanderia entregará nossas roupas?


Abaixando o jornal de seu rosto, Dean olha para o relógio da cozinha – a quinta vez que o faz em menos de dez minutos – e responde ao menor:


- Daqui a uma hora, Cas.


- Não é melhor já irmos andando?


- Uh, não. A lavanderia fica a quinze minutos daqui, e isso andando.


- Se tivermos algum equívoco poderemos consertar.


- Relaxa Cas. Você quem sugeriu o lugar.


- Certo, está certo.


Ele se dá por satisfeito, pondo a mão sobre seus lábios, baixando a cabeça de maneira pensativa. Cruzando os braços sobre o peito Castiel continua a matutar qualquer pequeno detalhe dentro de seu cérebro, e Dean, já calejado tamanha era a insegurança do namorado, tinha as respostas na ponta de sua língua:


- As gravatas estão sem os nós dados. – comenta Castiel.


- Porque você achou melhor fazer na hora ‘pra ajustar. – Dean rebate, bebericando seu café.


- Verdade. Os sapatos estão lustrados?


Ele dispara na direção do quarto, enquanto Dean dá a solução aumentando a voz para ser ouvido:


- Fizemos isso ontem à noite.


- Hmm.... O perfume! Se o cheiro for muito forte podemos ser indelicados.


Okay, aquilo já estava beirando o ridículo.


- Cas. – Dean o chama, contudo o moreno parece perdido em meio às próprias indagações.


- As blusas precisam ser passadas. Lenços! Como pude ser tão descuidado!


- Ei, Cas.


- Qual lhe apetece mais Dean? O vermelho? O verde? O—


- Cas!


Dessa vez o loiro não aguentou. Saindo da cadeira da cozinha ele anda até a frente de Castiel colocando as mãos nos ombros dele. O moreno abriu a boca de leve, ficando paralisado diante de Dean que, não resistindo a face interrogativa – tão fofa e séria ao mesmo tempo – acabou por rir, pressionando os lábios esticados sobre os de Cas:


- Cara, você precisa relaxar.


- Só estou conferindo os detalhes.


- Até demais. Tem coisas que eu te vi fazendo duas, três vezes repetidas!


Um tanto quanto envergonhado, Castiel morde seu lábio inferior e desvia seu olhar de Dean. Bufando, ele passa a palma da mão sobre sua testa, ainda sem se afastar do loiro.


- É uma noite muito importante Dean.


— Eu sei, eu sei. Grande encontro com as empresas, blá, blá, blá.


Brinca o maior, revirando os olhos em meio a risada. Apoiando as costas no balcão da cozinha, Dean recosta os cotovelos sobre ele, ficando completamente desleixado:


- Já falei ‘pra “desestressar” Cas.


Mudando o peso de seu corpo de um pé ao outro, Castiel se esgueira devagar até o lado de Dean, apoiando-se no balão como ele, contudo de uma maneira mais rígida. Notando a insegurança emanando dele, Dean empurra de leve seu ombro:


- O que está fritando esse seu cérebro enorme?


Isso faz o moreno rir:


- Um tolo desejo meu.


Enigmático como sempre, Castiel consegue fazer Dean odiar e adorar esse seu lado confuso, buscando no mais fundo de seu ser por uma infinidade e paciência:


- Qual é Cas, seja mais específico.


- Só.... Quero que todos nos vejam e saibam.... – ele para, respira e deixa a frase solta no ar.


- Saibam o que? – Dean insiste.


Virando-se a ele, Castiel abaixa sua cabeça e fala um tanto quanto tímido, não querendo admitir suas tão egoístas intenções.


- Saibam que nós somos, bom, “nós”.


Erguendo uma sobrancelha, Dean dá um meio sorriso malicioso, esgueirando uma voz divertida na direção de Castiel:


- ‘Tá querendo me exibir para os outros, Cas?


Ficando corado, Castiel vira seu rosto para o lado e, mesmo que ele diga o contrário, faz um pequeno bico:


- Se tiver alguma objeção eu posso—


A cintura de Castiel é apanhada pelos braços de Dean, ágeis em girá-lo para colocar o moreno prensado contra o maior no balcão. Dean mostra um largo sorriso, que deixa Cas sem graça e alegre ao mesmo tempo:


- Tsc, Cas. Que coisa feia, me usando dessa maneira.


