Seis Lágrimas
14 O primeiro
Notas iniciais
“Don't leave me now
Don't say goodbye
Don't turn around
Leave me high and dry
I hear the birds on the summer breeze, I drive fast
I am alone in the night
Been trying hard not to get into trouble, but I
I've got a war in my mind
I just ride, I just ride”
Ride – Lana del Rey
Nos últimos capítulos — Boston:
Regina sorria. Estava flutuando, voando! Emma acreditou e via-se um sorriso em seus lábios também. Abriu os olhos e olhou a morena. Estendeu a mão para ela, que fez a mesma coisa. Não falaram nada, só deram as mãos e começaram a girar.
***
(R) — No fim... Magia é sobre sentimento, sobre visão... Ou então é só sobre acreditar...
(E)-Acreditar... — Emma repetiu pensativa.
(R)-Acreditar sem provas...
(E)-Então... Magia é sobre fé?
***
–Alô, Tom! Preciso do seu carro.
***
– Bom dia, miss Swan. — O tom da morena era mais animado do que o usual.
– Bom dia, Regina. — devolveu, evidenciando seu mau humor
***
–Miss Swan, volte agora com esse carro!
–Não.
***
–Onde pensa que vai, Sra.Mills?
–Pra casa.
–A pé?
***
–Parque Florestal Nobre Cisne. — a morena parou de andar. Emma pisou no freio. — É pra lá que pretendia te levar. Conhece? — A morena a fitou.
–Está bem. Vamos.
***
–E por que insistiu em vir comigo?
Emma estacionou o carro, tirou o cinto e olhou para a morena.
–Um desafio é sempre mais interessante.
A loira deixou o banco do motorista e Regina sorriu, gostando do termo “desafio”. Aquela loira também era um desafio. A partir daquele momento, a juíza teve certeza de que sua vida iria mudar. Era como ver algo grande vindo.
***
Em um instante, quando a loira estava concentrada falando com seu monitor e o de Regina havia ido resolver um problema rapidamente, a morena segurou firmemente as rédeas e mexeu o corpo de tal forma que o cavalo começou a correr. Emma gelou enquanto Regina sorria desafiante para si mesma.
***
Alguns instantes depois, surgiu à frente da morena e o cavalo da fugitiva empinou, dessa vez, assustado. Regina segurou o máximo que pôde, mas acabou escorregando e caindo ao chão.
***
A loira pegou na mão da juíza e a guiou para mais perto do precipício. Chegaram a uma distância razoavelmente segura do limite e então aconteceu. Um vento arrebatador vindo de baixo, com cheiro de sal e mar, as atingiu. Ambas fecharam os olhos e deixaram-se sentir aquele vento, aquela liberdade.
***
Palmas e assovios preencheram o ar. Era quase meia noite e metade das fogueiras já estavam apagadas, soltando fumaça ainda, verdade. Elas despediram-se e voltaram, cambaleando um pouco, em direção aos chalés.
***
Incontáveis vaga-lumes passeavam por ali. Tantos e tantos quanto jamais alguma delas se recordava de ter visto. Aproximaram-se e eles as rodearam. Ficaram ali por um tempo, boquiabertas.
***
Quando a morena deitou-se, a loira saiu da janela. Mas não sem antes enroscar a perna no apoio de peito e quase cair. Isso provocou um riso gostoso em ambas, e aquela mesma sensação que a juíza experimentara instantes antes incomodou as duas.
***
–Eu gostaria de ter filhos.
A confissão de Emma surpreendeu Regina, que abrira os olhos, mas não se movera.
–E... E aquele cara... O dono do carro?
–O Tom?
–Sim. Ele parece ser alguém importante para você.
–Ele me ama, Regina.
***
–Realmente não presto muita atenção nisso. Esses misticismos não combinam comigo. Mas fiquei sabendo quando estava foleando alguma revista, eu acho... Por algum motivo nunca mais esqueci. Esqueci de todos os outros, mas não esse.
***
Nesse momento o Dj começou a tocar “Burning Love”, de Elvis Presley. A morena agachou e a loira aproximou-se. Rapidamente ela segurou a regata branca de Regina, seu ombro esquerdo e a puxou para dentro da água. Ambas mergulharam, e quando retornaram à superfície, a juíza só faltou matar Emma.
