Seis Lágrimas
18 O Fogo - Parte 2
Notas iniciais
“Well, maybe I'm a crook
For stealing your heart away
Yes, maybe I'm a bad, bad, bad, bad person
Well baby I know
So I think it's best
We both forget
Before we dwell on it
‘Cause You love, love, love
When you know I can't love you”
Love, Love, Love – Of Monsters And Men
Nos últimos capítulos — Boston:
Regina sorria. Estava flutuando, voando! Emma acreditou e via-se um sorriso em seus lábios também.
***
(R)-Acreditar sem provas...
(E)-Então... Magia é sobre fé?
***
—E por que insistiu em vir comigo?
—Um desafio é sempre mais interessante.
***
Nesse momento o Dj começou a tocar “Burning Love”, de Elvis Presley. A loira aproximou-se e a puxou para dentro da água. A morena, ao contrário de todas as expectativas, revidou, jogando água naquela que a havia arrastado para água. Depois de um tempo em que uma jogou água na outra, as duas estavam rindo.
***
Emma, voltando para o carro, viu em uma vitrine dois colares de corações. Um coração negro e um vermelho. Comprou-os.
***
—E você ganha o quê me ajudando, posso saber?
—Bem... A sua companhia.
***
Ambas estavam perto da casa de Regina. Caminhavam tranquilamente sobre as pedras brilhantes da ponte.
—Regina.
A juíza virara o rosto para fitar a monitora. Por um momento os olhos de Emma pareceram assustados. Mas também pediam por algo que Regina não conseguira desvendar. Antes que a morena pudesse falar qualquer coisa, a loira aproximou-se demasiadamente rápido e não dera tempo para qualquer reação, beijou-a.
***
Pensamentos soltavam e se atiravam por todos os lados da sua mente, mesmo que não quisesse nem sequer admitir que estava preocupada com a loira, com os sentimentos dela... E também com o seus. E também, aquele laço... Ele poderia ser desfeito? Aquela amizade surgiu como um dos principais acontecimentos dos últimos tempos e um beijo pode ser capaz de jogar tudo fora?
***
A juíza explicou o básico de esgrima para a monitora, que aprendeu rápido.
—Vou demonstrar alguns ataques e você repete meus gestos.
E dessa forma foi feito, algumas vezes a morena utilizou as batidas das músicas para mostrar os ataques, fazendo com que ambos os corpos tomassem ritmo. Era útil para que o cérebro de Emma se acostumasse com a sequência repetida por cada parte do seu corpo. Em guarda, ataque, parada, resposta.
***
—O que está fazendo, Emma?
Elas pararam apenas quando a morena sentiu a parede atrás de si.
—O que estou fazendo? Estou me metendo, Regina. Talvez isso seja o que eu nasci pra fazer, me meter nas suas coisas e atrapalhar a sua vida. Ou será que é me meter na sua vida e te trazer algo de bom? Porque eu não acredito que você sorria tão livremente antes de mim, eu não acredito que você acampava antes de mim, eu não acredito que teria visto aquela exposição se não fosse por mim!
—Emma!
***
—Saia, Emma.
—Regina, por favor...
—Você foi meu passa tempo, Swan!
A loira ficou estática e afastou-se ligeiramente da juíza. Sem reação, com grandes olhos surpresos e com brotos de lágrimas.
—O quê?
—Exatamente isso, Miss Swan. – A juíza enxugava as lágrimas e recompunha-se. –Você ouviu bem. Eu falei do eu amigo porque não queria falar a verdade. Você foi muito longe e não significa tanto pra mim. Tirou essas coisas da sua cabeça.
—Não significo? –Os olhos de Emma, com as lágrimas, inchados, tristes, tocaram profundamente a mulher dura que era Regina.
—Isso mesmo, Miss Swan. – Ela a olhou com o nariz empinado. – Você era só meu passa tempo. Nada mais que isso. Volte para a sua vida.
A loira a olhou, tonta, esmorecida, acabada. Regina se fez mármore. A loira deixou a máscara cair ao chão, mas a morena ainda tinha a sua presa a cabeça. E Emma foi-se embora se pensar nas vestimentas, em Regina ou em si própria, com um buraco no lugar do coração.
