Notas iniciais
"Só vá até o final disso se estiver preparada para o que está por vir, Sam. Se for até o fim, poderá perder muita coisa." *Revisado em 06/04/2016.

Depois de uma noite inquieta cheia de pensamentos indevidos, levanto-me e decido me preparar para o dia. Involuntariamente, contraio-me pensando em como será ao encarar Rael esta manhã. Provavelmente estou terrível e meu rosto deve estar inchado com enormes olheiras, mas resolvo que não me importo. Rael que vá procurar a turma dele! Ou melhor, outra! Piso duro enquanto saio do quarto.

— Bom dia – ele me cumprimenta.

— Fale isso comigo de novo apenas depois que meu dia estiver bom – retruco. É, eu não estou de bom humor hoje. E não estou nem aí!

— Eita, para quê essa violência, mocinha? Saltou da cama com o pé esquerdo?

Não, seu imbecil, somente não dormi, por sua causa! É isso que quero dizer, porém mantenho minha boca fechada. Não vou dar esse gostinho a ele. Nem. Morta.

— Vá procurar outra para encher a paciência de manhã cedo, Rael. Estou sem nenhuma para você hoje.

— E quando é que você tem alguma? – replica. Viro-me para ele, uma vontade enorme de socá-lo tomando conta de mim.

Dez. Nove. Respiro fundo. Oito. Sete. Seis. Ah, meu Pai, só um beliscãozinho… Cinco. Quatro. Ok, não, eu sou um anjo, certo? Posso me controlar. Três. Dois. Está vendo? Está dando certo. Rael não pode me atingir. Um. Dou as costas para ele ao responder:

— Para você? Nunca.



É isso aí. Eu sou uma anjo má, muito má. Eu deixei o senhor Sou-Completamente-Correto-Rael sem palavras. E o melhor, fiz com que não me seguisse! Viva! Um parabéns para mim!

O caminho para faculdade não demora muito. Distraída, cantarolo uma música qualquer que posso ter ouvido por aí. Meu inglês não é uma das sete maravilhas do mundo, então só canto baixinho ou quando estou sozinha. Talvez por causa disso, levo um susto quando uma mão toca meu ombro.

— Mas que ousad... – interrompo-me quando vejo de quem se trata. Então jogo-me em seus braços. – Gabriel! Por onde você se meteu? Senti sua falta…!

— Eu estava Trabalhando, não é, dona moça? – pergunta de volta, cruzando os braços. – Aliás, esta é a pergunta que eu deveria fazer a você. Cadê Rael?

— Não sei. Está no raio que o parta – resmungo. — Escuta aqui, eu sou sua irmã, não ele. Você não deveria perguntar como euestou? Não é isso que pessoas normais fazem?

Meu irmão sorri e dá de ombros.

— Mas eu não sou uma pessoa. Sou um anjo.

Olho em volta, alarmada. Gabriel não tem o menor senso de localização, apesar de ser do Alto Esquadrão do Pai. Ele simplesmente sai falando o que quer, sem se importar com quem possa ouvir. Mesmo que nunca tenha se metido em encrenca, ainda tenho medo que alguém possa desconfiar.

— Ah, para com isso, Sammynha! Ninguém liga para o que eu digo – perturba, puxando meu cabelo. Finjo estar emburrada.

— Não me chama assim! E eu não diria isso. Já reparou o tanto de olhares femininos que você está atraindo?

Ele dá de ombros, enquanto olha em volta.

— São humanas. Minha missão é proteger, e não me apaixonar por alguma.

— Ah, qual é! Vai dizer que durante séculos, você nunca se apaixonou por uma humana? Nunca? Nunca, nunca, nunca? – provoco, ainda que eu saiba a resposta. É claro que não. Gabriel é um exemplo de Guardião. Ele faz seu Trabalho com prazer e amor, dedicando toda a sua existência. Se bem que me pergunto se nós, anjos, temos outra escolha. Quero dizer, é isso ou ser um Caído.

Mas para minha surpresa, Gabriel hesita um pouco para falar. Encara-me e, por alguns instantes, noto uma faísca em seus olhos. Logo após, no entanto, ele retoma sua segurança e responde, descontraído:

— Sou um anjo, Samantha. Anjos não podem se apaixonar por mortais.

Puxo-o em direção ao prédio onde serão minhas aulas do dia. Apesar de ser um anjo, não posso me atrasar, certo?

— Sim, mas e os…?

— Os?

