— Não, eu não menti. Eu disse que ela seria a primeira a morrer, eu não disse que eu a mataria.

Rebecca virou as costas, ignorando a arma apontada para ela e dando uma olhada na cozinha, seus olhos cheios de lágrimas.

— Estamos em uma cozinha Nathaniel, que coincidência, não é? – Virou-se para ele, a voz embargada. – Nos conhecemos na cozinha da festa do Luke, lembra? A festa estava um saco, a música horrível, mas a comida...

— Estava maravilhosa. – Ele terminou a frase dela, lembrando-se.

— Estava mesmo. Então você reclamou da música e eu disse que tinha ido lá para fugir dela. Nós rimos e começamos a falar sobre música. Ficamos surpresos do quanto nosso gosto musical é parecido. – Ela se aproximou um pouco dele. – Você pegou meu número, me chamou de Becky pela primeira vez e depois nunca mais parou.

— Por que está dizendo isso?

— Não sei, apenas me lembrei. E também lembrei que perdi minha virgindade na cozinha da sua casa. Metade de mim estava com medo de fazer algo errado, metade de mim estava tranquila por estar com você. Foi um dos dias mais felizes da minha vida.

— Para com isso, Becky. – Ele deu alguns passos para trás. – Você está enlouquecendo.

— E mais uma vez – Ela continuou, ignorando-o – terei um momento importante numa cozinha com você. Só que dessa vez, não tem nenhum carinho vindo de você. Dessa vez você está com uma arma apontada direto pra minha cabeça.

— Você sabe que eu não quero fazer isso.

— Sei? Bom, você sabe o que é completamente injusto? Eu senti sua falta. Muito. Você foi pra Nova York e eu fiquei te esperando, contando as horas pra você chegar. Pensei em você a cada segundo, era como se você fosse meu combustível. E quando você chegou, nossa... – Abriu um sorriso amplo e sincero. – Eu fiquei tão feliz. Me ligou dizendo que ia passar na minha casa, e eu ingênua, sim, muito ingênua, pensei que você ia me abraçar e dizer que pensou em mim. Achei que você ia dizer que me amava e que nunca mais queria se afastar de mim. – Ela deixara de sorrir, o encarava com raiva. – Mas não foi assim, lembra? – Ela o olhou com nojo. – Você disse que estava apaixonado por outra, e que por mais que eu fosse perfeita eu... Nunca seria ela.

“Você destruiu tudo o que eu era, eu me entreguei como um cristal e você me jogou no chão, e eu nunca mais serei como antes. Achava que você tinha tirado tudo que eu tinha, mas percebi que não foi isso, percebi que eu te dei tudo que eu era. Eu tinha raiva de você, depois comecei a ter raiva de mim. A culpa sempre foi minha por ter confiado em você. Eu estava tão cansada de me sentir sozinha que entreguei meu coração para o primeiro que disse palavras bonitas. E eu me odeio por isso.”

— Becky...

— E agora você está apontando uma arma pra mim. – Sua voz aumentou um tom. – Você vai me matar para se salvar. Sabe o pior de tudo? Eu não superei você, eu te amo e isso dói cada vez mais. E eu não queria dizer isso, mas não tem problema não é? Confessar que fui feita de idiota por você, mas que continuo te amando.

— Não, não tem. Perdoe-me, eu realmente era apaixonado por você, a Jenny apareceu de repente. Não foi programado. Perdoe-me por ter te abandonado, juro que nunca quis te ver sofrer. Perdoe-me por ter feito você se odiar, e principalmente, me desculpe pelo que vou fazer.

Rebecca respirou fundo. Apesar de tudo não estava nervosa. Estava apenas... Decepcionada. Mas não era consigo mesma, pela primeira vez em semanas, estava orgulhosa de si.

— Me beija. – Pediu a ele. – Por favor. Meu ultimo pedido pra você.

Nate se aproximou lentamente de Rebecca e abaixou a arma. Sua mão esquerda passou pelo pescoço dela e a mão direita pela cintura. Rebecca sentia a arma roçar nas suas costas.

Ela chorava quando pegou a adaga que havia colocado dentro do cinto, e atravessou na barriga de Nate.

Ele recuou surpreso e levantou a arma novamente. Puxou o gatilho e atirou, mas nada aconteceu. Nate caiu de joelhos no chão, um grande rasgo na camisa manchada de sangue.

— A arma estava descarregada, acho que me esqueci de avisar. A única bala que tinha usei para quebrar a lâmpada. – Ela se ajoelhou na frente de Nate e passou a mão pelas suas costas. – Me desculpe Nathaniel, vou cuidar da Julie. Eu te amo.

Ela o abraçou, sentindo o sangue quente dele manchar sua camisa. Nate mal conseguia manter os olhos abertos, a vida se esvaia rapidamente de seu corpo.

— É bom saber que seus últimos segundos de vida foram comigo, que fui a ultima pessoa que te beijou. Você é meu. Leve isso para o túmulo.

E então o corpo dele amoleceu totalmente. Abraçando-o fortemente, Rebecca chorou sussurrando “você ainda é meu vencedor, Nathaniel, eu te amo”.