***
Não importava o quanto se revirasse na cama, Regina não conseguia dormir. Era uma noite qualquer de terça para quarta. O colchão de molas tinha virado pedra. O travesseiro de penas não aliviava o peso na consciência. Não conseguia achar uma posição confortável para dormir e as cobertas aveludadas não aqueciam o suficiente. Nada poderia aquece-la o suficiente. Nada.
Tinha a barriga virada para cima e ela observava o teto com suas sombras, penumbras e luzes azuis que vinham da noite lá fora. Lágrimas escorriam dos seus olhos para umedecer os ouvidos e causar grande desconforto. Quando não trilhavam esse caminho, o riacho que tinha os olhos da morena como nascente serpenteava o pescoço da juíza apenas para desaguar no macio travesseiro. Lembranças em cima de lembranças, mas a que mais lhe doía era o rosto chocado e magoado (principalmente magoado) de Emma Swan. Regina suspeitava que poderia, quem sabe, ter passado dos limites daquela vez. Não tinha imaginado dizer aquelas coisas, não queria machucar sua amiga... sua melhor amiga. Não, uma colega próxima. Apenas uma colega próxima. Agora, porém, uma colega distante. Uma colega que ela mesma afastara na ponta da espada, uma espada invisível que transpassa armaduras, couro fervido, cota de malha, escudo, todos os metais, todos os tecidos, pele, músculos, gordura e coração. Corta mais do que qualquer coisa no mundo. Uma lâmina construída de palavras pode ser fatal.
Os olhos, aqueles olhos verdes, a morena os viu perdendo o brilho, o encanto, tudo. Emma perdeu o chão e Regina só conseguia chorar todas as vezes que lembrava daquele rosto, daquela expressão. Machucava ainda mais saber que a culpa era dela. E aquilo a vinha atormentando noite e dia, mas o pior momento era antes de dormir, quando a gravidade do mundo aumenta. Levantou-se pesada, quase sem forças. A sensação em seu corpo era a mesma de quando saímos de maiô do mar, a água querendo nos arrastar para baixo, o corpo pesado, a cabeça pesada, o mundo sob seus pés sem fazer muito sentido. Calçou suas pantufas de panda. Fitou-os. Emma ainda não as tinha visto e talvez nunca viesse a vê-las. Aquele detalhe bobo a entristeceu terrivelmente.
Caminhou pelo quarto até a porta, a cada passo uma tortura, um sono que a assombra, mas que não se concretiza. Passou pelo apartamento. Escuridão. Olhou o relógio da cozinha. Uma hora da madrugada. Fora dormir às 10 p.m. Duas horas torturantes entre lágrimas e arrependimentos. Tentava convencer-se de que era o melhor para as duas. Falhava terrivelmente todas as vezes. Abriu uma gaveta com remédios, pegou um, encheu um copo d’água e engoliu um comprimido junto com o líquido. Era esse seu destino? Ter que tomar um calmante para conseguir dormir pelo resto da sua vida? Se bem que ela usara uma taça de vinho na segunda-feira. Funcionara. Poderia variar. O mundo não estava acabando, foi apenas um fora. Só um fora. Um olhar melancólico por causa de um fora. Uma tristeza maldita por causa de um chute na bunda. Chutes na bunda são comuns, todos os dias chutes na bunda são dados. Alguns chutes na bunda são dados com tanta força que os chutados aprendem a voar e vão direto para o topo, o topo das empresas e das paradas de sucesso. A juíza só esperava que Emma não tivesse a ideia de fazer-lhe uma serenata cantando “Someone like you”, ou pior, “Rolling in the Deep”. Felizmente, a monitora não parecia ser do tipo vingativo, ao contrário da juíza.
Voltou para a cama e enquanto a droga não fazia efeito, ela continuava pensando na loira. Chorou mais um pouco, até finalmente esquecer as palavras que dissera, o fato de um homem que trabalhava no clube ter retornado com as vestes da monitora, que foi parada na entrada do local para tirar o uniforme de esgrima. O homem disse que ela parecia transtornada e chorava quando saiu de lá. E, finalmente, esqueceu o rosto tristonho de Emma Swan, para lembrar daquela face sorridente do dia em que estavam na cachoeira, quando faziam uma guerra de água ao som de Elvis. Emma estava tão feliz aquele dia... Regina Mills dormiu sorrindo ao lembrar do sorriso de Emma Swan. Swan... Uma pantufa de cisne...
