Seis Lágrimas
9 Tarde e noite
Notas iniciais
“You would not believe your eyes
If ten-million fireflies
Lit up the world
As I fell asleep”
Fireflies – Owl City
Nos últimos capítulos — Boston:
Regina sorria. Estava flutuando, voando! Emma acreditou e via-se um sorriso em seus lábios também. Abriu os olhos e olhou a morena. Estendeu a mão para ela, que fez a mesma coisa. Não falaram nada, só deram as mãos e começaram a girar.
***
(R) — No fim... Magia é sobre sentimento, sobre visão... ou então é só sobre acreditar...
(E)-Acreditar... — Emma repetiu pensativa.
(R)-Acreditar sem provas...
(E)-Então... Magia é sobre fé?
***
–Alô.
–Olá, Emma. Tudo bem com você? — Disse em tom irônico, para depois mudar para o tom que expressava o seu atual estado de espírito. — Você pode me dizer porque raios os quatro pneus do meu carro estão furados?
***
–Não. Eu vou trabalhar amanhã. E você é quem vai me levar.
–Eu? Mas eu não tenho carro.
–Se vira. Quero você aqui às sete e meia em ponto.
***
–Alô.
–Alô, Tom! Preciso do seu carro.
***–Onde pensa que vai, Sra.Mills?
–Pra casa.
–A pé?
***
–Parque Florestal Nobre Cisne. — a morena parou de andar. Emma pisou no freio. — É pra lá que pretendia te levar. Conhece? — A morena a fitou.
–Está bem. Vamos. — A morena entrou novamente no carro e apertou o cinto, enquanto a loira dava meia volta, voltando ao rumo inicial. — Mas se acontecer alguma coisa, se eu perceber algo estranho, Swan, você vai desejar não ter nascido.
Foi quando determinada música começou a tocar no rádio, e Emma começou a cantar junto, mesmo que baixinho. “Massage in a Bottle”, da banda “The Police”. A situação não passou despercebida pela morena, que também gostava da música.
***
–E por que insistiu em vir comigo?
Emma estacionou o carro, tirou o cinto e olhou para a morena.
–Um desafio é sempre mais interessante.
A loira deixou o banco do motorista e Regina sorriu, gostando do termo “desafio”. Aquela loira também era um desafio. Algo instigante. Uma aventura. Mais uma vez uma aventura. A partir daquele momento, a juíza teve certeza de que sua vida iria mudar. Era como ver algo grande vindo.
***
–Gosta de maçãs?
–É minha fruta favorita.
–Eu também gosto muito... Mas prefiro quando é maçã do amor.
A morena levou uma das mãos à boca, pois estava mastigando um pedaço do sanduíche.
–Também gosto assim... Mas não sei fazer.
–Não sabe?
–Nunca aprendi...
–Mas não é só adicionar amor à maçã?
***
Em um instante, quando a loira estava concentrada falando com seu monitor e o de Regina havia ido resolver um problema rapidamente, a morena segurou firmemente as rédeas e mexeu o corpo de tal forma que o cavalo começou a correr. Emma gelou enquanto Regina sorria desafiante para si mesma.
***
Os dois bateram em retirada rapidamente. A loira, depois de um tempo, encontrou as marcas de ferradura do cavalo da morena e as seguiu. Seria ela a encontrá-la, tinha certeza. Enquanto Emma a perseguia, Regina guiava o cavalo de forma segura. Sabia o que estava fazendo. Resolveu testar a si mesma. Resolveu descobrir até onde poderia ir. O cavalo empinou e ela sabia como segurar para não cair. Estranhou isso em si mesma. Quando deu por si, estava, no meio da tarde, no meio da floresta. Não se lembrava de como voltar. Não exatamente.
***
Montada em um cavalo que corria desembestadamente, Emma só conseguia pensar em como Regina tinha o talento de se meter em problemas. Desafiava o mundo para se satisfazer, mas aparentemente o grande problema era que a morena raramente se satisfazia. E realmente, Regina Mills sempre fora dessa forma. Se precavia, pensava e arquitetava. Mas era impulsiva. Quando colocava algo na cabeça... Mas isso Emma compreenderia melhor mais tarde.
