Segundo Mundo
12 Capítulo 12 - Novato
Acordei o com sol entrando em minha janela, depois de ter dormido em uma cama, cujo colchão parecia ser feito por deuses, de tão macia que era.
Levantei e calcei meus tênis.
Fui para o banheiro, lavei o rosto, engoli o seco ao ver a vermelhidão de marcas de dedos em meu pescoço, no espelho. As marcas ainda estavam muito fortes, isso me deixou um pouco preocupada.
Ao sair do banheiro, fui saindo pela porta e percebi que alguém dormia no sofá. Fiquei um pouco tensa ao andar até lá. Quando vi que era Marcus, que dormia profundamente, com os cabelos negros despenteados e podia ouvir sua respiração leve, quase inaudível.
Fui até a cama, peguei o edredom azul-bebê e cobri Marcus com todo o cuidado, pois não queria acordá-lo.
Que garoto teimoso! Pensei sorrindo.
Voltei-me para o espelho na parede e tentei ajeitar meu cabelo com as pontas dos dedos, tentando ignorar a vermelhidão. Não obtive sucesso no quesito de arrumar o cabelo, ele ficou ainda mais bagunçado, assim como o de Marcus.
Antes de sair, fui até o sofá e dei-lhe um beijo cauteloso em sua testa, que foi quase como se eu não tivesse encostado meus lábios, de tanta cautela.
Como uma pessoa pode ser tão linda, até dormindo? Pensei novamente e sorri.
Sai e fechei a porta.
Observei o corredor lotado de portas e percebi que Nina acabara de sair de uma delas. Usava um vestido laranja claro com os cabelos negros soltos, caídos sobre os ombros.
Fui até ela.
— Bom dia.- Eu disse
— Bom dia, Alice. Onde está Marcus?– Nina disse sorrindo.
— Ele está no quarto dormindo, cansado ainda.
— Ele melhorou o mau humor?
Eu não respondi, apenas ri baixinho.
— Nina, está indo ao refeitório? — Eu perguntei, passando as mãos em meus cabelos.
— Estou, por quê? — Ela respondeu
— Posso ir com você? Aqui é muito grande, tenho medo de me perder.
Ela sorriu e me levou para o refeitório, que ainda não haviam mesas ocupadas.
No balcão azul-marinho, havia uma panela com ovos, bacon, uma pilha de copos descartáveis, uma cafeteira, e um cesto enorme lotado de pães. Eu e Nina sentamos numa mesa.
— Quer que eu pegue café para você? Vou pegar para mim também. – Perguntei levantando devagar da mesa.
— Não, obrigada. Não estou com fome agora, vou comer depois.
Fui até o balcão, peguei um copo de café e voltei para a mesa. Houve um tempo de silêncio, até que vi Jason e Dylan. Os dois vieram até nossa mesa.
— Onde está Marcus? — Perguntou Jason para mim.
— Ainda está dormindo.
— Marcus dormindo ainda? Que novidade!
Dylan sentou-se ao lado de Jason, e agora me encarava.
—Você é a namorada do Marcus, não é?
— Sou. — Eu disse estranhando a pergunta.
—Você é bonita.- Disse Dylan.- Jason também acha.
Jason arregalou os olhos para o menino tentando adverti-lo, ou sei lá.
Eu sorri envergonhada.
— Obrigada. — Eu disse.
Fiquei em silêncio por um tempo.
— Jason, posso comer ovos com bacon? — Perguntou Dylan ao Protetor quebrando o silêncio.
— Pode. — Disse Jason simplesmente.
O garoto saiu em disparada, de um jeito independente da mesa, pegou um prato atrás do balcão e se serviu. Depois voltou e se sentou.
Dylan olhava para mim e de repente Jason pegou o garfo do Protegido, e deu uma garfada no prato do garoto, e engoliu depressa, dando um sorriso gigante.
—Jason! – O menino reclamou e cruzou os braços.
Todo o mundo na mesa riu, exceto Dylan que continuava com os braços cruzados e com o bico na cara.
— Bom dia. — A voz de Marcus surgiu.
— Bom dia. — Eu disse.
— Bom dia, cara. — Disse Jason
Marcus pareceu ignorar Nina, depois pegou uma cadeira da outra mesa e pôs-se ao meu lado.
— Dormiu bem? – Perguntei.
O cabelo de Marcus ainda estava bagunçado, de um jeito engraçado, eu ri baixinho, mas ele não notou.
— Dormi bem e você?
— Eu vi no sofá, e dormi bem também.
— Eu fiquei preocupado, você sabe.
— Eu sei. Mas, sério, Marcus, não precisa de tudo isso.
