Selene Adams - A Lenda
5 Capítulo 5
Eles estavam bebendo no bar de um amigo dele. O dono do bar os conhecia e liberava as bebidas por causa disso, mas teria que admitir que hoje ele estava bebendo demais. Já havia passado da lucidez.
- Aí, seu idiota – ele gritou para o amigo. – O que acha de a gente ir procurar umas gatinhas?
O amigo gargalhou em resposta. Estava mais lúcido, porém era mais idiota. Ele se levantou da cadeira.
- Eu estou falando sério, seu panaca.
Ele foi cambaleando até a porta do bar. O amigo veio ajudando e eles chegaram até o carro estacionado no beco ao lado do bar. Já passava das dez da noite. Até que estavam saindo cedo hoje. Eles entraram no carro e ele ligou o som. Tocava What You Want de Evanescence. Então o amigo lembrou que havia esquecido o celular e também de pagar a conta e voltou correndo para o bar, deixando o outro no banco do motorista, temendo que ele saísse com o carro sem ele.
Ele estava quase cochilando quando ouviu passos.
- Hello, Hello. Remember me? I’m everything you can’t control – a voz doce cantou a música.
Tentou abrir os olhos, mas o álcool estava muito forte em seu sangue, e fazia com que seu cérebro trabalhasse incorretamente. Mas ele a reconheceu.
- Ei, gostosa – riu sozinho, com os olhos quase fechando. – Vem até aqui.
Ela andou devagar até ele e abriu a porta do motorista.
- Eu estava pensando em você, sabia? – ele continuou com a voz pausada mudando de tom, melosamente difícil de entender.
- Mesmo? – ela riu.
Então entrou no carro, sentando em seu colo. O garoto sorriu debilmente.
- Gostosa.
Ela revirou os olhos. Não estava a fim de prolongar aquele momento chato. Sentia nojo de toca-lo, de ouvir a sua voz e sentir seu cheiro de bêbado imundo. Odiava-o.
- Pena que não posso dizer o mesmo de você – ela murmurou.
Ele não havia percebido, mas ela trazia uma faca, e antes que pudesse rir do fato, ela o atingiu no órgão genital.
- É pra você aprender a não ficar se aproveitando de ninguém, seu porco – ela continuou a golpeá-lo.
Era um pena saber que ele estava tão bêbado que nem havia sentindo muito a dor, mas deu de ombros. Porém quando saiu do carro viu o outro se aproximando. Ela havia se esquecido dele.
- Ei! – ele gritou quando a reconheceu. – O que está fazendo aqui?
Mas então se aproximou do carro e a viu suja de sangue, olhou para o amigo e o viu de cabeça virada.
- O que... O que aconteceu com ele? – mudou de expressão.
Ela sorriu.
- O mesmo que vai acontecer com você – e então levantou a faca em punho.
Porém este foi mais esperto em correr. Mas para quê? Apenas para aumentar mais ainda a sua ira e sua sede de vingança, de matar. Ela se pôs a correr atrás dele. Ele estava quase virando o beco para entrar no bar novamente quando ela conseguiu puxa-lo pelos cabelos e o jogou no chão.
- Sinta a dor que eu senti!
- Você! – ele gritou. – Você o matou. Você matou todos os outros. Você...
- Considere-se morto – se abaixou sobre o garoto, enfiando a faca em sua barriga.
Ela contou todos os golpes que deu nele — profundos e letais — foram catorze. E os locais: barriga, peito, pescoço, pernas e rosto. Ela estava mais do que suja quando terminou. Ainda o cuspiu e jogou a arma do crime lá mesmo. Sentiu uma onda de calor em seu corpo. Estalou o pescoço. Agora estava satisfeita.