Subiu uma inclinação de terra, passou por dentre algumas árvores e percebeu que a juíza parara com o cavalo. Mas voltou a cavalgar. E foi mais para dentro da floresta. Ambas haviam tirado os óculos para observar melhor por onde iam. A monitora lembrou-se do medo silenciado que a morena estava guardando dentro de si. Preocupou-se ainda mais. Continuou caminhando por onde via rastros. O céu começava a mostrar que o tempo não iria esperar por elas.
Enquanto a loira a procurava, Regina afundava-se cada vez mais nas árvores e nos caminhos fechados e densos da floresta. Não sabia exatamente o que lhe havia se passado. Apenas seguiu sua vontade. A vontade de sentir-se livre. Um sentimento que sentiu não se lembrava quando. Não se lembrava de onde. Não se lembrava o porquê. Perdia-se olhando as verdes folhas da mata, a terra parcialmente úmida, que contava com a companhia de folhagens que o vento havia trazido consigo. Agora deveria voltar. E justificar-se. Não. Não se justificaria. Como explicar o inexplicável? Como dizer que ignorou tudo e todos simplesmente porque quis? Não. Diria que o cavalo desembestou a correr. Diria que o treinaram mal e que poderia tê-la machucado. Ainda mais: diria que poderia processá-los. Mas como achou o lugar bem agradável e nada lhe acontecera, deixaria como estava. Diante da menção de um processo, ninguém remoeria coisa alguma.
Emma desviou de muitos galhos e folhagens. O sol forte, ainda que escondendo-se atrás das nuvens, fazia-se presente. Choveria no dia seguinte, certamente. Logo a copa das árvores e as nuvens fizeram questão de protegê-la ainda mais. Sem saber o que Regina pensava, a loira seguia em frente. Vez ou outra o cavalo relinchava, mas isso não tirava seus pensamentos da morena. Culpava-se. Sim, culpava-se. Era responsável por levar a juíza até os cavalos. Era a responsável por deixá-la ir daquela forma, sabia-se lá para qual lugar. E, naquele momento, ainda por cima, não a encontrava. Se ao menos tivesse mais atenta ao que fazia. Se tivesse prestado mais atenção a ela... Mas não. Estava empolgada demais. Sempre desatenta demais. Sempre tentando fazer algo bom... Sempre deixava escapar algo. Por mínimo que fosse esse algo.
O tempo passava e Regina fazia com que o cavalo trotasse mais e mais para algum lugar. Tentara voltar, mas as árvores sempre pareciam as mesmas. Sempre. Quanto tempo havia se passado desde que batera em retirada? Trinta minutos? Quarenta? Talvez uma hora? Não saberia dizer. Ainda era tarde, o sol estava lá. Continuava lá. Por hora. Ouvira um sussurro. Mais uma vez. Mais alto. Estava quase entendendo o que o sopro dizia... Ouviu:
–Regina! — Olhou em volta e nada viu. A voz continuou. — Regina!
Os cascos na terra faziam barulho. Era a voz da loira. A monitora a encontrara. Parte de si estava extremamente, e inconfessavelmente, aliviada. A outra, desesperada. O que falaria? Para os monitores do local já havia montado um discurso... Mas Emma saberia que era mentira. O que, então, haveria de falar? Não soube responder. Trocou um forte olhar com a mulher que cavalgava em sua direção. E então correu.
–Regina? Regina! Regina, espera! — Fingiu que não ouviu. — Regina!
A loira agitava mais e mais as rédeas, esperançosa de que o cavalo corresse ainda mais rápido, o que não ocorreu.
–Regina! Porra, Regina. Espera!
Não adiantou. Uma vez mais a morena incentivou seu corcel a correr. Uma vez mais o garanhão de Emma tentava acompanhar o ritmo. Por sorte, a loira reconheceu parte do local e virou à direita, adentrando uma formação rochosa em forma de caverna. Alguns instantes depois, surgiu à frente da morena e o cavalo da fugitiva empinou, dessa vez, assustado. Regina segurou o máximo que pôde, mas acabou escorregando e caindo ao chão. Ralou os cotovelo, bateu as costas e, de leve, a cabeça. Emma arregalou os olhos cor de esmeralda e saltou de sua montaria. Caiu ao chão de joelhos ao lado da morena, que estava tonta, mas não desacordada. Ambos os cavalos agora estavam calmos.