***
A morena apresentou um penetrante e ameaçador olhar, mas, ao contrário de todas as expectativas, revidou, jogando água naquela que a havia arrastado para água. Depois de um tempo em que uma jogou água na outra, as duas estavam rindo.
***
Quando a loira foi limpar o outro lado da face da mulher que estava à sua frente, por alguns instantes tocou-lhe o rosto com ambas as mãos. Nesses mesmos segundos, Regina demorou-se com os olhos fechados, causando mais um arrepio velado na espinha das duas.
***
A loira saiu do carro para acompanhá-la até a porta do edifício onde juíza trabalhava. Despediram-se, um pouco sem graça uma com a outra, principalmente quando a monitora pediu para manter contato. Quando ia voltando para o carro, viu em uma vitrine dois colares de corações. Um coração negro e um vermelho. Não eram grandes joias. Apenas boas bjuterias. Emma ainda estava com Regina em mente, por isso os imaginou para ela. Apesar de que o preto lhe pareceu que combinaria mais com a juíza. Comprou-os. Um para si, outro para a rainha recém-descoberta. Realmente, nunca mais esqueceria esse nome. Tampouco seu significado.
***
Ao longo das três semanas seguintes após o passeio ao Parque Florestal Nobre Cisne que Emma fizera com Regina, as duas mulheres ocuparam-se com seus respectivos empregos, ainda que fossem constantes os encontros marcados nessa ou aquela cafeteria para que pudessem conversar e se conhecerem melhor. Ambas eram suficientemente solitárias para saber o valor que uma companhia agradável tem, mesmo que teimassem em não admitir claramente isso. Atitude essa que era mais presente na morena.
Além das cafeterias, livrarias, restaurantes e uma ou outra loja de roupas também fizeram parte dos locais os quais decidiram visitar juntas. Claro que a juíza possuía um gosto muito mais refinado para suas vestimentas. Ainda assim, com muita insistência por parte de Emma, Regina comprara algumas peças que combinavam mais com o estilo casual da loira. Em verdade, a morena já tinha algumas, mas raramente as usava. Claro que a monitora também tivera de topar mudar um pouco o estilo. Um vestido lilás e uma camiseta mais trabalhada foram as peças escolhidas por Regina para Emma. Sair da zona de conforto se mostrou um divertido desafio.
Em um dos domingos foram ao cinema assistir a um romance que agradara tanto a juíza quanto a monitora. A pipoca e o refrigerante saíram por conta da loira, que, a muito custo, conseguiu convencer a morena que algumas daquelas porcarias não a fariam engordar naquele momento. E ainda que engordasse, estaria bonita do mesmo jeito. Não fora uma tarefa realmente muito fácil.
E aquele era mais um dia em que iriam se ver. Mais uma sexta-feira. Mais um almoço. Uma distração a mais. Quando o celular de Emma tocou, a loira estava sentada em um banco em sua cozinha, bebericando alguns goles de café recém-aquecido e observando atentamente os colares que havia comprado com os pingentes em forma de coração. Tocava-os delicadamente com as pontas dos dedos, concentrada. Concentração essa que fora quebrada com o anuncio de que a morena havia chegado e estava esperando em frente ao prédio. A monitora fora ao encontro da juíza, mas optou por não levar os colares consigo. Trancou a porta de seu apartamento e desceu pelo elevador.
–Boa tarde, Miss Swan.
–Boa tarde, Regina. — cumprimentou enquanto prendia o cinto.
–Então... — Onde gostaria de ir? — deu partida e acelerou.
–Na verdade eu ia fazer a mesma pergunta.
–Entendo. Conheço um restaurante aqui perto que é bom.
–Tudo bem pra mim.
As duas ficaram um tempo em silêncio, até a morena estacionar o carro em frente a um estabelecimento que apresentava uma bela fachada. Enquanto desatavam os cintos, a loira indagou:
–Está tudo bem, Regina?
–Bom... Contando que eu tive um manhã péssima no trabalho... Não.
–O que houve?
–Vamos entrar, miss Swan. Conversamos lá dentro.
Regina vestia suas costumeiras roupas sociais para o trabalho, uma saia preta que ia até depois do joelho, uma blusa social verde clara com babados nas extremidades, algumas pulseiras e aneis discretos, brincos de ouro, um relógio suíço, batom vermelho já um pouco gasto, as unhas perfeitamente feitas e pintadas de vinho e um salto não tão alto também verde, porém em um tom mais escuro. Sua bolsa preta a acompanhava. Emma voltara do trabalho um pouco antes de Regina ir buscá-la e vestia calça jeans com alguns rasgos, uma camiseta bege com a foto de uma mulher qualquer estampada, tênis e apenas brincos simples como acessório.