— Quer que eu te deixe ser estrangulada novamente? — Ele disse com uma ironia irritado. – Nunca!
— Marcus, eu não quero brigar com você, aqui, agora. – Bufei.
— Teimosa! – Ele quase rosnou.
Jason e Nina trocaram olhares, Dylan se encolheu na cadeira.
Marcus saiu da mesa bruscamente.
— Marcus, espera! – Sai em seguida.
— Deixe, Alice! – Ouvi Nina dizer, mas eu a ignorei.
Eu fui atrás dele, mas ele acelerou o passo e eu quase não consegui alcançá-lo.
— Marcus, por favor... – Pedi.
Então ele diminuiu o passo, e consegui me colocar ao seu lado, e por estranho que pareça, ele pegou minha mão suavemente. Fomos em uma sala comum, como já tinha visto antes. Nós sentamos em cadeiras, depois de Marcus fechar a porta.
— Marcus... – Comecei.
— Desculpe... - Ele me abraçou.- Será que você não vê que eu te amo, e me importo com você?
Eu conhecia aquelas palavras.
Sorri.
— Alice, eu tomei uma decisão. – Ele anunciou sério.
— Diga. – Estava apreensiva.
— Eu vou para o seu mundo, com você.
— Para o Mundo dos Mortais? (foi estanho dizer isso, mas disse)
— Sim. – Ele cruzou os braços.
— Por que quer fazer isso? – Disse incrédula.
— Para te proteger.
— Não posso deixar você abandonar tudo, aqui é seu lugar.
— Não vou abandonar.
— Você tem amigos aqui...
— Você tem família, amigos... tem mais prioridades que eu, não vou permitir que os abandone. E minha única prioridade estará próxima a mim.
— Mas...
— Já está tudo planejado, queira você ou não.
Era inútil discutir.
— Como vai viver?
— Já fui Mortal, Alice, sei me virar.
— Onde vai morar?
— Em um hotel mais perto possível da sua casa.
— Pode ficar na minha casa.
— O que vai dizer a sua família? Que sou seu segurança? – Ele riu. – Melhor não.
— Então ok, Marcus Lerman, te vejo todo dia depois da aula.
— Não será preciso esperar. – Ele piscou para mim. – Eu vou com você para a aula.
— Não está exagerando?
— Sua segurança, Alice Scott.
— Tá bom. – Bufei.
— Só tem um detalhezinho.
— Que detalhe?
— Temos que fingir que não nos conhecemos, mas estarei sempre por perto, eu prometo.
— E se eu estragar tudo?
— Confio em você. – Ele sorriu.
— Não podemos ter uma amizade discreta?
— Tudo bem, mas discrição não é má ideia.
— Obrigada. Você não sabe o quanto fico aliviada!
Ele riu.
— E antes que diga alguma coisa, quero que saiba que aqui, ou em qualquer outro lugar, eu serei seu. O meu sorriso mais sincero e meu olhar mais profundo será sempre seu, por mais que haja mil ou cem garotas na sua escola. Eu sempre serei seu.
Eu sorri.
— Bom saber disso, Marcus Lerman.
Eu o abracei e perguntei:
—Tem certeza que quer fazer isso?
— Quando se ama alguém de verdade, sacrifícios são necessários.
Depois dessa conversa, voltamos para o refeitório. E Dylan, Jason e Nina ainda estavam lá.
— Vou para o Mundo Mortal. -Anunciou Marcus
— Por quê? — Perguntou Jason
— Para proteger Alice.- Marcus respondeu.
— Você pirou? — Disse Nina. – Se algum Mortal descobrir que esse mundo existe, tudo vai acabar.
Eu tinha que concordar com Nina, se os Humanos descobrirem sobre esse mundo, tudo que existe de mais incrível aqui seria destruído. O ser humano destrói quase tudo que toca, influenciados pela ganância e egoísmo. E, sinceramente, o ser humano não merece o mundo que tem.
— Ninguém descobrirá nada. — Marcus retrucou.
— Por que vai fazer isso? Ela pode ficar aqui. — Nina disse.
— Nós fazemos tudo pelos nossos Protegidos. Se tivesse um, saberia o que estou falando.
Eu cruzei os braços, e franzi a testa.
Nina não era Protetora? Perguntei-me.
— Eu faria a mesma coisa. — Disse Jason, sorrindo para Dylan. — É uma decisão sábia. Tome conta dele, Alice.
Marcus fingiu uma risada.
— Pode deixar. — Disse eu.
— Boa regressão Mortal, Marcus. – Jason deu um pescotapa em Marcus.
— Obrigado, Jason. – Ele tentou retribuir o gesto, mas Jason desviou.
