O sol aparecia tímido na janela, iluminando todo o quarto. Os passáros piavam e sem demoras, a mulher de cabelos longos despertava do sono leve com um sorriso no canto da boca. Desde sempre costumara ser sorridente e raramente era vista séria. Sentia ela alguma energia revigorante dentro de si que a cada noite era restaurada.

Vivian, com seus 29 anos, continha a felicidade a seu pudor e sempre pregava palestras de incentivação pelas pessoas por um bucado de assuntos. Também era psicóloga e uma boa filha para sua mãe, Rose, e as vezes era pega escrevendo poesias. Um hobby que mantém desde a sua adolescência.

O despertador tocara alguns minutos depois de amanhecer. A jovem já acordada esfregava os olhos enquanto tentava enchergar a hora do mostrador. De certo tinha a mania de checar o horário mesmo depois de ter ouvido o bip do aparelho. Hoje será um dia longo, pensara consigo mesma, enquanto se levantava e punha-se a ir para a ducha.

Depois de girar o registro do chuveiro, deixou-se guiar pela água quente que batia nas costas. Desviou o olhar para seu pulso. Desde criança, uma mancha de forma triangular com algumas formas abstratas crescera ali. Hoje, ela mais se assemlha aqueles anjos feitos na neve. Essa mancha contém uma sobremancha, mais escura, no mesmo formato, o que Vivian costuma fazer a mesma piada dizendo que contém um casal de anjos no pulso. Fora desse jeito que alguém a havia insultado, que não parecia anjo algum. Besteira. Ela ignorara, pois se ele achava que não parecia nada era uma opnião dele e aliás, que importância tem uma mancha?

Bem longe dali repousava outra pessoa, se puder ser considerada. Mais precisamente, outro anjo. Ele continha todas as informações de Vivian consigo. Prometera a ela, enquanto Samira, que seria o seu protetor divino enquanto ela for humana na Terra. Como um sorteio, 10 anjos eram enviados para o planeta a cada 100 anos e Samira se candidatara, afinal, já continha alguns planos para a humanidade. A única consequência dos escolhidos era a perda de memória total enquanto humanos, mas relembrariam de tudo quanto retornassem ao reino de Deus. Se retornassem.

Dentre os escolhidos, decidiam entre certas missões para realizá-las enquanto sua estadia na Terra, e se falhassem eram simplesmente lançados ao lago de fogo... ou inferno. Samira, sendo uma das escolhidas, havia decidido uma certa missão, algo não tão fácil: alertar a importância do planeta para os humanos. Mesmo sabendo o grau de dificuldade que tal continha, não desistiu. Azrael, contudo, era o seu guarda divino, mas enquanto Samira habitava os Céus, os dois eram casados, amantes como o fogo ardente.

Adentrando a porta do teatro, Vivian estaria para discursar sobre o Efeito Estufa e o Aquecimento Global, a seguir de uma peça que um grupo de crianças apresentariam demonstrando o mesmo tema. Caminhou confiante, cumprimentando os poucos conhecidos e puxando conversa com um outro grupo de crianças, que conheram-na devido a uma palestra dada na escola das mesmas. Os pequeninos costumavam chamá-la por tia Vivi.

- Ah... eu terei que fazer o do arbusto — respondia um dos garotos desanimadamente -. Eles deixam o pior dos papéis para mim.

O menino emburrado apontava em direção ao seu grupo, onde uma chuva de \"Não foi eu\" propagava em coro da boca das crianças fantasiadas.

- E quem lhe disse que um arbusto é ruim? — Vivian cruzava os braços, arqueando as sobrancelhas enquanto se dirigia ao garoto fantasiado com papelões em formato de folha.

- Não é?

- Claro que não. Um arbusto converte gás carbônico em oxigênio, que é importante para podermos respirar. Sem contar que é decoração de várias casas e praças.

- Mas os cachorros fazem xixi nos arbustos.

- Cachorros fazem xixi em quase todo lugar. — Vivian lançou uma piscadela, sorrindo.

O garoto fantasiado retribuia o sorriso. Era visível a sua mudança de humor. Ao ouvir uma voz no auto-falante anunciando a peça do grupo, ele com seus colegas saíram correndo pelo corredor em direção à porta do palco, ansiosos por sua apresentação. Vivian observava os pequeninos enquanto se afastavam, deixando escapar um riso rápido. Ela pôs a se sentar num banco enquanto esperava a sua chamada, que certamente ocorreria em breve. O último discurso antes de relaxar de vez, com uma viagem que estava sendo esperada a tempos.