–Regina, Regina!
–Hum... — Sentia-se zonza.
–Está bem? Consegue levantar?
–Hum... Emma? — Fechou os olhos com força. Apoiava-se em ambas as mãos. Levou a direita à cabeça.
–Sim, sou eu. Se machucou? Tá ferida? Deixa eu ver sua cabeça.
No momento em que a loira segurou a cabeça da morena com as duas mãos e cutucou o local ferido, Regina soltou um murmúrio de dor. Fez um pouco de esforço e ajoelhou-se.
–Tá tudo rodando...
–Calma, não tá sangrando, daqui a pouco passa. Não se movimenta muito.
A proximidade e a necessidade de fazer com que a juíza parasse quieta fez com que a monitora segurasse sua cabeça e seus ombros por entre os braços fortes, em uma espécie de abraço. Abraço bem justificado. Mas um abraço ainda assim. A loira encostou o rosto no topo da cabeleira morena, sentindo os frios negros quentes pelo sol. O boné havia voado antes da queda. Ainda que ele a protegesse do sol, a temperatura não podia ser completamente contida. A delicadeza de Emma surpreendeu a ambas. Regina segurava nas roupas da monitora em busca de apoio e não teve forças para não aproveitar o colo da loira. O pouco de pele que sentia aqui e ali era demasiadamente reconfortante. O mundo se estabilizava conforme o tempo passava e a monitora a sustentava. Fora... Reconfortante. Mas Regina não admitiria isso nem para si mesma. Quando se estabilizou, afastou-se.
–Tudo bem, Emma.
–Está bem mesmo? Está sentindo alguma dor?
Talvez em meu orgulho.
–Não. Estou bem. Obrigada.
Quando percebeu que havia agradecido, virou-se para fitar os olhos arregalados da senhorita Swan. Os seus ficaram do mesmo tamanho. A surpresa tomou a ambas, mas Emma desfez o que quer que aquilo tudo havia se tornado.
–Então vamos voltar.
Levantou-se vagarosamente e estendeu a mão para a juíza, que recusou a ajuda a primeiro momento. Até que quase perdeu o equilíbrio e foi amparada pela loira.
–Certeza de que está bem?
–Sim, Miss Swan. Tenho. — Soltou com rispidez em excesso. Ainda assim, a monitora não deixou de apoiá-la um instante sequer. Ambas ergueram-se completamente.
–Acho melhor esperarmos um pouco.
–Não. Voltaremos imediatamente.
–Vai cair do cavalo de novo se voltarmos agora.
–Tenho certeza de que não.
A morena andou dois passos em direção ao cavalo, dando as costas à Emma. Quase se desequilibrou novamente. Apoiou-se em uma pedra e voltou a andar.
–Estou bem, Miss Swan.
–Nitidamente está. — Olhou mais um pouco aquela mulher tão orgulhosa trocar os pés em meio aos próprios passos. Pegou o boné emprestado que descansava ao chão maciço e deu leves batidas para tirar parte da poeira que havia grudado. Enquanto o fazia, andava em direção ao seu cavalo. Colocou o boné. — Regina... Espera.
A morena parou o que fazia e tornou a observar a loira que a chamara. A olhava penetrantemente, ainda que atordoada, com ambas as mãos apoiadas no corpo coberto com a pelagem negra brilhante e bem escovada do corcel.
–O que é agora, Miss Swan?
–Olhando bem... Eu conheço essa parte do parque... Na verdade conheço muito bem. — Olhou ao redor. Estendeu a mão à juíza, que a fitou com olhos duvidosos. — Vem.
–Pra onde, posso saber?
–Não, não pode.
–Não. Chega de surpresas, Miss Swan.
