Seis Lágrimas
5 Sexta-feira.
Notas iniciais
Don't want to let you down
But I am hell bound
Though this is all for you
Don't wanna hide the truth
No matter what we breed
We still are made of greed
This is my kingdom come
This is my kingdom come
When you feel my heat
Look into my eyes
It's where my demons hide
It's where my demons hide
Don't get too close
It's dark inside
It's where my demons hide
It's where my demons hide
Demons – Imagine Dragons
Nos últimos capítulos — Boston:
(R) -Você quer me levar lá? Mas acabou de ser contratada! Pode ser demitida!
(E) -Só se nos pegarem.
***
(R) -Nada de arte... Nada de magia...
(E) -É... tenho mais com o que me preocupar.
***
(E) -Nossa... Que breu! — “Gire um chapéu e abra um portal”?
Juntas, giraram o “chapéu” e a mágica aconteceu.
***
“O aparece e desaparece da natureza: a mágica do eclipse”.
(R) -Faça o que eu fizer.
***
A loira e a morena entreolharam-se e Regina não pensou duas vezes, apertou o botão. Imediatamente as duas metades do círculo negro curvaram-se para baixo.
“Para lembrar que mágica também é surpresa”.
***
Ao pisarem novamente no chão, perceberam que ele se estendia até um metro e meio da parede. Estavam encurraladas. Não havia volta. Depois daquela distância era possível observar um grande buraco cúbico de 5 metros.
Emma agora tateava minuciosamente a parede. Ao passar por Regina, a morena perdeu o equilíbrio. A loira percebeu rapidamente o que aconteceria e estendeu a mão, “jogando” a morena de frente para a parede. Colocou uma mão de cada lado do corpo da menor, apoiando-as na parede, fazendo com que seus corpos ficassem colados.
***
“O chicote, o chapéu e a coragem”. Embaixo do “título” estava escrito “Um desfio fácil para os clássicos exploradores”.
–Outro filme... – Regina pensou rapidamente e rapidamente associou os elementos com outro filme. Arregalou os olhos, descruzou os braços, estalou os dedos e disparou: Indiana Jones!
***
Emma abaixou a perna e deu um passo em direção ao buraco. Não caiu. Havia uma ponte “invisível”.
***
Espelhos por todos os lados e uma iluminação branca. Absolutamente tudo era coberto por vários tipos de espelhos.
(R) -Você distorcida não existe, mas a imagem sim. Na mágica o que importa não é o que realmente acontece... Mas o que você pensa que acontece. Aí está a graça. Entendeu agora, miss Swan?
***
Havia uma sala em forma de cartola.
–Normalmente se tira coelhos de cartolas. Ou pássaros...
–Bom... Estamos entrando em uma. Acho que vai ser interessante.
A loira puxou a alavanca. De repente algumas luzes começaram a piscar.
***
–E agora, o que a gente faz? — Perguntou a morena.
–Sei lá, imagina alguma coisa!
***
Regina sorria. Estava flutuando, voando! Emma acreditou e via-se um sorriso em seus lábios também. Abriu os olhos e olhou a morena. Estendeu a mão para ela, que fez a mesma coisa. Não falaram nada, só deram as mãos e começaram a girar.
***
(R)-Você está cansada e eu não quero incomodar.
(E)-Vai me incomodar mais se não entrar.
(R)-Está bem.
***
(R)-Mas você não acabou de falar que depende de como se vê? — As duas se encaram. Regina suspirou e colocou a cabeça no sofá, com o quarto copo de bebida praticamente vazio, o qual colocou em cima da mesa de centro. — No fim... Magia é sobre sentimento, sobre visão... ou então é só sobre acreditar...
(E)-Acreditar... — Emma repetiu pensativa.
(R)-Acreditar sem provas...
(E)-Então... Magia é sobre fé?
***
Depois de vários e vários goles de vinho, o conteúdo da garrafa finalmente acabara, junto com aquela conversa filosófica de bêbadas sobre o que é magia. Regina divagou ainda durante alguns minutos sobre a questão de fé, mas depois percebeu que a loira dormira em algum momento depois daquela pergunta. Pensou em ir embora, mas não teria condições de dirigir. Não naquele estado. Já enxergava as coisas muito distorcidas. Não. A cota de imagens distorcidas havia estourado ali.