Escolheram uma mesa e tanto a morena quanto a loira pegaram os cardápios que o garçom trouxera imediatamente após sentarem-se. Será que recebera um caso complicado? Alguém a ofendera novamente? A monitora não sabia dizer, apenas imaginar as possibilidades. Para piorar, a mulher a sua frente era um mistério. Um encantador mistério. Os cabelos negros caindo um pouco nos olhos enquanto eles passeavam pelo cardápio, curiosos e famintos. A boca perfeitamente delineada e o rosto sério e impassível. Apesar de não deixar transparecer a irritação no rosto, ela a explicitava bem no tom de cada palavra. Deveras aquilo tinha seu charme. A mulher toda tinha seu charme.
–Decidiu, miss Swan?
A juíza retirou a monitora de seus devaneios quando a olhou e perguntou-lhe secamente sobre sua opção de prato. O rosto da loira evidenciava surpresa. Que mulher irritantemente sincera. Ainda que em alguns momentos isso fosse adorável. Emma não tinha um grande talento para ocultar sentimentos, quaisquer que fossem eles. Confusão, medo, insegurança, alegria ou esperança. Tudo transparecia tão naturalmente por ela... Ainda que ela se fechasse. Regina conseguia ver fácilmente através dela, e ela conseguia perceber a morena de uma forma que poucos conseguiram na vida. Mesmo que se conhecessem há apenas um mês, para a surpresa de ambas, todas as vezes que a loira conversava com a morena ela acertava os sentimentos da senhora Mills. Mesmo que algumas vezes não soubesse exatamente como agir.
–Spaguetti com carne e molho de tomate, salada do chef e suco de manga. — Regina arqueou uma sobrancelha.
–Muito bem. — O garçom veio após ela fazer o sinal e fechar seu cardápio. — Um talharinni ao molho funghi, um spaguetti com carne e molho de tomate, salada do chef, um suco de manga e uma água.
–Mais alguma coisa, senhora?
–Não, apenas isso.
–Ok. Com licença.
Emma entregou ao garçom seu cardápio fechado logo após a morena e apoiou os braços na mesa, enquanto a juíza apoiava os cotovelos e colocava na frente do rosto as mãos com os dedos entrelaçados.
–Então, Regina, o que aconteceu? — A morena olhou para baixo e voltou os olhos para a loira.
–Nada demais.
–Você não está bem.
–Não, miss Swan, não estou. Na verdade estou de muito mau humor no momento. — A monitora encostou as costas na cadeira, esticou o braço direito e sorriu de canto. Em seguida a juíza inclinou-se para frente enquanto perguntava. — Qual é a graça, Swan?
–Nada demais. — A morena a fuzilou com os olhos. — Apenas acho que estou me acostumando com esse seu humor maluco.
–Humor maluco?
–Bem, uma hora você sorri, na outra está com a cara amarrada. Em um momento parece que se importa e no outro parece que não liga pra nada. Às vezes me trata maravilhosamente bem e no segundo seguinte é grossa. Quer que eu me refira a esse comportamento de que forma?
–Eu tive um dia muito ruim no trabalho. Isso acontece de vez em quando, qual o problema em respeitar?
–E qual o problema em falar sobre isso comigo?
O garçom as interrompeu trazendo os pratos. As duas já haviam inclinado seus corpos ao máximo para frene e olhavam-se nos olhos. Depois que começaram a comer, Regina voltou ao assunto:
–Você não é exatamente o que eu chamaria de melhor amiga.
–Não. Mas sou em quem está mais perto.
A juíza a olhou, dessa vez um pouco mais calma enquanto levava o garfo a boca. Foi quando Emma percebeu que a música ao fundo era “Magic”, da banda Coldplay. A mesma que tocara na exposição quando elas estavam dentro da “cartola”. Aproveitou a deixa para mudar de assunto.
–De novo essa música. — Nada obteve da morena além de silêncio. — E o seu passatempo? Tem se dedicado a ele? — A morena esperou um tempo para engolir o que mastigava e responder apropriadamente.
–Na verdade eu não tenho treinado, mas topei me apresentar em uma festa infantil daqui um mês e pouco. — A loira sorriu mais abertamente.
