Segundo Mundo
11 Capítulo 11 - Conforto
Apalpei meus bolsos procurando o medalhão, o encontrei num dos bolsos de meu jeans, o abri rapidamente e pela primeira vez, não me importei com a luz.
Vi a mansão a minha frente, entrei rapidamente e com desespero.
—Marcus! – Gritei.
Tropecei, quase cai e mãos me seguraram.
— O que aconteceu? – Perguntou uma voz masculina não familiar, me pegando pelo braço, me levando para algum lugar. Não pude ver, porque minha visão estava embaçada com as lágrimas.
— Ela está atordoada. – Disse a voz. – Chamou por você.
— Alice! – A voz de Marcus surgiu. – O que houve?!
A mão que me segurava sumiu.
Não conseguia falar.
— Obrigado, Jason. – Marcus agradeceu.
Ouvi a porta se fechar.
— O que foi, meu amor?!
Eu o abracei.
— Me diga, o que foi?!
— Por favor, me abrace forte e não solte. – Sussurrei aos soluços.
Ele fez o que eu pedi, não me importaria se ele quebrasse todos os ossos do meu corpo.
Ele me soltou lentamente, seu olhar percorreu minha face.
— Ei, o que foi? – Seu tom era tranquilo e ao mesmo tempo preocupado.
— Eu... — Comecei a frase, mas minha garganta doía e não consegui terminar.
Ele franziu o cenho.
— Quem fez isso?! – Perguntou agora olhando meu pescoço, provavelmente lesionado.
Eu gemi.
— Quem fez isso?! – A expressão calma de Marcus sumiu. – Quem te machucou?!
— Eu não sei. – Foi só o que consegui responder.
Marcus respirou fundo.
— Como?! Como não sabe?!
— Eu não sei – Comecei forçando a voz. – Recebi um bilhete dizendo para eu comparecer a quadra, achei que era a treinadora, mas não, as luzes se apagaram, o portão se fechou e quando percebi estava sendo estrangulada. – Mais lágrimas rolaram dos meus olhos.
— Quem iria querer ver você morta? – Rosnou.
Dei de ombros.
— Espere... — Disse ele. – Eu devia ter te salvado. O medalhão não me avisou...
Ele bufou.
— Eu falhei... De novo...
— Não. Você não falhou, porque você não sabia o que estava acontecendo.
Marcus bateu na mesa ao seu lado com força. A raiva e a frustração estampavam seu rosto.
Me aproximei dele.
— Ei , estou bem agora, não se sinta assim.
— Não. – Ele tocou meu pescoço. — Você não está bem, machucaram você!
— Marcus, eu estou bem.
Alguém bateu à porta.
—Algum problema? – A porta se abriu. A voz de Nina nos interrompeu. Estava com seus cabelos soltos, com a pele bronzeada.
—Nã...- comecei a responder.
— Tentaram matar a minha Alice. – Marcus me interrompeu num tom frio e agora possessivo.
— Como?- Perguntou Nina preocupada.
— Atraíram-na para quadra da escola, tentaram matá-la estrangulando-a. – Foi só o que ele disse.
Nina estava horrorizada.
— Mas quem faria isso? – Perguntou ela com os braços cruzados.
Eu dei de ombros.
— Mas o medalhão dela... Não te alertou, Marcus?
Me encolhi.
— Não. – Ele deu um soco na mesa. – Acho que houve uma falha, mas tenho certeza que a falha foi minha.
Ela deu de ombros, e continuou:
— Vamos falar com Jason, ele sabe muitas coisas sobre medalhões.
Marcus concordou com a cabeça.
— Só um minuto. – Ela disse enquanto saia da sala.
Ficamos sozinhos. Me aproximei de Marcus e sussurrei:
— Sinto muito por tudo isso.
— Eu é que sinto muito, Alice. – Sua expressão era de ódio.
O abracei e senti o calor do corpo dele no meu.
— Não sinta culpa, está bem? – Disse a ele.
Ele não disse nada e acariciou minhas costas, em seguida me beijou. Seus lábios quentes envolveram os meus rapidamente. Ele colocou a mão em minha face e acariciou.
— Eu nunca vou te perder. – Disse ele baixinho.
— Não. Não vai. – Prometi.
Ele sorriu e me beijou de novo. Fiquei feliz em vê-lo sorrindo. Todo meu pânico havia passado.
— Atrapalhamos alguma coisa? – Perguntou uma voz que agora eu conhecia: Jason.
Agora pude vê-lo: era loiro, quase branco, alto, provavelmente alguns poucos centímetros mais alto que Marcus. Usava um jeans preto e camisa de manga comprida vermelha.
— Sim! Atrapalhou! – Marcus brincou e deu uma cotovelada de leve em Jason.
Os dois riram.
— Alice, esse é Jason. Jason, essa é Alice. – Marcus nos apresentou.
— Oi, Jason. – Disse eu.
— Oi, Alice.
Marcus nos encarou por um momento.
— Eu expliquei a situação para Jason.- Nina disse se aproximando de nós.
— Então?... – Marcus bramiu.
