Sempre achei que a primeira parte mais estressante do meu dia começava quando Tikki e eu não concordávamos sobre um vestido, mas quando entrei na reta final da Seleção vi que estava profundamente errada e que aturar Lila, e somente ela, era muito mais difícil.

–Fez um ótimo trabalho a aceitar esse vestido Marinette. – disse Tikki enquanto íamos para a porta de entrada do castelo, mas não respondi, apenas desviei o olhar – A rainha começou a querer escolher o modelo dos vestido Mari, ainda não entendi o que você tem contra com vestidos que mostram as costas.

–Minhas cicatrizes... de quando fui chicoteada, Tikki. Elas são horríveis.

–Francamente, acho que as pessoas vão passar mais tempo admirando sua beleza do que suas costas.

Eu não podia esperar que ela entendesse, ninguém entenderia a dor que as marcas do meu passado me causavam, mas eu não podia fazer nada, pois elas nunca sairiam dali, eram parte de mim e a única coisa que eu podia fazer era tentar esconde-las. Foi isso que eu fiz, quando chegamos perto da família real, Natalie e Lila tentei encostar na parede ou ficar de frente para todos, não que tenha dado certo totalmente, mas tive de lidar com um comentário de Lila.

–Lindas marquinhas, em Seis. – ela deu um risinho.

Eu só havia saído do castelo uma vez em toda Seleção, mas foi realmente um alívio saber que a próxima tarefa que Natalie iria nos propor seria realizada no Campo de Marte, que fica em frente a Torre Eiffel. Apesar do dia em que estávamos indo, o Campo parecia vazio a não ser por algumas poucas famílias e grupos de crianças que brincavam, ou seja, não haveria jornalistas ou tantos curiosos para atrapalhar.

–Senhoritas, — começou Natalie – falta pouco para a escolha final. Já tiveram a chance de informarem a todo país uma norma, — senti que todos estavam me olhando – agora terão de fazer algo simples que exige paciência... Conversar com o povo de Paris.

A rainha Alicia, o rei Gabriel, Adrien e a secretaria real se sentaram em bancos no qual os criados tinham levado, Lila se redirecionou a algumas famílias que passeavam e tinham um aspecto bom, pareciam alimentadas e muito bem vestidas, já eu fui ao grupo de crianças que brincavam na grama. Elas não pareciam que tinham nascido em berço de ouro, mas era isso que eu gostava nas crianças... A inocência sobre tudo e todos, cheguei perto delas e antes que pudesse me apresentar todas elas falaram em uníssono:

–Princesa Marinette! – algumas delas se animaram e outras cochichavam completamente fora de si.

–Princesa?! Não, não, não... Eu ainda não sou, quer dizer, estou quase e... – sentei no chão – Queria saber o que eu poderia melhorar se eu me tornar rainha. – um menininho que aparentava seus oito anos levantou a mão. – Sim?

–Eu sou Henri, alguns dias atrás uma faculdade não aceitou meu irmão por que somos Cinco. – ouve uns murmúrios.

–Eu também princesa, eu também. – disse uma menina de nove anos – Tive de roubar uma torta antes de ontem e... Eu me sinto tão mal. – ela começou a chorar desesperada.

–Não, não chore. – me levantei e fui até ela. Era uma garota loira de trancinha e tampava seu rosto com a mão enquanto as outras crianças a consolavam – Você não teve culpa e acredito que não fez por mal, estava com fome, certo? Pois passará mais se eu me tornar rainha...

–Princesa, — era Henri de novo – o que é isso em suas costas?

Arregalei os olhos, tinha esquecido de esconde-las, mas não precisava mais, elas eram como eu, vítimas de um número.

–Eu roubei uma maça há muito tempo. Viu garotinha, não precisa se sentir mal, tudo vai melhorar!

Eu tinha passado exatos vinte minutos com as crianças que apesar de tudo eram como eu, eu queria ter ficado mais, pois sabia que tinham muito mais coisas, tinha de ter, mas Natalie teve de nos chamar e junto de Lila nos reunimos em frente a família real.

–Então, senhorita Lila... O que acha sobre a atual situação?

–Problemas simples! Poucos problemas, muitas soluções.

–E você?

–Muitos problemas, poucas soluções...

Lila me olhou sério e seus olhos verdes me fitaram.

–A pobreza não é o problema principal Marinette! – ela disse como se fosse melhor que eu.

–Claro que é, ela é a causadora da fome e da violência. – disse perdendo a compostura – Francamente Lila, só por que você não passou não quer dizer que não exista.

–E só por que você passou não quer dizer que é o problema maior, mas não te tiro os créditos... Olhe suas costas. – ela disse num tom superior.

