Selene Adams - A Lenda
4 Capítulo Quatro
A garota ouviu um barulho vindo do beco escuro no fim da rua. Olhou para trás, mas não havia ninguém. Ela continuou andando, com o celular na mão, torcendo pelo pai atender. Apressou os passos e voltou a tentar telefonar para o pai.
Um barulho atrás de si chamou a atenção. Então o pai finalmente atendeu ao telefone.
– Alô. Pai?
Ouviu passos, olhou para trás e havia uma pessoa a seguindo. Uma mulher, armada com uma faca.
– Ah, meu Deus! – ela gritou, começando a correr. – Socorro, pai!
– O que está havendo? Filha, o que está havendo? Responda! – o pai começou a perguntar aos gritos preocupantes do outro lado da linha.
A garota apenas gritava e corria o mais rápido possível, a mulher ainda a seguindo com a faca na mão. Então, ao dobrar a esquina, não reparou que amarrada aos postes de luz de cada lado da calçada estava uma corda de pipa.
– Eu vou morre – a frase ficou solta no ar. A menina tombou no chão, o pescoço quase totalmente decepado. Cuspindo sangue sem parar.
O pai continuava a chamar seu nome no telefone, mas ela estava impedida de falar, o ar não conseguia passar pela sua garganta cortada pelo fio cortante de pipa. Viu a mulher se aproximar e tentou falar.
– É isso... – a mulher olhou para ela morrendo aos poucos no chão. – Roupas chiques não trarão nada à sua vida além de uma aparência falsamente construída – ela pisou na mão da garota e, com a pressão, esta soltou o celular.
A mulher se abaixou e com a luva protegendo a mão, pegou o celular e aproximou do rosto da garota. Largou ao lado da poça de sangue ao seu redor e levantou-se novamente. Nesta hora, iluminada pela luz fraca de um dos postes, a vítima pode ver o rosto do seu assassino. E quando o fez, já era tarde demais, pois tombou a cabeça de lado, e de olhos abertos mesmo, foi constatada sua morte.
~~~
– Desta vez – o diretor da escola gritava em cima do palanque. – Não poderemos suspender as aulas. Pedimos que os pais da aluna Martha Beltoise entendam. É a terceira vítima em quatro meses. Perdemos primeiro o nosso querido aluno Alan Lakowsky, logo em seguida Lucas Roxburgh, e uma semana depois essa nossa exemplar aluna Martha. Se pararmos as aulas a cada vez que um aluno morrer nós ficaremos o resto do ano assim, porque até agora a polícia não conseguiu descobrir nenhuma pista do assassino. Iremos esperar, porque temos total certeza de que os assassinatos não irão parar por aqui. Eu sinto muito pela aluna, dou total apoio da escola aos pais e meus sentidos pêsames. Quanto aos alunos, peço que tomem muito cuidado ao andarem sozinhos na rua e até mesmo em casa, já que este assassino deixou claro que não tem medo do local nem da hora de praticar seus atos criminosos. Observem também o comportamento de colegas de classe e no caso de qualquer suspeita venham avisar na diretoria. Só para deixar claro, não estou acusando ninguém, apenas estoualertando. Obrigado pela atenção, e agora voltem às aulas – ele terminou e desceu do palco.
Os alunos foram saindo do salão de comemorações e indo em direção as salas de aula com quase uma hora de atraso.
Lícia vinha acompanhando Adam até a sala de Matemática, eles vinham conversando no corredor quase chegando à classe.
– Horrível, não acha? – Lícia perguntou. – Ser decapitada por uma corda de pipa. Ouvi dizer que ela é coberta de uns cacos de um material cortante parecido com vidro, só que são bem minúsculos. Você já viu?
– Sim. Quando eu tinha oito anos, costumava empinar pipa com Alan na casa de praia. – Adam respondeu, mas estava com o pensamento focado no livro. Havia sido praticamente a mesma morte que ele tinha lido.
– E você ouviu o que ele disse? Comunicar sobre o comportamento estranho de algum colega de classe... – Lícia comentou se referindo ao aviso do diretor e de Selene.
