Selene Adams - A Lenda
3 Capítulo 3
Quando seus pais chegaram do funeral de Luke Adam não perguntou nada, apenas os recebeu na porta de casa e entrou junto com eles para o jantar. Enrique e Anne não estranharam o silencio de Adam, estavam acostumados com isso. Adam sempre fora muito calado. O pai foi assistir à televisão enquanto Adam foi observar sua mãe fazer o jantar. O seu celular tocou.
- Alô? – Adam atendeu ao primeiro toque.
- Pode parar com essa brincadeira idiota, Adam – a garota do outro lado da linha ordenou em tom alterado.
- Hã? Do que você está falando, Martha? — Adam reconheceu a voz no primeiro instante.
- De você ter mandado aquele bilhete idiota para mim.
- Mas do que você está falando? Que bilhete?
- Olha aqui, garoto. Ninguém teria coragem de mandar um bilhete daquele tipo para mim, só você que não estava lembrado. Eu já saquei que você lembrou e agora está tentando me assustar e...
- Você sabe que Luke morreu? – Adam a interrompeu.
Martha engasgou do outro lado da linha.
- Que tipo de brincadeira é essa, Ad? Você está falando sério?
- Sim, meus pais acabaram de voltar do funeral – ele baixou o tom de voz.
A garota ficou em silencio por alguns instantes, então tornou a falar.
- Não foi você quem mandou o bilhete?
- Não – Adam negou. Estava falando a verdade.
- Eu tenho que desligar. Tchau – ela disse isso e desligou na mesma hora, para o caso de haver objeções.
Adam deu de ombros e guardou o celular no bolso de novo.
- Quem era, Adam? – a mãe perguntou.
- Martha – ele respondeu e voltou a observar a mãe cozinhar o jantar.
Então se lembrou de uma coisa: o número desconhecido que havia ligado para o irmão no dia de sua morte.
- Mãe. Chame-me quando o jantar estiver pronto, certo?
- Claro, filho – ela sorriu e ele saiu da cozinha.
Subiu para o quarto e tirou o celular do bolso. Nem pensou duas vezes quando procurou o número na agenda e apertou a tecla SEND. O telefone chamou várias vezes, porém ninguém atendeu. Adam tentou novamente, então finalmente atenderam:
- Alô? – a voz do outro lado era bem conhecida.
Adam largou o telefone e quase perdeu o ar. Era Selene.
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- Ótimo! – ela reclamou, chutando a areia. – Me liga e fica calado... Ou calada, que raiva!
Ela saiu andando pelo meio-fio. A questão seria: quem havia ligado? Não importava muito, poderia ter sido engano. Porém, se tivesse sido engano, porque não responder? Ela respirou fundo. Estava ficando cada vez mais difícil se manter aqui, precisaria telefonar para a tia e pedir ajuda, as pessoas desconfiavam muito nesse lugar. Uma pena eles não terem desconfiado deles também, ou então ela nem precisaria estar aqui agora.
O carro parou no meio-fio e ela entrou.
- Demorou, hein? – reclamou ao motorista.
- A polícia me parou lá na frente. Culpa dos seus estragos – ele devolveu.
- Culpa do que fizeram – ela cuspiu as palavras e colocou o cinto. – Quero chegar logo em casa, anda.
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Os pais de Luke estavam inconsoláveis. Os policiais cercaram toda a área durante todo o dia para que ninguém se aproximasse da cena do crime, eles procuraram pistas e digitais por todo o local, mas não encontraram absolutamente nada. No outro dia, depois do funeral de Luke, um dos policiais quis falar com a família. Ele deu seus pêsames e seus sentimentos em relação à perda do filho único do casal Roxburgh, e depois perguntou sobre quem estava com ele na hora em que foi morto. A mãe disse que ninguém. Perguntou quem o viu primeiro e ela respondeu: a garota que estava com ele, ela entrou para buscar o celular e quando voltou ele estava morto.
O policial perguntou então qual era o nome da garota.
- Eu não sei. Ele a chamava de... Gatinha. Você sabe. Esses adolescentes de hoje em dia.
- E porque quando chegamos, ela não estava mais aqui?
- Ah, parece que estavam ligando para ela e então teve que ir embora.
O policial coçou o queixo. Isso era de fato muito estranho. E um tanto fácil. Talvez eles estivessem de frente ao assassino – ou assassina – e precisassem de óculos para enxerga-lo melhor. Ele precisava descobrir quem era essa garota.