A manhã surgiu e o mundo lhe pareceu menos pesado, até conseguiu sorrir ao imaginar Emma sendo mãe, olhando para o filho com ternura, alegria e completude. Talvez tivesse sido o melhor a fazer, Regina não poderia amá-la como a loira parecia querer. Havia momentos nos quais a juíza pensava não amar nem a si mesma, como poderia amar outra pessoa? Era ríspida demais, agressiva, estourada, estressada, vingativa. Como poderia ficar ao lado de alguém tão instigante, confiante e doce como Emma Swan? Tom cuidaria melhor daquela pessoa enérgica e bondosa.
No escritório os papéis passavam por suas mãos, os processos eram analisados e entre um documento e outro a juíza observava o celular, na esperança de ter alguma mensagem da loira, indicando que o pior já passara. Mostrando que ela não estava mais tão chateada. Na verdade, queria que a loira superasse tudo aquilo e não ficasse magoada. “Você foi muito longe e não significa tanto pra mim”. Depois disso, como a monitora poderia superar? “Isso mesmo, Miss Swan”. Mais uma bordoada. Mais uma facada. Os olhos da morena já enchiam novamente de lágrimas. Imaginou-se no lugar de Emma. “Você era só o meu passa tempo. Nada mais que isso. Volte para a sua vida”. A morena levou a mão direita ao próprio rosto em uma tentativa frustrada de evitar as próprias lágrimas que se derramavam novamente. Ela nunca vai me perdoar. Como pude? Quem perdoaria?
—Sra Mills, aqui está a papelada do processo do Sr Jefferson... Sra. Mills? O que houve? A senhora quer uma água? – Uma das colegas de trabalho de Regina surpreendeu-se ao vê-la naquele estado no meio do expediente.
—Não, muito obrigada, Miss Hudson. Só... Me dê licença, sim?
Regina Mills estava em frente ao espelho do banheiro, encarando-se ferozmente. Como você pôde dizer aquelas coisas, Regina? Quando se tornou tão cruel? Quando deixou de se importar com as pessoas ao seu redor? Emm... – A surpresa atingiu-a e os olhos refletiram seu desespero. Ela pensou em Emma com um apelido? Emma... Como deve estar se sentindo?
Não conseguiu ir até o final do dia. A juíza abandonou seu escritório, entrou em seu carro e acelerou.
A monitora, por sua vez, decidira encontrar-se com Tom em uma praça perto do trabalho. Seus dias tornaram-se pesadelos e conforme ela ia trabalhar, o inferno piorava. Fora lá dentro que ela começou a gostar de Regina. Tinha medo de pensar sobre paixão, era uma palavra muito forte. Não se sentia muito segura e se admitisse que era uma paixão, ficaria mais quebrada ainda. Não dormia direito e agradecia internamente por poder usar óculos escuros naquela semana a qual deixara, temporariamente, seu cargo de monitora para substituir um segurança que havia quebrado a perna no fim de semana. No mesmo fim de semana quando tivera o coração quebrado, porém ela estava ali. Não há um hospital para corações quebrados, tampouco atestados médicos.
Depois do expediente, ele veio encontrá-la no local combinado. Ela usava terno e gravata, com seus óculos escuros e um rabo de cavalo. Olhava para o horizonte, onde crianças brincavam. As pernas estavam cruzadas e os braços abertos no encosto do banco. Quando Tom chegou ela não se incomodou em observá-lo, como se não o conhecesse.
—Olá, senhora de preto.
Ele estava com a barba por fazer, seu corpo mostrava sinas de que andava malhando. O cabelo ruivo estava despenteado e ele usava uma jaqueta jeans regata por cima de uma camisa do Linkin Park, uma corrente, uma calça jeans e um par de tênis.

—Oi. – Falou desanimada e sem mover um músculo.
—Você está pior do que eu pensava, Emma. — Ela virou o rosto e ele se viu refletido em seus óculos escuros. Ela riu de canto, ironicamente.
—Ah, é? – Ela puxou os braços para frente do corpo, juntando-os em cima da coxa esquerda.
—Emm... – Ele encostou uma de suas grandes e reconfortantes mãos nas delicadas mãos da loira. – O que houve? – Ela voltou seus olhos para as crianças a sua frente.
—Regina...
