Notas iniciais
Heeeey!!!! Feliz véspera de Natal, meus consagrados!!! Vocês não imaginam o quanto eu tô FELIZ de estar aqui, finalmente, entregando este capítulo à vocês. Sério. Pra mim, já é um presente de Natal. Enfim, espero que gostem!! Beijão!

"Depois de um tempo, talvez você esqueça

Mas apenas no caso dessas memórias voltarem à sua mente

Você não podia saber disso quando saí

Sob o fogo de seus olhos zangados

Eu nunca quis dizer adeus

Então eu sinto muito por agora

Que não pude estar por perto

Às vezes as coisas se recusam

A seguir o caminho que planejamos

Oh, sinto muito por agora

Que não pude estar por perto

Haverá um dia

Que você vai entender

Você vai entender."

—Sorry for now, Linkin Park.

—Não pode mantê-los longe para sempre.

—Sei disso.

A madrugada agitada de Naruto se iniciara assim que pusera os pés em casa, desejoso de seu descanso meia-boca de quatro horas e meia. O costume era, já há alguns anos, que ele chegasse num horário onde até Sakura estivesse dormindo, cansada demais para esperá-lo. Ele não poderia julgá-la; acreditava sequer ter esse direito. Naquela noite, entretanto, havia a encontrado sentada na sala, ainda com as roupas habituais, submersa em uma expressão séria.

—Não deveria ter dado à eles um missão tão rápido. —Ela alegou. Ele compreendia.

—Era necessário. —Ele suspirou, também sentando-se no sofá, mantendo uma distância respeitosa. A verdade era que queria subir, tirar seu uniforme e jogar-se nos lençóis de cama limpíssimos com cheiro de flor-de-cerejeira (sabe-se lá onde arranjavam aquele amaciante) ao lado da esposa, como sempre fizera. Sentia-se exausto demais, esgotado demais, preocupado demais, e nada disposto àquela conversa.

—As coisas que são necessárias, Naruto… —Sakura suspirou, e ele notou o quanto ela também parecia exaurida e preocupada. —Você mal deu à eles um respiro de comodidade! Sei que as coisas são complicadas no escritório, mas…

—Mas? Eu não tive escolha.

—Não teve escolha porque Sasuke disse que não tinha?

—Sasuke…

—Sasuke! Você deve tê-lo mandado a uma daquelas missões de investigação e ele voltou dizendo que não haviam outros meios, que deveriam mandar nossos filhos para fora novamente, não foi? E depois ele deve ter lhe dado as costas e saído, como sempre.

—Sakura, se estamos fazendo isso…

Ela o interrompeu novamente, indignando-se mais a cada desculpa dada. Talvez estivesse velha demais, ou apenas inerte demais, para gritar com ele daquele modo agressivo de quando eram jovens.

—Não me diga que é para proteção. Você chegou a olhar nos olhos dos seus filhos, Naruto? Chegou a questionar à eles sobre o que queriam? Como sabe que estavam prontos para partir de novo?

—São nossos filhos. —Afirmou ele, numa certeza que dizia muita coisa, mas ainda não o suficiente.

—São crianças!

—Não me lembro de sermos crianças na idade deles. —Foi a vez de Naruto suspirar, talvez por dar-se conta do peso daquela frase. Sakura, em reação, lançou à ele um olhar de advertência.

—Nós não fomos como eles. Nós não tínhamos escolha. —Ela ajeitou alguns fios de cabelos atrás das orelhas, olhando em direção à porta, buscando evitar o rosto do marido. —Éramos crianças, sim. O que aconteceu à você e Sasuke, o que aconteceu conosco depois… Termos sido forçados a crescer não nos trouxe maturidade na época, Naruto, apenas trouxe mais dor. Eu nunca quis vê-los seguindo nossos passos.

Naruto observou a figura da esposa, que olhava para uma época bem além das paredes daquela casa. Por um momento, foi tomado por aquele sentimento também e, surpreendentemente, aquilo o chateou.

