Sem Calor
8 Necessidades Profundas
Alguns vultos passavam pelos olhos de Vivian. Uma movimentação anormal disputava o mesmo espaço. Onde estou? Esperou a visão melhorar e cinco minutos depois enxergava a tua volta. Um homem com jaleco branco lhe segurou o pulso e pronunciou algo. Bárbara permaneceu de pé a sua frente, as mãos lhe tampando a boca e a observando.
- Acho que agora ela vai melhorar. Qualquer piora, me avise — disse o homem, soltando o pulso de Vivian e levantando-se, rumo à porta.
- Obrigada doutor.
Vivian ainda compreendia pouco da situação. Bárbara sentou-se na mesma cadeira e fitou-a. Seu rosto agora transmitia alívio.
- Você ficou dormindo por 4 dias.
Sua mão pegara um termômetro dos braços de Vivian, que só agora notava que estava ali.
-O que aconteceu? — Suas palavras soaram roucas.
- Você desmaiou quando chegamos. Teve alguns espasmos musculares e não acordava. Chamei o doutor Felippe para ver o que estava acontecendo e ele ainda não sabe as causas — franziu o cenho para ler os miúdos números do termômetro. — Trinta e nove. Ainda tem febre.
Vivian encarava sua prima, ainda confusa. Como assim. Doente? Desviou o olhar para alguns quadros que se localizavam no quarto. Um deles eram enormemente grande. A Santa Ceia. Bárbara levantou-se para pegar algo e sentara novamente. Colocou um pano úmido sobre a testa de Vivian, certificando-se de que não cairia.
- Conte-me mais sobre aquelas sensações.
A mulher suspirou antes de pronunciar quaisquer palavra.
- Desde menina as sinto, Bárbara. São como vibrações repentinas na minha cabeça. Nunca tentei cessá-las com algum remédio, apenas presto atenção. Ninguém sabe a respeito, além de você. No primeiro voo eu a senti absurdamente forte, que por ironia do destino me evitou um acidente — seu olhar era mantido sério. — Mas nesta mesma noite fora diferente.
- Diferente, como?
- Não foi bem uma sensação. Foi como alguém sussurrando no meu ouvido — Vivian desviara o olhar para o teto.
- O que você ouviu?
- Eu te amo, querida.
Bárbara arqueou uma sobrancelha, fitando-a. Será que o acidente a afetou tanto assim a ponto de ter alucinações? Não falou mais nada. Como um chacoalhão lembrara de algo importante. Vivian já percebendo lhe lançou um olhar duvidoso. Bárbara correspondera com um sorriso meigo.
- Está nevando Vivian.
A mulher se esforçou para compreender bem. Porém seus olhos se cruzaram com a janela fechada e com leves indícios de gelo. Custara a acreditar. Com a ajuda de Bárbara se levantou, caminhando vagarosamente até a janela. Seus olhos se arregalaram quando vira a grama branca, as árvores cobertas de gelo e as ruas vazias. Como se queressem dominar por onde passassem, cada floco de neve preenchia o menor indício de cor lá fora. E os que ainda pairavam no ar, caíam calmamente. Suas mãos involuntariamente foram de encontro com o vidro tocando-o. A de Bárbara pousou delicadamente em seu ombro, avisando da febre alta que continha a alguns dias.
- Não me importo.
Saíra dali apressada, de encontro com a porta da sala, que era a entrada da casa. Abrindo-a, o vento gelado invadiu a sala de estar da casa. Não se importou. Quando pusera os pés na neve, fez até a questão de tirar os sapatos. Como é áspera e macia. Agachou-se na grama coberta com quase 1 palmo do gelo que caía constantemente. Levou uma de suas mãos, apertando-o. Não pode conter uma risada. Rira alto. Bárbara que chegara até a porta parecia eufórica, preocupada.
- Saia daí! Irá ficar pior do que já está. Entre!
Vivian se sentiu como uma criança alegrada com a chuva, mas a mãe preocupada lhe dava ordens para acabar com sua alegria. Porém não se incomodou. Afastara-se da neve como alguém que se afasta de um parente. Na sala de estar, suas mãos estavam molhadas e vermelhas, assim como seus pés. Como uma criança temendo uma bronca, fora para o quarto em que estava. Bárbara estava agora na cozinha.
- Minhas mãos.
Agressivamente, as palmas de Vivian estavam porosas, vermelhas. Quase não as sentia. Enrolou-se num cobertor grosso para se aquecer. Bárbara aparecera na porta, olhando de sorrasteiro para Vivian. Porém, saíra pouco depois. Jogou-se numa poltrona de couro preto da sala de estar e fitou a janela que clareava suavemente o ambiente. Relembrou da frase que Vivian dissera ter ouvido. Sorriu. O amor é mesmo uma coisa bela. Mas pensara bem. Seria um amor divino? Algo que estaria invadindo a mente de Vivian mesmo aqui, na Terra? De uma coisa estava certa: o amor não tem lugar nem indivíduo que possa impedí-lo. É algo de alma para alma. De existência para existência.
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