Olhou para Emma, encolhida no outro canto do sofá bege. Um estofado gostoso de camurça e o monte de almofadas nos cantos fazia um lugar perfeito para tirar um cochilo. Foi quando percebeu que uma gotinha de vinho da taça vazia de Emma estava sendo derramada sobre o sofá. A loira havia adormecido com a taça na mão. Muito vinho, muita distração. E muito frio.

Levantou e tirou a taça da mão dela, colocando-a na mesinha ao lado da sua. Estendeu a parte de baixo do seu lado do sofá e conseguiu fazer o mesmo com o lado de Emma, provocando só alguns resmungos por parte da loira. Sentindo-se um pouco invasiva, a morena entrou mais ao fundo do apartamento em busca do quarto da monitora. Mais precisamente em busca de cobertas.
A bebida subiu forte e com muito custo ela achou o quarto. Por sorte havia duas cobertas e um grande edredom sobre a cama. Pegou-os e os levou para a sala. Retirou os tênis da loira e suas botinhas. Livrou-se também de sua jaqueta. Estendeu uma coberta sobre Emma, apagou a luz da sala, cobriu-se e colocou o grande edredom por cima das duas. Ela não sabia, mas já era vinte para as cinco da manhã. Estava com tanto sono que não se importou com mais nada além de fechar os olhos e dormir. Depois que se sentiu aquecida dormiu feito pedra.
Às onze da manhã a morena foi a primeira a acordar. Emma ainda dormia tranquilamente. A jaqueta da loira estava em um canto da poltrona, também de camurça branca, que fica ao lado do sofá, fazendo um conjunto. Provavelmente acordou de noite e resolveu tirá-la. Ainda sonolenta, Regina deitara a cabeça no sofá por um tempo, esperando o próprio corpo preguiçoso despertar de uma vez. Iniciou uma inspeção pelo ambiente, coisa que não conseguira fazer no momento em que chegaram. Estava mais concentrada na bebida e na conversa.
Se o resto do apartamento tivesse o mesmo estilo que a sala, com certeza a morena era uma pessoa rica ao ser comparada com a loira. O apartamento era extremamente pequeno. A televisão estava pouco mais de um metro de distância do fim do sofá, se bem que ele estava estendido, em modo “cama”. Era uma televisão tela plana reta, um pouco menor do que a de Regina. Ela ficava em cima de um rack de madeira escura, pequeno, com algumas aberturas onde tinha um aparelho de DVD, alguns CDs, revistas, livros... Essas coisas que normalmente se põe nesses lugares.
Observou dois quadros pequenos na parede, os quais provavelmente foram comprados nessas feiras em praças. Não viu varanda, nem janela. Apenas a porta da cozinha que ficava ao lado da porta por onde entraram. Também havia o vão para o corredor que levava para poucos cômodos por dentro da casa. Corredor escuro desbravado por uma Regina ligeiramente bêbada em sua missão para achar cobertas. Decidiu por levantar. Olhou o relógio do celular. 11:10. 10 minutos olhando a casa e deixando a preguiça tomar conta de si enquanto a loira dormia serena.
Levantou-se, arrumou as roupas, colocou as botinhas, pegou a escova de dente que sempre leva na bolsa, fez a higiene matinal e ainda, com sede, assaltou a geladeira de Emma, pegando um suco da lata de maçã para ir tomando no caminho. Pensou que depois de tudo aquilo ela devia algumas palavras a sua salvadora. Afinal fizera tanto por ela. Suspeitava até que Emma não tinha ideia do real peso daquela noite. Ao lado da loira, no local onde dormira, deixou um bilhete agradecendo por tudo, dizendo que aquilo tudo fora realmente muito importante para ela. Pediu desculpas pelo incômodo e por ter bebido tanto de um vinho tão bom. De fato o era, e, com certeza era caro. Também avisou que levaria o suco consigo. Pensou que talvez pudesse compensar a loira de alguma forma qualquer hora dessas, então deixou, no fim do bilhete, o telefone de sua casa e seu celular. Deixou o local fazendo o mínimo de barulho possível. Entrou em seu carro e foi direto para casa.