— Trouxemos paz. — E era verdade. A paz, porém, como todas as outras coisas, era instável e relativa, e exigia manutenção. Não havia descanso na criação daquele mundo.

— Paz? A que custo? Você nunca está em casa, Sasuke nunca está na vila, nossos filhos correm perigo por serem nossos. Onde está a justiça à mim, à Hinata, à Temari? Como pode garantir que não precisamos torcer pelas vidas das crianças que nós trouxemos ao mundo? Como pode dizer que não precisamos nos preocupar com eles e com vocês? Ser Hokage está te matando, Naruto. Não temos mais dezessete anos. Você não tem mais dezessete anos.

—Eu sei, dattebayo. —Ele apoiou-se em um braços do sofá, descansando a cabeça sobre a própria mão. -Sei o quanto as coisas mudaram desde a nossa adolescência.

— A questão não é o que mudou. É algumas coisas nunca terem mudado. — Sakura baixou o olhar, fechando os olhos logo em seguida e dando a si mesma uma postura mais despojada, um ar abatido cobrindo-lhe o corpo, quase como se cogitasse integrar-se àquele ambiente e não mais sair. — Sei o quanto isso é importante pra você, jamais o impedi de seguir com seu sonho, e não seria capaz ainda que quisesse. Mas há quanto tempo não conversamos? Há quantos anos não recebemos um ao outro em casa? Fico me perguntando quando foi que nos quebramos dessa forma.

Naruto não respondeu. Em outros tempos, não havia dúvidas de que teria um discurso na ponta da língua, uma inspiração ardente capaz de adentrar qualquer coração. Mas ele permaneceu em silêncio; e Sakura, um ramo de cerejeira que não fora capaz de aguentar a intensidade de um furacão, levantou-se com cautela e subiu as escadas, dando mais do que apenas aquela conversa por encerrada.

— Eu sequer sou capaz de contar os cacos. — Foi a última coisa que disse, num tom propositalmente audível, antes de deixar por completo o cômodo.

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A manhã havia começado péssima.

Boruto mal dormira na última noite, e tinha a cabeça fervilhando de questões aparentemente sem resposta.

Havia ouvido parte da conversa noturna das companheiras de time — e não que se orgulhasse disso, muito pelo contrário — entretanto, o diálogo estendera sua madrugada até quase o amanhecer, corroendo sua mente e incendiando-o por dentro.

Não sabia dizer exatamente o que sentia, e isso já não era uma novidade.

Ao menos uma dúvida havia sido sanada, embora superficialmente: algo ocorrera entre Hokuto e Hitomi antes que a Uchiha fosse embora, grave o suficiente para que as fizesse agir daquela maneira arisca e até mesmo agressiva. Estavam claramente se provocando na última noite, e aquilo o intrigava de tal forma que nada mais parecia prender sua atenção, nem mesmo a atual investigação.

Investigação essa, aliás, que não se fazia necessária de sua atenção, uma vez que não dava o mínimo resultado. Haviam saído logo ao raiar e, nessa caminhada, já tinham entrevistado as famílias, verificado a vila, visitado e analisado detalhadamente os locais de sequestro.

Nada. Simplesmente nada.

Se um crime perfeito existisse (o que lhe parecia improvável demais), seria aquele. Sem pistas, sem suspeitos, sem provas. Só sumiços aleatórios, exatamente como aparentavam.

Konohamaru inspirou profunda e lentamente, cansado da situação. Muito além da investigação mal-sucedida, não parecia existir sintonia naquele grupo de jovens shinobi, fazendo da viagem algo mais cansativo do que deveria ser. Hitomi não falava nem mesmo com Mitsuki, e usava seu Byakuringan apenas quando pedido. Hokuto andava calada ao lado de Inojin (ela ficava confortável em caminhar ao lado dele, ao que parecia), Shikadai aparentava estar ainda mais entediado que o normal e ChouChou, segundo o que Boruto observara durante seu tempo ali, poderia ser facilmente classificada como "fora de área".