Marcus pegou minha mão e saímos para sentarmos em uma mesa vazia.
— Queria ficar sozinho com você. – Disse sorrindo.
Ele se aproximou, e começou a acariciar o meu rosto.
— Ah! Os pombinhos querem ficar sozinhos... – Nina veio e disse.
Marcus a encarou de maneira extremamente hostil, onde as palavras não precisavam serem ditas.
— Desculpe! – Ela deu um risinho e saiu.
— Ela não percebe o quanto é irritante, imatura e... – Marcus sibilou irritado.
— Não seja tão duro...
— Diz isso porque não sabe quem ela é.
Eu não entendi, mas achei melhor dar o assunto como encerrado.
À noite, eu e Marcus conversamos tomando sopa de legumes, então ele me pediu para eu ficar mais uma noite, para podermos ir juntos pela manhã. Então, enviei a mesma mensagem da noite passada para meu pai, só para mostrar meu sinal de vida.
Depois de tudo isso, cai no sono.
Acordei assustada pela manhã, com uma batida na porta. E ao abri a porta, por mais tolo que pareça, me assustei novamente, ao ver Marcus.
— Desculpe. — Ele disse.
— O susto não foi culpa sua, não precisa se desculpar. Eu sorri.
— Não estou me desculpando só pelo susto. Peguei seu caderno em sua mochila, para me matricular na sua escola por telefone. Não se preocupe, já arrumei tudo.
Eu não fiquei com raiva dele, achei linda a sua sinceridade.
— Você deveria ter me pedido.
— Desculpe. — Lamentou ele de novo.
Eu não tinha notado que ele carregava duas mochilas, a minha e uma outra cinza.
— Onde arrumou essa mochila cinza?
— É antiga. – Ele informou, coçando a cabeça de um jeito fofo.
— Alice, quer que eu faça omelete para você, ou quer barrinha de cereais? Só nós estamos acordados.
— Barrinhas de cereais é o bastante.
— Já volto, vou buscar as barrinhas no refeitório.
Sentei na cama, e calcei meus tênis, e comecei a pensar por algum motivo em Conan, na possibilidade dele estar lá. Mas por um lado, eu estaria segura, pois Marcus estaria lá comigo, era tudo que eu mais queria, mas, me odiei por pensar em Conan naquela hora. Marcus voltou com as barrinhas e me deu.
Eu as devorei, em questão de segundos.
— É possível que você seja tele transportado comigo pelo meu medalhão? – Perguntei.
Ele sorriu e respondeu:
— Sim, é possível. Mas eu tenho o meu medalhão.
Tirou do bolso seu medalhão idêntico ao meu. Não havia detalhe diferente, era igualzinho.
— Isso reforça nossa conexão. — Ele explicou.
Olhei para Marcus um segundo, e voltei para meu medalhão que agora estava com um "M" nas costas, e vi que no de Marcus estava com a letra A.
— Como é possível? Eu olhei para ele segundos atrás e não havia nada. — Eu perguntei boquiaberta.- Será que são as letras de nossos nomes?
— Provavelmente.- Marcus disse.- Acho que é porque eles estão juntos novamente. Vou perguntar a Jason para confirmar, ele sabe tudo, quer dizer, nós dizemos que ele sabe tudo, mas ele sempre diz que não sabe.
Houve um silêncio.
— Está na hora de ir. — Disse Marcus.
Antes disso acontecer, eu e Marcus trocamos números dos celulares, para mantermos contato, era mais seguro.
— Você se importa se nós formos com meu medalhão? -Ele perguntou.
— Claro que não.
Então eu peguei a mão dele, e ele abriu o medalhão. A luz me cegou, como sempre. Foi instantâneo. Vi o céu azul de Syltin, estávamos cercados por arbustos na rua da minha escola.
Marcus soltou minha mão, como num movimento involuntário e seguiu para dentro da escola. Fiquei sozinha, e tive a sensação de estar sendo observada. Entrei rapidamente e segui para os corredores com armários.
— Oi, amiga. — Disse Cloe. – Você sumiu de novo, o que aconteceu?
Cloe vestia um macacão rosa, com seus cabelos loiros soltos.
Tinha que pensar em uma resposta rápida.
—Tive uma crise alérgica. — Fingi uma tossida.
— Você tem alergia a quê? — Perguntou
— A gatos.
Pensei comigo ironicamente: Boa, Alice, que resposta maravilhosa! Gatos!
— Nunca vi gatos na escola. — Ela contou.
— É o zelador, ele é muito sozinho, então traz o seu gato para a escola.
— O zelador é realmente muito estranho.
Ela sorriu.