Emma acorda muito depois de Regina sair. Há um tempo não dormia tão tranquilamente. Não precisava preocupar-se por enquanto, agora iria ser monitora em exposições artísticas por um tempo. Levantou-se cambaleando, com uma ligeira dor de cabeça, pegou o celular na bolsa e viu as horas. Uma hora da tarde! Dormira demais. Subitamente deu por falta da morena, lembrando-se o porquê de estar no sofá e ter tido tanto sono. Mas onde estaria ela? Prestou atenção se ouvia algum som vindo do resto do apartamento. Nada. Olhou em cada um dos cômodos. Nada. Precisava desaparecer assim? Era muita mágica pra um dia só. Voltou e tirou a calça jeans, ficando de calcinha e camisa. Parou em frente ao sofá e coçou a cabeça. Observou um papel, pegou-o e leu o bilhete. Viu os números escritos e por um momento pensou se deveria guardar o número. Bom, agora com a cabeça mais tranquila, a loira poderia voltar a se dedicar um pouco a algum tipo de diversão. Salvou o número nos contatos do celular. Escreveu-os na agenda telefônica.
Passam os dias. O resto de sábado, domingo, segunda, terça, quarta, quinta, sexta. Todos os dias as duas relembraram os momentos passados naquele restaurante, na exposição e no apartamento de Emma. Elas não se falaram durante toda a semana, mas os flashes eram contínuos. Emma ficava de plantão em alguns corredores das outras exposições enquanto a equipe técnica tratava de arrumar a aparelhagem da nova atividade. Cometeu alguns erros de iniciante, como falar em horas que deveria fazer silêncio ou mostrar-se muito quando deveria ser mais discreta, mas ninguém nasce sabendo tudo, de qualquer forma. Distraía-se comparando o que vira com o que via e se perguntava se, mesmo não se tratando de mágica, Regina também se interessaria por aquelas obras. Obras que podiam ser tocadas, remexidas, alteradas. O público fazia a própria arte. As crianças divertiam-se mais. Os sorrisos brotavam. A magia voltava, já que a magia, pelo menos segundo Regina, estava em todos os sorrisos sinceros que surgiam no rosto das pessoas. Sorria de vez em quando e pensava no próprio sorriso e quem fazia aquela mágica. Mas todo esse pensar não era em todos os momentos. Na maior parte do tempo Emma estava entretida e concentrada em fazer tudo de forma certa e planejando seus dias.
Na outra ponta de tudo isso, Regina concentrava-se nos julgamentos, nas causas e na burocracia. Ah, a burocracia. Requer uma paciência tamanha, uma dedicação extrema e uma vontade superior. Um objetivo. Um sonho. Uma motivação. E o que motivava Regina Mills era, mais do que a sedução do poder, mais do que a autoridade: a vontade de acertar. Tinha uma sensação que devia isso, de algum modo. Não se lembrava de ter feito coisas muito erradas na vida, mas tinha que contribuir na vida dos outros de alguma forma. Tinha que dar certo dessa vez. Dessa e em todas as outras. Tinha paciência para a papelada. Tinha atenção para com as pessoas. Era observadora. Sorrateira. Esperta. Atenta. Uma mulher de muitas qualidades, mas também de defeitos. Turrona, teimosa, mandona. Sua palavra era a última. Então, pelo menos que fossem palavras sábias. Mas a cada intervalo, a cada encerramento, Regina recordava das horas divertidas. As mais recentes, com Emma. Em um tribunal não havia muita magia. Apenas tensão. Precisava sempre de um pouco de vivacidade. E, naquela semana, ela não teve. Caso após caso. Atrocidades após atrocidades a serem julgadas. Assassinatos. Crimes hediondos. Semana pesada. A gota d´água fora sexta feira de manhã. Fora xingada a plenos pulmões por algumas pessoas que assistiam a um julgamento. Aplicou uma sentença em um sequestrador e alguns parentes e dois amigos do homem se revoltaram. Foi deprimente. Ela teve que mandar prendê-los por desacato a autoridade e quase não conseguiu controlar as pessoas dentro da sala, elas não paravam de falar. Decidiu ir para casa, não veria papéis naquele dia.
E a semana passou-se nesse ritmo. Emma não tinha nada para fazer no fim de semana seguinte. Queria fazer algo diferente. Não sabia de apresentação de mágica ou exposições desse tipo, mas tinha um lugar em mente. Pensava se convidaria Regina ou não. Os dedos coçavam e roçavam no celular. Era tentador e um pouco desconfortável. A juíza não tinha “whats app”, que no caso ajudaria muito. Apertou alguns botões e ligou. Que se podia fazer? A companhia da morena era agradável. Pelo menos assim o fora naquela noite.