–Isso é muito bom, Regina!
–Sim, é. — disse sem entusiasmo.
–O que foi? Não está feliz?
–Estou. Só não estou muito bem hoje. — Ela limpou a boca com o guardanapo e voltou os olhos para o prato, enrolando no garfo um pouco de macarrão. — E eu gostaria que você fosse ver minha apresentação.
–Está falando sério? — Regina parou o que fazia e a olhou.
–Parece que estou brincando? — Depois de alguns segundos nos quais Emma não respondera nada ela voltou a enrolar a massa e a levou a boca.
–Bem... Isso é surpreendente. E... Eu vou.
–Fico feliz.
–Não parece.
–Não sou uma pessoa muito boa com emoções. Tem dias que tudo vai bem, tem dias que não. Agora coma, está falando demais.
No dia seguinte ocorreria o primeiro ensaio, do qual a loira manifestara vontade de participar, ou ainda que fosse apenas para observar. Regina, a principio, relutara, com receio de mostrar seus truques, mas a insistência de Emma a vencera... Novamente.
E lá se foi uma noite de sono a mais na vida das duas mulheres, sendo um pouco mal dormida pela mágica, que pensava em quais novos truques deveria tentar aprender e ensaiar. Pensava no figurino que usaria, na locação do espaço de ensaios, na manutenção de seu material e, finalmente, em Emma Swan. Emma Swan, a mulher que assistiria aos ensaios. Poucas pessoas haviam se interessado em observar os treinos, todos queriam sempre ver a apresentação pronta. Os únicos que haviam demonstrado interesse eram seus dois colegas de trabalho, Jorge, que frequentemente a via nos corredores do andar em que trabalhavam, e Sue, a estagiária que acabou por se tornar assistente dela nas apresentações de magia. Nos últimos tempos eles haviam se afastado um pouco da morena por conta do ritmo de trabalho, mas eram eles quem sempre conversavam com Regina quando ela precisava, ou quando eles precisavam.
Jorge havia viajado há trabalho fazia 6 meses e Sue, apesar da promoção, fez questão de manter algum contato mais próximo com a juíza, trocando mensagem com ela todas as semanas. Mesmo assim, Emma fora realmente importante. Regina já não se recordava bem como era ter uma companhia quando a loira surgiu em seu caminho, na noite da exposição. A real importância de Emma Swan... A morena não obtinha resposta. Deu-se conta de que estava solitária nos últimos tempos quando a loira entrou em sua vida.
–Mas o que estão fazendo? Eu disse que essa caixa deveria ficar no canto esquerdo do palco, a minha esquerda quando eu estiver no meio dele e de frente para o público.
–Desculpe-nos, senhora. Acho que entendemos errado...
–Ah, você acha? Eu tenho certeza.
–Um momento. Um momento e vamos coloca-la no lugar certo.
–Pra ontem!
Enquanto dois homens trabalhavam para colocar tudo no lugar e afastar do meio do salão e do palco peças cobertas por panos e plásticos empoeiradas, Regina sentava a beira do palco, com o tronco inclinado para frente e a cabeça apoiada em ambas as mãos enquanto os cotovelos estavam apoiados nos joelhos. O lugar era um salão de teatro pequeno e praticamente abandonado. O local onde um dia funcionou um teatro agora era feito de depósito de peças antigas e coisas quebradas ou descartáveis. O imóvel fora posto a venda, mas ninguém havia demonstrado interesse em compra-lo desde que o teatro fechara.
O ambiente continha janelas e cortinas, que foram abertas a fim de arejar o espaço e fazer com que a luz do sol adentrasse o recinto. Portanto, encontrava-se bem iluminado. Os feixes de luz atravessavam locais específicos e faziam formas no chão, ora redondas, ora quadradas e também desformes. No ar, esses raios de sol mais concentrados atingiam o ar e evidenciavam o pó que flutuava em fios brancos e pontinhos pretos que se tornavam brancos, em uma dança leve, uns contra os outros. Milhares de pontos dançavam com destreza, sem jamais chocarem-se uns contra os outros. Todo o salão era feito de madeira gasta e clara. Não era incomum ver algumas traças pelos cantos. Alguns homens terminavam de varrer o chão e se ouvia alguns espirros, que se tornavam mais frequentes à medida que o chão era varrido. Não havia assentos. O chão era reto e as pessoas assistiam as apresentações em cadeiras que há muito haviam sido retiradas de lá. As peças cobertas foram colocadas nos cantos e o palco fora preparado para o ensaio.