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Destine estava mais do que preocupada. Haviam ligado perguntando por sua sobrinha. Peter estava quase se descontrolando, não conseguia mais aturar a garota, achava ela uma verdadeira pestinha. Destine teve que concordar que ela realmente havia mudado muito nos últimos anos. Era antes tão meiga e paciente, mas desde aquele acidente misterioso ela havia mudado tanto. Continuava a mesma garota de sempre, porém era mais estressada, impaciente, teimosa e rancorosa. Quando ela pediu para voltar à cidade Destine estranhou muito, a primeira coisa que ela havia dito depois de voltar do acidente foi que queria se ver o mais longe possível dali. Agora, quase cinco anos depois, ela queria voltar. Destine tinha certeza absoluta de que boa coisa não era.
Lembrou-se de como ela havia reagido à morte dos pais, quando tinha cinco anos. Havia ficado indiferente, não gostava deles, eram violentos e falavam vários palavrões, discutiam na frente da filha, quebravam pratos e copos nas paredes, se ameaçavam de morte. Quando ela chegou à casa da tia era uma garota calma e inteligente, porém Destine sabia que no fundo ela era um tanto perturbada. Era estranha, usava roupas estranhas e muitas vezes ela tinha comportamentos estranhos. Trocou de escola doze vezes em sete anos. Destine se lembrou de um dia, depois de sair da cidade, de tê-la visto estrangular um coelho no quintal. Quando perguntou o que estava fazendo, ela apenas respondeu que estava tentando ver como era a sensação de tirar a vida de alguém, se algum dia seria capaz de fazer isso. Pouco depois ela decidiu voltar para a cidade. Foi sozinha, viver na antiga mansão em que viviam, porém levou Peter junto porque disse que precisaria de seus serviços. E agora Peter vinha dizer que ela estava metida em confusão, não sabia direito o que era, mas tinha certeza de como era grave.
Destine tentou ligar para ela, porém ela disse que não voltaria tão cedo.
- Senhora Adams. – a empregada a chamou. – Telefone pra senhora.
- E quem é?
- Angel.
Destine suspirou. Ela tinha tudo para ser um anjo, mas algo ainda a perturbava. E muito.
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Era segunda-feira. Haviam suspendido as aulas na sexta, e agora os alunos voltavam à ação. Adam estava sentado no seu canto de sempre, desenhando uma aluna que estava sentada perto dali. Ele a achou interessante e resolveu desenha-la. Não tinha ninguém por perto, os outros estavam reunidos em outro lugar, conversando besteiras como sempre e comentando sobre a morte de Luke.
Adam não se importava em ficar sozinho, na verdade para ele era o melhor, quase sempre havia ficado sozinho em toda a sua vida, mesmo quando Alan era vivo eles não tinham aquela ligação entre irmãos. Apenas o fato de Alan sempre querer protege-lo. Adam pensou que talvez fosse egoísta, talvez Alan amasse ele de verdade e tudo que ele sentia pelo falecido irmão era pena. Talvez o amasse também, mas muito pouco. Achou que era egoísta porque percebeu que também não iria sofrer muito se os pais morressem, eles sempre deram tanta atenção a Alan. Era verdade o fato de Adam ter tudo que queria, mas é como se isso tudo só se devesse ao fato de que os pais eram tão ausentes na vida dele que precisassem recompor essa ausência em brinquedos e vontades. A verdade era que existiram épocas em que os pais tentaram aproximação, mas ele sempre se fechava, sempre achava que era tarde demais para isso. Existiram vezes em que acharam que ele era autista, mas isso só o fez se sentir mais excluído ainda, mesmo que não se importasse de fato se os pais e amigos fizessem ou não parte da sua vida. Adam definitivamente não tinha capacidade de amar ninguém.
- Será que eu sou um psicopata? – perguntou em voz alta.
Mas afastou o pensamento da cabeça ao perceber que sentia algo com a infelicidade dos outros, ele se preocupava com a mãe, se preocupava com Alan, se preocupava com o pai, e havia ficado triste pela morte do irmão e de Luke. Porém não sentia necessidade de guardar esses sentimentos por muito tempo e logo os esquecia.
- Você parece não ligar muito para a morte... – uma voz conhecida surgiu ao lado de Adam.