– Como Luke morreu mesmo? – perguntou, mudando de assunto.
– Com uma chave de grifo cravada na testa – Lícia respondeu, fazendo uma careta de nojo e pena ao mesmo tempo.
– Mas foi do mesmo jeito! — Adam exclamou.
– Do mesmo jeito de quê? – ela perguntou.
Mas Adam quis mudar de assunto. Ele sabia que não importa o que dissesse, poderia sair contra Selene depois. Ele não sabia depois de quê, nem o que poderia sair contra ela, apenas sabia que não deveria dizer a ninguém sobre nada do que sabia. Mesmo que ele não soubesse nada. Qualquer coisa a mais que ele falasse para Lícia ou qualquer um poderia fazer Selene ficar zangada e a última coisa que ele queria era vê-la zangada, menos ainda longe dele.
– Nada. Só uma coisa que eu vi num jornal antigo com uma morte parecida – ele desconversou.
– Nossa. Deve ser horrível – Lícia comentou.
– É. Muito – Adam suspirou.
Eles entraram na sala de Matemática e já estava todo mundo lá. Quase todas as carteiras estavam cheias, com exceção de uma logo no início em que Adam costumava sentar com Lícia ou Clara; uma junto da cadeira de Jude e outra que fazia dupla com Selene.
Ela acenou para ele assim que o viu. Lícia segurou seu braço e o puxou para o canto de sempre. Mas Adam não quis ir com ela e se largou um pouco bruscamente.
– Me larga – ele olhou para Lícia quando ela tentou segurar seu braço de novo.
– Não. Você senta comigo, lembra? – ela insistiu.
Adam apenas balançou a cabeça negativamente e foi sentar ao lado de Selene nos fundos da sala. O professor esperou eles sentarem para retomar a aula. Então voltou a aplicar a matéria.
– Eu sinto muito pela Martha – Selene falou assim que ele se sentou.
– Tudo bem, eu nem era muito chegado a ela, mesmo.
Selene deu de ombros e começou a copiar no caderno o que o professor passava. Adam tentou fazer o mesmo, mas logo se viu cansado de copiar números da qual não entendia absolutamente nada. Então pegou o celular e ligou o MP3 nos fones de ouvido. Já estava na segunda música de Red Hot Chilli Peppers quando sentiu a mão de Selene tocar seu ombro. Ele tirou um dos fones e olhou para ela interrogativamente.
– Acho melhor você baixar isso, daqui dá pra ouvir – ela comentou. – E que eu saiba não se pode usar celular em sala de aula.
– Ninguém reclamou comigo até agora. E se os próprios professores desobedecem às regras, porque não posso fazer o mesmo?
Selene riu e puxou o fone que Adam havia tirado para o seu ouvido.
– Você gosta de My Chemical Romance? – ela perguntou.
Adam apenas fez que sim com a cabeça. Então Selene se aproximou e encostou a sua no ombro dele, para que não precisassem se esticar pelo fone. Adam olhou para o cabelo negro dela e inspirou o cheiro que emanava nele, era adocicado, parecido com o de seu perfume, porém menos forte. Era bom.
Lícia não parava de olhar para trás, não suportava mais ter que ver Adam e aquela garota juntos. Agora ela estava totalmente em cima dele, como se eles fossem o casalzinho mais feliz do mundo. E ele ainda ficava com aquela cara de bobo.
– Porque você não tenta ao menos copiar o que o professor está passando? – Jude perguntou. – Ele até já acabou.
– Não estou disposta – Lícia respondeu e olhou para trás.
Selene estava sorrindo para ela, de um modo cínico, como se quisesse dizer: “Você perdeu o garoto, idiota”. Que vontade enorme Lícia tinha de levantar e ir até lá bater naquela garota.
– Me fala uma coisa – Jude voltou a falar. – Você está gostando de Adam ou coisa parecida? Porque não para de olhar para ele e a Selene.
– Ah, até o nome daquela vaca você já sabe? Estão amiguinhas? – ela perguntou.