–Não, acho que dessa você vai gostar. Venha. — Regina a olhou desconfiada. Semicerrou os olhos, ainda na espreita. — Venha na minha garupa, vai estar mais segura. Eu levo seu cavalo pelas rédeas. — A morena ainda a fitava desconfiadamente. A loira esboçou um meio sorriso. — Não vai ter que se preocupar com nada. Assim também podemos adiar um pouquinho essa volta. Acho que não vai querer ter que explicar nada tão já para os responsáveis do local.
A monitora não sabia, mas a juíza já tinha algo que mais se parecia com uma prévia discursiva. Contudo, não reclamaria em adiar tudo um pouco mais. Resolveu omitir a solução que encontrara e, sem falar nada, caminhou até Emma.
–Não me leve para nenhum lugar estranho. Ainda não estou convencida de que você não é uma psicopata. — A loira permitiu-se rir zombeteiramente e ir até a montaria de Regina para tomar suas rédeas.
–Sim, senhora.
Depois de amarrar as rédeas do cavalo da juíza no seu, montar e ajudar a morena a subir, tendo-a atrás de si, abraçando-a, a loira começou a cavalgar lentamente rumo ao local que havia posto em mente. Olhou o relógio. Quatro da tarde. Meia hora para ir, no ritmo que estavam, e meia hora para voltar. Mais o tempo que passariam no local... Umas cinco e vinte ou cinco em meia estariam de volta. Restaria, então, tempo suficiente para voltarem ao chalé e arrumarem-se para o jantar. Depois de alguns minutos silenciosos, a loira não pôde mais conter-se.
–Regina?
–Sim... Miss Swan.
–Está sentindo alguma tontura?
–Não mais.
–Alguma dor?
–Não. — Mais alguns segundos de silêncio pairaram no fresco ar da floresta. O movimento lento dos cavalos destacava-se na paisagem tranquila. Um completamente negro, e o outro, que carregava as duas, malhado, marrom e branco. — Pergunte logo o que quer saber, Swan. Paciência não é o meu forte.
–Por quê?
–Por que o que, Swan?
–Por que fez aquilo? Por que saiu correndo com o cavalo?
–Não saí correndo, o cavalo que começou a correr sem mais nem menos!
Emma a olhou de canto de olho, da forma que pôde. Depois voltou a cabeça para frente.
–Não, não saiu... Você fugiu quando me viu... — Um pequeno silêncio constrangedor.
–O que houve? Pode ser sincera...
A morena soltou uma risada debochada.
–Como se você fosse acreditar em mim...
–Bem... Só saberemos se você tentar. — Virou mais um pouco o rosto para ela. — Não é?
Enquanto a juíza pensava em como falaria qualquer coisa sem parecer uma maluca, a monitora a esperava, tranquilamente, enquanto aproveitava a paisagem. Flores das cores mais variadas permeavam o verdejante mato e os tons marrons e negros dos troncos, pedras e terra úmida. Terra essa que exalava um cheiro forte e agradável, indicando que chovera há pouco naquela área. Há muito disso na natureza. Locais que recebem a chuva enquanto as montanhas vizinhas contemplam apenas o sol. Apaziguava tanto uma quanto a outra, e não lhes causava estranheza, apesar de todos esses anos que vivem na cidade cheia de carros, prédios, pavimento e barulho que é Boston.
–Eu quis fazer. — Emma estava atenta às palavras da mulher que, involuntariamente, a apertara mais contra si. — Quis saber até onde eu podia chegar.
–E descobriu?
–De certa forma.
–Eu achei que não soubesse muito bom cavalgar.
–Eu achei que não me lembrava. — Suspirou. — Mas pelo visto eu me recordo.
–Às vezes nos surpreendemos com nós mesmos...
Naquele instante, palavras não se fizeram mais necessárias. Um silêncio calmo se acomodou sem pedir licença, mas que sempre é bem-vindo. Regina pensava sobre si, sobre o que fez, sobre o que sentiu e sobre o que disse. Emma achou curioso o ato da morena, que uma vez mais se mostrara inconstante. Um arrepio percorreu-lhe a espinha e por um segundo temeu a imprevisibilidade da mulher. Contudo, tinha decidido desvendá-la, e não recuaria nos primeiros sustos.
Depois do tempo previsto por Emma, elas chegaram sãs e salvas onde a monitora queria que fossem. Parou o cavalo.