-.... Eu disse que era um desejo tolo meu. – responde, ainda envergonhado.


- Nah, aposto que é ‘pra você que todas as atenções vão ficar.


- Não seja petulante.


- Longe disso. – ele diz, ainda sorrindo ao chegar seu rosto mais perto de Castiel – Só estou dizendo a mais pura verdade.


- Idiota.


Apesar da repreensão, Castiel ri junto de Dean, aceitando o toque de seus lábios num beijo que o acalmam pouco a pouco.


Podia ser mesmo algo sem sentido, mas Castiel nunca teve alguém para acompanha-lo nessas festas – ou em eventos sociais de todo o tipo.


Michael nunca foi de se interessar pela sua vida profissional. Quando saíam, era apenas por algumas horas, e mesmo assim em muitas vezes iam parar em algum motel. Ele dizia que não precisava provar nada a ninguém, porém Castiel sempre desejou egoisticamente poder “mostra-lo”. Na empresa era quase uma piada de mau gosto dos colegas: o namorado invisível de Castiel; como se tivesse o inventado, ou algo assim...


Já Dean, apesar de todas as suas inseguranças, jamais tentou esconder Castiel ou negar o que tinham (depois de muita negação própria, claro).


Era uma sensação boa. Ficar ao lado de alguém sabendo que possui este pequeno apoio invisível. Acabar com as piadas do escritório era igualmente um belo incentivo.


- Vamos comer alguma coisa no caminho da lavanderia, que tal? – Dean oferece já apanhando as chaves de seu carro.


- Só preciso do meu casaco.


Acenando, Dean o espera destrancando a porta enquanto o moreno corre até seu quarto, esquecendo do prévio nervosismo. Ia dar tudo certo, de verdade.


O celular em cima da cama tocou rapidamente, e Cas temeu ser alguma mudança de última hora no itinerário da festa, o atendendo depressa:


- Alô?


Nada. Silêncio do outro lado da linha, a não ser pela respiração um tanto quanto ofegante saindo dos auto falante. De novo aquele trote? Bufando, Castiel desligou o celular e colocou seu casaco. Ele precisava ligar para a companhia e pedir para bloquearem o estranho número.


- Já está pronto Cas?


- Estou indo


O telefone ficou esquecido na calça jeans no instante que Castiel viu Dean apoiando no vão da porta brincando com as chaves de seu querido Impala. O sol forte vindo do corredor iluminava sua silhueta como o desenho de um quadro e, bem, quem consegue se importar com uma brincadeira de criança quando se tem uma vista dessas?


(...)


Noite, enfim. As roupas estavam perfeitas. A chegada do carro da empresa no apartamento de Castiel surpreendeu um pouco a Dean, porém a mão de Castiel apertando de leve seu braço, perguntando se estava tudo bem, o fez relaxar.


A noite era de seu namorado, afinal.


Assim que chegaram no salão de gala da empresa o loiro teve uma estonteante surpresa, porque ele nunca tinha vindo até esse ponto do prédio. Precisava admitir, eles não economizavam na “fineza”.


Mesas imensas de frios com canapés, carnes assadas e algo semelhante com salgadinhos, mas que pareciam mais mini tortas de queijo e frango se espalhavam por toda a extensão do salão. Lustres de cristal pendurados no ponto mais alto do teto, luzes de velas nas paredes e, claro, vinho e espumante sendo servido abundantemente.


- Sem cerveja então, né? – brinca Dean, ganhando um pequeno riso de Castiel.


- Sinto em dizer que não.


- Hm. Vinho, que seja.


- Acho que eles também servirão whisky.


- Ah, a festa começou a ficar interessante.


- Preciso encontrar alguns dos executivos. Você quer me acompanhar ou....


- Relaxa Cas. Eu vou ficar perto da comida.


- Não irei me demorar.


- Ei.