Eles estavam péssimos; Boruto sabia disso. Estava ciente que aquele processo de readaptação não seria fácil, tampouco rápido, mas jamais havia achado que sentiria tamanha ausência da harmonia que costumavam ter. Pouco mais de dois anos antes, provavelmente estariam gritando uns com os outros e planejando absurdos; ali, agora, o silêncio marcava a mudança de um grupo que, cada qual à sua maneira, havia arranjado formas imperfeitas de seguir em frente.

É difícil encarar o passado quando se tem medo de olhar para trás.

— Vamos voltar ao escritório da Senhora Kuwabara. — Foi Konohamaru quem disse. Ele parecia decepcionado. — É hora de irmos.

Ninguém fez objeções.

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A estrada parecia mais longa agora. Cansativa.

— Cara, você está bem? — A pergunta, parecendo exageradamente abafada aos seus ouvidos, viera de Shikadai, que caminhava tranquilamente ao seu lado. Os olhos verdes miravam o amigo com atenção mordaz, típica do menino, analisando-o em busca de problemas.

— Estou. — Respondeu, seco demais até para si mesmo. Não estava; era óbvio. O sol brilhava, forte, em suas cabeças, aquecendo-os muito além do necessário, muito embora já devesse estar baixo devido à hora.

Cinco e meia.

Boruto adquirira ao menos uma das habilidades instintivas de Sasuke durante aqueles anos: Era ótimo em localizar-se no tempo. A intuição raramente falhava, ainda que seus sentidos não estivessem funcionando perfeitamente, como naquele momento.

Algo estava errado, e não apenas com ele. Tinha consciência de que o cansaço excessivo não se devia a uma insolação comum. Na verdades, tinha suspeitas da causa: não de quê, mas quem.

— Tem certeza? — Retomou o Nara. Boruto suspirou, questionando-se internamente qual seria a resposta que o colega esperava. Se dissesse um não, provavelmente seriam obrigados a parar, o que representava uma péssima opção dada à localização atual, limitando-se a um grande nada. Entretanto, não estava sequer minimamente disposto a dar um “sim”, uma vez que Shikadai continuaria a encher sua paciência.

Entendia a preocupação, e até a agradeceria em outros casos, mas tinha problemas maiores.

— Hokuto? — Chamou, pronunciando o nome da irmã numa altura considerável para que ela pudesse ouvir com clareza. A garota olhou para trás ainda enquanto andavam, os olhos azuis encarando-o de forma curiosa diante da convocação. — Pode vir aqui?

Ela voltou-se novamente à Inojin, com quem vinha andando até aquele momento, e pareceu murmurar algo ininteligível ao restante do grupo, mesmo àquela curta distância. Boruto franziu as sobrancelhas loiras: Não a vira conversando com Inojin durante todo o caminho desde a partida da Vila dos Rios.

Após alguns segundos, a Uzumaki caminhou de encontro ao gêmeo. Shikadai, prontamente compreendendo a situação, ocupou o lugar vago ao lado de Inojin, iniciando uma conversa qualquer sobre o quão estava entediado durante aquela missão absurda.

Boruto buscou o rosto da irmã e, ao enfim vê-lo por completo, encontrou exatamente aquilo que buscava:

Ela estava péssima.

Tinha bolsas sob os olhos, num indicativo claro de que passara uma noite mal dormida, e a pele brilhava pelo suor. Ela suspirou ao encará-lo, lendo com clareza aquele olhar.

— Estou bem. — Disse, numa voz um tanto quanto rouca. Boruto bufou, irritadiço.

— Minta para qualquer um, mas não para mim, dattebane.

— Boruto…

— Estou sentindo, Hokuto. —bEla focou-se nele mais uma vez, parecendo, só então, notar o aspecto abatido que igualmente o cobria. — Sentindo.

Hokuto inspirou fundo, parecendo dar-se por vencida.