– Não, Lícia. A Selene é muitíssimo simpática e veio falar comigo de boa, ela até comentou sobre o Adam. Quis saber quem ele era, se estava saindo com alguém e essas coisas. Logo no primeiro dia de aula. Porque diferente de você ela demonstra seus interesses e corre atrás deles.
– O que você está querendo dizer? – Lícia olhou feio para Jude. – Eu não estou interessada no Adam. Só não gosto daquela garota antipática em cima dele.
Jude bufou:
– Então vai ter que gostar, porque o Adam já está mais do que gamado nela. É a primeira vez que ele fica assim com uma garota, você sabe. Ele nunca foi muito de conversar com a mesma garota por mais de dois dias, e essa já é a quarta vez que nós vemos eles juntos. Além de que a Selene foi até a casa dele ontem.
– QUÊ? – Lícia arregalou os olhos. – Quem te contou isso?
– A própria Selene.
– Deve ser mentira. O Adam nunca leva garota alguma pra casa dele. O máximo que ele faz é ficar de casinho na escola, nem sair com as garotas ele sai.
– Ele já te disse que vai sair com ela amanhã?
Lícia tossiu. O sinal tocou para a segunda aula.
– Q-Quê? Como assim? Não pode ser verdade.
– Mas é, Lícia. Tudo bem se você está gostando do Adam, mas que pelo ao menos tivesse sacado isso antes e tivesse ido atrás dele antes também. Agora é tarde demais porque ele está com a Selene. E logo vai sair o boato de que eles estão namorando. Você vai ver – Jude juntou seus materiais e se levantou da cadeira, saindo da sala junto com os outros alunos.
Adam e Selene foram um dos últimos. Selene se atrapalhou e deixou seus cadernos caírem, então ele a ajudou, levando-os para ela. Adam já havia guardado o celular e passou ao lado de Lícia sem nem ao menos percebê-la. Ele e Selene estavam rindo de alguma coisa, pareciam dar-se muito bem juntos.
Lícia ficou observando-os até entrarem em outra sala juntos, ela também teria essa aula com Adam, e nunca havia visto Selene lá desde que ela havia chegado. Será que ela havia mudado os horários? Mas não podia ser possível, isso devia ser perseguição.
A garota entrou na sala e sentou na sua cadeira de sempre na frente, dessa vez ao lado de Clara. Adam e Selene foram mais uma vez para o fundo, ainda estavam rindo e Selene batia levemente o caderno na cabeça de Adam. Lícia não queria acreditar, ela não poderia perder um amigo como o Adam daquele jeito, nem pra uma garota comum, enquanto mais para aquela novata estranha e nojenta. Ela andou até a cadeira deles dois.
– Adam – chamou.
O garoto olhou para ela, ainda sorrindo.
– Sim?
– A gente estava fazendo dupla no trabalho de Artes, lembra?
– É? – o sorriso de Adam sumiu de seu rosto.
– AH! – Selene fez um bico. – Não dá pra mudar, Ad?
Lícia perdeu o ar. Só ela chamava Adam assim.
– É... Acho que sim – ele sorriu para Selene. – Vou falar com a professora.
Ele disse isso e saiu. Lícia suspirou fundo. Olhou para Selene. Ela estava sorrindo.
– Ele é não é uma graça? – comentou.
– O que você quer com ele? – Lícia fechou a cara.
– Qual o problema, Lície? Você vivia com o irmão do Adam, não era? Está indecisa entre eles dois?
– Você é que está indecisa entre eles e os outros garotos da escola – Lícia falou em tom alto.
Porém Selene foi mais gentil, portanto mais ameaçadora.
– Não, Lície. Eu estava. Mas agora eu quero o Adam, e vou tê-lo.
Adam reapareceu, sem ter tirado o sorriso do rosto.
– Então, ela liberou. Agora você faz com a Clara ou qualquer outra pessoa, já eu fico com a Sel.
Lícia fechou os olhos e contou até dez novamente. Então sorriu falsamente para Adam e Selene.