Ele deixou o caderno cair.
- Oi – Selene riu. – Te assustei?
- N-Não. Eu estava só aqui pensando e... Você apareceu do nada.
- Desculpas, então – ela sorriu. — Posso sentar com você?
- Claro – Adam concordou por educação. Ele se sentia estranho quando ela estava por perto, achava sua presença desagradável, mas gostava de estar perto dela. Era difícil se entender.
- E então?
- Então o quê?
- Ah, todo mundo está chorando o rio Amazonas pela morte de Luke e você está desenhando uma garota – ela entregou o caderno dele.
Adam sentiu seu rosto corar.
- É que... Chorar não vai trazer ninguém de volta. Talvez ele fique melhor se tivermos apenas boas lembranças de sua vida – ele murmurou se referindo a Luke.
- De fato. É uma boa desculpa – Selene sentou a sua frente e observou seu desenho. – Está ficando muito bom.
- Obrigado – Adam sussurrou e tentou voltar a desenhar.
Mas ele parava a todo instante para olhar a garota sentada a sua frente. Era impossível resistir a olhar para Selene. Ela era tão bonita. E parecia saber disso.
- Estou atrapalhando? – perguntou.
- Não – Adam rasgou a folha do desenho. – É só que... Posso desenhar você?
Selene sorriu. Adam pensou que ela tinha razão, porque isso é que era uma boa desculpa. Agora ele poderia olhar para ela sem problemas e ainda teria um desenho seu para guardar de lembrança.
- Tá falando sério? Claro que pode. Eu preciso mudar de posição...?
- Não. Fica assim mesmo. Se quiser pode ir conversando – Adam sugeriu enquanto começava a esboçar o novo desenho em outra folha.
- Você vai conseguir me desenhar em movimento?
- Talvez – ele sorriu pela primeira vez. – Já fiz isso antes. Mas a parte mais difícil com certeza será quando for desenhar seu rosto, não quero estragar sua beleza no papel.
Selene riu alto.
- Tudo bem, vamos ver então – ela o desafiou.
Adam sorriu novamente e voltou-se para o papel. Começou a desenhar o banco onde estavam sentados, desenhou os cadernos de Selene ao seu lado e depois as pernas da garota. Ele esqueceu o desenho alguns instantes olhando para elas, então balançou a cabeça e continuou. Ouviu a risada de Selene, mas tentou não focar muito nisso e continuou seu desenho. Ele teria o primeiro horário vago já que a professora de História havia ficado doente e não encontraram um substituto.
Selene ficou observando o garoto desenha-la, tinha uma leve impressão de conhecê-lo de algum lugar. Olhou os cabelos castanhos escuro, quase pretos; os olhos de um azul extremamente forte pareciam topázio. Ele não tinha o corpo musculoso da maioria dos garotos dessa escola, mas era muito bem definido. Ele não tinha gírias como a maioria dos estudantes daquela escola tinha, mas seu modo de falar era educadamente bonito. Não ficava olhando e flertando com outras meninas, mas com certeza várias garotas flertavam com ele. Adam não tinha cara de “garoto problema”, mas também não parecia um anjo. Ele tinha um olhar desconfiado e desafiador, como se soubesse de vários segredos e estivesse pronto a fazer uma chantagem. Porém alguma coisa nele mostrava a Selene que era confiável.
- O que você sabe sobre Luke? – Adam perguntou de repente.
- Como?
- Você estava com ele ontem, saiu com ele ontem. O que foram fazer? Porque foi na casa dele? Você viu o assassino? Sabe algo sobre o assassinato?
- Hã? Do que você está falando? – ela perguntou desnorteada.
- Você sabe melhor do que eu, por isso pergunto a você – Adam olhou diretamente para ela. Sim, ele realmente estava desconfiado de alguma coisa.
- Nós só iríamos sair. Eu não sei de nada – Selene se defendeu. — Foi tudo do jeito que estão falando por aí.
Adam investigou sua expressão. Não se deu muito por vencido.
- E o que você tinha a ver com meu irmão?
Selene quase engasgou.
- Hã? O quê? Como assim?
- Você telefonou para ele no dia do crime, a meia noite em ponto. Segundo a polícia, menos de meia hora antes de ele ser assassinado – Adam a encarou.
Selene precisou se segurar no banco para não cair. Como ele sabia disso tudo?