—Ela de novo? – A voz do moço saiu mais ríspida do que ele gostaria e então retirou a mão que encostava nas dela. – Fez o que? Te deu um chute? – Silêncio. Ela não respondeu nada e direcionou seu olhar para baixo.
—Ah, Emma, por favor, foi só um fora.
A loira levantou a voz para responder.
—Não foi – Um suspiro por parte da monitora. – Não foi apenas um fora. – Ela então o fitou. – Ela quebrou meu coração. – Ele estendeu os braços fortes em direção ao rosto da loira e retirou os óculos escuros. Então viu os olhos vermelhos e inchados de choro e as olheiras de sono.
—Ah, Emm... – Uma lágrima escorreu pelo rosto delicado de Emma Swan. Ela fechou os olhos e levou as mãos ao rosto, enxugando-a.
— Foi tão ruim como quando Lilly se fez de minha amiga e mentiu para mim. Foi tão ruim como quando ela me deixou pela segunda vez.
—Lilith? Uma segunda vez?
—Sim. Depois que fui adotada pela Ingrid com quatorze anos, fazia um ano que havia acontecido aquela coisa com a Lilly, quando eu a conheci e descobri que ela tinha uma família. Então, dois anos depois ela reapareceu, me convenceu que seria bom retomar a amizade... – Ela desviou o olhar. — Mas então ela me deixou sozinha.
—Deixou?
—Não quero entrar em detalhes sobre o assunto, Tom, isso já faz muito tempo.
—Faz tempo, mas você lembra o quanto doeu, não é mesmo? – Um silêncio se estabeleceu. – Emma?
—Sim, eu lembro, ok? – Falou em tom insatisfeito e agressivo.
—Emma... – A monitora não o olhou. Ele se aproximou dela, segurou o queixo dela e virou o rosto de Emma. Ela ficou presa nos olhos azuis e penetrantes dele. – Não aguento te ver assim. Te amo. Te quero bem.
—Eu sei, mas
—“Mas” nada. Esqueça isso, Emma. – Tom aproximou-se lentamente. – Esqueça. Esqueça tudo. Só quero ver você sorrir.
Então ele a beijou. Foi um beijo delicado em um primeiro momento. Ela não queria, mas deixou-se levar e em alguns segundos estava retribuindo. O beijo tornou-se mais intenso e acalorado, cheio de desejo e amor por parte dele e ânsia, desespero, carência e ternura por parte dela. O vento soprou, os fios de cabelo soltos dos dois se movimentaram e seus rostos eram agraciados com o toque suave dos raios advindos de um sol poente.
Naquela última metade de quarta-feira, a juíza visitara a orla da praia após fugir do escritório, onde uma vez andara tranquilamente com Emma Swan, “jogando conversa fora”. Riu consigo mesma quando se recordou o quanto Emma insistiu para que ambas colocassem os pés na água e que, a muito custo, conseguira o que queria. A loira conseguira oxigenar a vida de uma juíza sufocada pela quantidade exorbitante de trabalho que nem se importava tanto com ter um pouco de diversão, arejar a cabeça ou sequer sorrir. Perguntava-se quando havia deixado de sorrir e, principalmente, quando havia deixado de sorrir com leveza. Voltou a se preencher com felicidade no dia em que ambas foram a exposição de magia. Aquela sala de espelhos e a cartola guardariam momentos únicos, com certeza. Continuou olhando o horizonte e o sol que se punha, mergulhando nas águas e lembrando-a dos cabelos ora lisos, ora ondulados de Emma Swan.
No entanto, era uma manhã de quinta-feira, e a morena encontrava-se em sua terapia, no consultório de Rose, que como sempre tinha uma prancheta com papéis e uma caneta em mãos, falando, observando Regina e fazendo anotações pessoais. A mulher falava sobre algo que a juíza tinha comentado sobre o trabalho, o escritório e as audiências que haviam se tornado mais frequentes para ela naquele período do ano. A possibilidade de julgar e decidir errado era algo que sempre pesava sobre a morena, e era demasiadamente sufocante.
A terapeuta vestia, naquela manhã, uma blusa comum com estampas floridas, uma calça preta com um sapato branco de salto baixo. Usava um colar de bijuterias extravagantes, pulseiras grossas e anéis grandes em ambas as mãos. Por vezes ela lembra uma querida tia brega. Emma riria disso se estivesse de bom humor e, na verdade, a loira sempre olhava para a vida com olhos mais amistosos do que Regina estava acostumada. Sorriu sozinha com esse pensamento quando fora despertada pela voz insistente de Rose perguntando-lhe algo.