— Pode haver um bloqueio na conexão entre você e Alice. – Disse Jason.
— Hã? O que? Como? – Marcus estava confuso e eu também.
Jason respirou fundo e explicou:
— Há uma possibilidade que algo ou alguém, esteja bloqueando ou interferindo na conexão entre você e Alice. – Ele respirou fundo de novo. – Tenho toda certeza.
Marcus estava ainda mais confuso.
— É possível? Tem certeza? – Marcus perguntou.
— Sim. – Garantiu Jason.
— Eu mesma já vi um caso parecido uma vez. – Nina disse.
— Se vocês querem concertar isso, descubram o motivo. – Disse Jason.
Marcus concordou com a cabeça, dizendo:
— Eu descobrirei.
Não iria deixar Marcus sozinho naquela situação. Eu também fazia parte daquilo, estaria lá para o que ele precisasse, e venha o que vier, eu estarei lá junto a ele. Nós estaremos juntos por toda a nossa imortalidade. Juntos.
— Nós descobriremos. – Corrigi.
Ele suspirou.
— Você não vai se envolver. Não quero que corra riscos.
Revirei os olhos.
— Também faço parte disso. – cruzei os braços. –Tenho direito de me envolver. Se vamos correr riscos, vamos correr riscos juntos.
— Não...
— Sem mais.- Interrompi Marcus.
— Eu já te perdi uma vez.
— Você não vai me perder.
— E se aquilo se repetir?
— Não irá se repetir. – Eu disse.
E se aquilo se repetir mesmo? Se a gente se separar? Perguntei-me. Iria lutar contra tudo e todos para voltar para Marcus. Assegurei-me.
— Ela está decidida. – Disse Nina interrompendo meus pensamentos.
— Teimosa! – Marcus quase gritou.
— Eu não vou deixar você sozinho. – Retruquei.
— Ela tem razão, cara. – Jason disse tocando o ombro de Marcus.
Marcus o ignorou.
— Marcus... Por favor. – Pedi baixinho.
— Alice, eu te amo. Eu jamais me perdoaria se acontecer algo com você. – Sussurrou.
— Eu também amo você. – Falei. – Confie em mim, não vai acontecer novamente. E seria injusto, se eu deixasse você sozinho.
— Já vi que você está mesmo decidida sobre isso. – Ele suspirou.
— Sim, estou mesmo decidida. – Eu sorri.
— Já acabaram a "D.R"? (Discussão da relação). – Zombou Nina.
— Sim. – Marcus a encarou friamente.
Nina fechou a cara e saiu.
Marcus riu sem humor da reação dela.
— Nina faz piadinhas e não aguenta as consequências. — Ele riu sem humor novamente.
Jason concordou com a cabeça e riu.
— Tenho que ir. – Jason disse. – Dylan está aqui.
— Obrigado pela ajuda, Jason. – Marcus sibilou.
— De nada. Até mais, cara. – Ele saiu.
Nós ficamos sozinhos. Marcus me puxou para mais perto.
— Posso pedir uma coisa? – Perguntou.
— Sempre.
— Fique esta noite? Não quero me separar de você.
Pensei por um minuto, não deveria pensar. Eu queria ficar lá com ele, por ele.
— Claro que eu fico. – Respondi sorrindo.
Estava com medo de nos separarmos, e se ele não me pedisse pra ficar, eu iria ter medo, como uma criança, sei que isso ia ser patético. Ao lembrar da situação há poucas horas, eu tremi, e disse:
— Preciso dar uma desculpa para sumir. – Agora quem riu sem humor fui eu.
— Diga que precisa fazer um trabalho na casa de uma amiga e que vai dormir lá. – Sugeriu.
Eu assenti com a cabeça.
Peguei o celular, abri em "Criar mensagem" e digitei:
Pai, tudo bem?
Estou fazendo um trabalho na casa de uma amiga, e o trabalho é enorme, vou precisar dormir aqui. Avise a mamãe por mim.
Te amo, boa noite.
Selecionei o número do meu pai na agenda de contatos, apertei 'Enviar mensagem', e depois de alguns segundos apareceu: 'Mensagem enviada'.
Eu suspirei e olhei para Marcus. Ele sorriu. Pensei que meu medo e pânico haviam passado. Me enganei ou tentei parecer forte para Marcus não ficar preocupado? Sim, eu fiz isso: tentei parecer forte.
Guardei o celular no bolso.
— Está com medo? – Perguntou ele.
— Não. – Menti, engoli o seco e tentei sorrir.
O medo estava tão nítido em meus olhos para ele perceber? Eu não era tão péssima em mentir, era?
Ele colocou o braço na minha cintura. Eu repousei minha cabeça no ombro dele.
— Sim. Você está com medo. – Sussurrou. – Eu vejo nos seus olhos, eu sinto.
Sim, eu era péssima em mentir.
— Não estou...
— Não minta para mim, Alice Scott. – Falou ele.
Sim, ele podia ver o medo em meus olhos. Todas as dúvidas que eu tinha naquele momento estavam respondidas.
— Teimoso! Eu não estou...
— Sim, está.