Dean o para no meio do caminho, pondo o dedão e o indicador da mão direita debaixo do queixo de Cas, erguendo-o devagar:


- A noite é sua, okay? Só relaxa e se diverte.


-.... Okay.


Piscando um olho, Dean anda na direção da única parte da festa inteira que ele conhece bem: o buffet.


Tudo bem, dali a uma meia hora Cas ia querer o apresentar as pessoas, mas por hora ele podia encher o estômago com caviar e coisas desse tipo – ao menos uma vez na vida!


Duma só vez ele apanhou cinco rolinhos do que parecia ser um salgado de presunto, ou algo assim. A massa derreteu em sua boca e, certo. Aquilo era um pedaço do céu. Fechando os olhos e soltando um pequeno gemido pornográfico, ele mastiga e apanha mais salgados ao mesmo tempo, descendo tudo pela garganta junto do vinho.


- Vejo que achou seu lugar na festa!


- Benny?!


Dean quase engasgou ao ver o amigo bem ali, parado na sua frente com uma roupa parecida, taça de bebida numa mão, e a outra estrategicamente dentro do bolso da calça, dando-lhe um ar sério.


Divertindo-se com a reação dele, Benny ri mais um pouco, esperando que Dean termine de engolir os petiscos:


- Cara! O que ‘tá fazendo aqui? – indaga, atônito.


- Não é só você que conhece alguém da festa.


- Mas como; quem? ‘Tá saindo com uma daquelas secretárias daqui?! Alguém que trabalha com o Cas.


- De certa forma. – responde de maneira vaga, fazendo a curiosidade de Dean aumentar.


- Filho da mãe! – exclama — Porque não falou nada?


- Da mesma maneira que você conversa abertamente sobre seus sentimentos, Dean?


- Uh, tipo isso. – coçando a nuca sem graça ele se ocupa com mais algum quitute, esquivando-se da pergunta.


- Quem diria que estaríamos num lugar desses ao mesmo tempo, uh? – Benny fala, bebendo de seu vinho; e desde quando o urso em forma de gente bebe vinho?!


- É, bom. De vez em quando até faz bem ‘pro ego. – admite o loiro até porque ele não podia reclamar da comida.


- Certo. Vou procurar meu acompanhante então.


- Uhum. Use camisinha! – diz erguendo as sobrancelhas algumas vezes num tom de brincadeira.


- Ha, digo o mesmo.


- Já passamos dessa fase.


- Uh, okay, informação demais amigo.


Benny dá um leve tapa no ombro de Dean enquanto se afasta dele, vendo o amigo quase dobrar tamanha era sua risada. Era bom vê-lo dessa forma descontraída, e por mais que ele negasse, Castiel foi uma das melhores coisas que aconteceu a ele.


(...)


Parece que este ano a equipe de planejamentos investiu corpo e alma na festa corporativa. Tudo parecia brilhante e bem arranjado, como se as peças estivessem no lugar e nada mais faltasse. Não havia falhas em nenhum ponto, e Castiel pela primeira vez desde que entrou na companhia sentiu-se parte dela. Sentiu-se satisfeito.


- Como anda o novo projeto Castiel?


Os investidores rodeavam o moreno em um pequeno círculo em meio a sua curiosidade para descobrir mais obre o trabalho de um dos mais importantes empregados da empresa. Uma empresa que lida com a tradução não apenas de obras literárias, mas igualmente de documentos confidenciais precisa de um grupo especializado e de confiança. Aparentemente Castiel era o “homem do momento”, lidando com uma gama de informações que deviam ser repassadas a uma filial na Alemanha. E claro o grupo executivo queria acompanhar de perto.


- Olá senhor Zachariah. Tudo está se encaminhando dentro do prazo previsto.


O homem careca de olhos ríspidos lança um sorriso ao moreno, balançando levemente a cabeça:


- Castiel é um dos nossos melhores membros. – Hannah, a mais jovem empresária do grupo assegura a Zachariah, dando um aceno seguro na direção de Castiel.


- Ah sim, ele me foi muito bem recomendado.


- Fico feliz pela confiança.


Castiel devia ter receio, ou mesmo nervosismo ao estar diante de um dos homens mais importantes da companhia, ele sabia disso dentro de si, mas de alguma maneira suas estruturas não haviam se abalado nem por um instante.