—Não acha, Regina? Regina?
—Ah.... Sim, talvez sim.
—Você está bem, Regina?
—Hum? Ah... Sim, estou bem. Rose inclinou-se para frente e abaixou os óculos de hastes grossas e vermelhas até a ponta do nariz, olhando-a por cima deles.
—Tem certeza?
—Tenho.
Regina trajava, naquela manhã um tanto quanto fria, uma blusa branca por baixo de um blazer vermelho. A saia era preta e os sapatos eram brancos com adornos e um salto médio. O sol matinal distribuía seus raios pela cidade de Boston e parte deles adentrava os vãos da persiana do consultório da doutora Rose, deixando o ambiente iluminado. Alguns pássaros piavam do lado de fora e poucos carros passavam naquela rua.
—Não gostaria de falar sobre aquela sua amiga, Regina?
—Qual amiga? – A face da terapeuta demonstrou que a resposta para aquela pergunta era óbvia. – Precisamos falar dela?
—Apenas se você quiser, você é a paciente. Mas creio que se algo está te incomodando muito nesse momento, esse algo na realidade é ela.
—Você tem razão, tem a ver com Emma Swan. Mas no caso dessa vez quem fez algo preocupante fui eu, não preciso falar para você para que me diga que estou errada, já sei que estou. Mas farei algo sobre o assunto, não se preocupe.
—Fará?
—Sim. Apenas não sei ainda exatamente o que…
—Lembre-se, Regina, você já passou muito tempo falando comigo sobre trabalho, desistiu da terapia e quando voltou, conversou sobre essa moça e voltou a falar de trabalho. Talvez seja hora de vir falar comigo sobre outra coisa além dos seus deveres, não acha?
A morena pensou bem sobre o que Rose dissera. A juíza não era apenas uma juíza, não era uma máquina que decidia o destino das pessoas em fóruns e audiências… Mas sábado chegara e ela ainda não sabia o que fazer. Antes estava disposta a abrir mão da amizade da loira em prol da felicidade de Emma com filhos e, quem sabe, com Tomás, mas agora via claramente que estava, mais uma vez, sendo egoísta. Com uma desculpa de auto sacrifício, ela na verdade estava fugindo de Emma Swan, com medo dos sentimentos da outra e do que aqueles sentimentos poderiam desencadear dentro de si mesma. De qualquer forma, sabia, do fundo do coração, que estava sendo egoísta e medrosa, mas também queria que Emma fosse feliz. E tinha uma grande certeza consigo: não queria perder a amizade da monitora.
O sol já havia nascido, o velho teatro empoeirado estava como sempre estivera desde que a dupla havia começado a ensaiar ali. Começou a colocar em seus devidos lugares alguns dos equipamentos logo após retirar as capas de plástico ou pano que os cobriam e protegiam contra a poeira. Sujou sua camiseta branca com o pó do local. Usava também uma bermuda feminina bege com um cinto fino marrom. Um dos equipamentos precisava de um ajuste e lá estava a mágica, em cima do palco, com uma chave de fenda apertando um parafuso de uma caixa mágica, de costas para o grande salão que era parcialmente iluminado por alguns raios de sol. Quando virou-se para descer da plataforma, deu de cara com Emma Swan em pé, em frente ao palco, de braços cruzados, vestindo uma jaqueta de couro da cor vinho, por cima de uma blusa simples bege, uma calça jeans com detalhes claros e alguns rasgos. No pé usava um tênis preto com detalhes azul-escuros.
—Emm…- A morena soltou sem pensar e em seguida não soube o que dizer, abrindo e fechando a boca diversas vezes, olhando para os lados com a esperança de que em algum lugar encontrasse algo que lhe dissesse como deveria agir naquele momento.
—Miss Swan seria melhor. – Mills pareceu um tanto magoada por alguns segundos, mas logo recuperou sua postura de alguém superior.
—Está bem. Miss. Swan, então. Por que está aqui? Pensei que não viria mais.
—Pensei seriamente em não vir, mas eu assumi um compromisso. – A monitora direcionava à outra um olhar gélido. – Sinto muito, mas o seu “passa tempo” não vai te deixar na mão, Sra. Mills. É isso o que pessoas decentes fazem.
