Seja O Que Parece Ser
1 Presa num Orfanato
Notas iniciais
Alice era a menina mais velha do orfanato. Ela estava lá desde seus três ou quatro meses de idade. Conhecia todo mundo, e todo mundo a conhecia.
Mas ela não era, e nunca fora uma pessoa sociável. Ninguém conversava muito com ela, ela era muito calada.
Quando tomou uma certa idade, as mulheres do Orfanato a avisaram que seus pais haviam morrido. Ninguém sabia como.
Mas Alice achara isso normal. Quando tinha vislumbres de seus pais, eles pareciam super acolhedores e com condição de criá-la. O único motivo viável de ela ter ido para o Orfanato era a morte deles.
A pobre menina não sabia, mas todos a achavam muito esquisita. Muito calada, com roupas muito engraçadas, acessórios dos mais variados, os brilhantes cabelos loiros muito bagunçados o tempo todo.
Não que ela fosse mal- cuidada. Muito pelo contrário. Só seu gosto era diferente. E suas crenças, e principalmente seus sonhos.
No Orfanato, nada demais acontecia. Consistia apenas em estudos, refeições e dormitório. Mas era um lugar realmente grande para um orfanato, com um grande jardim nos fundos... Este era o local favorito de Alice. Sempre sentava lá para ler.
Naquele dia frio de inverno, Alice usava um vestido azul-bebê, uma meia-calça listrada de preto e branco, uma bota daquelas que os rockeiros costumam usar e um laço preto na cabeça. Ah, e aquele dia era um dos poucos que o cabelo dela estava arrumadinho.
Ela estava lendo seu livro favorito: "Alice no País das Maravilhas". Ele ficava na biblioteca do Orfanato, junto com o segundo favorito dela: "Alice Através do Espelho".
Existiam muitos motivos para ela amar aquele livro: seu nome era o mesmo da personagem principal, existiam muitos personagens legais (bem melhores que suas colegas de orfanato) e seus sonhos eram sempre parecidos com o País das Maravilhas. Na verdade, era exatamente aquele lugar que ela chamaria de "paraíso".
Ela suspirou, colocou o livro cuidadosamente no banquinho do jardim, e começou a brincar com a gatinha do Orfanato. O nome dela era Snowball, pois era branquinha e seu pelo era bem denso. Mas Alice sempre a chamou de Dinah.
–Venha, Dinah! Estou com tanta saudade de você!- Ela disse, dando um abraço na gatinha -Por onde você tem andado?
"Miau", respondeu Snowball. Ou melhor, Dinah.
–Então, você resolveu conhecer a cidade? E aí, como é ela?
A gata ronronou.
–É muito grande? Isso eu já esperava.
De longe, a diretora do Orfanato observava. Snowball se aproximava apenas de Alice e da moça que lhe dava comida. Do resto, ela tinha medo.
A Diretora, como todos, achavam Alice esquisita. Mas ela achava que essa esquizitisse estava se tornando maluquice.
Então, a Diretora se afastou e foi para sua sala. Tinha mais o que fazer, não poderia perder tempo observando uma menina maluca conversando com um gato.
Então Alice deu uma bocejada e colocou Snowball no banquinho.
–Ah, Dinah, esse livro- ela apontou para o exemplar de "Alice no País das Maravilhas" — é totalmente perfeito. Digamos que ele está cheio de figuras e diálogos. E qual é a graça de um livro sem figuras nem diálogos?
–Esse livro faz parte do mundo no qual eu imagino... Faz parte do que eu acredito! Esse mundo, no qual eu vivo... ESSE mundo é fantasia. Mas o País das Maravilhas é o mundo real. É o mundo onde tudo que é, não é. E tudo que não é, é. Isso é, tudo que não fosse, seria, e tudo que fosse, não seria! Entendeu, Dinah?
A gata miou e voltou a lamber sua pata.
–Sabia que entenderia. Você é a única que me entende neste mundo falso.
Então Snowball se afastou, e Alice ficou sozinha. Ela contemplou algumas àrvores e plantas do jardim. A maioria estava seca por causa do inverno.
Alice suspirou novamente. Até que viu...
–Um coelho branco... De colete e de relógio!
E correu atrás dele como nunca correra antes.
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