–É aqui.
–O que tem aqui? Não estou vendo absolutamente nada de diferente.
–Desça. Não dá pra ir a cavalo. — Com a desconfiança costumeira, Regina fez o que a loira mandara sendo seguida por ela no instante seguinte. A monitora atou alguns nós nas rédeas dos cavalos em torno do tronco de uma árvore próxima.
–Por aqui.
–Vamos deixá-los aqui?
–Não demoraremos. Vamos.
Andaram juntas por cerca de dois minutos, lentamente, para que Regina permanecesse bem. Depois que passaram por algumas árvores, subindo um terreno um pouco inclinado e pedregoso, a morena respirou fundo, mas quase não conseguiu deixar que o ar escapasse de seus pulmões. O que vira fora algo completamente fora do comum. Não imaginaria nem se quisesse que veria algo assim em uma reserva florestal perto de Boston, mas era real. A loira deliciava-se alternando seu olhar para a paisagem e para a face boquiaberta da juíza. O que viram foi um alto precipício. Um paredão de rochas do outro lado era tão alto quanto o lado que estavam, mas, abaixo de tudo, um recuo da terra fazia com que o mar que ali estava parecesse um lago gigante. Uma maravilhosa vista sem dúvida. Muito difícil de encontrar, já que a cidade toma quase completamente a costa daquela parte dos Estados Unidos.
–É lindo, não? — perguntou Emma depois do tempo que concedeu à morena para admirar a paisagem. — Vem.
A loira pegou na mão da juíza e a guiou para mais perto do precipício. Era um tanto perigoso e quase ninguém tinha autorização para acessar aquela parte do parque, mas Emma não era tão irresponsável. Chegaram em uma distância razoavelmente segura do limite e então aconteceu. Um vento arrebatador vindo de baixo, com cheiro de sal e mar, as atingiu. Ambas fecharam os olhos e deixaram-se sentir aquele vento, aquela liberdade. As sensações que só se tem quando se entra em contato com aquela parte de nós que nos é mais natural, quando estamos onde realmente pertencemos. Em meio à natureza.
Tanto os fios negros e lisos quanto os fios louros e meio ondulados se chocavam, uns contra os outros e contra o vento. Lado a lado. Regina e Emma abriram os braços e a sensação se fez mais forte. Durou mais nos corações do que na pele. Durou o quanto os ventos deixaram que durasse, mas fora o suficiente. Quando a morena abaixou os braços, abriu os olhos e olhou para o lado, Emma a estava olhando e saboreando um bobo riso na face alva.
–O que foi?
–Nada. Só... — A morena arqueou uma sobrancelha. — Só fico feliz que tenha gostado do que viu.
A juíza corou levemente.
–O lugar tem seus encantos.
A cavalgada de volta fora tão tranquila como a loira havia previsto, o tempo que se demoraram nela, também. Conversaram sobre a paisagem, sobre as coisas que estavam vendo naquele único dia e aproveitaram para lembrar que estavam cansadas. Afinal, a monitora dirigira por um bom tempo de manhã, almoçaram e... Bem... Regina foi Regina. Devolveram os cavalos. Não sem antes desgastarem-se um tanto a mais com discursos sobre cavalos desembestados e mal treinados, processos e indenizações. Obviamente o assunto morrera ali. Voltaram para o Chalé, exaustas. Jogaram-se na cama, de bruços, com os braços ligeiramente abertos, com as cabeças em cima dos travesseiros. O rosto de ambas encostava no tecido completamente até sentirem falta de ar, o que fez com que se esforçassem para virarem os rostos. Emma foi quem primeiro pronunciou-se:
–Ainda temos que jantar.
–Não, não temos.
–Não sei se tenho forças para me mover, mas sei que estou com fome.
–Pega algo na cesta e coma.
–Não... Vamos jantar fora.
–Está quebrada desse jeito e ainda quer sair? Faz-me rir, Emma. — A loira esboçou um risinho carinhoso.
–Que horas são? — A morena movimentou-se um pouco para checar o celular e respondeu.
–Seis e vinte.