Regina, mesmo em meio aos tumultos daquela semana, de quando em vez parecia perder-se em pensamentos sobre aquele dia da exposição. Pensava em Emma, aquela monitora que se prontificou rapidamente a ajudar uma completa estranha. Que tipo de pessoa põe de lado compromissos, o que precisa fazer, momentos de sua vida e se arrisca por uma completa estranha? Pior: uma completa estranha que ainda fora um pouco grossa no modo de falar? Qualquer dia desses precisaria realmente retribuir. Já sabia disso, por isso deixou o número, mas sempre que pensava no assunto, chegava a mesma conclusão e reafirmava para si mesma que veria a loira novamente. Contudo, naquela manhã de sexta feira, as últimas coisas em que pensou foi no passeio e em Emma Swan. Estava tão estressada pelo acúmulo de nervoso nas situações péssimas pelas quais passara na semana que sua cabeça estava a todas enquanto recolhia suas coisas para tirar o resto do dia se folga. O celular tocou e ela nem viu quem era:
–Alô.
–Alô, Regina?
–Sim, sou eu. Quem é?
–É a Emma.
–Emma? — Por um momento a juíza realmente esqueceu-se de Emma.
–Sim. Monitora. Sábado passado... Magia.
–Ah, sim, Emma. O que você quer?
A loira estranhou o tom de voz da morena. Notou-a seca.
–Bem... Eu estava pensando... — A monitora que estava fora do seu local de trabalho, antes dos degraus da escada e próxima ao corrimão, brincava com os pés e olhava para o chão, porém não o via. Pensava nas palavras que usaria, principalmente por Regina apresentar-se tão estranha. Tinha o celular na mão direita, enquanto a mão esquerda mergulhava no bolso traseiro da calça jeans.
–Não enrola, Emma. Tenho mais o que fazer. — Regina estava remexendo um armário em seu escritório, buscando alguma papelada, enquanto esperava a loira dizer o que queria.
–Ta, então vou direto ao ponto. Hoje é sexta e eu não tenho nada para fazer no fim de semana. Então estava pensando em te chamar-
–Está me convidando para sair, miss Swan? — Regina interrompeu enquanto fechava as portas do armário e se dirigia a sua mesa.
–É... de certa forma. Precisaremos do dia todo.
–Não vai dar. Amanhã de manhã vou trabalhar.
–Como é que é? Vai trabalhar?
–Sim, é o que as pessoas fazem, trabalham.
–Mas amanhã?
–Swan, já falei que não vai dar. Meu trabalho e minha rotina não são da sua conta. Agora me dê licença que eu tenho mais o que fazer.
–Regina-
–Tchau Emma. Depois nos falamos.
Regina achou por bem desligar logo. Não estava disposta a ficar pedindo desculpas por aí. Pensou rapidamente que talvez tivesse exagerado um pouco, mas esse pensamento logo deixou a sua mente quando ela, após arrumar suas coisas, dirigiu-se a passos largos para a porta e, depois, para a saída do local. Sentia-se imponente com seus saltos altos pretos, que combinavam com a calça social preta, uma camisa azul e o blazer cinza escuro por cima. Conforme ia passando pelos corredores, os olhares das pessoas a lembravam desse sentimento e qual era sua posição para elas. O domínio sobre os outros era realmente algo interessante.
Emma ficou atônita. Não acreditava que Regina havia desligado na sua cara. Com certeza essa não era a mulher que passara a noite em sua casa bebendo e conversando, apesar de que a bebida realmente poderia ter dado um grande empurrão para o comportamento mais livre da morena naquela noite. Mesmo assim, ainda queria passar um tempo com aquela mulher. Não a juíza estressada, mas a mágica. Também não estava afim de levar desaforo pra casa. Naquela sexta trabalharia apenas meio expediente, como já estava quase no horário de ir, resolveu falar com o chefe, que não importou-se em dispensá-la alguns minutos mais cedo. Não sabia onde a morena trabalhava, mas lembrava o caminho para a casa dela. Era perto dali. Pegou doi ônibus e foi andando até a frente do prédio de Regina. Aquele stress não era normal. E desligar na cara tinha sido demais.
Quando a morena parou o carro na frente do portão, esperando que o porteiro o abrisse, a monitora abriu a porta e entrou de supetão no automóvel, sentando-se ao lado da juíza, que demorou alguns segundos para se manifestar, sem conseguir articular bem as palavras:
–Mas o q-? Você- O que está fazendo no meu carro?
–Vim terminar a conversa. -Emma não olhava para Regina. Apenas prestava atenção no portão a sua frente.
