Selvagem

1 You're Driving me Wild - Capítulo Único


Notas iniciais
Dedico esse capítulo ao querido Marcelo F. Sem você eu não teria história nenhuma pra contar. Sou tremendamente grato, por tudo. Obrigado. E tenham uma boa leitura!

Nunca soube amar poderia doer tão bem
Isso me deixa selvagem
Porque quando você me olha assim
Eu nunca desejei ser tão ruim
Isso me deixa selvagem

Wild – Troye Sivan

...

— Vamos Caíque! Nós vamos nos atrasar e você sabe muito bem que eu odeio atrasos, ainda mais pra festas! – reclamei enquanto puxava o pulso dele e forçava-o a andar mais rápido.

— Edgar pare com isso, calma cara. – exclamou ele puxando seu braço do meu aperto. Suas mãos pousaram em meu ombro, tentando me segurar. – Eu sei que você tem essas crises de ansiedade, mas, de verdade, você precisa se acalmar Ed. É só uma festa do Instituto de Ciências Humanas. Não é como se a presidente estivesse ali, ou o amor da sua vida.

Passara a última semana inteira fantasiando como seria esta noite. “É uma festa do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, normalmente eles são os mais festeiros, e você sabe né? Esse povo de humanas... Você vai gostar, de verdade”, ele disse para mim, e desde então fiquei fissurado, apaixonado e sedento por descobrir o que era uma festa de universidade. Não era tão costumeiro os meus momentos de sair e se divertir, portanto toda oportunidade que tinha para ir a algum lugar diferente era quase como um alívio gigantesco para mim.

— Eu sei, é só que eu não consigo me conter. Você sabe bem que eu passei o ano todo só estudando e trabalhando no meu trabalho de conclusão do técnico. Eu preciso de uma festa. – eu não conseguia me conter. Maldita crise de ansiedade.

— Tudo bem, eu te conheço. Fica tranquilo. Já estamos chegando, vamos passar na república de um amigo meu, para deixar as mochilas, e já iremos. Pode ser?

Não respondi, mas ele sabia que eu concordava. Queria ser o menos desagradável nesse período pré-festa. Desde criança fora diagnosticado com um índice alto de ansiedade e um déficit moderado de atenção, o que fazia de mim uma pessoa péssima para se concentrar nas coisas e que não conseguia conter-se perante uma nova experiência. Tudo para mim tinha que ser na surpresa, no pulo, porque se eu soubesse antes era capaz que não conseguiria dormir durante a noite até que acontecesse.

Após termos passado pela república, que era muito bagunçada por sinal, e termos deixado as nossas bolsas por ali, fomos em direção à universidade. Eu mal conseguia me conter, era estranho. Uma sensação de estar entrando no desconhecido me abateu e eu gostei disso. Ali estavam pessoas que eu não conhecia, fazendo coisas que eu desconhecia, e o melhor de tudo: naquele lugar eu poderia ser quem eu quisesse. Não o Edgar tímido; nem o Edgar apaixonado e romântico, que vivia fantasiando o amor perfeito, mas que se vestia numa capa de desapego que escondia esse lado do mundo; e muito menos o Edgar que tinha vergonha de quem realmente era. Aqui eu poderia ser aquele cara que sempre sonhei em ser. Poderia ser o verdadeiro Edgar, o garoto além-da-casca que todo mundo estava habituado a ver.

Enquanto caminhávamos em direção ao Instituto eu quase conseguia sentir o meu coração batendo em meu peito. Era estranho, normalmente eu não sentia isso, devia ser a ansiedade.

— É ali. Vamos. Chegamos à Fantasy. – a voz do meu amigo, Caíque, projetou-se ao meu lado, tirando-me da minha distração momentânea.

— Espera, é uma festa a fantasia? – virei-me assustado, procurei elevar a minha voz apenas um pouquinho, como forma de indignação – Sua puta, como você me traz para uma festa à fantasia e não me avisa disto? Eu estou vestido...

— Está vestido de viado, além de estar gostosinho pra caramba. Essa bermuda roxa e essa camisa ficaram tão elegantes em você que, sinceramente, se você não sair do armário dessa vez, não sai nunca mais. – era impressionante a forma como ele sempre me fazia rir, mesmo quando estava puto da vida com ele. Revirei os olhos.

— Você poderia ter avisado antes pelo menos cara.

— Se você quiser aparecer lá de cueca, pode aparecer. O pessoal não vai se importar, e qualquer coisa você diz que está fantasiado de si mesmo ao acordar. – eu ficava impressionado com a forma que ele conseguia dizer essas coisas e não dar risada. Devia ser anos de prática. Tudo soava tão absurdo que foi impossível não rir.