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- As coisas vão de mal a pior – o policial falava em frente à cena do crime. – Desta vez foram duas vítimas. Os adolescentes Jordan Kerr e Jacob Miller foram assassinados no mesmo local com golpes de faca. Eu nunca vi mortes tão tristes como as que ultimamente andam havendo. Nesta cidade nunca houve nada parecido. Agora são cinco adolescentes da mesma escola assassinados brutalmente em menos de cinco meses. Com recorde de tempo para esse último caso duplo, que ocorreu há apenas uma semana e três dias após a morte anterior, da adolescente Martha Beltoise, e três semanas após a morte de Lucas Roxburgh. Como todos sabem, a primeira vítima foi Alan Lakowsky, que foi assassinado em sua própria residência, estando todos os familiares presentes, porém nenhum deles viu de fato o assassino. No caso de Lucas Roxburgh temos uma pequena pista, uma garota que foi a única pessoa vista minutos antes da sua morte. Porém essa garota misteriosa desapareceu tão logo como surgiu e não conseguimos obter mais informações. Eu peço que a população se mantenha calma, mas tome muito cuidado com seus filhos, notificando alguém ou qualquer fato estranho que esteja ocorrendo recentemente. Notificamos que estamos investigando o caso e fazemos o melhor que podemos para manter a população em segurança. – o policial ruivo fez um aceno de cabeça e a imagem mudou para a cena do crime, sem os corpos no local.
A repórter disse mais algumas coisas, porém Adam já estava distraído pensando em seu livro. Na coincidência das mortes ocorrerem praticamente dos mesmos modos descritos nele e de acordo com o que ele lia. Então o pensamento de Adam bateu repentinamente em uma pessoa: Selene.
Ele não pensou em Jordan nem Jacob, muito menos em Luke, Martha e seu próprio irmão. Nem nos amigos que provavelmente corriam risco, porque estavam de certo modo ligados a isso. Ele apenas pensou que ela corria risco. Então pegou o celular do bolso.
- Adam – a mãe apareceu. – Você... Você viu o noticiário?
Ele assentiu com a cabeça, quase não ouvindo o que a mãe estava dizendo. Discou o número rápido, mas ela não atendia.
- Adam, eu estou preocupada com você – Anne continuou.
O garoto apenas ignorou e voltou a ligar para Selene. Ele batia o dedo freneticamente no celular, estava estressado e impaciente. Mas desta vez ela atendeu ao segundo toque.
- Alô? – Adam se levantou do sofá.
A mãe o observou andar impaciente pela sala. Ele parecia nervoso.
- Oi, Adam – Selene estava de bom humor.
- Selene... Você está assistindo televisão? Quer dizer, mesmo que não esteja... Já deve saber – ele se interrompeu quando viu a mãe o observando.
A garota parecia despreocupada do outro lado da linha.
- Sim – respondeu apenas. – Era só sobre isso que queria conversar?
- Não. É que... – ele voltou a olhar para a mãe. – Eu preciso falar com você.
- Fala – Selene estimulou do outro lado da linha.
- Agora não dá, é que... – respirou pesadamente. – Mãe. O almoço – ele balançou as mãos no ar, tirando o telefone do ouvido e recolocando-o novamente.
Sim, ele estava mesmo nervoso. Estalou a língua e olhou urgentemente para Anne que ainda não havia se movido.
- Adam? – Selene perguntou. – Tudo bem... Aonde a gente pode se ver?
- No... – ele fechou os olhos tentando pensar em algum local bom para falar com ela. – Sei lá. Em qualquer canto. Só preciso falar com você.
- Você não vai sair de casa, Adam – a mãe advertiu.
- Droga, mãe. Vai embora! – ele gritou.
Selene escutou do outro lado da linha. Ela pareceu entender agora o real estado em que Adam se encontrava.
- Calma – tentou tranquiliza-lo. – Eu posso ir até aí, estou no carro voltando para casa. Posso voltar.
Ele mordeu os lábios. Anne ainda estava parada na porta da cozinha, olhando para ele.
- Tudo bem. Mas vem logo – Adam respondeu por fim.
- Tá. Tchau – ela sorriu.