As cortinas eram afastadas quando, sorrateiramente, uma loira de olhos verdes passava por elas e aproximava-se da morena, que ainda tinha as mãos ao rosto. Os fios negros e curtos tocavam delicadamente as costas das mãos dela e eram completamente ignorados. Regina suspirou em cansaço e ergueu novamente a cabeça, olhando para frente, para o nada, pensativa. Fora interrompida de seus pensamentos quando sentiu o toque delicado de duas mãos macias e úmidas, que cheiravam a hidratante, cobrindo simultaneamente seus olhos. Um cheiro delicado e diferente do hidratante também foi sentido por Regina, provavelmente um perfume depositado nos pulsos.
–Emma Swan, sou mágica, não adivinho.
Disse a morena enquanto inclinava a cabeça para trás, puxada delicadamente pela loira, que retirou suas mãos. Os cachos loiros caiam como cascatas pelos dois lados de seu rosto enquanto ela sorria exuberante. Emma tinha o rosto bem próximo ao da morena, que se espantou um pouco com a proximidade. A loira pareceu não se importar, e o espanto da mulher dos olhos castanhos dissipou-se após observar o verde vívido dos olhos de Emma e seu rosto iluminado pela luz do sol. Um anjo. Sorriu espontaneamente, exibindo os dentes brancos e os olhos caramelados pela iluminação. A monitora respondeu:
–Bem... Ainda assim acredito que se sairia tão bem como adivinho quanto como mágica.
A loira endireitou-se e caminhou até a borda do palco, onde se sentou ao lado da morena. Emma vestia uma bermuda jeans, tênis e uma regata branca. Regina, por sua vez, trajava uma regata preta, um shorts jeans e um tênis preto. Ambas de roupas casuais. As duas ainda estavam rindo.
–Talvez...
–Mas então, dona soberana, quando esses caras vão terminar de arrumar as coisas para que você possa ensaiar? Estou curiosa sobre os seus truques.
Regina jurara que vira nos olhos cor de esmeralda um brilho um tanto malicioso. Sorriu.
–Miss Swan, sugiro que aguente a curiosidade e contenha a ansiedade por mais um tempo. Afinal as coisas comigo precisam ser no tempo certo.
–E quando será o tempo certo, senhora Mills?
–O tempo certo será quando eu quiser. – Elas continuaram se encarando até que a morena riu e desviou o olhar para baixo e depois para frente, fitando a porta que dava acesso ao local. – Ou... Quando minha assistente, Sue, resolver aparecer.
–Ah, então você tem uma assistente. – Concluiu, brincalhona, enquanto observava a mesma porta que a mulher ao seu lado.
–Até a última noticia, sim. Ela já deveria estar aqui há algum tempo...
–E você acha que pode ter acontecido alguma coisa?
–Não sei. De qualquer forma o jeito é esperar. – Ambas ouviram o celular de Regina tocar em uma mesa próxima.
–Viu? Deve ser ela. – A morena não respondeu, apenas levantou-se e atendeu a ligação.
–Alô, Sue. Onde você está? O quê? Sério? Nossa, justo hoje... Não, tudo bem. Não precisa se desculpar, não foi culpa sua. Vai lá. Não, tudo bem, vai lá ou vai perder o vôo. Eu vou me virar. Não se preocupe, eu dou um jeito. Ok... Sinto muito mesmo pelo ocorrido... Qualquer coisa você pode falar comigo. Ok... Ok, está bem. Beijos. Um abraço e boa sorte. – A morena desligou o celular e suspirou.
–Regina, algum problema grave? – A juíza a encarou.
–É... A Sue tinha um tio que morava no exterior e ele faleceu. Ela precisou sair às pressas do país para ir cuidar das coisas por lá. Parece-me que ela era a parente mais próxima dele em vida.
–Nossa, mas justo hoje?
–Pois é, acho que vou ter que cancelar o ensaio...
–Não.
–Não?
–Não, você não precisa cancelar o ensaio. Eu posso ser sua assistente temporária. – A morena voltou em direção à loira a passos largos.
–Faz-me rir, Emma, você não sabe bulhufas de mágica. Como seria minha assistente?
–Você me ensina. E eu posso tentar, posso quebrar seu galho inclusive na festa se eu me sair bem. – Regina a encarou.