— Eu não mereço você. – admiti – Vamos, se você disse que essa “fantasia de viado” está ótima, eu acreditarei. Tem como irmos logo antes que eu me arrependa?

— Ah, uma coisa que eu esqueci de dizer. – ele virou-se repentinamente, causando uma trombada violenta. Xinguei-o.

— O que mais você tem pra dizer, criatura?

— Estamos no Instituto de Humanas, e aqui é um submundo, um lugar com costumes que você não está acostumado. Apenas sorria e acene para qualquer coisa estranha que ver. Nada de parecer assustado. Entendeu? – perguntou.

— Entendi. – mas realmente duvidava que pudesse encontrar coisas tão loucas assim em uma festa, mesmo que fosse de faculdade.

Eu simplesmente odiava quando o Caíque tinha razão.

Logo quando chegamos, percebi que tudo se desenrolaria na frente do Instituto e não dentro. O local era espaçoso, porém parecia minúsculo para a grande quantidade de pessoas que tinham por ali. Era impressionante como um espaço daquele conseguia comportar tantas pessoas. Assim que entrei na pequena multidão de pessoas, encontrei uma barraca improvisada de Disco Voador. Uma garrafa de Velho Barreiro estava por ali, então logo deduzi que era algo alcóolico. Perfeito, precisava de um estímulo para a loucura que poderia vir até mim. Após experimentar a bebida e chupar um limão com canela e açúcar, já conseguia sentir minhas pernas mais soltas e minha cabeça leve.

Olhava para os lados, procurando insistentemente pelo meu amigo, que havia se perdido de mim em algum momento no mar de gente que ali reunido estavam, porém, como já imaginava eu não o achei. Estava sozinho ali. Uma parte de mim pareceu assustada, com medo do que poderia acontecer, porém outra parte, e a que me controlava atualmente, parecia sorrir com essa oportunidade. A festa estava aqui, eu estava aqui e sozinho ainda por cima. Só não aproveitaria se não quisesse.

Caminhei até onde estava uma aglomeração maior de pessoas. Um som de Madonna estava tocando por ali, e logo previ que era uma pista de dança improvisada. No caminho ainda aproveitei e peguei um copo de vinho seco, que fiz questão de beber com gosto. Precisava perder o controle, e aquilo me ajudaria muito com isto. Quando cheguei ao local, o aperto, a movimentação dos corpos suados, a bebida correndo pelo meu corpo e a necessidade de libertação pessoal parecia ter um efeito em mim semelhante a uma adrenalina estranha. Eu conseguia sentir a energia fluir por mim; o desejo, o calor... Fechei os meus olhos e comecei a me soltar ao som de Madonna, que logo foi trocada por uma música trance que parecia elevar o clima de uma maneira mais intensa ainda.

Em um determinado momento, que eu não sabia bem quanto tempo depois, eu abri meus olhos e captei o olhar de um cara bem perto de mim. Ele tinha uma barba cerrada e olhos altivos que davam a ele um tom malicioso e charmoso em seu rosto. Ele soltou um sorriso descompromissado para mim, que retribui com a mesma facilidade. Sentia meu corpo trabalhando no piloto automático. Minha mente começou imediatamente a buzinar, dizendo que aquilo era errado, que era antinatural e que eu não deveria fazer isto, porém era inegável que eu não estava mais ligando pra isso. Em pouco tempo a distância entre nós pareceu ter sido diminuída a centímetros, tão perto que eu conseguia sentir o seu hálito de cerveja e bala de menta. Sua boca rosada foi capturada por seus dentes, de uma forma sensual, quase como um convite para experimentá-la. Não conseguiria resistir a um chamado desses nem se eu quisesse.

Nunca fora uma pessoa preconceituosa com ninguém e procurava sempre ser o ajudador de todo mundo, porém, se tinha alguém que eu cobrava muito, pra ser bem sincero, era de mim mesmo. Sempre foi assim. Nunca fazia nada bom o bastante, nunca gostava de mim o bastante... Quando me descobri bissexual a sensação foi dez vezes pior. Recebia constantemente pensamentos que pareciam me deixar pior do que já me sentia na maior parte do tempo. Não é fácil combater um inimigo que, na realidade, é você mesmo. Era árduo e difícil brigar contra mim. E beijar aquele cara, mesmo sendo algo delicioso e alucinante, não surtia efeito o suficiente para calar as vozes que ecoavam pela minha mente. Seus dentes prendiam meus lábios e vez ou outra ele roçava sua barba em meu pescoço, fazendo com que uma rajada de arrepios viajasse pelo meu corpo. Era uma sensação legal, mas o incômodo em mim parecia visível. Não durou muito. Ele ainda piscou um olho de forma maliciosa para mim e sumiu, misturando-se com a multidão.