–A gente não tem nada pra falar. Agora saia do meu carro. — A loira apenas olhou a morena seriamente.
–Não ouviu, miss Swan?
–O portão abriu.
Regina olhou para frente e realmente o portão estava aberto, e precisaria entrar rapidamente. Não tentou mais convencer a loira a sair do carro. Não depois da forma como falara com ela ao telefone. Não depois de vê-la entrando em seu carro daquela forma. Não depois de sexta/sábado passado. Passou alguns segundos boquiaberta, até acelerar o carro e entrar na garagem do prédio. Ambas permaneceram em silêncio até Regina terminar de estacionar o carro. Quando virou as chaves e desligou o motor, a morena soltou lentamente as mãos das chaves e recostou no banco do motorista. Continuou olhando para frente e voltou a perguntar:
–Ok, o que você tem para me falar?
–Acho que você está muito estressada. — A loira afirmou enquanto fitava a morena.
–Que bom que percebeu. Era só isso?
–Não... — Emma baixou os olhos, depois olhou para frente e encostou em seu banco. — Ainda acho que você deveria vir comigo amanhã.
A morena a olhou desacreditada:
–Está falando sério?
–Estou. — Dessa vez olhou firme para a morena, que desatou o cinto e saiu do carro. Logo foi seguida por Emma.
–Você é maluca.
–Por quê?
–Ajuda alguém que não conhece. Insiste em se aproximar de alguém estressada...
A morena tranca o carro e caminha a passos largos em direção ao elevador, com uma loira insistente logo atrás.
–Estou apenas procurando boa companhia.
A morena ri sarcasticamente, andando a frente de Emma:
–E encontrou em mim? Acho que precisa trocar seu grupos de amigos, Miss Swan.
Quando chegaram em frente ao elevador, ele já estava pronto para ser utilizado. Emma falava enquanto a morena adentrava-o:
–Também me incomoda te ver tão estressada.
A juíza então segurou a porta para trocar uma última palavra com a monitora.
–O que você realmente quer, Swan?
–Descobrir a verdade. Quero saber qual é a verdadeira Regina. Quero a companhia da mulher que conheci.
Regina então deixou que a porta se fechasse, e antes que isso acontecesse completamente, finalizou:
–Vai sonhando.
Emma não sabia como reagir àquilo. Aquela mulher parecia ser bem inconstante. Contudo, não queria perder de vista a mulher cheia de sonhos que conhecera na semana anterior. A loira fechou os olhos, virou de costas para o elevador, levou a mão direita a testa e a esquerda ao bolso traseiro da calça. Tinha que arrumar uma forma. Não gostava de deixar coisas pendentes. Não gostava de abandonar problemas não solucionados. Principalmente quando se tratava de pessoas. Mais ainda quando eram pessoas que a tinham cativado.
Bem lá no fundo, Regina sentia um mal estar... Um certo tipo de remorso por ter tratado a loira daquela forma. Esse sentimento apenas contribuíra para que a morena ficasse estressada. De qualquer forma, seria melhor dar aquele assunto por encerrado. Não estava afim de dar o braço a torcer e ir lá pedir desculpas. Ela havia deixado muito claro que não estava em um dia bom. No fim, a culpa era de Emma por ter ido atrás dela. Tentou convencer-se disso e quase conseguiu, não fosse um pontinho de arrependimento que teimava em continuar em sua mente, bem mal escondido. Aquilo continuava latejando enquanto ela almoçava e fora só quando entrou em sua banheira para tomar um banho relaxante que esqueceu-se um pouco de Emma, do trabalho, das pessoas, dos criminosos e do trânsito. Relaxada no banho, fez uma nota mental sobre não esquecer mais de trancar todas as portas do carro.
Não lembrava bem em que momento adormecera, mas conseguiu identificar os números no rádio relógio indicando que eram sete da noite. Percebeu alguns segundos depois que o interfone estava tocando na cozinha. Surpreendentemente estava com seu pijama de seda prateada. Aos poucos fora lembrando-se de tê-lo colocado e deitado na cama. Com certeza estava muito cansada, pois parte de suas memórias do dia tinham desaparecido. Levantou-se da cama e ia em direção à cozinha, tropeçando nos próprios pés. Conforme ia caminhando, seus olhos iam abrindo mais e suas vagas lembranças voltavam. Tudo estava escuro. Ascendeu as luzes da cozinha e atendeu, ainda muito sonolenta, o interfone:
–Alô.
