Sem Calor

9 Admirável Solidão


- Então, Vivian. O que acha?

Vivian levantara os olhos do livro e fitara a gelatina que Bárbara acabara de fazer. Desenformada, estava opaca e com qualquer esbarrão poderia desabar. Uma gelatina de caixinha é fácil de se fazer, não tem erro. É só seguir as instruções.

- Parece delicioso — o rosto de Vivian se encontrava desesperançoso, porém esboçou um sorriso para desfazer a fisionomia.

Bárbara levou as mãos até a cintura, satisfeita. Era véspera de Natal e na mesa continha apenas uma gelatina sem brilho, uma tigela com arroz e um peru assado. Estavam esperando por Carla, que viria para a comemoração. Era 7hrs e ainda não havia chegado. Ambas estavam bem agasalhadas, devido a nevada de 24 de Dezembro.

- É como nos filmes — Vivian falara ao olhar para a janela.

- O que?

- A neve.

Bárbara levou seu olhar para a mesma janela.O gelo se acumulava cada vez mais rápido. Vivian fora até um armário na cozinha, apanhando um pote de comprimidos. Ainda tinha febre. Tomou 2 e recolocou-os no lugar. Caminhou em direção a sala de estar, retornando a leitura silenciosa. Logo após tocar no livro a campaínha da casa soara como um alarme. Rapidamente, Bárbara tirara o avental correndo em direção a porta, abrindo-a. Confirmando ser Carla, deu-lhe um abraço apertado e espaço para poder adentrar a casa. Vivian sorrira ao se deparar com sua tia, que não via a um bom tempo.

- Tia Carla! — Apressou-se em dar-lhe um beijo no rosto e um abraço. Pela imensa quantidade de roupas que usava, tornava-o ainda mais aconchegante.

- Querida Vivian. A quanto tempo não a vejo. Sinto saudades.

- Igualmente, tia.

Por seu rosto avermelhado, estava claro que Vivian tinha febre.

- Está com febre?

- É...

Corava. Vivian não era criança, é uma adulta bem formada aliás. Tanto sua tia quanto Bárbara preocupou-se como se a mesma fosse uma criança pequena. A expressão de piedade no rosto de Carla a incomodava. Aparecendo na sala de repente, Bárbara estava equipada com bolsa e luvas, destrancando a porta de entrada.

- Iremos até o supermercado para comprar algumas guloseimas.

- Então vamos — falava Vivian, aproximando-se da porta aberta.

- Você não — Bárbara concluíra, sorrindo.

- É melhor você ficar, senão sua febre piora meu bem.

Meio incrédula, Vivian as fitava. Está bem. Retornou novamente a leitura enquanto sua tia e prima deixavam a casa, correndo até o carro de Carla. Só ficara Vivian, uma conífera e a lareira acesa. O fogo se desfigurava, tomando diversas formas. Algumas faíscas ousavam saltar das labaredas até o chão, querendo se aproximar. Vivian observava a lareira quieta. Ao livro nas mãos não dava mais atenção. Está nevando. O fogo ardia como o gelo queimava. Jogou o livro de lado. Não iria fazr mal visitá-la mais uma vez. Lá fora há neve. Levantou-se.

Abrindo a porta, deparou-se com a rajada de vento gelado, lhe trazendo alguns flocos até a face. A camada de gelo estava mais espessa, que brilhava à luz dos vários postes instalados na rua. A noite era travessa, mais escura que o normal. E o gelo, atraente. Hipnotizada por sua beleza, Vivian caminhara por dois metros, parando ao meio da extensão do gramado coberto por neve. Como uma criança exploradora de mundos, ergueu as mãos e inclinou a cabeça, desejando subir o mais alto pelo céu negro. Será que a neve tem gosto? Vagarosamente alguns flocos de gelo tocara o interior de sua boca. Ao seus redor, os flocos dançavam, as vezes levados com algumas fortes rajadas de vento. Vivian cambaleou, apoiando-se em um poste que por sorte estava próximo. Tem o sabor da tranquilidade. Quase não se apoiando mais nos próprios pés deixou-se cair, a neve servindo-lhe de amortecedor.

O poste acima clareava cada ponto branco que descia rasgando do céu. Alguns tocando-lhe a face gentilmente, com medo que Vivian fosse frágil e um simples toque pudesse petrificá-la. Ergueu o dedo indicador para o alto, contando os pontos brilhantes que aos poucos aproximava de si.

- Um... Dois... Três... São rápidos demais.

Aos poucos sua respiração desacelerava-se e os pontos ousavam cair cada vez em maior quantidade. O silêncio da noite só era quebrado por uma voz rouca, fatigada. Ao teu redor pairava a solidão. Teu corpo frágil, não resistindo mais as agressões da natureza, perdia seu calor interior. Repousando a mão que contavca os flocos no peito, Vivian involuntariamente fechava suas pálpebras, resultando num corpo delicado e que aos poucos era coberto pelo gelo. Como de testemunha, a luz que vinha do poste clareava cada célula, iluminando seus últimos segundos de vida. E a neve a engolia como um leão feroz.