– Ótimo – ela disse isso e foi embora batendo os pés.
Adam olhou para Selene interrogativamente e ela apenas deu de ombros e riu. Ele acompanhou.
Lícia sentiu uma vontade enorme de quebrar a mesa e mandar Selene comer os pedaços. Clara estava observando a cena e fez uma careta para o casal nos fundos. Depois se afastou para que Lícia sentasse.
– Ai, que garotinha mais antipática – comentou.
– Também acho – Lícia olhou para trás.
Agora os “pombinhos” estavam conversando, e Selene não parava de mexer o cabelo para lá e para cá. Estava praticamente se esfregando em Adam, já que ele havia ligado o celular novamente e estava dividindo o fone com ela. Selene apertou as bochechas dele e começou a rir. Adam só acompanhava. Pareciam dois idiotas. E quando começaram a cantar a letra da música Lícia achou que já bastava e voltou a olhar para frente.
– Eu definitivamente odeio Selene – ela sibilou.
– Estou contigo, amiga – Clara concordou. – Ela tem a maior cara de cínica. Veio toda alegrinha falar pra mim e pra Jude que iria sair com o Adam. Veio perguntar do que ele gostava, se a gente tinha alguma ideia pra dizer a ela o que vestir. Que garota falsa. Aposto como ela queria só me provocar.
– QUÊ? – Lícia quase caiu da cadeira.
– É. Ela é muito falsa...
– Não. Eu estou me referindo... Você disse que ela queria te provocar.
– É. Todo mundo está cansado de saber que eu sou a fim do Adam desde o ano passado.
– Ah, meu Deus! – Lícia murmurou. – O que ela disse mais, Clara?
– Que já tinha o número do Adam. Que tinha ido a casa dele ontem.
– O QUÊ? – Agora Lícia havia gritado.
Toda a classe parou para olha-la. Ela ficou completamente vermelha. Baixou a cabeça, para fazer o cabelo loiro cair e cobrir seu rosto. Clara reclamou com os outros alunos e eles voltaram a fazer seus trabalhos. Então Lícia agradeceu e voltou a falar com Clara em voz baixa.
Enquanto isso, na mesa de Adam e Selene as coisas iam incrivelmente boas. Eles estavam recortando a cartolina e os pedaços de isopor para fazerem moldes. Teriam que pintar um quadro usando-os. Selene segurava a cartolina e Adam ia cortando.
– Cuidado pra não sair da linha – ela advertiu.
Ele sorriu e continuou a cortar. A professora passou para vistoriar o trabalho e nem reparou no celular de Adam desligado e no canto da mesa, encostado no estojo de Selene. Ela avaliou o modelo de molde e elogiou o desempenho de ambos, então foi para a outra mesa.
– Ei – Selene chamou Adam. – Quero que você capriche, hein? Temos que tirar um dez nesse trabalho.
– Pode deixar – ele soltou a cartolina recortada e depois de passar a cola para ela, pegou o quadro e os pincéis. – O que você quer que eu desenhe?
– Não sei. Qualquer coisa.
– Já sei! Você.
– Quê?
– É. Lembra-se daquele desenho seu que eu estava fazendo na semana passada? Eu terminei. Poderia passar pra tela e então a gente fazia um molde simples só pra enfeite, mesmo. Tipo um sol, ou seus cadernos no banco, ou alguma borboleta, sei lá.
Selene sorriu. Havia adorado a ideia.
– Parece perfeito. Você é tão criativo! – ela exclamou e bagunçou o cabelo de Adam.
Ele não gostava que mexessem em seu cabelo, mas pareceu nem se importar com o fato de Selene tê-lo feito.
Continuram a fazer o trabalho até o sinal tocar. Então Selene teve que ir para a aula de Química, enquanto Adam iria para Religião. Eles se separaram ali mesmo, a professora guardou o material de cada um em armários diferentes e disse que poderiam continuar na próxima aula.
~~~
Adam estava falando com Ian e Evan quando sentiu a presença de alguém atrás de si. Virou-se e viu Lícia.