- Não, espera – ele a interrompeu, saindo em direção à sala de trás, na biblioteca da casa. Estava ficando incomodado com o olhar da mãe.
- O quê? – Selene perguntou.
- Não desliga... Quer dizer, por favor – pediu. – Ou eu vou ficar te ligando a cada segundo até você chegar aqui.
Ela riu do outro lado da linha. Mas concordou. Ele sentou na cadeira em que o pai costumava ficar quando ia ler na biblioteca e pegou um caderno. Colocou o telefone na viva-voz e o pôs sobre a mesa, então começou a rabiscar na última folha do caderno em branco. Era para distrai-lo até ela chegar.
- Adam? – Selene chamou.
- Fala, amor. Quer dizer... Oi?
Ouviu a risada da garota.
- Eu estou quase chegando.
- Tô esperando.
Ele voltou a rabiscar no caderno, começou a desenhar o homem que vira na televisão, o policial. Acabou perdendo a noção do tempo. Ouviu Selene cantarolar do outro lado da linha, então o barulho de uma porta de carro sendo batida e logo ela voltou a falar.
- Cheguei, estou andando até sua casa. Pode ir esperar na porta? – perguntou.
Ele se levantou num salto da cadeira, mas ainda deixou o telefone ligado e levou-o consigo. A mãe estava acabando de colocar os pratos na mesa e o viu passar apressado em direção à porta.
Ela viu a garota entrar no instante em que Adam a abriu e ele a abraçou instintivamente. Selene franziu as sobrancelhas, estranhando o fato, mas o abraçou de volta, não com tanta intensidade, mas abraçou.
- Você está bem? – ele perguntou. Sabia que não precisava perguntar, mas queria ter a certeza.
- Sim – ela sorriu de canto e olhou para além dele. Para a cozinha. – Olá, Anne.
Anne sorriu.
- Oi. Como você está?
- Eu estou bem, obrigada – então olhou para Adam novamente. – O Ad me convidou para vir até aqui, espero que ele tenha falado com você antes.
Anne olhou para Adam e ele baixou a cabeça.
- É claro que eu já sabia – ela sorriu. – É só o pai de Adam chegar e a gente já pode almoçar.
Selene andou até a cozinha.
- Você deve estar preocupada com os assassinatos que estão ocorrendo.
- Sim – Anne se aproximou dela. – Por isso não o deixei sair com você. Desculpe, mas agora os cuidados são em dobro.
- Eu entendo – Selene sorriu pra ela.
Então Adam segurou seu ombro.
- Ei – chamou. – Sei que gosta de conversar com a minha mãe, mas... Eu preciso falar com você, lembra?
- Ah, é mesmo – ela virou-se pra ele. – Fala.
- A sós – ele olhou para Anne e em seguida para ela. Então gesticulou as escadas.
Selene o seguiu sob o olhar de Anne escada a cima. Quando chegou ao quarto de Adam ele fechou a porta.
Selene pulou na enorme cama de casal de Adam.
- É só sua? – perguntou.
Ele assentiu com a cabeça e olhou pra ela. Como falar exatamente?
- Adam, pode desligar o celular – Selene riu ao perceber que ele ainda o tinha em mãos.
O garoto jogou o celular em cima da cama e sentou-se na pontinha ao lado de Selene. Então passou a mão no cabelo.
- Sel – olhou pra ela.
- Sim?
- Você conhece o policial que está no caso do meu irmão e de todos os outros que foram assassinados?
Ela meneou a cabeça negativamente.
- Ele... Ele disse que havia uma garota com Luke no dia em que ele morreu, minutos antes do crime e que essa garota desapareceu logo após a chamada da polícia. E ninguém sabe como ela é, nem seu nome. Estão procurando por você.
Ela se ajeitou na cama de Adam, sentando-se ao seu lado.
- Como sabe que era eu?
- Não importa – ele murmurou. – Você tem que tomar cuidado agora. De verdade.
Selene olhou nos olhos de Adam, ele não estava mentindo, mas... Estava mesmo preocupado com ela?