- Como você pode saber se era eu? Nem meu número você tem.
Adam suspirou e sorriu angelicamente:
- Simples: eu retornei a ligação semana passada. Você atendeu, eu não respondi quando reconheci a sua voz e desliguei. Ah, e por falar nisso... Você também ligou para a casa dos meus avós para comunicar a morte de Luke. E foi um telefonema anônimo, então você não queria se identificar. E se não queria se identificar era porque estava metida de algum modo com o assassinato – ele deu de ombros.
A garota sentiu a respiração falhar. Sim. De fato Adam era muito mais esperto do que ela pensava. Respirou fundo e contou mentalmente até cinco antes de responder.
- Você... Como conseguiu? Eu não tenho nada com toda essa história, eu só...
- Selene – Adam interrompeu. – Eu sei disso desde a semana passada e se tivesse que contar a alguém já teria feito isso há muito tempo. Então acho melhor você relaxar e começar a me falar tudo, ou eu posso contar pra qualquer pessoa, até pra polícia.
- Você não sabe onde está se metendo – Selene advertiu.
- Exato, e é isso que eu pretendo: saber.
- Você não tem ideia de onde está se metendo. Não tem medo das consequências disso? De acontecer com você o mesmo que ocorreu a seu amigo e seu irmão? – ela o ameaçou.
- Isso é uma ameaça? – Adam perguntou. – Você nem ninguém fará nada comigo dentro da escola, não com ela tão cheia como está agora. E veja bem, eu posso sair daqui agora e falar pra qualquer um. – Ele ameaçou de volta. – E não adianta você me dizer que vai contar depois. Eu não acredito em você.
Ela olhou bem para ele e mordeu os lábios, tamanho o nervosismo. E agora? Ela não tinha escolha, ninguém nunca havia a colocado contra a parede daquele jeito. O garoto parecia não ter medo da morte, e se ele não tinha medo da morte não poderia ter medo de mais nada. Selene acabara de achar alguém tão esperto e decidido quanto ela, tinha encontrado alguém a sua altura.
- Eu não posso falar – disse, por fim.
- Eu quero saber.
- Agora não. Ainda não. – ela insistiu.
Adam olhou bem para ela, não adiantaria insistir em saber, ela realmente não contaria nada agora. Mas ele não podia sair e simplesmente esquecer o assunto, Selene provavelmente iria atrás e quando você não sabe com quem está lidando é melhor não confiar.
- Acho melhor você me contar mesmo. Eu tenho o celular de Alan guardado em um canto que você sequer imagina, e um SMS salvo no meu celular dizendo onde está o telefone. Se provavelmente você tentar alguma coisa contra mim, essa mensagem vai ser enviada para meus pais e eles vão saber de tudo e chamar a polícia. Só pra constar, meu celular está comigo. E num canto inimaginável. – ele advertiu.
Selene avaliou sua expressão. Se Adam estivesse mentindo, fazia isso muito bem, porque não deixava rastros algum de insegurança na voz nem no olhar de que havia inventado essa história. O sinal estridente da escola tocou e Adam se levantou.
- O que você vai fazer? – Selene perguntou.
- Vou para a aula – Adam sorriu, estava gostando de ter um pouco do controle. – Eu falo com você depois.
Ele se virou e foi embora. Selene ficou observando-o se afastar. Ela não poderia fazer nada para impedi-lo de saber a verdade. Isso se ele já soubesse e estivesse apenas querendo ouvir da boca dela. O pior é que algo a impedia de tentar fazer qualquer coisa contra Adam. Ela sentia que ele realmente não contaria para ninguém, que poderia confiar nele. Talvez aquele garoto pudesse ser muito útil.
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- Posso saber o que você tem com a novata? – Lícia fechou seu armário.
Adam olhou para ela. Ele havia estado com Selene na segunda, não tinha visto ela depois da aula e ontem também não. O mesmo se aplicava a hoje, quarta-feira.
- Posso saber o que você tem com isso? – Adam devolveu no mesmo tom.
- Sabe que nada? Só acho estranho o fato de ela andar perambulando com você e depois com outros garotos – Lícia deu de ombros.
- E isso é problema dela, não meu. Ou seu – Adam voltou a abrir seu armário.
Lícia o fechou com força de novo.
- Deixa de ser besta, Adam! Essa garota está fazendo joguinho com você.
