Notas iniciais
"Samantha, não custa nada deixar alguém ser gentil com você. Estou tentando fazer isso. Pode ser?" *Revisado em 08/03/2016.

Eu preciso saber o que isso significa. Por que Neto tem essa magia angelical? Por que eu só posso sentir agora? O que está acontecendo?

No caminho para casa, mil respostas passam pela minha mente, uma pior do que a outra. Não há uma justificativa plausível, esta é a verdade. Os humanos não possuem esta magia que nós, anjos, temos. Eles não conseguem sentir a presença um do outro da mesma forma que nós sentimos. E nós também não sentimos a presença deles. Mas como posso sentir a aura de Netinho?

— Como? – murmuro comigo mesma. Claro, eu havia esquecido que Rael está ao meu lado.

— O quê? – pergunta.

— Hã? – Levanto a cabeça. – Ah, nada. Estava só me perguntando sobre Netinho.

— É, eu também estava levantando algumas hipóteses.

— Tipo? – incentivo-o a falar.

— Quê? – Ah, Pai, ele não conhece gírias assim.

— Tipo, como, que natureza de pensamentos – explico.

— Ah! Entendi… Hmm, pensei que ele poderia ser um anjo também.

— É mesmo?! Nossa, nem tinha imaginado – falo, ironicamente. – Pelo amor do Pai, Rael! Esta não é a explicação! Não pode ser!

— E por que não?

— Bom, porque, primeiro, ele tem família. Ele nasceu aqui.

— Nós também nascemos aqui, ou você esqueceu isso?

Olho para ele, fazendo-o se calar. A questão é que não é só o nascer aqui. Todos os seres nascem aqui. Mas ele tem ligações sanguíneas e tem uma forte aura humana também. Não há nenhuma explicação lógica para a magia que o cerca.

— Será que tem a ver com a Página modificada? – Rael questiona.

— Mas por que teria?

— Eu não sei! Foi só uma suposição!

— Tá, tá. Me deixa pensar.

E sigo em silêncio pelo resto do caminho.

Chego em casa algum tempo depois. Rael se manteve calado e continua assim. Imagino que a mente dele esteja trabalhando na mesma velocidade que a minha, mas sabe-se lá que rumo está tomando! Vou para o meu quarto, tiro minhas roupas e vou para meu banho.

Neto tem uma aura angelical. De um dia para o outro, isto surgiu nele. Que dia é hoje mesmo? Vinte de julho. Hmm… A data fatídica é vinte e três de agosto. Mas quando as pessoas morrem, não se tornam anjos. Até onde eu saiba.

Não, eu não sei como nós nascemos. Acho que existimos, apenas. Vimos da mente do Pai, ou Ele nos cria, molda-nos. Não faço a menor ideia. Sei somente que, um dia, eu existi. Eu simplesmente tomei consciência do meu corpo, minha mente, minha missão. E eu existi. Sabe aquela frase “penso, logo existo”? Pois bem. A frase da minha vida.

Se anjos são imortais? Não faço a menor ideia também. Acho que sim. Nunca vi anjos muito mais velhos do que eu. Há algumas crianças, alguns adolescentes – como eu e Rael – e alguns adultos. Talvez existam alguns idosos também. Ou talvez eles só descansem. Todos nós, no entanto, temos uma coisa em comum. Um dia, simplesmente passamos a existir. Eu simplesmente apareci naquele local e pronto. Nada lembro de antes ou nada existe antes disso.

A vida é um segredo até para nós, seres celestiais. Nada sabemos dos Mistérios do Pai ou do Seu Livro. Ele é perfeito e tudo o que faz é perfeito. E isso basta.

Mas e quanto a Neto?

— Samantha, vem, o jantar está pronto! – O grito de Rael vindo da cozinha me faz sair do banheiro. Visto-me rapidamente e vou para a cozinha. Estou com tanta fome que sou capaz de comer até um boi!

— Oi, oi, oi! Cheguei!

— Senta. Vou servir você.

Ergo uma sobrancelha. Me servir?

— Para quê isso? Posso muito bem me virar sozinha!

— Samantha, não custa nada deixar alguém ser gentil com você. – Ele se vira para mim. – Estou tentando fazer isso. Pode ser?

Dou de ombros e me ajeito à mesa. Estico o braço para roubar um pedacinho do pão, quando Rael me surpreende:

— Samantha…

— Saco! – resmungo. — Então adianta, porque estou com fome!

— Se você tiver paciência, vou terminar.

Cruzo os braços enquanto Rael se aproxima de mim e começa a encher meu prato. Strogonoff, arroz e batata palha. Depois, serve a si mesmo, e finalmente se senta.

— Posso? – e aponto para meu prato.

Ele sorri de lado, faz uma oração de agradecimento e assente. Começo a comer devagar, tentando saborear a comida. Meu Deus, isso aqui está muito bom! Hmmm… Ai, Pai, que comida deliciosa!

— Samantha, respira. Você vai engasgar.

— Nunca vi um anjo morrer engasgado – digo, fazendo um movimento de descaso com a mão.

Rael se cala. Pelo canto do olho, vejo que está fazendo uma careta.

— O que foi? – pergunto.

— Nada. – E volta-se para seu prato.

— Fala logo, Rael. O que foi?

Seu olhar se fixa em meu rosto por um momento, e então desce para meu braço.

— O que foi isso?

Olho também. Há uma grande marca roxa no meu braço direito. Toco-a e exclamo:

— Ai! Aquele babaca deve ter apertado muito forte.

Rael se levanta abruptamente da cadeira e se aproxima de mim, ajoelhando-se ao meu lado. Segura meu braço e pergunta:

— Que babaca? O que aconteceu? Ele te machucou? – Encaro seus olhos e me surpreendo com o que vejo. Preocupação.

— Foi só... – murmuro, perdendo-me um pouco no seu olhar. Balanço a cabeça e repito: – Ele só tentou fazer algo que eu não queria e segurou meu braço. Então briguei com ele.

— Ele tentou o quê? – Seu olhar endurece. – Quem é ele?

— Não sei o nome dele.

Rael fecha os olhos e respira fundo. Depois de dois segundos, me encara.

— Fica aqui, tá bom? Eu já volto – pede.

— Tá – murmuro, quase sem voz.

Ele sai para seu quarto e volta menos de cinco minutos depois. Puxa a cadeira e se senta ao meu lado. Gentilmente, toma meu pulso e abre uma caixinha que trouxe consigo.

— Isso aqui vai fazer melhorar – diz, enquanto passa uma pomada no local dolorido. Observo seu trabalho. Ele pega uma espécie de bolsa de gel e coloca sobre minha pele. Meu coração palpita por dez segundos. – Você vai colocar essa bolsa a cada hora, por dez minutos. Depois coloca na geladeira.

Não digo nada, apenas o encaro. Eu não sei o que se passa na mente dele, mas a minha está muito confusa. Rael me encara de volta e ficamos assim, nos olhando. Então ele se levanta e vai em direção ao quarto, quando eu o chamo:

— Rael. – Ele me olha. – Obrigada. Por sua gentileza. E por... cuidar do meu braço. Você sabe.

Ele sorri.

— Não se preocupe, Samantha. Estou aqui para isso.

Sorrio também.

— Sam. Me chame somente de Sam.

— Sam. – Sorri de novo. Desta vez, um sorriso diferente. – Sam.

Notas finais
Heey, é, eu sei que demorei! Desculpa! Mas poxa, só um comentário, sério? :( Fico triste! Espero que gostem desse! E obrigada a Biia Potter Duchannes por comentar! Beijoos