–Ah... verdade... Entregamos os cavalos e ainda voltamos pra cá...
–Faça o que você quiser. Eu vou dormir.
–Vou colocar meu celular para despertar umas oito horas.
–Quer mesmo jantar fora?
–É uma das melhores partes.
A morena apenas revirou os olhos e enquanto a loira levantou-se e programou o celular para despertar, a juíza caiu em sono profundo. A monitora ainda a chamou algumas vezes, mas de nada adiantou. Pelo menos, alguma parte da cama sobrou. Nenhuma teve forças nem para brigar por espaço. Deitaram e dormiram feito pedras, mas não era para menos, o dia havia sido longo.
Pois bem. Oito horas despertaram, e Regina forçou Emma a tomar banho primeiro que ela. Era uma mulher muito vaidosa, verdade. Mas achara que seu sono não havia sido suficiente, e também viu algum gosto em mandar a mulher que a desafiara fazer algo. O poder, seja ele como fosse, realmente a fascinava. Depois de prontas, arrumadas e cheirosas, elas saíram, no breu da noite, em direção a uma luz considerável que se fazia presente há alguns metros da concentração de chalés. Mais perto e perceberam que não se tratava de uma luz, mas algumas. Depois, muitas. Muitas fogueiras e pessoas em volta delas, com marshmallows, pipocas, lanches, gaitas, violões, pseudo cantores e crianças correndo para vários lados.
A loira sabia o que encontrariam, mas a morena fora surpreendida novamente. Fazia parte do que Emma pagara quando fez as reservas. Os suprimentos para a janta comunitária estavam em algumas extensas mesas de madeira perto das fogueiras. Um banquete. Um verdadeiro acampamento.
–Isso é...
–Fogueiras, pessoas... Um acampamento.
–Quanta gente...
–É...
–Hey, vocês duas aí! — Um dos rapazes sentados em volta da fogueira mais próxima chamou a atenção de ambas. — Venham cá. Nem todos os grupos se conhecem.
–Peguem o que precisarem nas mesas e venham. Tem espaço para sentarem aqui. — Dessa vez fora um outro rapaz, do mesmo grupo, que falou. Tinha um violão na mão, um sorriso na face e já estava um pouco alto pela cerveja.
–Iremos. Um momento. — Emma respondeu e Regina a repreendeu com um olhar. Foram até a mesa.
–São desconhecidos. E estão meio bêbados. O que pretende fazendo parte do grupo deles?
–Socializar, Regina.
–Com desconhecidos?
–São desconhecidos até que você os conheça. — A loira chegara à mesa e já ia colocando em um saco alguns sacos de marshmallows, um pote com pipocas recém estouradas, sal e um lanche para cada.
–Podem querer nos assediar. Ali tem cinco homens e duas mulheres!
–Agora serão quatro.
–Emma! — a loira parou o que estava fazendo e virou totalmente o corpo para a juíza, colocando ambas as mãos em cada ombro dela.
–Calma, Regina. Se passarem dos limites, levantamos e vamos embora. — Olhou para eles. A morena fez a mesma coisa. Depois tornaram a se olhar. A pouca luz contrastava com a cor alaranjada das fogueiras que deixava um dos olhos verdes bem iluminado, enquanto o outro estava encoberto. As sombras cobriam ambos os olhos castanhos. — Vai ser divertido.
O sorriso de Emma encorajou Regina. Até agora, tudo o que a loira fizera deu certo, o que não era algo muito comum. Até mesmo a monitora estranhou quando, horas mais tarde, refletiu sobre o dia, deitada na cama, olhando para o teto.
As duas caminharam até o grupo, sentaram-se e tudo ocorrera bem. Tão bem que o tempo voou enquanto elas riam das boas piadas de Jeremy e das besteiras de Sarah. O lanche estava ótimo. Ficaram altas com as cervejas. A pipoca fora repartida com todos e o crepitar das chamas deu o ponto dos marshmallows incontáveis vezes. Até que os sacos esvaziaram-se. Mas antes que isso ocorresse, tocaram gaita, violão e Marcela cantara algumas canções. Tinha uma voz boa, estourada, pesada, gostosa de ouvir, por vezes, rouca. Ainda ouviram uma última música antes de terminarem os doces. A ideia veio após Regina comentar que tinha um Mercedes, quando falavam sobre carros.