- Quer saber, Lícia? Eu e Selene não temos nada. Só porque estávamos conversando outro dia não quer dizer que estamos juntos. Ela não é uma daquelas que sai pegando qualquer um como certas pessoas – Adam falou rápido.
- Está se referindo a mim e Ian? – Lícia quase gritou.
- Eu não citei nenhum nome.
Lícia olhou para além de Adam e urrou de raiva. Então saiu dali, foi embora em direção da sala de Química.
Adam olhou para trás também, para onde Lícia havia olhado. Mas nem precisou procurar muito. Encostada no último armário, numa esquina que dava para a diretoria, estava Selene. Ela olhava para Adam com um sorriso malicioso no rosto. Parecia estar gostando da situação dele com Lícia. Sua expressão era maldosamente satisfeita. Adam suspirou e voltou a abrir seu armário.
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Adam estava sentado na sua cadeira de sempre, com uma garota morena ao seu lado. O professor de Geografia batia com a régua no mapa e citava alguns lugares onde cada aluno poderia morar de acordo com sua personalidade. Esse era seu jeito de chamar atenção para a aula. Enquanto ele citava os lugares – que eram todos na Europa e Ásia, os locais que estavam estudando – alguns alunos iam fazendo anotações. Já Adam estava rabiscando no seu caderno, escrevendo trechos da letra de uma música de Scorpions.
Então uma bolinha de papel bateu na sua cabeça. Ele reclamou em voz baixa e jogou a bolinha no lixo ao lado de sua carteira. O professor estava olhando mesmo. Voltou a desenhar. Então a garota morena ao seu lado cutucou seu ombro. Ele se virou a contra gosto, mas ela lhe entregou um bilhete. Ele abriu.
Era pra ter abrido o papel.
“Quem é o inteligente que manda um bilhete desse tipo?” Adam se perguntou e virou pra trás. Então voltou a olhar pra frente novamente. Era Selene.
A garota ao seu lado lhe estendeu outro papel.
Era você quem devia estar fazendo isso, mas tudo bem. O que vai fazer na sexta depois da escola?
Ele escreveu embaixo:
Nada e você?
Devolveu o papel à garota ao meu lado. Ela passou para trás e foi assim até chegar à Selene. Logo ele chegou de volta.
ADAM! Não seja assim tão sem-vergonha. Estou te chamando pra sair.
E aonde você me levará? Até Alan e Luke?
Que tal até o inferno? ¬¬ Você vem ou não?
Como posso garantir que voltarei vivo?
Eu não vou matar você. Não por enquanto — HAHA. Estou só propondo um acordo de paz. Iremos sair e só, como bons amigos. Você não queria saber sobre mim? É a sua chance.
Tudo bem, então.
Selene parou com os bilhetes e Adam olhou para trás. Ela estava no fundo e apenas o olhou.
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- Aonde eu vou passar o fim de semana? – Anne se queixou ao marido. – Eu queria tanto ir à praia.
- Eu não sei – Enrique respondeu.
- Oh, Enrie, por favor – ela melou a voz.
- E Adam?
- Ele pode vir junto.
Adam, que até então estava calado vendo televisão, se prontificou a responder:
- Vou ficar em casa.
- Você deve estar brincando ou ficando louco. Não está vendo os assassinatos? – o pai perguntou.
- Felizmente não vi nenhum. – Ele respondeu audaciosamente. — Só fiquei sabendo.
- Adam! – a mãe ralhou.
Ele apenas deu de ombros, levantou-se do sofá e subiu as escadas. Anne teve que admitir que Adam realmente era muito pacífico, porém era também muito cabeça-dura e vivia fazendo discussões, sempre com suas vontades. Ela se perguntou se não andava estragando demais o garoto.
Enquanto Adam pensava que não nascera pra ser filho de quem era. Ele simplesmente não conseguia se dar bem com o pai. Sempre tinha que haver uma discussão, no mínimo uma por dia. Ele entrou no seu quarto e pulou na cama de roupa mesmo. Só se levantaria dali no outro dia.
~~~
Selene observou as roupas da loja. Estava precisando de roupas novas. Olhou um vestido preto justo que combinaria perfeitamente com suas botas de couro também preto. Sentiu o celular vibrar no bolso. Era a tia. Ela até iria atender, mas então a televisão da loja chamou sua atenção. Um dos policiais que investigava a morte de Luke dava entrevista, dizendo que precisava achar a garota que estava com ele no dia de seu assassinato. Segundo ele, a garota poderia saber de alguma coisa a respeito.
