Seleção Artificial.
4 Capítulo 4.
Notas iniciais
– Que diabos está acontecendo? – Rich gritou enquanto tentava não ser atropelado pelas outras pessoas que corriam desesperadas.
– Eu não sei, mas se esconda. – Respondi assustado.
– Vocês são novatos, não é? – Uma garota se aproximou correndo com um enorme rifle preso nas costas.
– Sim. – respondi um pouco desconfortável com a arma que parecia ser um pouco grande de mais para alguém do tamanho da garota.
– Me sigam. — Ela puxou Alisson pelo braço.
Em qualquer outro momento da minha vida eu pensaria duas vezes antes de seguir alguém que estivesse armado, mas situações desesperadas pedem medidas desesperadas. Mesmo para Alisson que aparentemente já havia treinado para isso a vida inteira era complicado seguir a garota. Provavelmente se eu parasse para respirar eu perderia ela de visão em um piscar de olhos.
– Me ajudem aqui. – Ela gritou quando alcançou a tampa de um bueiro.
– Vai nos levar para o esgoto? – Alisson perguntou espantada.
– Temos que passar por aqui para onde vamos.
– Tudo bem. – Respondi fazendo o máximo de esforço possível para tirar a tampa do bueiro.
A placa de metal era mais pesada do que eu imaginava. Assim que a tampa foi erguida Rich saltou para dentro seguido pela garota do rifle e Alisson. Eu fui o ultimo, isso quase me custou um ou dois dedos, pois era impossível aguentar o peso da tampa sozinho e ainda se equilibrar em uma escorregadia e fina escada.
– Vocês estão bem? – A garota perguntou.
– Acho que eu machuquei o pulso, mas estou bem. – Respondi um pouco emburrado com Rich que não ficou lá comigo.
– Estamos ok. – Alisson disse sentando na escada que usamos para descer. – Quem é você?
– Cosima, a líder dos Peixes. – A garota disse prendendo o cabelo castanho com ajuda de uma presilha em forma de espinha de peixe.
Cosima era mais baixa que Alisson, mal parecia ter dezesseis anos, porém a blusa que um dia fora branca havia sido cortada pouco abaixo dos seios exibindo um belo abdome. Os braços também eram levemente musculosos, mesmo ela parecesse um pouco faminta e desnutrida.
– Ok, eu não posso entregar a nossa localização para qualquer um. – Cosima começou a caminhar. – Nós temos água mais do que limpa, comida em fartura e quase não dependemos da superfície. Os clãs se matariam para achar o nosso santuário, se bem que eles fazem isso por qualquer coisa.
– Cosima? – Rich interrompeu a garota que não pareceu ficar muito feliz por isso. – Me chamo Richard, meu irmão foi um membro do clã, assim como minha mãe. Eu queria fazer o teste.
Cosima ergueu uma das sobrancelhas como se já tivesse ouvido aquela história um milhão de vezes, ou talvez estivesse apenas surpresa.
– Conversaremos sobre isso depois, primeiro vendarei seus olhos.
***
Depois de uma longa caminhada segurando as mãos de Rich e Alisson e várias curvas subidas e descidas aos tropeços além de algumas quedas na água suja chegamos ao Santuário dos Peixes. Quando Cosima disse "Santuário" ela não estava brincando. O Santuário era uma enorme caverna com estalagmites e estalactites maiores que eu, uma piscina natural ficava no centro da caverna, era possível ver vários peixes de várias espécies nadando tranquilamente.
– Uau. – Foi a única coisa que eu consegui dizer.
– Isso nunca foi tocado pelo homem do Antigo e do Novo Mundo. – Cosima comentou admirando a obra de arte que a própria natureza havia criado. – Até que o nosso fundador se perdeu e encontrou isso aqui, criando o primeiro, mais restrito e escondido clã.
– Se ele é tão restrito então por que está nos mostrando? – Perguntei.
– O esgoto de certa forma é um labirinto, você leva semanas ou até meses indo e voltando para decorar o caminho. – Cosima comentou. – Não tem luz, é algo completamente confuso, se tentassem voltar provavelmente morreriam. E a restrição é apenas para descendentes dos membros que participaram do clã nos cinco primeiros anos e nem todos conseguem passar no nosso teste.
