Segundo Diário de Observações
5 Quinta-Feira – Carpe Diem
Riza acordou e para a própria surpresa encontrou-se dormindo com muita comodidade sobre o peito de Roy. Sua cabeça estava encostada na base de seu pescoço e seu corpo jogado sobre o dele. Demorou-se a perceber o porquê daquilo, mas logo se lembrou que enquanto viravam a noite acordados, ela não estava tão acordada assim, e acabou deitada no colo dele, com sono demais para se importar.
Ao acordar pela manha o efeito hipnótico do sono já havia passado, entretanto antes que pudesse ficar vermelha a curiosidade tomou o lugar da vergonha. Precisava descobrir como ele iria reagir a isso.
Não demorou muito para que ele acordasse e a resposta para aquela pergunta viesse causando milhões de outras.
— Hawkeye... Haw- Riza, acorde... — O coração dele batia forte e descompassado, e ela continuava a fingir um sono profundo — Riza...
Ele solta um risinho e suspira profundamente, desistindo de acordá-la. Uma de suas mãos sobe ao rosto dela e a outra é posicionada sobre suas costas, acariciando seu corpo com delicadeza.
Irônico, foi a única coisa fazendo sentido que ela conseguia achar em sua mente.
O calor de seu abraço parecia o suficiente para esquentar a ela no frio que fazia naquela manhã, aos poucos parou de lutar contra os calafrios que teimavam em correr pelo seu corpo, deixando-se relaxar... Que mal havia? Muitos, pensou, ah, dane-se...
A situação fica agradável daquele jeito por certo tempo, enquanto ninguém fazia nada além de simplesmente aproveitar o momento, até que a loira subitamente levanta-se, correndo para seu quarto com a maior velocidade que seus pés permitiam, deixando Roy tonto.
Agora, na frente do espelho em sua suíte Riza ainda sentia os braços dele envolta de si, e perguntava-se o que diabos havia acontecido afinal, sabendo exatamente qual era a resposta. Mantinha as mãos no rosto ou a cabeça abaixada, mas continuava sentindo que sorria, mesmo assim não tinha que ver a prova de sua felicidade... É claro que é bom estar feliz, mas isso não quer dizer que ela podia estar feliz com aquilo.
— Calma garota... Ele-é-seu-chefe — sussurrava para si mesma até convencer a si mesma do que dizia. — Não faça besteiras.
Aquilo era de certa forma uma injustiça. Ela fazia o possível para que os dois não se metessem em mais encrenca, e ele se divertia beijando seu pescoço a hora que bem queria! Já tinham problemas o bastante com aquela droga daquela história de casamento e agora aquilo...
Enquanto isso ele ainda estava deitado no sofá, sem entender nada, mas aceitando a situação até que muito bem. A maior parte daquela facilidade em não se importar com as ações súbitas dela vinha dos anos de convivência, além do mais, sempre que Riza o fazia sorrir ela normalmente fazia com que ele quisesse chorar no momento seguinte... Havia aprendido essa lição depois do que aconteceu em Las Vegas¹: a noite das noites, e a besteira das besteiras; pouca coisa não havia acontecido naquele dia.
E definitivamente não era a hora para pensar naquilo.
Levantou-se do sofá e sentiu que suas costas doíam, e muito. Troca equivalente... Tudo bem, havia valido a pena... Se contasse a alguém que havia passado a noite com Riza Hawkeye ninguém acreditaria... Tudo bem! Nem ele estava acreditando naquilo.
Tudo bem, estava tudo completamente bem! Maravilhosamente bem! Nada podia estragar aquele dia. Mas com certeza, alguma coisa iria melhorar...
Sempre se pode melhorar.
*
Riza voltou para a sala vestindo basicamente o que vestira no primeiro dia de ensaio, mas dessa vez a blusa social tinha alguns botões abertos num decote, e a saia possuía um corte lateral, que permitia uma visão que Roy preferia não ter das coxas da subordinada.
Ai, merda...
— Estava pensando... — Começou ele.
— Fato: sempre que você começa a pensar demais, sobra pra mim.
Roy apenas ignorou o comentário, pois sabia que era a mais pura verdade. A pior coisa que normalmente fazia na presença dela era ser sensato. De fato era uma estupidez para um cara tão impulsivo.
— Se você me disser que tem um vestido apropriado para a apresentação eu vou realmente estranhar a sua presença aqui — vestida dessa maneira, depois de ter acordado nos meus braços... —, e provavelmente pensar que eu ainda estou dormindo. Então, por favor, me diga que não tem um.