- Ótimo – pensou em voz alta. – Agora mais um.
~~~
- Que tédio!
- Porque você não ajuda seu tio a varrer o quintal? – o pai perguntou, lendo o jornal.
- Porque eu não quero.
- Então não fique reclamando que está no tédio.
- Eu não estava reclamando pra você.
- Já fez todas as suas atividades da escola?
- Porque não cuida da sua vida?
- ADAM! – a mãe apareceu da porta da cozinha. – O que está havendo com você?
— Nada, mamãe – ele sorriu ironicamente. — Você sabe que eu amo estar aqui.
Anne suspirou e voltou para a cozinha. O pai parou de ler o jornal e ficou olhando para Adam.
- Tá me achando bonito?
- Adam, vá ajudar o seu tio a varrer o quintal.
- Não – Adam olhou para ele.
- Adam, vá agora.
Ele nem se mexeu. Enrique jogou o jornal na cadeira e fez menção de se levantar. Adam bocejou. Parecia estar querendo provocar uma discussão. A mãe reapareceu na porta da cozinha.
- Você já foi? – o pai perguntou.
- Que pergunta mais idiota. Não tá me vendo aqui? Eu nem fui, nem irei.
- Adam, obedeça a seu pai – a mãe pediu.
- Não.
Então vários pares de olhos curiosos surgiram na porta da cozinha e ao pé da escada, em expectativa. O pai se levantou do sofá. Adam nem piscou, estava totalmente despreocupado.
- Levante-se daí agora – Enrique ordenou.
- Porque eu faria isso? – o garoto deu de ombros. – Eu nem queria vir para cá, mesmo.
Enrique já havia perdido o controle e não sabia mais o que ao certo iria fazer com Adam quando a tia apareceu e se aproximou dele. O olhar dela pedia para que ele se acalmasse. Ela se aproximou de Adam:
- Você quer fazer o que? Que tal subir e pro meu quarto? Você pode usar o meu notbook, se quiser.
- Tá bom aqui – ele olhou para o pai.
- Vamos lá, Adam, por favor – a tia insistiu.
Ele suspirou e se levantou. Então subiu as escadas e sumiu da vista de todos. Anne passou a mão pela testa.
- Ai meu Deus! Eu não sei mais o que fazer. Ele nunca agiu assim – ela se queixou.
Enrique bufou.
- Eu sei perfeitamente do que ele está precisando.
- Calma! – a tia interveio. – Ele não está precisando de nada além de paciência. Vocês já pararam para perceber que o irmão e um dos únicos amigos do Adam morreram? Como ele deve estar se sentindo com isso? Deve estar frustrado, preocupado, desconfiado, inseguro. Deem crédito ao garoto pelo ao menos uma vez na vida, vocês nunca deram o carinho e atenção necessária a ele e agora vêm reclamar da rebeldia?
Anne arfou:
- O que está querendo dizer com isso? Nós sempre zelamos pelo Adam e demos tudo que ele queria.
- Ah, é mesmo? E porque será que eu nunca vi você depositar um abraço sequer no seu filho? Quantas vezes ele fez alguma coisa importante e vocês nem pra elogiar estavam presentes? Fale-me, o que o Adam mais gosta de fazer?
Anne olhou para os presentes na sala e depois para Enrique. Retomou o ar.
- Bem, ele costuma ficar o dia todo dentro do quarto, como os adolescentes comuns. Às vezes ele até assiste televisão na sala, mas não gosta de ser incomodado.
- E só vive com aqueles fones de ouvido – Enrique complementou.
- Mas que tipo de pais vocês são? – a tia meneou a cabeça. – Adam passou apenas poucas horas comigo e sabe o que eu percebi? Que ele gosta de ler; tem um talento enorme para desenhar; é calado, porém quando conversamos com ele, sabe ser educado e fala de vários temas abordados da atualidade; é bem observador; gosta de ouvir algumas bandas bem metálicas e de rock bem pesado, mas também gosta de músicas calmas; e acima de tudo: não tem ninguém para compartilhar nenhuma das suas experiências. Isso se deve a quem? Aos pais ausentes como vocês. Agora me falem de Alan... Aposto como sabem exatamente de todos os gostos do falecido filhinho de vocês.