— Me desculpe. — E disse aquilo numa sinceridade clara, talvez exausta demais para se dar ao trabalho de colocar qualquer máscara fria e forte sob o rosto, principalmente ao lidar com o irmão.

Buscou os olhos dela novamente, transmitindo uma dúvida: “Não está conseguindo controlá-los, não é?”

A resposta, já prevista, veio pelo mesmo meio:

Não.”

O que acha que…?”

“Eu não sei.” E aquilo parecia frustrá-la. Aliás, Boruto tinha plena certeza de que a frustrava.

Alguns dias após sua chegada, Hokuto havia se atrevido a dar poucas (e não exatamente úteis a ele) informações quanto ao quê mudara ao longo daqueles dois anos. E o que revelou foi, basicamente, o controle que havia adquirido sobre seus olhos, os quais a agora chamava de Torōgan, cujo nome provinha do controle que exerciam. Boruto não fazia ideia, apesar disso, de como a menina havia aprendido a manter o dom sob controle, com quem, ou sequer de onde realmente viera aquela nomenclatura que haviam adotado como oficial. Na realidade, apenas o básico havia sido revelado à ele: funcionando como a maioria dos dōjutsus, agora eles poderiam ser ativados e desativados.

"Mas ocorrem erros." Ela dissera. "Às vezes."

Erros aqueles que, ele supunha, deviam ser os causadores da aura pesada que irradiava de sua irmã naquele instante, afetando-o profundamente.

— Vai passar. — Garantiu ela, murmurando, embora o irmão não pudesse detectar a firmeza naquelas palavras.

— É claro. — Concordou, incerto. — Mas depois de quanto tempo?

"Afinal, você levou anos apenas para conseguir desativálos " ele queria dizer, mas não valia a pena irritá-la.

— Não me faça perguntas que sabe que não conseguirei responder, ttebane. — Rebateu a menina, ajeitando os cabelos róseos com as mãos. — Espero que em alguns dias.

— Certo. Não falamos mais nisso, então.

— Sabe que não foi o que eu quis dizer. — Indignou-se ela, olhando-o com raiva.

— Não foi? -Ele questionou, a mágoa atravessando aquele tom de voz baixo. — Se quisesse ter falado, teria, Hokuto. Quanto tempo teria mantido em segredo caso eu não tivesse sido atingido?

— Não é assim que funciona.

— Então como funciona? Não vou saber sem que me explique, 'ttebane.

— Não posso.

— Nunca pode.

— E o que quer que eu faça?!

— Quero que diga o quê DIABOS aconteceu conosco!

— Conosco? Por quê acha que envolve você, 'ttebane?

— Porquê você abriria a boca se não envolvesse. — Ele passou a palma de uma das mãos pela testa, tentando amenizar o suor. — Porquê a única coisa que tem medo é magoar os outros, 'ttebane.

Talvez não fosse a única, mas aquele medo era uma verdade irrefutável para ambos, e Boruto sabia daquilo tanto quanto Hokuto.

— Não quero falar sobre isso.

— Você nunca quer falar sobre nada. — Alegou o loiro. Hokuto baixou os olhos, parecendo encarar o chão sobre o qual passavam.

Na realidade, estava cansado de tudo aquilo, repetindo a si mesmo que, no tempo certo, as resposta viriam. Mas, dia após dia, Hokuto não as dava, e Hitomi sequer parecia suportar olhá-lo adequadamente. Quase um figurante numa história que igualmente devia envolvê-lo, afetando por completo todas as relações que havia achado ter.

Muito mais que a pessoa, a vida em si tinha mudado, ainda que ele não tivesse visto, e fazia questão de condenar-se constantemente por isso.

— Você vai entender, se quiser. — Hokuto suspirou, e mesmo aquele som tão primordial demonstrou exaustão. — Mas não posso garantir nada.