–Alô. Sra. Mills?
–Sim, sou eu.
–Aqui é o porteiro Gerson, boa noite.
–Boa noite. — Regina, com os olhos fechados, tentava prestar atenção no que o porteiro falava. Levou mão esquerda a boca para conter o bocejo.
–Desculpa o incômodo, mas o vigia noturno encontrou um problema com seu carro.
A morena abriu os olhos e agora prestava o dobro de atenção na conversa.
–Um problema com meu carro?
–Sim. Parece que todos os pneus estão murchos.
–Como é? — A juíza ficara visivelmente tensa.
–Achamos que eles foram furados.
–Estou descendo imediatamente.
Regina não deixou que o porteiro falasse qualquer coisa. Desligou o interfone abruptamente, voltou ao quarto para calçar suas pantufas de panda e desceu até o estacionamento. De pijama mesmo. Tinha uma ideia do que teria acontecido, mas ainda preferia acreditar que ligaram para o apartamento errado ou fora obra de crianças com brincadeira de mal gosto. Infelizmente, o carro era mesmo dela. Quando chegou em frente ao seu carro, um porteiro e um vigia a esperavam.
–Achamos que furaram os pneus essa tarde, senhora.
–Que cretina!
–Como?
–Por que só me avisaram agora?
–O vigia noturno foi fazer a sua primeira ronda da noite e...
–Não importa, vocês deveriam cuidar melhor desse estacionamento. Exijo ver as imagens da câmera de segurança imediatamente!
–Já verificamos. Parece que as câmeras estavam desligadas.
–Desligadas? Como assim desligadas?
–Bem...
–Bando de incompetentes.
A morena virou as costas e voltava pisando firme para o elevador.
–O que vai fazer, senhora?
–Resolver isso. — Falou ainda de costas. Depois virou-se. — Mas pode deixar que eu vou processar o condomínio. Vou querer uma indenização!
Quando chegou novamente em seu apartamento, buscou sua bolsa e de dentro dela puxou seu celular. A última ligação recebida fora de Emma Swan, exatamente com quem queria falar. A ligação chamou, chamou e nada, porém a morena insistiu tanto que, mesmo depois de um bom tempo, a loira atendeu:
–Alô.
–Olá, Emma. Tudo bem com você? — Disse em tom irônico, para depois mudar para o tom que expressava o seu atual estado de espírito. — Você pode me dizer porque raios os quatro pneus do meu carro estão furados?
–Estão é?
–Sim, estão.
–Que droga, neh?
–Deixa de ser cínica, Swan. Eu sei que foi você.
–Ta. Fui eu.
–Isso é crime sabia? E eu vou processar você.
–Com que provas?
Regina ia falar sobre as imagens da câmera de segurança, mas não as tinha.
–Foi você! Desligou as câmaras de propósito!
–Bom... Para fazer essas coisas não podemos ser pegos, não?
A morena suspirou em desistência daquela briga.
–Por que fez isso?
–Porque eu acho que você não deve ir trabalhar amanhã.
–Ainda com isso, Swan?
–Sim... ainda com isso.
Emma estava em seu quarto, usando um pijama de moletom azul escuro. Normalmente dormia apenas de camisa e calcinha, mas estava bastante frio naquela noite. Ela andava pelo quarto até que jogou-se na cama.
–Não. Eu vou trabalhar amanhã. E você é quem vai me levar.
–Eu? Mas eu não tenho carro.
–Se vira. Quero você aqui às sete e meia em ponto.
–E se eu não for?
–Bem, Swan... Você não faz a mínima ideia do que eu sou capaz.
A morena desligou o telefone na cara de alguém pela terceira vez no dia. Também só falara três vezes. Segurava o celular perto do rosto e sorria vitoriosa, pensando no que faria com a loira se ela não aparecesse. Emma jogou o celular nas almofadas que se encontravam no chão. Pensava que Regina estaria blefando, mas não estava afim de provocá-la. Virou-se na cama e deitou de bruços, afundando o rosto no travesseiro, deixando o nariz de fora para respirar. Respirou pesadamente, com a cabeça girando um pouco. Deixou toda a tensão cair sobre a cama e relaxou os músculos. Sentiu o sono. Porém, antes de dormir, teve uma ideia. Puxou o telefone que ficava na mesa de cabeceira ao lado da cama e digitou alguns números. Esperou.
–Alô.
–Alô, Tom! Preciso do seu carro.
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