- Olhe aqui, pode ser que a gente não saiba muita coisa sobre o Adam, mas ele também é nosso filho. E se não nos aproximamos dele foi porque ele sempre foi retraído e muito fechado – Anne se defendeu. – Alan sempre vinha conversar, falar sobre o que acontecia com ele, era divertido e se dava bem com todo mundo. Enquanto Adam sempre ficou na dele, não conversa com ninguém se não lhe chamarem a atenção, nunca fala muito sobre sua vida mesmo que for perguntado e anda ficando muito malcriado. Acho que é de tanto receber tudo que quer de mão cheia. Vou começar a cortar certas coisas dele.
- Alan sempre foi assim – a avó se intrometeu. – Mas porque vocês davam chance a ele, davam mais atenção desde que era pequeno. Quanto a Adam, vocês o cobriam de presentes e vontades atendidas para mantê-lo entretido, como se não gostassem da presença do garoto. E aí está o resultado: ele é quieto, recluso, teimoso e está revelando seu descontento com vocês a base da rebeldia.
- Mamãe! – Anne gritou como se tivesse recebido uma facada pelas costas. – O que você está dizendo?
- Estou dizendo que Adam nunca devia ter sido criado por vocês. E que me arrependi muito de não tê-lo trazido para a minha casa. Com certeza ele estaria muito melhor comigo.
Enrique suspirou alto e saiu da sala. Anne desabou no sofá e se pôs a chorar.
- Era para Amanda estar aqui, ela teria sido muito mais competente nessa tarefa.
A tia se aproximou dela e sentou-se ao seu lado. O resto da família havia acompanhado tudo e agora se aproximavam também. A avó fechou os olhos, pensativa, e depois os abriu novamente. Iria falar alguma coisa quando Adam irrompeu descendo as escadas.
- Mãe. Porque está chorando?
Anne enxugou as lágrimas.
- Nada, eu estava só conversando com sua tia Amelie e sua avó. Como você está?
- Eu queria ir para casa – ele parou ao pé da escada e olhou para a avó. – Desculpe-me, vovó, não é que eu não goste da senhora. Mas aqui tem muita gente, eu não gosto muito disso.
- Eu entendo – a avó sorriu e se levantou do sofá. – Seu tio Ary vai deixar Jasmim e as crianças em casa, você poderia ir com ele.
- Mas... Ele ainda vai passar no supermercado, se você não se importar – a tia fez parecer mais uma pergunta.
- Onde está o pai? – ele perguntou.
- Ele foi em direção à cozinha – Anne respondeu.
Adam agradeceu e foi até lá. Enrique estava sentado na cadeira próximo à porta, lendo o jornal, enquanto Jasmim arrumava as malas para ir pra casa.
- Pai... Tio Ary vai deixar Jasmim em casa, só que eles vão ao supermercado antes. Eu poderia ir com o carro?
Enrique nem levantou a cabeça para responder:
- Vá. Só lembre-se de vir nos buscar amanhã.
- Certo. Obrigado. – Adam quase deu pulos de alegria e saiu da cozinha.
~~~
Ele estava quase chegando à cidade quando a viu pela terceira vez no meio-fio. Porém agora havia uma diferença: estava quase anoitecendo.
Ela andava pelo meio-fio quase tocando a mata, os carros passavam e buzinavam, provavelmente achando que ela era uma garota de programa. Ele teve que admitir que usando aquele vestido mais do que justo e tão curto com botas até o joelho e de salto, andando no meio-fio de uma estrada praticamente vazia de pedestres – como qualquer outra – rodeada por mato, era de se imaginar que ela fosse estender a mão para algum carro parar e ela fazer programa. E mesmo ela não tendo estendido a mão, ele se aproximou de onde ela estava e parou o carro. Baixou o vidro.
- O que você está fazendo aqui sozinha e numa hora dessas? – perguntou.
Ela olhou para o carro, depois para ele.
- Eu não sei. O meu motorista estava demorando muito, então resolvi vir sozinha.
- Você não tem medo? – ele balançou a cabeça, quase achando graça daquela situação.
- Tenho medo de mim – ela olhou em seus olhos.
Ele sentiu seu rosto ficar quente. Ali, no crepúsculo, com ela vestida daquela forma e fixando seus olhos negros nos dele, era realmente arrepiante. Então falou sem pensar.
- Se você quiser eu posso te levar...