– Oi – ela sorriu.
– Oi – ele murmurou e voltou a falar sobre carros com os outros garotos.
Evan falava que iria ver uma racha e talvez participasse, Ian dizia que ia ser um pouco arriscado e Adam achava que seria legal, mas não queria estar por perto. Lícia tentou entrar na conversa, mas não entendia muito desse assunto, então ficou apenas para ouvir. Jude, Clara, Jordan e Jake logo chegaram aos bancos e começaram a conversar sobre diversos assuntos.
Então Jake olhou para Adam com uma expressão maliciosa e apontou com a cabeça para atrás dele. Adam se virou e viu Selene sorrindo atrás de si.
– Oi! Posso sentar com você? – ela perguntou.
Adam sorriu de volta e se levantou.
– Claro. Vocês não se importam, não é pessoal? – ele perguntou aos outros.
Os garotos e Jude disseram que não e convidaram Selene para sentar ali sempre. Clara e Lícia ficaram caladas e com expressões fechadas. Selene sentou-se entre Adam e Lícia e perguntou sobre o que estavam falando antes de ela chegar.
– Sobre carros – Evan respondeu. – Mas se a gatinha quiser a gente pode mudar de assunto.
– Não precisa – ela sorriu. – Eu vou ganhar uma Ranger Rover.
– Sério? – Ian perguntou. – Que máximo. Quem vai te dar?
– A minha tia.
Lícia se sentiu incomodada com o fato de Selene saber ao menos o nome de um tipo de carro e ela não. E ainda tinha conseguido roubar toda a atenção, porque agora todos estavam falando com ela, perguntando várias coisas sobre diversos assuntos.
E logo Selene foi o centro das atenções ali. Nem lembravam mais da morte de Luke, muito menos de Martha, que fora a mais recente. Eles pareciam um bando de cegos ofuscados por uma beleza falsa. Clara virou a cara e começou a puxar assunto com Lícia, ela concordou em falar com a amiga, pelo ao menos assim esquecia-se daquela intrusa. Mesmo que Selene fosse a cópia perfeita dela na época de Alan, em que era o centro das atenções e ficava se gabando pra todas as outras de ter ficado com ele, que tinha a mesma cara de bobo que Adam mantinha agora.
~~~
Era a segunda vez que Adam acompanhava Selene até sua casa. Porém desta vez seus pais estariam lá. Eles poderiam ir para a casa de Selene, mas ela havia se recusado a mostra-la a Adam por enquanto. Mas Adam não se importava muito com isso. Na verdade ele não se importava com nenhum dos pedidos ou exigências de Selene. Mesmo que algo dissesse que era para se preocupar, ele não dava a mínima atenção; mesmo ele se arrependendo depois, ele fazia tudo que ela pedia.
Enrique havia o deixado usar o carro de novo para ir à escola, e como da primeira vez, mal Adam havia o estacionado na garagem, Selene saiu dele. Mas não entrou na casa imediatamente como antes, ao invés disso, achou melhor esperar por Adam.
– Pai – Adam chamou ao entrar pela porta da frente e ver o pai sentado ao sofá, lendo jornal.
Enrique levantou a vista e olhou para ele. Depois para Selene, que sorriu educadamente.
– Essa é a Selene – Adam apresentou-os meio sem jeito. – Selene, pai. Pai, Selene.
– Olá – o pai cumprimentou e Selene acenou com a mão. Então eles foram para a cozinha, Enrique ainda estava os observando. Era a primeira vez que Adam trazia uma garota para casa.
Quando chegaram à cozinha, a mãe de Adam já estava fazendo o jantar. Ela parou para cumprimentar Adam e depois voltou ao trabalho. Então reparou na garota ao lado dele e voltou a deixar a janta de lado.
– Mãe, está é Selene. Ela é uma amiga minha – ele voltou a apresentar. – Selene, está é a minha mãe.
– Não é aquela garota do meio-fio? – Anne perguntou de repente.
O rosto de Selene ficou vermelho e Adam respirou pesadamente.