Resolveu não falar mais; sequer saberia o quê falar, caso tentasse. A ansiedade apertava-lhe o peito de tal forma que o menino começava a se preocupar com aquela condição. Talvez infartasse ali mesmo, em meio ao caminho, quem sabe. Talvez facilitasse sua vida.

A caminhada continuou; entre um passo e outro, o sol finalmente decidiu dar a si mesmo o merecido descanso, e Konohamaru decidiu rapidamente que deveria seguir aquela regra.

— Vamos sair ao raiar — Alegou ele, enquanto tirava a própria mochila das costas, preparando-se para montar as pequenas barracas trazidas exatamente para uma situação daquela. — Sabem que não temos o suficiente para todos, então dividam-se em duplas.

Bem, não era a primeira vez que acampariam num lugar desconhecido, de qualquer maneira.

— Fico com Bolt dessa vez. —Comentou Hokuto, prontamente, em voz baixa. Boruto a encarou com certa raiva: a irmã sequer havia pedido sua opinião! Não que aquilo o incomodasse de alguma forma, estivera mais que acostumado a dormir do lado dela por toda a infância para estranhar a situação. Entretanto, não deixava de ser no mínimo intrigante aquele interesse repentino e imediato da menina.

— Certo. Tudo bem. — Confirmou o sensei.

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— Boruto? — O menino elevou o olhar, apenas para encontrar o rosto da irmã encarando-o. Hokuto estava sentada, parecendo encolhida sobre si mesma naquela barraca pequena que mal abrigava a ambos. Sem o auxílio do céu, se tornava um pouco mais difícil deduzir o horário, mas tinha certeza que era madrugada. — Você… Ainda quer ouvir, não é?

— Ouvir? — Ele indagou, sonolento demais para dar-se conta do que acontecia. Levantou-se lentamente, sentando-se com cautela e devolvendo o olhar fixo da irmã, só então percebendo o quanto ela parecia frágil naquele exato momento, como se algo a machucasse incessantemente. — Ouvir o quê?

— Disse que queria saber o que aconteceu, ‘ttebane. —Ela ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha, hesitante. — Eu não… Não queria que sentisse que não quero que você saiba. É que… Nós não tivemos tempo.

— Nós....

Eu… Eu não tive tempo. Nem coragem.

— Hoku, do que exatamente você está…?

— Na manhã após tio Sasuke levar você, no dia em que Hitomi foi embora, nós discutimos. — Ela começou, fazendo com que o garoto automaticamente apurasse a própria audição, qualquer outro assunto escapando-lhe quase involuntariamente da mente. Respirou fundo ao perceber o que encarava ali: Hokuto lhe contava a verdade.

— Discutiram?

— Sim. Fui até o escritório do papai e encontrei Hitomi lá.

— Sabia que ela estaria lá. — Não havia sido uma pergunta.

— Sabia. Eu tinha que conversar com ela, mesmo sabendo…. Mesmo sabendo que aquilo mudaria tudo. —Ela suspirou, agarrando-se ainda mais no próprio casaco.

“E mudou, ao que parece.”

— Eu precisava falar pra ela. Precisava dizer com todas as letras. Então assumi que estava lá quando aquilo aconteceu.

Aquilo. Boruto, apesar de tudo, não precisou de muito para saber ao quê a irmã se referia; Apenas uma coisa havia acontecido antes de sua partida, tal qual a havia motivado (ou havia motivado Sasuke, por assim dizer). Ainda que sua volta para a vila tivesse demorado quase dois anos, noticías marcantes não deixam o imaginário popular tão facilmente, e, dessa forma, não fora exatamente complicado descobrir.

— Toshiko. — Hokuto assentiu, desviando o olhar para focar no plástico azul que os envolvia. A cada palavra, Boruto podia notar, ela aparentava mais e mais desconforto, encarando o abrigo temporário como se a qualquer momento ele fosse diminuir até esmagá-la. A menina engoliu em seco, evitando olhar para o irmão.