–Está falando sério? Emma e seus compromissos, suas coisas?
–Ah... Bem... Eu dou um jeito. Eu quero te ajudar com isso.
–E você ganha o quê me ajudando, posso saber?
–Bem... – A loira olhou para baixo, alternando rapidamente a esquerda e a direita, pensando em uma resposta. Isso durara milésimos poucos segundos. – A sua companhia.
Regina corou de leve. Não imaginava uma resposta tão direta por parte de Emma. No entanto, não tinha muitas opções. E também poderia desfrutar um pouco mais da sua mais nova amiga. Mas que pessoa intrigante...
–Eu... – A juíza não soube bem o que dizer e a monitora foi incisiva, logo depois sua expressão pidona chamou a atenção.
–Promete que vai pensar, Regina.
–Vou pensar, Emma. Mas tire essa cara de cachorrinho que caiu da mudança de perto de mim, por favor.
Regina desviou o olhar e saiu andando a passos firmes enquanto terminava o que dizia. Não soube lidar com aquelas feições. Enquanto a morena preocupava-se com suas reações diante da loira, Emma sorria satisfeita por ter conseguido o posto, mesmo que a outra não tivesse admitido.
Depois de terem optado por começar os ensaios na semana seguinte, a loira sentiu a necessidade de aproveitar o resto do dia. Afinal, ainda eram 15h da tarde e, com o horário de verão, o sol só viria a se por às 20h. Assim, ela convidou a morena para um passeio na praia, já que estavam com roupas apropriadas. E não era pra menos, o dia estava realmente quente. Compraram protetor solar, um boné para Emma e várias garrafinhas de água. Regina, por sua vez, aproveitou para desfilar com seu novo óculos escuros. Alugaram bicicletas e passearam pela ciclovia. Caminharam pela orla da praia enquanto conversavam sobre coisas aleatórias. A loira conseguiu a proeza de arrastar a morena para colocar as pernas na água. Tentaram, inutilmente, segurar as meias e os tênis nas mãos para que não molhassem. O sol já começava a se pôr e o vento trazia consigo uma queda na temperatura. Um daqueles dias que começam quentes e terminam frios. Quando o passeio acabou, ambas decidiram por voltar para seus respectivos lares.
Ao entrar em casa, Emma ainda pensava no dia que tinha tido, na evolução da sua amizade com Regina, que ainda se mostrava extremamente reservada, e eram raros os momentos que falava de sua vida, ainda que, quando decidia falar, eram só sinceridades. O rosto sério, o semblante concentrado que por vezes se mostrava triste... Os mistérios que circulavam a juíza eram intrigantes. E também se lembrou das vezes em que a vira sorrir, rir de algumas situações e asneiras, quando tudo sumia e ela se mostrava leve. Era como se duas ou três mulheres habitassem o mesmo corpo. Isso porque, quando Regina se enfurecia, as farpas que normalmente soltava se tornavam mínimas diante da ironia e grosseira que podia demonstrar. Algo assombroso lhe tomava o ser e sua indiferença se mostrava a um passo da crueldade. Esse lado oculto Emma vira poucas vezes e decidira que preferia não ver. E todas elas eram Regina. Ainda assim, a monitora queria desvendá-la e se aproximar um pouco mais:
–Alô.
–Alô, Regina.
–Ah, olá novamente, Swan. – Disse em tom enjoado. — Aconteceu alguma coisa?
–Não, é que... Bem... Esquecemos de tomar sorvete.
–Sorvete? Miss Swan, você não enjoa de mim não, é? – A loira riu, o que arrancou um tímido sorriso da morena que se encontrava do outro lado do telefone.
–Ah, acho que ainda não. Além do mais eu realmente estou com vontade de tomar sorvete e não queria ir sozinha.
–Hum... Estou cansada.
–Como se eu não estivesse. Mas, pelo que eu me lembre, você me disse que estava com saudades do sorvete lá daquela sorveteria perto da praia.
–Sim, eu de fato estou.
–Então vamos.
–Emma, o dia esfriou. Tem certeza?
–Ah, eu realmente tenho. – A morena suspirou do outro lado.
–Muito bem. Não se atrase.