- Claro que eu quero – ela se apressou em arrodear o carro e ir à direção da porta do carona.
Ele a observou passar na frente do automóvel e destravou a porta para que ela entrasse. Sim, quem estivesse passando por ali agora com certeza pensaria que ela estava fazendo programa.
- E então? Onde é a sua casa? – ela perguntou assim que se sentou no banco.
- Hã? O certo seria onde é a sua casa, não?
- Não. É a sua, mesmo – ela sorriu e colocou o cinto de segurança.
Ele não entendeu muito bem, mas deu partida no carro.
Passaram o resto do caminho em silencio. E quando eles finalmente chegaram a casa dele, ela nem sequer esperou sinal e já foi entrando. Ele se perguntou como ela conseguia ser daquele jeito tão despachado, deu de ombros e a seguiu. Parecia que era a casa dela e ele estava ali só de visita. Porque ela entrou, colocou a bolsa no sofá da sala e foi em direção à cozinha. Como se já conhecesse o local.
Adam olhou bem para aquela garota estranha que havia chegado à sua cozinha e se apossado do local. Ela lhe parecia, de certo modo, familiar. Aproximou-se dela.
- De onde você veio? — murmurou.
- De algum lugar — ela fixou seu olhar no dele.
Adam se sentiu tonto. Ela era mesmo estonteante. Desde que a vira pela primeira vez na escola sentira que ela tinha algo de diferente das outras garotas; ela era misteriosa, conquistadora, esperta; era invejada, até mesmo odiada, e assustadoramente linda. Vários garotos gostariam de estar ali com ela agora. Sozinhos, em sua casa, sem mais ninguém além deles dois.
Selene examinou as expressões que transpareciam no rosto de Adam: medo, desejo, curiosidade, cobiça, cautela.
- Você não devia estar sozinho aqui comigo, agora. Muito menos estar se achando com sorte. — ela se aproximou.
- Eu sei — Adam não moveu um músculo.
- Não sabe do que eu sou capaz — ela continuou.
- Do que você é capaz? — ele sussurrou. A voz dela era extremamente sedutora naquele tom. Extremamente assustadora também.
- Nem queira imaginar.
- Fale — ele deu um passo à frente. Então achou que devia acreditar no aviso dela, e que havia sido um pouco rude. Então acrescentou: — Por favor.
Ela meneou a cabeça.
- Você é um bobinho, sabia? — sorriu e olhou ao redor.
- Por que está dizendo isso? — ele perguntou, voltando ao seu normal.
- Por que... — ela voltou a olha-lo nos olhos. — Eu tenho que alerta-lo do perigo que você corre. O jogo fica divertido quando a vítima sabe dos riscos... Ainda mais divertido quando ela persiste em continuar jogando.
- Você vai achar divertido jogar comigo, então — Adam murmurou. Estava ficando cada vez mais difícil falar. — Eu não me importo.
Selene sorriu e se se encostou à bancada da pia da cozinha. Ficou parada, com Adam a sua frente. Então estendeu a mão em sua direção e ele fechou a distância que mantinham seus dois corpos separados. Quando Adam tocou a mão fria de Selene, algo dentro de si se remexeu. Sua mão também estava fria, mas porque ele estava assustado com aquela presença tão provocadora em sua casa. Enquanto a de Selene se mantinha naquela temperatura por um motivo desconhecido para ele, já que ela parecia bem confiante de si.
- Você está metida com os assassinatos, não é? — ele perguntou. — Com todos eles. Fale-me o que você tem a ver com isso.
Ela aproximou seu rosto do dele, olhou bem em seus olhos, já havia descoberto o efeito que isso provocava nele. Ele tremeu quando ela acariciou sua face.
- Se eu lhe respondesse agora, seria o fim do jogo para você — ela sussurrou. Seu rosto estava a centímetros do rosto de Adam.
Ele tocou a mão que ela mantinha em seu rosto. Ele sabia que estar com ela era realmente perigoso, algo dentro de si avisava que ele corria perigo de vida em apenas falar com ela. Adam sabia, no fundo, dos riscos que estava correndo quando a ajudou na estrada e a trouxe até sua casa. E mesmo assim selou seus lábios aos dela. Ele sabia de todo o perigo, porém não sabia que fazendo tudo isso, estava atraindo a confiança de Selene, e isso poderia poupar sua vida.
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