Eu bufei, e ele continuou:
— Não minta. Eu te conheço melhor que qualquer pessoa.
— Sim, você conhece. – Admiti.
— Eu vou te proteger. – Ele disse.
— Nós vamos proteger um ao outro. – Eu sussurrei.
— Alice...
— Eu também tenho que te proteger, assim como você quer, eu também quero.
— Mas eu sou o seu Protetor.
— Anjo da Guarda, lembra? Eu disse
— Tá, Anjo da Guarda. – Ele olhou nos meus olhos. – E tenho o dever de proteger você.
— Eu sou sua namorada, e não quero que se machuque. Será que você não vê que eu te amo e me importo com você?
— Eu também te amo.
Eu o beijei. Os lábios dele se uniram aos meus lentamente, de forma delicada e suave.
Ele afagou meu cabelo de leve, depois deslizei meus dedos nos cabelos negros dele.
Ele deu um beijinho no meu pescoço. Me arrepiei. Ele sorriu, me abraçou forte e pude sentir nossos corações batendo fortemente.
— Nós ficaremos juntos. Venha o que vier, Marcus.
Ele ficou em silêncio e me abraçou mais forte. Não me importaria se esmagasse todos os meus ossos, pensei de novo.
— Está com fome? – Perguntou ele pegando minha mão.
— Um pouco.
Nós saímos da sala, percorremos o longo corredor e pegamos o elevador. Sorriamos um para o outro durante nosso tempo no elevador. Nossas mãos estavam entrelaçadas. A porta do elevador se abriu e eu não conhecia aquele andar, devia ser o terceiro ou o quarto andar.
Era igual aos outros, com salas e imensos corredores.
Nós subimos uma escada logo a nossa frente, entramos num refeitório enorme repletos de mesas e cadeiras, havia um balcão grande de mármore azul-marinho, com pratos repletos de salgados, uma cesta com pães, uma panela de hambúrgueres, panelas com macarrão com molho vermelho, latinhas de refrigerantes, e uma pilha de bandejas.
Havia crianças e adultos sentados nas mesas. Uma menininha estava com o rosto vermelho de molho de macarrão, era loira, olhos castanhos, e sorria para uma moça de cabelos loiros escuros, que provavelmente deveria ser a Protetora da menina.
Nós nos sentamos em uma das mesas.
— O que vai querer? – Ele perguntou.
— Não trouxe dinheiro.
— Não precisa pagar, isso tudo foi criado especialmente para os Protetores e seus Protegidos.
— O que vai querer? – Perguntou ele novamente.
— O que você for pegar. Respondi
Ele se levantou.
— Já volto, Alice.
Marcus foi até o balcão, pegou dois hambúrgueres, colocou nos pães, colocou em pratos, duas bisnagas de ketchup e mostarda de baixo do balcão, duas latinhas de Coca-Cola e colocou tudo em duas bandejas, e voltou.
— Aqui está a sua. – Ele disse empurrando uma das bandejas para mim.
— Obrigada, Marcus.
Nós comemos em silêncio.
Dei uma mordida em meu lanche, e Marcus ao colocar ketchup em seu hambúrguer, espirrou em sua camiseta cinza-claro. Ele viu, mas não se importou. Depois abriu sua latinha de Coca-Cola e ao acabar, ficou me olhando enquanto comia devagar. Eu terminei todo o conteúdo da bandeja minutos depois, e perguntei:
— Está cansado?
— Não. Você está?
— Sim, hoje foi um dia...
— Horrível, eu sei. – Disse Marcus com cara frustrada.
Eu o abracei.
— Não fique assim. – Minha voz saiu abafada.
Ele tentou sorrir.
— Vou te mostrar seu quarto. – Ele disse.
Saímos do refeitório, fomos por outro caminho, atravessando corredores e subindo escadas.
Depois de toda essa "travessia", me deparei com um corredor enorme, onde ambos os lados estavam lotados de portas, parecia não ter fim.
Marcus parou em uma das portas, tirou uma chave do bolso do jeans e abriu a porta. O quarto tinha paredes brancas, havia um espelho gigante em uma delas. A cama era de madeira branca, as roupas de cama e as cortinas azul-bebê. Também havia um sofá enorme branco, uma mesa com uma fruteira com bananas e maçãs.
— Esse quarto está bom para você? – Marcus coçou a cabeça de modo fofo por um instante.
— Está ótimo.
— Tem um banheiro ali, se quiser tomar um banho. – Ele apontou para um uma porta, a qual não havia notado, perto do espelho.
— Obrigada. – Respondi sorrindo
Houve um silêncio.
— Se precisar me chame. Estou no quarto ao lado. – Avisou ele colocando a chave na mesa.
— Não se preocupe comigo.
— Mas se precisar...
— Tudo bem.
Ele sorriu, e disse
— Boa noite, Alice.
— Boa noite.
Ele beijou minha testa, e disse:
— Sonhe com os Anjos.
— Vou sonhar com você.
— Eu também vou sonhar com você. – Ele sorriu e saiu fechando a porta.
Tomei um banho, e tive que colocar as mesmas roupas novamente.
Dormi mais confortável do que nunca.
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