Aquela declaração da loira doeu demasiadamente em ambas. A lembrança das próprias palavras, para a morena, era um tormento. Para a loira, a exigência de tratamentos formais selou o distanciamento, quando, na verdade, ela ansiava por poder chamar a juíza pelo primeiro nome. Queria pronunciar “Regina” novamente.
— Entendo. – A juíza desviou o olhar para o chão. Então conseguiu novamente olhar para o rosto da mulher a sua frente. – Então, devemos começar?
Atlas teria se saído melhor durante todo ensaio, entretanto elas não tinham a mesma habilidade para lidar com o clima tão pesado que pairava. A atmosfera parecia ser puxada com muito mais força pela terra. Cada movimento que envolvia um toque era feito com receio. Cada carta puxada por Emma das mãos de Regina era cuidadosamente retirada, as mãos tremiam e por vezes parte das cartas caíam ao chão. Foram várias pausas e o dia não foi produtivo. Também por culpa da mágica que olhava para a loira e não podia evitar as lembranças que lhe ocorriam sobre Rose nos momentos em que ela disse para que a juíza parasse de pensar e apenas sentisse.
A juíza imaginava como seria sentir o beijo de Swan novamente, ou pelo menos o abraço dela. Raramente a tinha abraçado quando tudo estava bem, deixava que seu orgulho a impedisse, a loira a beijou e foi confuso, mas não se lembrava de um abraço carinhoso. O cheiro de Emma Swan lhe era inebriante por mais que sempre tivesse evitado tal pensamento. Todavia, aquele momento já era tarde demais para isso, era tarde demais para recuperar amizade mais doce e sincera que se lembrava de ter vivenciado. A morena sabia que depois do show na festa infantil cada uma seguiria sua vida, como ela mesmo havia mandado que a monitora fizesse. Quando terminaram de colocar os equipamentos no lugar, era cedo ainda, pouco depois das 12 p.m. Regina dirigiu a palavra a Emma:
—Bem, Miss.Swan, acho que e isso. – Dizia enquanto batia uma mão na outra para tirar a poeira de si. Estendeu uma das mãos para um aperto de mão. – Obrigada.
A loira fitou-a um tanto incrédula, alternando os olhares entre a mão estendida e o rosto da juíza, até deparar-se com os olhos da morena.
—Sério?
—Acredito que não temos outra opção. Sábado que vem será o último e eu lhe agradeço verdadeiramente. Poucas pessoas são como você, Swan, não perca isso.
—Essa diferença parece não ter sido o suficiente para você. – Regina a olhou com um semblante amargurado por alguns instantes e Emma desconversou. – Desculpa. De qualquer forma, – Apertou a mão da morena. – agradeço pela experiência e pela oportunidade de estar com você... ah... de ensaiar com você aos sábados. Me fez... feliz.
O toque das mãos e a sinceridade provocou uma eletricidade no ambiente, seus olhos conversavam e queriam se aproximar, mas as barreiras que tinham construído estavam altas demais para tanto. A monitora foi quem retirou a mão.
—Obrigada, Sra. Mills. Até semana que vem. – Virou-se em direção à porta. – A juíza foi tomada por um súbito desespero, olhou de um lado para o outro rapidamente, pensando no que fazer, deu pequenos passos para frente e não controlou a voz.
— Emma. – A loira, surpresa por ouvir primeiro nome, virou-se, mas ficou em silencio. – Miss. Swan...
—Sim?
—Ah... – A loira continuou encarando-a. – Des... Desculpa. – Colocou a mão direita sobre o braço esquerdo acima do cotovelo. Desviou o olhar. – Desculpe-me pelas palavras de sábado passado. Eu... não devia ter dito aquilo. – Voltou a olhar a loira que tinha um olhar petrificado na face. Disse com voz firme.
—Não devia mesmo, Sra. Mills. – Um breve silêncio. Uma nuvem passara na frente do sol naquele momento, deixando o ambiente um tanto mais escuro. – Não se corta alguém daquela forma. – A juíza olhou-a surpresa pela loira ter colocado aquele sentimento em palavras. – Mas vamos esquecer isso tudo de qualquer forma. Seguiremos por caminhos diferentes...
—Sim.
—Mills, ficará aqui hoje? – A pergunta surpreendera Regina.