– Ela mesma – ainda respondeu. – Bem, nós vamos... Sair hoje. Eu vou trocar de roupa. Você faz companhia a ela enquanto isso?
– Tudo bem – a mãe sorriu. – Sente-se, Selene.
Adam desejou boa sorte a Selene aos sussurros e saiu da cozinha para subir as escadas e ir até seu quarto.
A garota ficou observando a mãe de Adam lavar as mãos e pôr os pratos na mesa. Então o pai do garoto entrou na cozinha. Ela olhou para ele e sorriu educadamente de novo. Ele balançou a cabeça e perguntou:
– Você vai sair com o Adam?
Selene não gostou muito do seu tom de voz, mas foi educada ao responder.
– Sim.
– Ele te chamou pra sair? – o pai voltou a perguntar.
– Não. Eu mesma quem fiz isso.
– Garota corajosa – Enrique comentou e se sentou em uma das cadeiras.
– Por quê?
Dessa vez Anne respondeu.
– Adam é um pouco difícil de lidar.
– Mesmo? Eu não acho. Pelo contrário, ele me parece bem legal e bem-humorado. Nós conversamos muito.
Anne pôs o pano de prato em cima da pia e olhou para a garota sentada à mesa.
– Está querendo dizer que gosta do Adam?
– É. Pode se dizer que sim – Selene deu de ombros.
– De verdade? – o pai perguntou.
– Qual o problema em achar o filho de vocês interessante? Vocês não deveriam gostar disso? Eu acho o Adam incrível.
Então a conversa foi interrompida pelo próprio Adam, que apareceu na porta da cozinha:
– Ei, eu sei que vocês estão amando falar sobre mim, mas já deu. A gente já pode ir, Sel – ele olhou para os pais e depois para Selene.
– Tchau, Anne e Enrique – despediu-se e levantou-se, indo até Adam.
Os pais de Adam tiveram uma longa troca de olhares, então se despediram deles também, mas foram deixa-los até a porta. O garoto nem precisou pedir o carro porque Enrique não iria negar isso sabendo que ele sairia com uma garota. Ainda mais sendo uma como Selene. Ela foi rápida ao pegar na mão de Adam assim que ela viu os pais se aproximarem. Ele nem se importou. Claro que não.
Quando saíram da casa, Anne olhou para Enrique.
– Ela é bem bonita, não é?
Ele concordou com a cabeça.
– E ele estava bem amável hoje. Será que é por causa dela? Ela disse que o acha incrível – ela voltou a comentar. Estava pensando no que sua mãe havia lhe dito sobre Adam. Mas então se lembrou de uma coisa: ela não havia dito seu nome a Selene. Então como ela sabia? Talvez Adam tenha falado.
~~~
Eles conversaram durante todo o filme. Era de terror, de um serial killer, mas nenhum dos dois sequer piscou nas cenas mais terríveis do filme. Ao contrário do resto das pessoas que gritavam sem parar. Adam e Selene comentavam sobre as cenas, os atores e atrizes, e os locais usados para fazer as gravações. Até mesmo alguns erros de gravação eles reparavam. E o melhor de tudo foi que a mão de Selene ainda estava colada a de Adam. Aquilo havia feito, com certeza, toda a diferença.
Depois passaram numa sorveteria e em seguida ele foi deixa-la no ponto de sempre.
– Está entregue – Adam parou na esquina de sempre.
Ele deixava Selene lá para que o motorista da garota viesse busca-la, era opção da própria Selene. Adam destravou as portas do carro para que ela pudesse sair.
– Tem certeza de que vai esperar aqui sozinha? – perguntou.
– Sim. Peter logo chegará.
Adam deu de ombros. Fosse como fosse, ele não poderia contestar.
– Então, tchau – se despediu.
Selene abriu a porta do carro. Já ia sair quando pareceu se lembrar de algo e a fechou rapidamente. Olhou para Adam.
– O que foi? – ele perguntou.
Será que havia feito alguma coisa errada?
– Não tá esquecendo nada? – ela sorriu e se aproximou.