— Os Descendentes! Eram filhos de anjos com mortais, estou errada?

— Não necessariamente filhos de anjos. Porque o Pai deu a estes 10 escolhidos uma vida mortal…

— Mas eles ainda tinham a sua aura e seu poder divino, Gabriel! Foi assim que os Descendentes foram gerados!

— Você só está esquecendo um detalhe, Sammynha: não existem Descendentes.

— Que você saiba.

Chego à minha sala, finalmente. Despeço-me, então, de Gabriel e viro-me para entrar. Porém sua voz me faz ficar grudada ao chão antes de ele desaparecer:

— Só vá até o final disso se estiver preparada para o que está por vir, Sam. Se for até o fim, poderá perder muita coisa. Prepare-se para a mudança. E lembre-se: você, Samantha, não é um anjo comum.


A manhã passa como uma flecha. Até tento prestar atenção em algumas aulas, mas antes mesmo da metade do período, eu já estou com a mente vagando. Penso no que meu irmão me disse e fico imaginando mil e um significados para aquilo. Eu não sou um anjo comum? Bom, disso todo mundo já sabia! Mas… O que está por vir? Por que eu devo ter medo disso? Eu só estou Trabalhando, certo? Só estou sendo a Guardiã de Neto.

E por falar nele, é justo a sua aula que assisto agora. Nunca fui excelente em física ou cálculo avançado, porém não me preocupo. A única coisa que me interessa nesta sala de aula é o espetáculo da vida que está em minha frente.

Enquanto observo Netinho, vou reparando cada detalhe seu. A alegria que emana de cada poro do seu corpo ao ensinar algo, o prazer em ser um professor, o amor pelo que faz, o brilho nos olhos. No entanto, não é somente isso. Ele transpira Vida. Isso mesmo, com V maiúsculo. Não há como descrever de outra forma. Sua presença contagia todos os lugares, todas as pessoas. Neto é um sopro de felicidade mesmo nas almas mais tristes.

Não é justo que pessoas tão maravilhosas tenham que morrer.


— Samantha! – a voz de Rael me sobressalta. Meu Pai, será que não vou ter um tempo de sossego hoje? – Por onde você andou?

— Pelo chão. Não posso voar, lembra? – respondo, dando as costas para ele.

— Ha-ha, engraçada. Espera aí. – Ele segura meu braço e me vira para lhe encarar. Por um breve instante, meu coração perde o compasso, o que me aborrece. Levanto uma sobrancelha. – Você está fugindo de mim ou me evitando?

— E por que eu faria isso? – questiono de volta, fazendo-me de desentendida.

— Por causa do que aconteceu ontem à noite – diz, impaciente.

Puxo meu braço, aproximando-me dele, e falo baixo e de maneira dura:

— Não aconteceu nada ontem à noite.

Fixo meu olhar no seu por alguns longos segundos, esperando que isso o intimide. Mas não é isso que acontece. Seu olhar é ainda mais desafiador.

— Um beijo não é a minha definição de nada.

— Isso é um problema seu! Para mim, continua sendo nada.

— Não. Não é. Se fosse, você teria beijado muitos outros caras por aí. Se fosse simplesmente nada, você não estaria me evitando.

— Eu não estou te evitando! – elevo minha voz. – O que você quer, afinal? Tem algo importante para dizer?

Sua expressão séria faz meu corpo tremer levemente.

— Muitas. Mas por enquanto, quero duas coisas.

— Prossiga.

— A primeira é dizer que encontrei algo muito interessante na biblioteca de Casa, sobre Netinho.

— Jura?! – A animação toma conta de mim. – Então diga!

— Você precisa ver. Eu levei para casa.

— Tá, então vamos logo!

— Ainda falta a segunda coisa – fala.

— Diz logo, Rael, quero ir para casa!

— Não é dizer. É fazer.

Então ele me prende pela cintura e me beija ali mesmo, no corredor, com dezenas de olhares femininos me fulminando.

Notas finais
Capítulo maior? Capítulo maior! Ooi, meus anjinhos! Sentiram minha falta? Não, né? Eu sei. Enfim, digam-me o que acharam do capítulo! Muito parado, confuso, estranho? Eu quis colocar um pouquinho de tudo... Ah, gente, me bateu uma saudade de Netinho hoje :( Bem, o capítulo anterior foi bem curtinho, por isso não estabeleci o "comentou, postou." Mas esta história dá muito trabalho para escrever, anjos! História real é difícil de ser fiel, sabia? Beijoos, amo vocês