Ótimo, gasto uma grana com bebida e não consigo nem ter minutos de privacidade mental para beijar alguém. Que mente ótima, Edgar!

Precisava de alguma distração. Algo que calasse as vozes da minha cabeça, algo que me fizesse parar de sentir culpa. Caíque, eu preciso achá-lo. Meus olhos míopes focaram na multidão, a procura de um garoto moreno, careca e que estivesse dançando como uma diva do pop com reumatismo. Um longo 360º por todo o lugar e eu finalmente o achei.

— Porra cara, como você some assim? – perguntei.

— Eu vi muito bem que você não estava tão preocupado assim com o meu sumiço, seu safadão. – brincou, me cutucando com os dedos enquanto falava.

— Ike, não faz isso. Você sabe como eu me sinto. – minha fisionomia devia ter mudado, porque no mesmo momento ele tirou seu sorriso do rosto e me abraçou, mesmo sendo levemente empurrado pela quantidade de corpos que ali estavam.

— Vai ficar tudo bem amigo. Essas vozes não conseguirão existir quando você achar a pessoa certa. – teve que dizer praticamente direto em meu ouvido, pois o som estava alto e impossibilitava a conversa.

— Você sabe que eu não preciso de romantismo. – confessei.

— Mas é o que a vida é amigo. Ela gira em torno do amor. Quando você não está amando, você está procurando um amor. Mesmo que isso seja inconsciente. – exclamou, remexendo seu corpo agora no ritmo da música.

— Mas isso é uma visão tão limitada da vida. A vida não é apenas amor. Amor é algo tão demorado e tão... sei lá. – não conseguia descrever, nunca tinha amado na vida. Não gostava de conversar sobre isto por simplesmente detestar assuntos que não tinha propriedade para falar.

— Edgar, olhe pra mim. – ele remexia – Eu não estou amando ninguém especificamente, mas eu estou me amando. O amor é bem mais do que os romances que você lê. Ás vezes ele está do seu lado, e só você não percebeu. Você tem que se aceitar. Eu sei que você tem problemas quanto a isto, e sabemos bem que esses problemas só poderão ser solucionados por você mesmo. Mas cara, de verdade, permita-se ser achado pelo amor, seja ele quem for. A vida fica mais tranquila quando não temos nenhum peso para segurar e nenhuma limitação para manter.

Seus olhos focaram em algo perto de mim, e logo notei que era um garoto careca e com uma cicatriz na sobrancelha. Eles encaravam-se e sorriam um para o outro.

— Com licença, vou à caça do amor da minha vida. Não se esqueça que já é tarde, e pegaremos o primeiro ônibus. Não se atrase. – comentou enquanto passava por mim e ia atracar-se com o cara perto de mim.

Toda aquela movimentação começou a me dar angústia. Eu precisava de ar fresco, um local que poderia esticar meus braços e pernas com tranquilidade e de preferência que não levasse apertões na bunda ou em outros lugares também. Caminhei para o espaço da entrada do local, que, por algum milagre, estava calmo e praticamente vazio. Logo entendi o porquê de tanto aperto: a festa inteira estava reunida apenas naquele cubículo.

A lua estava tão brilhante no céu esta noite. Espreguicei-me com força, esticando meus membros e deixando com que a sensação de relaxamento tomasse posse do meu corpo. Mesmo com vozes na mente apitando de cinco em cinco minutos, meu amigo me largando por qualquer macho e me deixando sozinho e estar num lugar desconhecido sem conhecer ninguém, eu não poderia reclamar nunca da festa. O evento estava ótimo, animado e super pacífico. Tudo bem que vi alguns caras dançando pelados na multidão, mas isso era detalhe.

Notei que estava sendo encarado. No começo foi apenas uma sensação de estar sendo vigiado, porém olhando em volta notei que um homem me encarava fortemente. “Permita-se ser achado”, a voz do Caíque veio como uma buzina em minha mente.

Permita-se, Edgar.

Virei-me numa posição que era mais fácil de manter o contato visual. Ele parecia ser mais baixo do que eu, barbudo e com um porte físico nada atlético, mas de alguma forma soava perfeito, muito atraente. Ele vestia uma camiseta de basquete preta e uma cueca, provavelmente alegaria estar vestido de banhista. Seus olhos eram profundos e seu corpo se movimentava lentamente no compasso do final de uma música que a banda tocava no salão.