—Ah! Sabe da novidade? — Ela contou, eufórica.- Tem um novato na escola, ele é canadense.
— Jura? — Eu disse, esperando para que ela já não estivesse falando de Marcus, porque ela contou a novidade com muito entusiasmo. Eu não gostei. Como ela já sabia?
— Vou mostrar a escola para ele. — Ela contou com o entusiasmo exagerado.
Tive a vontade de falar:
— Não vai não!
Mas em vez disso, eu falei:
— Boa ideia.
Nós duas depois disso, fomos para a sala de aula, e ninguém estava em seu devido lugar de costume. De repente, a senhorita Eva entrou, mas parecia que alguém estava com ela: Marcus.
Ele estava meio cabisbaixo, parecia tímido.
— Sentem-se, pessoal! Vamos! – Ela arrumou os óculos, usava um terno bege com seus cabelos brancos num coque.
A classe fez o que ela pediu.
— Esse é Marcus Lerman. — Ela limpou a garganta.- Ele ficará conosco a partir de hoje. Sr. Lerman, seja bem-vindo ao Colégio Syltin.
— Obrigado, Srta. Eva. – Marcus deu um passo à frente e depois sentou no mesmo rumo que o meu, a três fileiras da minha carteira.
Tentei não fazer nenhum contato visual.
— É ele, o novato! E tem olhos verdes!- Cloe disse euforicamente me cutucando quase num empurrão.
Meus olhos verdes, pensei.
Nas aulas ele parecia concentrado. Eu olhava para ele disfarçadamente enquanto ele olhava para o quadro-negro — ou fingia estar olhando. Será que ele está pensando em mim? Será que ele olhava quando eu não estava olhando? Depois de algumas aulas, eu e Cloe fomos ao refeitório, sentamos numa mesa, eu não peguei o almoço, pois não estava com fome. Cloe também não, pois estava ocupada demais, vigiando e babando Marcus. Vi que a mesa dele estava rodeada por duas garotas líderes de torcida e loiras. Eu não gostei.
— Vamos falar com ele. –Disse Cloe
— Melhor não. Ele parece ser tão na dele.
— Quero fazer companhia a ele. — Alarmou Cloe. — Mas parece que as líderes de torcidas já cuidaram disso. — Vamos aproveitar a oportunidade e falar com ele também.- Disse Cloe.
Eu me encolhi na cadeira.
—Vamos, não seja boba!- Insistiu Cloe me arrastando em direção a mesa de Marcus.
Se eu arruinasse tudo? Agora não tinha saída.
—Vai entrar para o time de futebol americano do colégio, Marcus? — Perguntou uma das meninas, enquanto me aproximava da mesa.
— Oi, Marcus! Eu sou Cloe e esta é Alice, minha amiga. Como vai? — Disse Cloe com um sorriso enorme no rosto.
— Vou bem, e vocês, garotas, como vão? — Estava sorrindo pra mim.
— Estamos bem.
— Aqui é muito grande, né? Espero que eu não consiga me perder. — Disse Marcus
—É questão de costume, logo você se acostuma, se precisar de ajuda, é só chamar eu ou a Alice.
O sinal tocou.
—Bom, a gente se vê, tchau Cloe e... como é mesmo seu nome? Eu esqueço fácil o nome das pessoas.- Disse olhando para mim.
— Alice.
Pensei comigo mesma irritada: Muito engraçado, Marcus Lerman.
Depois disso parei no corredor e disse a Cloe:
—Vou embora, acho que outra crise alérgica vai começar.
— Fique bem.
Ela pareceu preocupada.
Fui correndo para fora, e de repente senti o celular vibrar na calça; era Marcus no Whatsapp:
Marcus: Onde você está?
Eu: Sai do colégio, não aguentava mais fingir que não conhecia você.
Marcus: Também está difícil. Eu queria ter falado mais com você, mas aquelas garotas quase não me deixavam respirar. Como é seu nome mesmo? Eu esqueço o nome das pessoas.
Eu: Também esquece o nome da Cloe e das líderes de torcida?
Marcus: Além de teimosa, é ciumenta, minha Alice Scott. Vou dar um jeito de sair daqui. Chego aí fora em um minuto.
Depois de minutos, vi Marcus saindo e se aproximando.
— Vamos sair daqui. – Disse apressada.
— Por quê? – Ele pareceu preocupado.
— Por que não posso mais fingir que não amo você, você entende?
— Mais do que ninguém. – Ele sorriu. – Aonde vamos?
— Para Marinix. Lá podemos ser quem nós somos, sem mentiras.
Ele concordou com a cabeça. Imediatamente peguei a mão dele e abri o meu medalhão.
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