—Sim. Trouxe trabalho para casa esse fim de semana.
—Papeladas. Muito bem. Boa sorte e até sábado que vem.
—Obrigada.
A loira deixou o velho teatro e Regina pensou que nunca mais a veria naquele lugar cheio de madeira, poeira, traças e lembranças das duas e de outrora, um tempo do qual só restaram algumas fotos e histórias. A juíza se preparava para tirar o atraso de quando ela não conseguira ficar no trabalho, dirigindo-se para a praia na qual uma vez se divertira com Emma. Organizou os papéis em cima de uma mesa simples, de costas para a entrada do teatro. Ligou seu celular em uma estação de rádio e habilitou o viva-voz. Algum tempo se passou e ela milagrosamente conseguira concentrar-se nas cláusulas e documentos oficiais à sua frente. No rádio, a música de um conjunto o qual a ocupada mulher jamais ouvira tocar se iniciava, chamava-se “love,love,love” de uma banda que tinha um nome engraçado chamado “Of Monsters and Men”. Assustou-se quando sentiu um baque na mesa e percebeu a presença de Swan ao seu lado. A moça havia colocado um copo de café mocha do Starbucks com um saco de papel contendo algum tipo de alimento ao seu lado. A morena a olhara o conjunto e o rosto da loira sem entender o que se passava.
—Achei que pudesse estar com fome.
—Ah... de fato. Obrigada pela preocupação, Miss.Swan.
A loira assentiu positivamente com a cabeça e afastou-se a paços largos de Mills.
—Swan. – A monitora virou-se para a juíza. – Por quê? – Emma deu de ombros.
—Não sei. Você pediu desculpas. Eu acho... Eu acho que isso é uma coisa boa.
Virou as costas e continuou seu caminho. A morena virou-se para a mesa e fechou os olhos por um instante. Sentir. Colocou a caneta que segurava na superfície de madeira e levantou-se. Saiu de onde estava em direção a moça que a fizera cometer crimes e rever sua vida.
—Miss Swan!
Quando Emma virou-se novamente, Regina já estava próxima a ela e, em alguns instantes, Emma Swan estava sentindo em seus lábios outros lábios, vermelhos e macios. A morena estava afoita, segurava com força a jaqueta de Emma que não estava zipada, e puxava-a para si. A juíza tirou sua mão esquerda da jaqueta da monitora e a levou para o lado direito do rosto da mulher cujo coração havia partido. Acariciava a pele alva com delicadeza enquanto aprofundava o beijo e estabelecia o máximo de contato entre suas línguas. Os lábios de Emma Swan eram rosados, macios, doces e gostosos. Regina havia seguido completamente o conselho de sua terapeuta e estava concentrada apenas em sentir naquele momento. Sentia o perfume e o calor de Emma, a maciez de seus lábios e sua pele, o cheiro de shampoo misturado com o perfume tão familiar e inebriante. Os rostos movimentavam-se de um lado para o outro até que ambas se desvencilharam. A loira foi a primeira a falar ainda com os olhos fechados, ofegante e com a boca e queixo vermelhos:
—Regina... não...
—Não diga nada, Emma...
—Por favor...
Ambas se entreolharam enquanto lutavam para recuperar o ar e seus olhos brilhavam.
—Não brinque comigo, Regina. Já me magoou tanto... – A monitora dizia enquanto movimentava levemente a cabeça negativamente. Mills não conseguia suportar aquelas palavras. Aquela tristeza ela não queria sentir de novo. – Estou confusa. Tudo está tão confuso...
A juíza segurou os braços da monitora com firmeza, com medo que se a soltasse ela iria embora para nunca mais retornar
—Não sei o que estou fazendo, Emma. Não sei se é certo, se é razoável, plausível.... Eu sei... sei que não é lógico... – A morena fechou os olhos e encostou sua testa na da mulher a sua frente, que também fechou os olhos. — Do mesmo jeito que não é lógico eu só conseguir dormir tranquila a noite quando durmo pensando no seu sorriso.
—Regina o Tom... ele... me beijou. – Ambas cruzaram olhares assustados. Emma segurou os braços de Mills, que se afrouxaram, afastando-a.- Preciso pensar. Está tudo confuso. Muito confuso. – A loira segurava as mãos da morena e as soltou, virando-se e indo embora finalmente. — Preciso pensar.
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