Ele me encarava com seus olhos escuros, e quando eu o olhava, ele desviava o olhar, não sem antes soltar um sorriso nervoso e radiante. Ele era tímido, e eu conseguia notar isto daqui, principalmente pela forma como seus braços estavam juntos e ele parecia querer se encolher no seu próprio lugar. Aquilo era tão interessante e sexy, que apenas depois de um tempo notei que não conseguia tirar os olhos dele em momento algum. Enquanto olhava a forma como a camiseta regata dele se estendia pelo seu torso, seus olhos voltavam a acalentar os meus, clamando por atenção, para após alguns segundos quebrar o contato visual e sorrir timidamente de novo.

Não percebi que caminhava em sua direção até que estava a alguns passos dele. Ele não era nenhuma beldade do verão, e sua beleza não era estupenda, porém de alguma forma ele pareceu perfeito, tudo o que eu costumava prestar atenção em um homem ele tinha. Ver o curvar dos seus lábios de forma tímida assim tão de perto era quase como um pedido de “salve-me”. Seus olhos focaram nos meus, e quando pensei que logo se desviariam de mim novamente, eles me contrariaram e mantiveram-se ali, fixos em mim. Minha mão tocou a parte de trás de sua cabeça e puxou seus lábios para perto de mim. Fiquei impressionado pela intensidade que aquele leve tocar de bocas teve.

Um beijo normalmente era, em sua maioria, uma troca de sensações e descarrego de impulsos nervosos, porém eu nunca soubera que era possível comunicar-se da maneira com que fizemos quando nos beijamos. Estava acostumado a ler romances, e era comum ler passagens que descreviam que, no ato do beijo, os indivíduos pareciam se transportar para um lugar mágico e especial, porém nunca imaginaria que isso era real e que experimentaria isso alguma vez. É como se não estivéssemos mais na festa, eu estava em algum lugar além e ele estava ali comigo. Só havia nós dois. Nossas mãos acariciavam um o corpo do outro, fazendo com que uma necessidade de mais contato crescesse tanto em mim quanto nele. Minha mente parecia ter se silenciado da mesma forma que todo o mundo externo. Eu queria sorrir, mas não conseguia fazer nada além de continuar ali, naquela quase fusão de almas que estávamos tendo.

Quando nos separamos pela primeira vez, eu ainda mantive meus olhos fechados por um segundo a mais. Estava aproveitando cada segundo daquele momento, torcendo pra que não acabasse. Abri os olhos e encontrei aquele sorriso deslumbrantemente tímido novamente.

— Isso foi bem... – queria ser bom com as palavras em momentos assim.

— Foi bem Wow. – sua voz era grave na medida certa – Aliás, prazer, meu nome é Mornigoni.

— Mornigoni? Esse é o seu nome? – perguntei ainda um pouco baqueado do beijo.

— Meu sobrenome é este, pra falar a verdade. Pode me chamar de Paolo se quiser. – lá estava aquele sorriso de novo.

— O meu é Edgar. Pode me chamar de Ed, se quiser.

O que deveríamos dizer agora?

Meus olhos apenas ficaram focados nos dele. Pareciam esconder tantos segredos, e era quase como um mergulho no desconhecido. Aquilo era perigo, e eu sabia disso. Ele era a fórmula perfeita para uma paixão arrebatadora, e isso era tudo o que eu queria evitar. Ou pelo menos tudo o que eu sempre quis evitar.

Sua boca estava na minha antes que eu conseguisse formular algum pensamento com nexo. Seus dedos apertavam as minhas costas, e com habilidade começaram a abrir os botões da minha camisa. Minha mão vagou pelo espaço de sua regata de basquete e concentrou-se em apertar e unha as costas dele. Tudo era tão intenso e carnal, mas de alguma forma parecia tão delicado e amoroso... Não conseguia lidar com tudo aquilo. Eu apenas queria mais e mais. A sensação de ter seus dedos vagando pelo meu peito enviavam arrepios por todo o local. A necessidade parecia crescer entre nós. Em um dado momento, nossas mãos se encontraram em suas carícias e o ato de entrelaçar nossos dedos pareceu tão certo que nem percebemos direito o que fizemos. Ou percebemos, não sei direito.

— Eu preciso ir embora, está tarde. – ele disse entre um beijo e outro.

— Você quer mesmo ir embora? – perguntei com a boca em sua orelha, dando-lhe leves mordidas. Era jogo baixo? Era, mas ninguém disse que eu jogava limpo. Eu simplesmente não podia tê-lo indo embora assim, tão do nada.