–Vamos, vamos cantar essa.
–Ah, não, Janis, não. Não acho que tenho tanta voz...
–E que importa? A voz é boa. A música também.
E por entre assovios e provocações dos rapazes e de Emma, Marcela começou:
Oh Lord, won't you buy me a Mercedes Benz ?
My friends all drive Porsches, I must make amends.
Worked hard all my lifetime, no help from my friends,
So Lord, won't you buy me a Mercedes Benz ?
Oh Lord, won't you buy me a color TV ?
Dialing For Dollars is trying to find me.
I wait for delivery each day until three,
So oh Lord, won't you buy me a color TV ?
Oh Lord, won't you buy me a night on the town ?
I'm counting on you, Lord, please don't let me down.
Prove that you love me and buy the next round,
Oh Lord, won't you buy me a night on the town ?
Everybody!
Oh Lord, won't you buy me a Mercedes Benz ?
My friends all drive Porsches, I must make amends,
Worked hard all my lifetime, no help from my friends,
So oh Lord, won't you buy me a Mercedes Benz ?
That's it!
Palmas e assovios preencheram o ar. Era quase meia noite e metade das fogueiras já estavam apagadas, soltando fumaça ainda, verdade. Elas despediram-se e voltaram, cambaleando um pouco, em direção aos chalés.
–Espera, Regina.
–O que foi agora, Emma?
–Ainda quero te mostrar uma coisa. — Nenhuma delas conseguia coordenar bem nem passos, nem palavras.
–Amanhã, Swan.
–Não, não vai dar amanhã. Estamos perto, vem.
A loira andou e a morena não conseguiu enxergar outra opção a não ser segui-la. E não se arrependeu de tê-lo feito. Tirou alguns galhos da frente aqui e ali. Um voltou e acertou-lhe o galo da cabeça, o que a fez gemer. A loira, que estava à frente, percebeu e caiu na gargalhada.
–Ria da desgraça alheia, Miss Swan.
Continuaram o caminho e depararam-se com uma das mais belas vistas que se poderia ver naquele lugar. Um lago, um tanto quanto pequeno. Mas dos verdejantes e escuros arbustos próximos ao local, saiam numerosos pontinhos amarelos. Incontáveis vaga-lumes passeavam por ali. Tantos e tantos quanto jamais alguma delas se recordava de ter visto. Aproximaram-se e eles as rodearam. Grilos cantavam por ali seu prenúncio de chuva, mas elas não prestaram atenção. Regina foi a primeira a expressar algo:
–Só desejo não ter bebido tanto. Quero me lembrar disso amanhã.
–Difícil esquecer, senhora Mills.
A morena estranhou a forma como a monitora falou com ela, mas deixou passar sem nenhuma reclamação. Ficaram ali por um tempo, boquiabertas. Curtiram mais uma vez a paisagem que a natureza lhes oferecia. O frescor do ambiente era bastante agradável, o que as mantivera ali por um bom tempo.
Quando voltaram, Emma colocou as vestes de dormir primeiro, e quando Regina saiu do banheiro, teve a última visão antes de longas horas de sono. A loira estava sentada na janela, observando a lua, esperando um pouco para deitar-se. A cama já estava devidamente arrumada. Aquilo trouxe, uma vez mais, uma sensação prazerosa para a juíza. Um tanto familiar e nostálgica. Não soube de onde viera, mas não fora embora tão rápido. Seus resquícios a incomodaram por mais um tempo.
–Não vai deitar, Miss Swan?
–Depois de você.
Quando a morena deitou-se, a loira saiu da janela. Mas não sem antes enroscar a perna no apoio de peito e quase cair. Isso provocou um riso gostoso em ambas, e aquela mesma sensação que a juíza experimentara instantes antes, incomodou as duas, mas nenhuma disse nada sobre o assunto. A loira deitou. No dia seguinte, por causa da bebida, a sensação seria esquecida, apesar de que a memória de todo o dia, inclusive dos vaga-lumes, não.
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