- Sel – ele voltou a chama-la. – Eu não sei até onde você está metida nisso, mas sei que está envolvida em muita coisa. E o pior é que logo vão desconfiar de você por que... Clara sabe que era você a garota que estava com Luke naquele dia e eu não vou nem apostar como ela vai contar à Lícia e o resto do mundo vai saber. Eles vão incriminar você, independentemente se for verdadeira ou falsa a acusação... Você não pode... Tem que tomar cuidado.
Selene estava um pouco aturdida. Ele tinha mesmo razão, mas ela custava a acreditar que ele estava realmente querendo protege-la.
- E tem mais uma coisa – ele se levantou, indo até a cômoda ao lado da sua cama. Abriu a gaveta e pegou o livro.
- É.. Esse livro. Pode parecer idiota, mas tudo que tem escrito nele acontece de verdade. E... A próxima vítima será uma garota.
Selene sorriu ao ver o livro.
- É Clara, não é? – Adam perguntou. – Eu estou a entregando.
A garota apenas pegou o livro de suas mãos.
- Você só pode ler quando estiver sozinho – explicou. – Não deve contar a mais ninguém sobre ele.
- Por quê? Você sabe que livro é esse?
Ela apenas olhou pra ele. Então o puxou para que se sentasse na cama novamente.
- Não se preocupa comigo – sorriu tranquilizadoramente.
Ele a abraçou novamente.
- Eu não sei. – sussurrou. – Eu não sei como, mas eu sinto que devo... Proteger você. – riu sozinho. – É idiota pensar que eu deveria me proteger de você.
Selene riu junto.
- Eu não machucaria você – murmurou. – Não mais.
Ela sentiu o rosto dele virar-se lentamente de encontrou ao seu, agora ele não parecia mais tão nervoso. E dessa vez eles se beijaram de verdade, doce e calmamente, como deveria ser. Porque agora Selene tinha certeza de que podia confiar em Adam, enquanto ele sabia que poderia confiar nela também. E mesmo que fosse perigoso, era bom eles estarem juntos um do outro, saber que podiam confiar e dividir as mágoas e incertezas um com o outro.
Mas então a porta se abriu e eles se afastaram rapidamente.
- Adam – era Anne. – Ah, desculpa. – ela percebeu que havia os interrompido. – Mas é que seu pai chegou e mandou descer pra almoçar.
- Tudo bem — Adam se levantou.
Selene o acompanhou até a cozinha e olhou diretamente para o pai dele quando se sentaram a mesa. Enrique também os olhava e não parecia muito feliz em vê-los juntos. Estava com uma carranca terrível, mas tentou ao menos sorrir quando eles chegaram.
Almoçaram em silêncio, sequer comentaram sobre os novos assassinatos. Selene porque achava desnecessário, Adam porque estava indiferente em relação a isso, Enrique porque não queria conversar e Anne porque não queria ficar sobrando.
Depois eles foram para a biblioteca, Adam foi mostrar o desenho do policial a Selene, para que ela pudesse reconhecê-lo. Como ele era um ótimo desenhista estava completamente idêntico ao homem verdadeiro.
- Lícia me disse que Adam está estranho – Enrique comentou na sala, olhando para os dois conversando na biblioteca.
- Como assim? – Anne perguntou.
- Disse que ele está agindo diferente esses dias – continuou. – E que está o tempo todo com essa garota.
- Ele gosta dela.
- Mas você mesma sabe que ele gosta de Lícia desde que era menino, e ele e Alan até discutiam às vezes por causa disso.
- Gostava – Anne corrigiu. – Lícia escolheu Alan porque quis. Agora ele se foi. E Adam encontrou alguém que realmente goste dele. E estão juntos.
- Você acha que ela gosta dele?
- Tenho certeza – Anne cortou a conversa. – E você devia achar também. E estar feliz por isso, como Selene mesma disse na primeira vez que esteve aqui.
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