Recuei alguns passos de olhar baixo, nunca tinha ouvido palavras tão más, foi aí que senti meu sangue correr cada vez mais rápido pelas minhas veias, dei um passo a fente e a encarei como jamais tinha encarado alguém.

–Não há nada de errado com as minhas costas! Minhas cicatrizes são parte de mim, da minha história e mostram o quanto batalhei para chegar onde estou. – disse em tom de desafio e ainda mais superior.

–Sua... sua maldita...

–Chega meninas, — disse a rainha que era a única que estava prestando atenção na gente, já que Adrien e o rei liam o jornal – achei que teriam uma conversa como duas mulheres crescidas, mas vejo que estava errada. – ela olhou para o céu como se visse as horas – Vocês almoçaram em seus quartos para pensarem no que fizeram. Vamos.

Ninguém ousou dizer uma palavra, nem o príncipe ou o rei que nem sábio o por que da rainha estar tão zangada. Tikki e Trixx, a kwami de Lila, também pareciam não querer conversar, não sei por que, mas elas nunca pareceram se gostar.

Apesar da rainha ter nos feito ficar no quarto em forma de castigo, eu até gostei. A comida parecia muito mais deliciosa quando eu comia acompanhada apenas de Tikki e tive bastante tempo de me inspirar num novo vestido e no mesmo dia comecei a esboça-lo; era um vestido branco e longo, mas não como os de princesa, ele não era cheio, a partir da cintura ele começava a ter uma coloração rosa junto de rendas brancas que iam até os pulsos. Quem visse confundiria ele com um vestido de casamento... Confundiriam ou ele era?

Peguei o relógio e me surpreendi ao ver que já era noite, levantei da cama tentando não fazer barulho, já que Tikki dormia em sua caixinha e abri a porta o bastante para eu e meu vestido passar. Olhei pelos corredores para ver se havia algum sinal de Adrien, nenhum. Ainda olhando para o corredor dei uns passos para trás e antes que pudesse virar senti uma mão me puxando, virei o rosto esperando ver os olhos verdes de Adrien me convidando para ir na estufa, mas lá estava Nathaniel em com seu sorriso malicioso.

–Achei que tivesse te falado que não gosto quando mostra suas cicatrizes. – ele disse acariciando minhas costas.

Fiz um movimento bruto para tirar sua mão de mim.

–Gosto deles, idiota. O que veio fazer aqui, Ilustrador do Mal? – me referi ao bilhete ridículo que ele tinha me mandado – Você não tem mais vez.

–Tenho sim, — ele segurou meus ombros – você prometeu que iria voltar, prometeu que seria minha.

–Prometi que gritaria se tocasse em mim de novo.

Ele não parecia ligar para o jeito grosseiro no qual eu falava com ele, pisei em seu pé e tentei correr para o meu quarto, mas ele pegou minha mão e me puxou preste a dar um beijo, mas alguém, ou melhor algo o impediu. Era um bastão prateado com a marca de uma pata de gato, Chat Noir.

–Solta. – ele disse seco ao Nathaniel que não mais estava perto de mim e sim preso contra a parede.

–Boa noite príncipe. – disse Nathaniel quase sem fala – Talvez não seja uma boa hora, só estava conversando com minha ex-namorada, certo Mari.

Adrien não me olhou apenas jogou Nathaniel no chão e pressionava cada vez mais o peito do ruivo.

–Adrien! Não faça isso, não estou protegendo ele, estou te protegendo. Você não machucaria uma formiga, por favor.

Ele o soltou e, com dificuldade, olhou para mim. Seus olhos verdes fitaram meu rosto todo.

–Desde quando Marinette, desde quando? – ele disse com mais dificuldade ainda – Parece que não estavam bem, mas desde quando lida com as visitas dele? Por que o deixou cuidar da porta de seu quarto, por que deixou ele te levar em sua casa? Por que fez isso comigo? – ele parecia querer chorar e isso mostrava bem em sua voz.

–Há muito tempo desprezo a companhia dele, mas se eu falasse para você... Com certeza ele seria demitido e a família dele precisa de dinheiro! – disse desesperada e com lágrimas nos olhos.

Chat Noir voltou a ser Adrien. Ele começou a ir embora, quando parou e disse:

–Não casarei com você...

–Casará com Lila.

–Não sei.

Plagg voou até mim.

–Você não é Ladybug, ela não faria isso. – ele foi embora.

Fiquei um tempo sem me mexer, tentava entender o que tinha acontecido e quando fiz isso, já era tarde. Eu tinha perdido Adrien para sempre e era culpa minha, não contei a ele sobre o ruivo, mas agora ele sabe e... do outro lado do cômodo, mergulhado na própria desgraça Nathaniel ria. Joguei meus saltos nele e entrei para meu quarto.

Não sei se naquela noite dormi, mas sei que chorei.