Só existia confiança, certeza, força em cada palavra dita, nas respostas proferidas cada vez que Zachariah tentava surgir com algum tipo de empecilho, porém a voz de Castiel não se alterara em nada.


O que era


- Gostaria de conhecer a pessoa que o deixa tão inspirado.


- Meu trabalho não evolve tanta inspiração assim.


- Engano seu. – Zachariah diz – Lidar com palavras, encaixá-las da maneira correta em um papel, alterando significados ou mesmo a perspectiva do leitor depende de quem lida com essas palavras. E isso é uma arte que requer inspiração.


-Bem, quando você coloca desse jeito. – responde, um pouco sem graça.


- Vamos então, quero conhecê-lo.


- Ah, uh, certo.


Sem outras desculpas, Castiel se afasta de Hannah e Zacharias, porém a mesma confiança de antes o acomete. Procurar Dean para apresenta-lo ao seu chefe se torna uma tarefa fácil.


(...)


Dean estava mais confortável. Aquele não era o ambiente ideal aonde imaginava sua noite de sábado, mas ao menos tinha boa comida e bebida. Sem contar que ele se orgulhava bastante de Castiel. O moreno andava por aí cumprimento inúmeras pessoas, apresentando seus projetos e começando a falar de futuros trabalhos. Dean podia ser um mecânico, porém compreendia o quanto significava para Cas estes momentos. Ele amava seu trabalho de corpo e alma.


Dean se lembra muito bem das noites viradas com projetos, livros e mais livros que rodeavam Cas em seu apartamento – e isso se repetia desde o colégio. Quando ele sabia que seu amigo havia imergido nesse mundo do vício no trabalho, Dean ia correndo ao seu auxílio com uma boa rodada de cerveja e netflix.


Pensando agora, Dean acredita que só queria uma desculpa para passar mais tempo com ele.


- Gostando da festa?


Virando-se para o lado, Dean se depara com o estranho loiro metido que havia visto junto de Castiel algumas semanas atrás usando uma roupa parecida com a sua – contudo num corte e tecido de aparência muito superior.


- Ei. Balthazar, não é?


- Oh, estou lisonjeado por se lembrar do meu nome.


— Nah, eu só fico de olho na concorrência. – ironiza Dean com um pequeno fundo de verdade em sua voz.


O mais estranho, no entanto, foi notar a pequena risada se formando nos lábios do baixinho, que bebericava seu champanhe numa calma irritadiça.


- Você realmente faz o tipo ciumento, não é?- Balthazar fala, querendo implicar um pouco.


- Como assim?


- Ora, você foi bem possessivo com Cassie naquele dia na cafeteria.


Okay, aquele apelido irritava a Dean mais do que ele gostaria de admitir, ainda mais por vir desse cara. Entretanto ele precisava relevar, afinal, aquela era a noite do seu namorado, e ele não precisava ter de lidar com os ciúmes de Dean.


- Digamos que eu fico de olho no que é meu. – ressalta, encarando Balthazar por tempo suficiente para fazer sua frase ter um efeito ameaçador.


- Ainda tratando o Cas como um prêmio?


-Ah, cala a boca! – revida impaciente – Não é nada disso, então pare de falar besteiras.


- Hm, será que você consegue se manter comportado desse jeito até o final da noite, senhor Dean?


- O que quer dizer com isso?!


- Ah, dá para notar que está fazendo um grande esforço pelo Castiel. Usando terno e gravata, mesmo que seja visível seu desconforto. Comendo com cautela, bebendo uma taça de cada vez.


Dean solta um riso de escarnio, coçando a ponta do nariz ao virar parte do corpo na direção do outro:


- Está insinuando que eu sou, como foi que você disse? Um troglodita?


- Usa até mesmo palavras grandes! Estou surpreso.


- Oh, vai à merda! – explode Dean, colocando sua taça sobre uma mesa, apontando o dedo na cara de Balthazar – Só está com inveja porque Cas te deu um chute na bunda.