— Minha república é tão perto daqui... – sua voz saia entre gemidos e beijos – Por que você não vem junto?

Eu não poderia aceitar. Eu sabia disso. Mas nunca senti uma vontade tão forte de aceitar algo como eu tive dessa vez. Eu queria isso. Eu queria aproveitar ao máximo esse silêncio mental que tinha comigo neste momento.

— Edgar, nós temos que ir. – uma voz diferente apareceu perto de mim.

— Mas está cedo.

— Já são cinco horas da manhã, amigo. – sua voz parecia cansada, mesmo que sua aparência fosse animada.

— Já? – a chateação ficou estampada em minha voz.

— Já.

— Me dá cinco minutinhos? – pedi e olhei para o homem a minha frente – Preciso me despedir.

Ele deu um sorriso, mas não disse nada, afastando-se imediatamente.

— Eu acho que está na hora de irmos. – Paolo comentou.

E nos beijamos.

— Preciso ir. – ele disse.

E nos beijamos novamente.

— Anota meu facebook. – ele disse, e eu tirei com dificuldade meu celular do bolso, anotando o contato dele, triste por ter que quebrar o enlace que nossas mãos já mantinham por algum tempo.

— Pronto. Assim que chegar terá um convite pra você.

— Mal posso esperar. – seu sorriso era tão aberto, e porra, o que eu estava fazendo? Não sabia o que era, mas sabia que era bom.

— Nos vemos. – dei-lhe mais um beijo e fui em direção à rua, sem olhar para trás nenhuma vez. Eu sabia que se virasse e visse aqueles olhos eu voltaria.

A volta pra casa foi quieta. Ike dormiu o caminho todo e me deu tempo para pensar. Eu me sentia diferente, constantemente passava a mão pela boca e sorria. Isso nos livros não significava coisa boa, quer dizer, entre partes sim, mas em outras não, mas não liguei para isso. Apenas deixei com que os pensamentos viessem. Apenas me permiti sentir.

Eu não sabia se aquele facebook era mesmo o dele. Eu não sabia se ele tinha mesmo gostado de tudo. Eu não sabia se tinha forçado demais. Eu não sabia se continuaríamos nos falando, ou se aquilo era mais um dos casos de “Uma noite e nada mais”. Eu não sabia de nada, e era frustrante não saber, não conseguir se preparar antes para o que viria. Tudo era apenas o silêncio vazio, e isso me deixava louco. Ele me deixava louco. Ainda conseguia sentir a barba dele roçando pelo meu rosto e pescoço, e tinha desenhado na memória aquele sorriso que ora era tímido, ora soava travesso.

Cheguei em casa, tomei um banho e mergulhei num sono profundo. Acordei e já era noite, minha mãe não parecia nada contente com aquilo. Aprontei-me para o jantar, mas não conseguia controlar meus pensamentos. A voz dele parecia uma memória distante, mas aquele sorriso ou a forma como minhas mãos acariciavam suas costas e passeavam pelo seu corpo... era tudo tão real, quase como se eu estivesse ali, fazendo tudo aquilo de novo. Essa fissura louca por alguém definitivamente não deveria ser saudável, mas eu simplesmente não conseguia me controlar. Era irresistível. Fui direto para o celular ver minhas atualizações, na esperança que ele tivesse me adicionado, mas não havia nada ali. Frustração.

Minha mente foi bombardeada por frases pessimistas. Quase conseguia ouvir as frases, de tão altas que elas ecoavam em minha cabeça.

“Uma noite e nada mais”.

“O que acontece na festa, fica na festa”.

“Permitiu-se tanto. Iludiu-se tanto e fodeu-se muito mais.”

Já estava pensando em jogar meu celular longe, quando uma atualização desperta minha atenção. “Paolo Mornigoni acabou de te adicionar como amigo”. A vontade de pular, gritar ou qualquer coisa era impressionante. Nesse ponto da curta caminhada eu já sabia que estava na merda. Quando se chega nesse ponto, é claro que já estava bem iludido.

O balão de mensagens surge e uma mensagem dele aparece. Preparei-me para começar a minha ilusão idiota e sem fundamentos e fui ler a mensagem:

“Oi, fico contente que tenha realmente me adicionado. Seria uma pena ter que te procurar insistentemente por todo o Facebook. Mas eu faria se fosse preciso”.

Okay, acho que talvez a minha ilusão não seja tão sem fundamentos assim.

Mas isso só o tempo vai poder dizer.

Notas finais
Fiquem à vontade para comentar se quiserem. Desde já agradeço por lerem. Beijo. :*
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!