Seja Um Anjo
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Notas iniciais
É isso aí. Mais um dia de ócio neste monte de merda – lê-se colégio. Ou melhor, o último dia de ócio. Não que não haja muito o que fazer durante o período letivo. Não, sempre há toneladas de atividades, exercícios, pesquisas... O que eu quero dizer é que essas coisas não mudam. Nunca.
Olha lá, lá vem o grupinho nerd. São os alunos que sempre sentam nas primeiras fileiras da classe, sempre levantam a mão para responder todas as perguntas e (quase) sempre são os preferidos dos professores. Este grupo, em particular, é o preferido da escola. Convivi com eles durante todo o meu Ensino Fundamental e boa parte do Ensino Médio. E eles sempre se vestiam da mesma forma. Calças jeans, a farda da escola e uns óculos quadrados grandes (que me parecem ser a moda do momento).
— Oi, Samantha – Luís fala comigo.
— Oi – respondo, e então sigo meu caminho.
Veja bem, não sou uma nerd. Ou talvez eu seja. Minhas notas são relativamente altas e Luís sempre está tentando me incluir naquele grupinho. Mas eu não gosto de panelinhas. Não, obrigada. Estou muito feliz do meu jeito.
Mais à frente, estão as populares e desejadas. São as garotas que metade da escola já pegou, e a outra metade quer pegar. Sem estereótipos definidos, baixas, altas, loiras, morenas, ruivas, negras, magrinhas ou gordinhas. Não importa como são, são sempre as meninas mais bonitas do colégio. E eu... Bem, eu também não quero me meter com elas. Nem contra nem ao lado. O que têm de lindas, têm de malvadas.
Ah, é, ainda estou parada aqui na frente do pátio, procurando as Vacas. Bom, Vacas são as minhas amigas. E nem vem, é normal chamar amigas assim.
Decido ir para a primeira aula do último dia deste Hades. O prédio da escola é relativamente grande, com cerca de trinta salas, além de biblioteca, auditório, jardins, quadras, cantinas, diretorias e mais um monte de outras salas que nem sei para que servem direito. Só sei que estão aqui.
Oh-oh! Alerta de boys-que-se-acham-infinitamente! Este é o grupinho com que eu menos tenho paciência. Formado por garotos cheios de músculos que geralmente pegam as meninas populares e desejadas, monopolizam a quadra, os assentos do fundo da classe e todos os espaços relativamente coolsdaquela escola. São sempre convidados para todas as festas, e também são sempre eles que se metem em confusão.
Graças a Deus, estou indo embora destes Campos da Punição hoje!
Okay, é hora da aula. Vamos lá.
— Samantha! – ouço o grito de uma das Vacas. Viro-me e lá está ela: Bárbara. Vem correndo em minha direção e me segura pelo braço, quase fazendo nós duas cairmos.
— Onde vocês estavam? Fiquei esperando um tempão! – reclamei.
— Estávamos com os MUPS.
— Meu Deus, vocês não desgrudam deles!
— Ah, qual é, Sam, você vai sentir falta deles também... – diz Laryssa, que acaba de chegar.
Reviro os olhos e não respondo.
— MAPS! – a voz de Ramon inunda meus ouvidos. Ele me aperta em um abraço de quebrar os ossos, e eu retribuo.
— Monka, você está me sufocando! Que perfume é esse? Não consigo respirar, meu Deus! – A minha voz mal sai, por causa da falta de ar em meus pulmões.
Ele finalmente me solta e abraça as outras meninas. Logo, todos começam uma conversa animada, que basicamente é quem fala mais alto e se faz ouvir. Porque eu não entendia absolutamente nada e só fazia dar risada.
Ah! Você deve estar se perguntando o que são MAPS ou MUPS. MAPS significa Melhores Amigas Para Sempre; um nome criado por nós basicamente para zoarmos umas às outras. E MUPS significa Mongoloides Unidos Para Sempre; um apelido criado pelas MAPS para zoar nossos amiguinhos.