Aquilo pareceu afetar, mesmo que minimamente, as feições pomposas do britânico metido. Bem feito para ele. Claro, como quase tudo na vida de Dean esse momento de alegria foi passageiro. Bastou alguns poucos segundos para Balthazar o atacar de volta:


- Me admira que Castiel tenha mesmo feito essa escolha, afinal.... – ele retesa sua fala, terminando a bebida ao olhar de lado para Dean – Pensei que minhas carícias fossem mais proveitosas.


No rosto de Dean a cor se desfaz completamente. A vitória antes estampada se quebra, cai e espatifa-se no chão como se fosse um delicado pedaço de vidro.


- O que? – indaga quase incrédulo, descendo o tom de sua voz, pensando que havia escutado asneiras. Torcendo para que estivesse enganado.


Claro, o novo sorriso de Balthazar destruía essa pequena esperança.


- Nosso beijo. Meu e de Cassie. Tenho certeza que ele te contou, não é mesmo?


Se ele não contou? Por que não contou? Cas esquece de contar a ele algo dessa magnitude? Será que não quis contar? Não, não, Cas não faria isso. Balthazar estava brincando com Dean. Devia ser isso, tinha de ser.


- Está mentindo. – murmura Dean, ainda em negação. Ele vê Balthazar dando de ombros, virando a taça de champanhe.


- Pode ser que sim, ou não. De qualquer forma você sempre pode perguntar ao Cassie, certo?


O apetite de Dean morre na boca do estômago. Balthazar soava tão confiante que ficava difícil negar suas afirmações. Dean só conseguiu sair de perto dele, precisando de ar.


Um garçom passa trazendo uma nova bandeja de bebidas, que Balthazar apanha sem pensar muito, sorrindo levemente ao virar-se. Porém antes de cantar sua vitória um pequeno empecilho aparece diante dele, trajando olhos infantis e em desaprovação:


- O que você fez?


- Alfie! – exclama de maneira cínica, pondo os braços no ar – Divertindo-se na festa? Não tinha te visto a noite toda! Onde está o tal “convidado” que veio com você?


Balançando a cabeça, Alfie deixa sua expressão séria, repreendendo Balthazar com seus olhos grandes. Aquilo queria dizer que ele assistiu toda a cena com Dean, o que era fantástico – ironicamente falando.


- Porque fez isso? Porque irritou o namorado do Castiel dessa maneira?


Bufando, Balthazar mexeu sua taça, vendo o líquido borbulhar nas beiradas de vidro:


- Diversão, tédio, quem sabe!


Comenta, terminando de beber o champanhe. Há nos seus olhos, contudo, certa amargura, uma espécie de tristeza que deixam Alfie sem graça, e mais determinado ainda:


- Você gosta tanto assim do Castiel?


A pergunta do garoto faz as pálpebras de Balthazar arregalarem. Não é que ele fosse estúpido e não soubesse o que se passava em sua mente, fervilhando os sentimentos. Era mais uma questão de não querer se importar, não querer pensar mais do que devia numa pessoa fora de seu alcance.


Oh, bem, isso não quer dizer que ele precise ficar de escanteio vendo o casal de idiotas apaixonados sem nada fazer.


- Talvez eu seja um mal perdedor.


Diz, por fim, deixando Alfie sozinho ao lhe lançar um rápido sorriso e voltar a sua bebedeira.


Do outro lado do salão já estava Dean. A raiva dominava cada pensamento seu, como um sentimento agridoce, de quem havia ouvido da boca de estranhos coisas que deviam ser ditas por Castiel. O beijo não lhe incomodava nem um pouco, mas saber que o moreno preferiu ficar em silêncio acabava com as estruturas de Dean.


Quer dizer, ele havia dito tudo ao moreno – mesmo que tivesse demorado um tempo ‘pra admitir – mas não havia nada da vida de Dean que Castiel desconhecesse. Isso contando todas as mulheres com quem já dormira.


Era só um beijo. A droga de um beijo qualquer dado por um babaca que gostava de se vangloriar. Então porque incomodava tanto?!


- Dean!


Oh, merda.