Encontraram-se na sorveteria. Emma vestia sua jaqueta de couro vermelha, uma blusa cinza, calça Jeans clara e seu costumeiro par de tênis brancos. Regina, por sua vez, com a queda de temperatura, optou por vestir uma blusa de mangas curtas por baixo de um casaco negro. Calça jeans, porém em um tom de azul bem escuro e seu par de tênis preto. Sentaram e tomaram três bolas de sorvete cada, enquanto a morena divertia-se observando a dificuldade da loira para escolher um sabor. Havia tantos... Até a juíza, que sempre se mostrava decidida, tivera que pensar por alguns instantes. E a conversa sobre experiências com sabores de sorvete e doces tomaram conta do ambiente. Até que Regina percebeu que acabara jantando sorvete. Sem mais fome para comer algo salgado, passou a caminhada inteira da sorveteria até um píer que ficava pelos arredores de onde estavam reclamando sobre como estava deixando de ser alguém saudável e que acabaria engordando ora ou outra. Emma divertia-se e a morena irritava-se, até que passou a rir também.
Ambas estavam perto da casa de Regina. Caminhavam tranquilamente sobre as pedras brilhantes da ponte, que, mesmo foscas, adquiriam um brilho interessante ao refletir a iluminação da cidade, tentando imitar as calmas águas que brilhavam intensamente, copiando distorcidamente a imagem da cidade. Ao fundo, os prédios erguiam-se em um conjunto imponente de paredes escuras e janelas iluminadas.
Após aquela última troca de palavras, o silêncio reinou entre elas. Porém, um silêncio acolhedor. Emma observava atenta a paisagem, enquanto mantinha as mãos nos bolsos traseiros da calça jeans. Regina, com seus braços cruzados, olhava, ora para a paisagem, ora para o chão. De quando em vez direcionava seu olhar a Emma, tentando desvendar o que a loira estaria pensando. A morena parou de caminhar por um instante, olhando fixamente os prédios, enquanto ouvia a água batendo nas pedras em baixo de seus pés e o murmúrio que vinha da cidade. A loira também interrompeu o passo.
–Regina.
A juíza virara o rosto para fitar a monitora. Ao longe, uma das embarcações ancoradas na beira da cidade começava a emitir a música “Ride” de Lana Del Rey. Por um momento os olhos de Emma pareceram assustados. Mas também pediam por algo que Regina não conseguira desvendar. Antes que a morena pudesse falar qualquer coisa, a loira aproximou-se demasiadamente rápido e não dera tempo para qualquer reação. Não fora nada violento, apenas um tanto depressa. Emma fechou os olhos, retirando as mãos dos bolsos, inclinando o corpo e, aproximando seus lábios dos dela, beijou-a. Um simples, delicado e inocente toque. A pressa fora apenas para alcançar os lábios da mulher a sua frente, pois seguidamente o frenesi tomara conta da loira. Entreabriu delicadamente seus lábios rosados, enquanto Regina fechava seus olhos. A juíza ainda tentou conter o beijo, colocando ambas as mãos nos ombros da monitora. Fez um pouco de força para empurrá-la, mas desistiu instantes depois, quando suas mãos foram seguradas e afastadas pelas dela.
Emma continuava segurando a mão direita de Regina, enquanto entreabria, devagar, seus lábios e acariciava os dela. Sua mão esquerda soltou a dela, que ficou no ar, e a usou para puxar a morena pela cintura mais para perto de si. A loira chupou os lábios da morena, ora o inferior, ora o superior, enquanto os braços caiam devagar e sem forças, mas juntos. Nesse momento a mulher das íris verdes pediu, delicadamente, permissão para aprofundar o beijo. Permissão concedida, e a delicadeza deu lugar a uma caricia voraz, que provocou em ambas um comichão no ventre, quando as línguas se tocaram. Uma, duas, três vezes e as faíscas eram contidas dentro do beijo, surgidas dos choques das línguas. Uma farpa de senso penetrou no momento e Regina afastou-se, não antes que seu lábio inferior fosse aproveitado novamente pela boca de Emma.
Um segundo passou-se até que os dois pares de olhos se encontrassem arregalados. A morena retirou de sua cintura o braço da loira, que não demostrava reação. Regina desviou seus olhos para os próprios pés e o chão, soltou os dois braços de Emma, o direito e depois o esquerdo, enquanto dava passos para longe dali. A monitora chegou a chamar pela juíza, que apenas fez sinal para que a monitora não a seguisse. A loira apenas obedeceu enquanto via a morena afastar-se rumo à própria casa.
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