Olhei para cada um daqueles rostos. Éramos doze: quatro meninos e oito meninas. Bárbara, Brena, Carol, Laís, Laryssa, Marina, eu, Rafaella, Ramon, Rodrigo, Felipe e Matheus. Tivemos momentos tão inesquecíveis, tão memoráveis... Cada riso, cada briga, cada provocação parecem ter sidos gravados a fogo em minha mente.
Permito-me ficar triste e nostálgica por um instante. Quando sairmos deste prédio hoje, tudo isso terá ficado para trás. Cada um de nós irá seguir seu caminho. É claro que conseguirei manter contato com as meninas, mas os meninos moram em outro lugar. Cada um está indo cursar a sua faculdade. Bárbara e Laís ainda deram sorte porque vão estudar juntas. O resto de nós... Bem, não tanto.
Mas hoje é dia de festa, digo a mim mesma. Tenho que me despedir de meus amigos, e farei isso com estilo. Assim, divertimo-nos até o horário bater.
E nossos caminhos se separam.
O ponto de ônibus não é muito longe da minha escola. Enquanto espero, as lembranças dos momentos com minhas amigas vêm e vão. Um pressentimento toma conta do meu peito, mas não sei o que ele significa. Resolvo ignorá-lo e só chegar em casa bem. Sem choros, sem saudades. O ônibus chega e eu subo.
Olho a rua pela janela. Ignoro enquanto os outros passageiros se acomodam e não reparo na pessoa que se senta ao meu lado. O automóvel começa a se locomover e eu me ajeito na desconfortável cadeira.
— Último dia de aula? – pergunta a pessoa que está ao meu lado. Um jovem. Pela voz, não parece ser muito mais velho do que eu. Sequer o olho.
— É.
— Sua camisa é diferente. Concluiu o terceiro ano?
— Foi.
É, eu sei. Mas, ei, minha mãe me ensinou direitinho – nada de conversar com estranhos!
— E em que pretende se formar?
— Medicina.
O cara fica em silêncio por um momento. Arrisco-me olhá-lo de rabo do olho, porém ele está usando um boné que dificulta a visão do seu rosto. Retomo a minha contemplação da rua. É quando meu telefone toca.
— Oi, vaca! – falo. É Laís.
— Onde tu tá, vey?
— Tô indo pra casa. O que foi?
— Tu não tinha dito que ia tomar sorvete com a gente?
Levanto as sobrancelhas.
— Eu disse?
— Afz! Não fala comigo mais, não! – Lai retruca, imitando Matheus. Eu rio. – Sim, mas tu vem, né?
— Vou, Lai. Só vou almoçar e volto.
— Tá bom, mas não demora! Beijos! I need you!
— Tá. Beijos. I need you too!
Desligo a ligação e percebo que o cara está me olhando.
— O que foi? – pergunto.
— É assim que você trata suas amigas? – replica.
— Filho, minha mãe não briga comigo e nem elas reclamam, então não tenho por que dar ouvidos a você!
O ônibus começa a parar e o cara vai se levantando.
— Seu lugar não é aqui, Samantha. Você sabe disso, não sabe?
Fico tensa, mas faço com que minha voz saia com naturalidade.
— Não faço ideia do que você está falando.
— Você sabe, sim. Fique avisada. Não pode mudar o rumo das coisas, Samantha. As coisas são como devem ser. Você não quer machucar as pessoas que você ama, quer?
Bufo, com raiva.
— E quem é você, afinal, para me dizer qualquer coisa?
Ele se levanta e sai do carro.
— Não me importa o que você diga! Você é louco! Sei o que estou fazendo! Idiota! – grito pela janela.
Quando volto a me sentar, noto que todos estão me encarando. Baixo os olhos para o assento ao meu lado e percebo algo que não estava ali antes. Um livro.
299km/h.
Droga!
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