Como foi que Castiel o achou no meio daquela festa?! Dean só consegue respirar fundo frente ao seu azar, passando a mão pelo rosto antes de virar sobre os calcanhares. O moreno estava alegre, vindo em passos rápidos na direção dele e, numa expressão séria, porém contente, ele fala:


- Um dos colaboradores gostaria de conhecê-lo.


- Agora não é uma boa hora. – admite por entre os dentes, desmanchando a alegria de Castiel por completo e cara, não importa o quão furioso ele esteja, ainda lhe dói ver as feições do moreno ficarem consternadas:


- O que houve? – pergunta, chegando mais perto de Dean, que balança devagar a cabeça.


- Só.... Nada, esquece Cas.


- Como assim?


- Eu vou ‘pra casa.


Pronto. Aquilo foi o bastante para acabar com todo o divertimento de Castiel.


- O que? Mas.... Porque?


Castiel quer segui-lo, ir atrás de Dean e entender o que se passava. Contudo, como fazer para sair no meio da festa de gala sem ser notado? Sem que Zachariah notasse? Mas é.... É Dean. Ele precisa ir, precisa resolver isso, ele—


No pior dos momentos seu celular resolve tocar, quebrando a hipnose que seus olhos causavam em Dean, praguejando internamente, Castiel pega o aparelho vendo o estranho número privado piscar na tela. Ao erguer o queixo para voltar a falar com Dean ele se encontra sozinho. Sem rumo, sem forças, Castiel o observa ir embora como se fosse uma sombra esgueirando-se para fora das luzes da festa.


A verdade é que Dean quer parar, ficar frente a frente com o moreno, gritar, dizer tudo aquilo entalado na garganta. Danem-se os olhares, dane-se a vergonha!


Os olhos grandes e incertos de Castiel encarando Dean o tornam fraco demais, até mesmo contra sua vontade de explodir num milhão de xingamentos e palavrões....


A única coisa que Dean consegue oferecer à Castiel é educação naquele momento. Não ia fazer uma cena diante dos colegas de trabalho, além do mais, seus gritos com Balthazar puderam ser ouvidos por uma boa gama de convidados.


Indo até a recepção ele pensa em apanhar seu casaco e sair dali sem ser notado, contudo, é claro, a sorte quase nunca lhe sorri nestas horas:


- Dean? Já está de saída?


Uh, é aquele garoto, o estagiário que trabalha com o Cas.... Ele tem um nome engraçado, mas todo mundo usa o apelido.


- Tenho coisas a resolver Alfie. – fala num tom sério.


- Oh, não sabia que o Ca— Er, senhor Castiel ia embora tão cedo.


- Ele não vai.


- Uh? Porque não?


Revirando os olhos em meio a uma longa e irritada bufada, Dean esfrega sua nuca estalando o pescoço, torcendo para que os sinais corporais sejam o bastante para indicar seu humor. E dessa vez as chances do destino lhe são favoráveis, pois Alfie abre e fecha a boca algumas vezes, dando um passo para trás.


O impasse na saída faz Castiel conseguir alcança-lo, chamando pelo namorado incessantemente:


- Dean? Dean! Espere!


- Estou indo Cas.


- Porque?! O que está havendo?!


- Urgh! – ele rosna, bagunçando seu cabelo – Só— Me deixe sozinho um pouco!


Dean torna a andar até a porta da empresa. Castiel enxerga as costas largas do namorado abandonando o prédio, e ele abre a boca querendo chama-lo.


O celular toca de novo, e num acesso de fúria ele atende o aparelho dizendo numa voz rouca e séria:


- Para de me importunar, seu filho da mãe!


Até parece piada. Usar a frase icônica de Dean dessa maneira, mas é tudo o que ele consegue pensar antes de tomar a derradeira decisão de sair da festa assim como seu namorado fizera: ligeiramente.


Estranho como antes a presença de Dean enchia a Castiel de confiança, e agora, num mero piscar de olhos, numa troca errada de palavras, no azar do destino apenas, Castiel perde sua coragem.


De certa forma, era como Zachariah havia dito. Dean lhe dava inspiração para ser algo maior. E definitivamente Castiel não o permitiria ir embora dessa maneira.


Continua



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.