– Qual teste? – Alisson perguntou com certo brilho nos olhos.
Cosima sorriu para Alisson.
– Você disse que seu irmão foi um peixe e sua mãe também, não é? – Ela virou para Rich. – Me mostre sua insígnia e você fará o teste hoje.
O loiro vasculhou os bolsos até encontrar um pequeno objeto no formato de um peixe azul.
– Isso fica comigo até você estar dentro. – A morena tirou o objeto da mão dele. – Enquanto isso, deixarei que vocês comam da nossa comida e usem nossa água para beber e se lavar. Vocês sabem nadar?
– Sim. – Os três responderam ao mesmo tempo, por mais que eu não soubesse nadar direito.
– Me sigam. – Cosima se jogou na água.
Fiz o mesmo assim que tive coragem. O choque devido à água mais gelada que eu já nadei na vida fez com que eu ficasse levemente tonto. A caverna era ainda mais incrível por baixo da água. Várias aberturas e formas de vida estavam na parte de baixo, era incrível como aquilo nunca havia sido contaminado pelo esgoto. Cosima nadou até uma das entradas, ela era um tanto quanto apertada, mas não havia ar o suficiente para ficar pensando nessas coisas. Na verdade não havia mais ar. Minha visão começou a escurecer, eu já estava em pleno desespero quando alguém puxou a minha mão e me levou até a superfície.
– Você está bem? – Rich perguntou ofegante.
– Esse era o teste de vida ou morte? – Perguntei ainda mais ofegante que o garoto.
– Na verdade eu subi e tive que voltar para te salvar. – Ele sorriu. – Você é o pior nadador que eu já conheci.
– Obrigado. – Respondi tremendo do frio.
Calmamente nadei até a borda e com a ajuda de Rich consegui sair da água, estendendo a minha mão para ajuda-lo.
– Boa sorte no seu teste. – Cosima disse. – Você é um ótimo nadador, ajudaria muito contra as criaturas aquáticas.
– O que são essas criaturas que as pessoas tanto falam? – Alisson perguntou tremula. – E como vocês não morrem cada vez que vêm para casa?
– Você se acostuma. – Cossima sorriu. – Bem, um dos estopins da Guerra Civil foram as pesquisas genéticas do antigo governo. Algo como juntar duas espécies para criar o ser perfeito. Acabaram fazendo isso em humanos. As criaturas aquáticas são algo como um crocodilo ou jacaré misturado com um ser humano, eles são horríveis.
– E os terrestres? – Perguntei.
– Nunca vi nenhum deles, então não sei dizer.
Nossa adorável conversa sobre seres mutantes assassinos foi interrompida por um garoto que chegou correndo apressado.
– Onde você esteve? – Ele perguntou, seu cabelo loiro e comprido estava molhado, o que significava que ele havia nadado. – Achei que estivesse morta. E quem são esses?
– Esse é Rich e esses são...
– Dorian e Alisson. – Nos apresentei com a voz tremula.
– Eles estavam lá superfície quando o ataque aconteceu e eu não podia simplesmente deixa-los lá. – Cosima deu de ombros. – São recém-chegados e o Rich quer fazer o teste. Por Deus Henry, se acalme.
– Cosima, nós estamos morrendo, pare de agir como se estivesse tudo bem. – O garoto disse, nossa geração é menor desde a história desse clã. – Temos que acabar com a maldita restrição ou em seis anos não haverá mais nenhum Peixe para contar a história.
– Sabe que não podemos fazer isso. – Cossima disse irritada.
– Você sai em um mês, o poder vai ficar comigo e com mais uma garota. – Henry murmurou. – Sabe qual é o problema? Temos duas garotas, uma delas ficou retardada depois de um ataque e a outra é tão burra que eu poderia colocar uma truta no lugar dela.
– Coloque outro garoto...
– Encontre outra pessoa para realizar o teste dele. – Henry apontou para Rich. – Vamos para o conselho, agora.
Henry passou por um buraco na parede nos deixando sozinhos.
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