— É, sempre sobra pra mim; e não, não tenho um vestido. O que tem mente?
Roy deu um sorriso de Cheshire Cat², coisa que estava longe de agradar a loira. E quando ele levantou uma das sobrancelhas ela decifrou o que exatamente ele queria fazer.
— Nem pense nisso. — disse antes que ele pudesse usar algum argumento para convencê-la...
— Por favor? — Seu rosto tomou a mais falsa das expressões de tristeza.
Riza suspirou profundamente.
— Eu sei que eu vou me arrepender profundamente disso depois...
— Prometo que não. — A voz dele tornou-se séria, mas com uma pitada de humor indecifrável que chegava ao ponto de fazê-la acreditar naquilo.
O desconforto que antes tinha ao estar com ele havia sumido completamente, mesmo porque ela acabara de perceber que ele era muito mais confortável que o mais macio dos travesseiros...
Depois de um café da manhã basicamente calmo, seguiram para uma loja em que pudessem comprar um vestido para Riza. Ele é claro insistia em pagar o preço que fosse necessário, e ela se recusava a deixá-lo fazer isso.
— A idéia do tango foi minha, então a responsabilidade também é.
Riza se mostrou divertida pela sentença sem sentido do moreno:
— Desde quando você é responsável?
Ele preferia não responder a esta pergunta.
— Se você vai ser chata eu vou ser também. — Disse com um olhar desafiador — Hierarquia: sou seu chefe, faça o que eu mandar.
Ele não precisava chegar a esse ponto, mas ele adorava a sensação de poder que tinha sobre ela; o que só era possível usando a hierarquia.
Ela o dominava a hora que quisesse dando apenas um sorriso, que eram cada vez mais freqüentes.
Entre risos e piadas sem graça nenhum dos dois viu quando finalmente chegaram a seu destino.
E chegando lá, cada vê mais Riza ficava desconfiada do porque ele fazia tanta questão de pagar-lhe aquele vestido. O porquê de ter aceitado que ele fizesse aquilo também era um mistério.
— Ah, e como eu vou pagar, eu escolho.
Estava ali a explicação. Ele realmente não demorava muito em responder as perguntas que ela não fazia; mas quando ela decidia indagar algo, ele simplesmente ignorava. Realmente irritante.
— Não, isso não vai acontecer. Que tal um acordo?
— Eu escolho três que eu ache mais bonito e você pega o que achar melhor. E não olhe a etiqueta! Eu me preocupo com isso. — Disse no tom de alguém que explica instruções a serem seguidas. Aparentemente ele já esperava que ela não aceitasse os termos iniciais.
— Fechado. — Aceitou já que aparentemente não tinha muitas escolhas.
Cerca de trinta minutos depois tinha acabado de dar trinta voltas na loja e voltava com as três peças na mão.
— Você demora mais que eu para escolher roupas Mustang.
Riza já estava completamente irritada com ele depois de tanto tempo morrendo de medo das escolhas malucas que aquele coronel pervertido faria, mas ao examinar as peças chegou à conclusão de que podia ser pior.
Trancou-se no provador sem ouvir o que ele estava dizendo, tentando dizer ou sem mesmo saber se ela estava apenas imaginando que ele dizia algo.
Descartou o primeiro vestido ao primeiro olhar, percebendo que era as costas eram abertas. E embora ele fosse realmente lindo, não era algo que ela pudesse usar graças às malditas inscrições em suas costas.
Não se deu ao trabalho de olhar o terceiro assim que notou o vestido vermelho sangue em seda que tinha em mãos...
A mente rápida de Roy formava mil e uma idéias de como aquilo poderia transformar o dia perfeito em um perfeito desastre, mas assim que ela abriu a porta fazendo uma pose sexy e vestindo o único vestido que achava que ela nunca usaria; ele não sabia o que fazer.
Era um completo babaca, um adolescente apaixonado que achava que sabia das coisas e não sabia de absolutamente nada.
Aquele rosto embasbacado foi captado pela loira. E era bom ver ele daquela forma, completamente bobo, sem palavras. Era bom ver aquele sorriso sincero e aqueles olhos negros brilhando ao olhar para ela. Era igualmente bom sentir-se ficar quente quando seus olhares se encontravam como acontecia agora.
O tempo parava, nada mais fazia sentido nem tinha que fazer. Apenas aquele bobão olhado para ela era o suficiente lhe fazer sorrir e ganhar um sorriso em troca.
Era impossível não ficar feliz perto dele, por mais que ela tentasse.
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