— Eu vinha seguindo ela naquele dia, escondida. A segui até fora dos portões da vila, até aquele vale horrível. Ela não notou. Estava transtornada demais pra notar qualquer coisa, dattebane.

— Hitomi estava lá. — O menino continuou, lembrando-se tão claramente quanto possível dos boatos que o haviam alcançado.

— Sim. Toshiko tinha procurado por ela durante todo o dia. E ela estava lá.

— Procurado? — O garoto levantou uma das sobrancelhas, incrédulo. Não. Estava errado. Hokuto tinha errado. — Toshiko traiu a vila, Hitomi a impediu.

— Não, Bolt. — Ouviu a irmã inspirar profundamente, conhecendo aquele gesto como a palma de sua mão: sua forma mais evidente de evitar um rompante quando estava à beira de um. Ao continuar, a voz estava embargada, tornando-se quase um sussurro. — Toshiko implorou para que Hitomi a matasse.

— O quê?!

— Toshiko implorou a Hitomi que a matasse, e sugeriu que lutassem para simular um assassinato. — Ela repetiu, vacilando em seu tom.

— Isso… Não faz sentido. — Sentiu o próprio coração acelerar, incapaz de processar de forma rápida aquelas palavras. — Não faz sentido, Hitomi nunca aceitaria uma maluquice dessas, dattebane.

E, além disso, duvidava que uma ninja como Toshiko se renderia àquela situação que Hokuto descrevia com tamanha dificuldade. Não a conhecera direito, de fato, mas era improvável demais a alguém daquele estirpe, cujo sangue e teimosia Uchiha corria pelas veias, alguém com tamanho mérito, talento e futuro.

Maluquice. — Hokuto pronunciou a palavra com desprezo. — Era tudo o que eu queria que fosse, desde aquela missão.

Missão; Certo, Boruto lembrava-se bem daquilo. A missão em que haviam encontrado Toshiko — Hitomi a havia encontrado, na realidade — de forma inexplicável. A mesma missão onde Hitomi entrara em contato direto com o Mestre.

O Mestre.

E só então as peças começaram a se encaixar de modo correto, machucando feito cacos de vidro, ferindo profunda e ferozmente sua carne e torturando-o até os ossos. O preço da transparência que com que a irmã o presenteava, da dúvida que desejava ser sanada.

— Hokuto… — O nome da gêmea, em substituição ao apelido, lhe soou errado naquele instante. Ela não fez questão de responder ao chamado. — Hokuto, por quê você estava seguindo Toshiko?

A primeira lágrima escorreu pela bochecha dela, solitária.

— A missão mudou alguma coisa nela. O sequestro. Era como se tivessem implantado algo. Um vírus, um comando. Aquilo consumiu o todo aos poucos e eu vi. — Mais lágrimas vieram, e um soluço escapou, tornando aquilo ainda pior. — Eu a vi definhar desde o primeiro dia, Boruto.

Foi a vez dela de não obter resposta. Boruto não podia falar. Não poderia, ainda que quisesse. O ar abandonara seus pulmões, substituído por algo mais denso, mais pesado, mais difícil de se respirar.

— Não pude fazer nada por mim mesma, mas não poderia colocar Hitomi em risco de novo. Eu queria contar. Eu juro que queria, juro por tudo, por todos os dias que me restam.

Por todos aqueles que perdemos também, Hokuto?”

— Mas eu não podia deixar aquilo em branco. Fui até o papai e Sasuke, e contei.

— Contou ao papai sobre seus olhos? — Aquilo o pegara inegavelmente de surpresa. Hokuto engasgou na tentativa de calar mais um soluço, e apenas aquele ato deu a resposta necessária.

— Disse à ele que estava preocupada, que Toshiko vinha agindo diferente, que parecia piorar a cada dia.

— Por quê não disse a verdade?!