E antes que o garoto pudesse responder a pergunta, ela segurou seu rosto e encostou os lábios nos dele. Hesitou um pouco e o olhou, como se pra ter certeza de que ele não iria aceitar aquilo ou algo parecido. Então percebeu que Adam já ansiava por aquilo há muito tempo, e ela não tinha motivos para não continuar.
Da primeira vez que Adam beijou Selene havia sido apenas um selinho. Agora não, era um beijo de verdade. Nem muito calmo, nem muito quente, porém com uma pitada de ganancia e malícia. Porque Selene não queria conquistar Adam porque gostava dele, e sim porque julgava que poderia precisar da ajuda dele num futuro próximo. Ela sabia bem traçar seus planos, tinha audácia e certeza, nunca errava.
Selene quase não conseguiu descolar-se de Adam, e quando o fez, riu baixinho e saiu do carro.
– Tchau – ela acenou já da calçada.
Ele piscou.
– T-Tchau – então deu partida e foi embora. Olhando sempre pelo retrovisor para ver se ela estava bem, algo dizia que ela poderia se desmaterializar e desaparecer dali a qualquer momento, mas por sorte isso não aconteceu.
Quando chegou em casa subiu diretamente para o quarto. Estava se sentindo estranho. Bem, estava se sentindo bem e mal ao mesmo tempo. Porque havia gostado de ter saído com Selene, ela lhe chamava muito a atenção, porém, ele sentia que ela não era para ele. Que eles não deviam ficar juntos. Veja bem: ela era novata, estranha, diferente, misteriosa, havia telefonado para seu irmão no dia de sua morte, havia admitido isso e dito que era perigosa, tinha algo a ver com os assassinatos. Era como se ele tivesse noção do perigo que corria, mas não queria ter. Como se ele não se importasse de fato. E isso o fazia se sentir estranho. Porque ele sentia que Selene o fazia se sentir daquele jeito, mas mesmo que ele não estivesse com ela sabia que sentiria. Adam se considerava egoísta e mimado lá no fundo. Sabia que não se importava muito, de fato, com os amigos que haviam morrido. Ele sentia pela morte deles, mas não estaria disposto a fazer muita coisa por eles. E se Selene chamava sua atenção e dava atenção a ele, mesmo sendo perigosa, era como se ele gostasse do perigo, como se quisesse agora apenas ela e mais nada. E tinha total consciência de que agora que havia entrado no jogo, não conseguiria mais sair.
Então começou a cochilar. Estava quase dormindo quando ouviu o motor do carro. O pai devia estar saindo.
Mas seu celular tocou, despertando-o do cochilo. Ele não queria atender, então esperou o celular parar de tocar. Porém quando já fechava os olhos novamente, outro toque de novo o interrompeu. Ele estalou a língua e tirou o telefone do bolso.
- Que é? – atendeu de mal humor.
- Adam? – era Lícia. – Onde você está?
- Em casa – ele bocejou. – O que você quer?
- Hm... É que eu estou em casa também. E sozinha. Você não poderia vir me buscar. Seria legal eu ir para aí.
Ele piscou. Então ajeitou o celular no ouvido.
- Não sei – Adam queria dormir.
- Ah, por favor, Ad – ela melou a voz.
Adam revirou os olhos.
- Tá. Mas... Meu pai saiu.
- Sem problemas, eu peço pro Ian ir me deixar.
O garoto se sentou na cama.
- Espera. Se você vai chamar o Ian porque não fica na casa dele?
- Porque eu quero ir aí – ela pareceu um tanto grosseira. Adam não poderia recusar esse convite, ele nunca negava quando ela pedia pra ir a sua casa.
- Lície, é sério. Eu estou cansado, acabei de chegar em casa e tô com muito sono. Depois a gente se vê. Na escola – ele voltou a se deitar. – Boa-noite.
Nem a esperou responder e desligou o telefone. Então o colocou embaixo do travesseiro. Fechou os olhos. Agora não conseguiria mais dormir.
E se fosse ler o livro?
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