— Essa era a verdade, Boruto. Queria que eu desse os detalhes? Queria que eu perdesse cada vez mais tempo presa naquela sala tentando explicar o porquê disso ou daquilo, o porquê a droga da filha do Hokage tem a merda de um Kekkei Genkai surgido do nada? Achei que eles pudessem resolver, investigar, cuidar dela.

— Confiou ao papai algo que só você podia ver!

— E você não faria o mesmo?! — Ela respirou fundo novamente, tentando manter o pouco de postura que lhe restava. Boruto sentia a indignação crescendo em seu peito, tomando espaço demais para alguém tão novo. — Eu estava com medo, Bolt. Morrendo de medo do que poderia acontecer conosco.

E apesar de entender, não lhe parecia justo em nenhum aspecto, à nenhum dos lados e à ninguém.

— Mas no dia seguinte tive que ver Toshiko pedir pela própria morte, sem misericórdia de si mesma, sem controle, quase ajoelhando aos pés de Hitomi e gritando a quem estivesse por perto o quanto não aguentava viver daquela forma. Estava sendo controlada e atormentada por algo, e eu sabia ser por aquela massa que a cobria e estava costurada ao chakra dela. Ela sequer havia sido capaz de tirar a própria vida.

Respirar doía.

— Hitomi fez o que tinha que fazer. E quando acabou, quando só existia noite, quando alguém finalmente chegou, tudo já havia acabado há horas. Éramos só nós e um corpo no chão. Hitomi sentada, coberta de sangue e choro ao lado de Toshiko, e eu, incapaz de sair, escondida numa árvore.

— Quem…?

Hokuto bufou.

— Não importa. Eles foram embora e, quando pude voltar para casa, você também tinha ido. Repentinamente, eu não tinha ninguém. Nada além de… — Ela voltou a olhar para ele, porém com os olhos negros que de modo algum combinavam com seus traços. Boruto não conhecia aqueles olhos, a escuridão penetrante que fazia deles seu refúgio e morada, perpetuando uma dor imensa e marcando mais que nunca qualquer que fosse o pecado escondido no dom de Hokuto. Foi o garoto a desviar o olhar, não suportando sustentá-lo por mais tempo. — Encontrei Himi na manhã seguinte e contei tudo que pude, 'ttebane.

— Ela…

— Ela sabia sobre mim. Sobre o Torōgan. Eu já havia dito.

A cada nova informação, o menino se sentia flutuando dentre as linhas de um passado que ele, apesar de ter estar lá, não pôde participar. Não sabia de nada daquilo, e agora tudo parecia estar intrínseco à vida que levava agora.

— Ela ficou furiosa. —Prosseguiu a menina. — Gritou comigo e me acusou de ter culpa. Disse que era o sangue de Toshiko que estava em minhas mãos, que minha falta de sinceridade a havia matado. Que eu tinha traído ela. Me expulsou dizendo que já não precisava de mim… — Uma pausa longa foi feita antes da próxima frase, deixando um silêncio consistido da pura agonia e tristeza. Boruto tentava refletir sobre aquilo que havia partido seu grupo ao meio, tirado à força uma parte crucial de quem era e teria tido chance de ser. A vida que lhe era prometida na partida em nada parecia com aquela que o recebera na tão desejada volta, e acabara por perder ainda mais do que tinha sido capaz de dar ou ganhar. A verdade, aquela tão esperada a suprir seus tormentos, só o molestava mais, reprimindo, reescrevendo, refazendo as estruturas que, ali, o compunham. — Disse que me perder não faria diferença.

Hokuto chorava.

Boruto olhou a menina, e a visão que teve não deixou restar mais nada: era diminuta. Consideráveis centímetros mais baixa que ele próprio, abalada, culpada, anulada por si mesma. Sua irmã, sempre uma figura digna de admiração, era só mais uma pessoa quebrada, tal como ele era. Aquilo foi o bastante; na verdade, já era demais.

— Eu sinto muito. — Foi a única coisa que disse antes de se levantar e deixar a barraca.

Notas finais
Heeeey!!! E aí, o quê acharam? ❤️