Segundas Intenções
6 Capítulo 5
Notas iniciais
CALLIE PDV
– Addison, eu já disse que não vou à festa nenhuma! – resmungo, procurando por meu livro de Anatomia II em meio às minhas bagunças.
– Nós vamos sim! – retruca a ruiva, com os braços cruzados no meio do quarto.
– Não tem nada disso que “nós”. – digo. Agacho-me no chão e olho debaixo da cama. Um suspiro de alívio saiu por meus lábios ao achar o livro. – E em vez de tentar mudar minha opinião você deveria pegar seus livros e vir comigo para a última aula do dia.
A ruiva bufa e pega seus livros em cima da mesa. Nós saímos e fechamos a porta do quarto. Os corredores que percorríamos estavam vazios, sinalizando que estávamos realmente atrasadas. Eu odiava me atrasar para as aulas, ainda mais quando Miranda Bailey as lecionava. O dia havia sido intenso com o ritmo normal de aulas de volta. Corremos nas calçadas até chegarmos ao prédio principal.
Ofegantes, nós chegamos à porta da sala de aula e Miranda nos estudou dos pés à cabeça. Todos já estavam sentados e esperando a aula começar. A mulher baixa, de cabelos cortados na altura da orelha e cara de poucos amigos, faz um sinal com as mãos para que entrássemos.
– Obrigada por nos privilegiar com a companhia de vocês, Srtas. Sem Relógio.
– Por nada, Sra. Bailey. – responde Addison, dando um sorriso forçado para a mulher.
Eu dou um sorriso sem graça e vou para uma carteira vaga ao lado de Mark Sloan. O homem me estuda abrir o livro na página determinada, com um sorriso no rosto.
– Pegando alguém antes da aula, Torres? – provoca o homem.
– Cale-se, Sloan... – respondo, segurando um sorriso.
– Você vai à festa de Derek hoje, não vai? – pergunta Mark.
– Por que todos estão tão animados com essa festa? – rosno, revirando os olhos.
– Porque estamos na faculdade? – responde o homem, erguendo a sobrancelha sugestivamente. – E estamos no auge de nossas vidas e sedentos por álcool?
– Não estou sedenta por álcool. – retruco, dando de ombros. Escuto a risadinha baixa do homem e ele me lança um olhar de soslaio. – Eu estou falando sério!
– Qual é... vai ser legal! – murmura Mark. – Você precisa sair mais, Callie. Você tem 24 anos! Não terá mais isso na vida!
– E nem qualquer outra idade. – retruco e o homem bufa. – Além disso, preciso estudar as matérias do semestre passado e... – começo a falar, mas vejo a expressão de desdém de Mark. Olho no extremo da sala e vejo Addison nos encarando com um sorriso malicioso, como se até soubesse sobre o que conversávamos. Eu rosno, amaldiçoando-os mentalmente. – Você e Addison por acaso fizeram algum complô?
– Só queremos que você se divirta mais. – responde Mark, sorrindo.
Eu estudo sua expressão para ter certeza que não havia segundas intenções, porque no início Mark costumava me convidar para festas para tentar dar em cima de mim. Mas agora ele estava em um relacionamento com Lexie, meia irmã de Meredith, e ele não faria isso.
– Argh... tudo bem! – suspiro, revirando os olhos. Vejo por cima do ombro Addison fazer uma dancinha estranha e eu dou uma risadinha baixa.
– Algo engraçado, Srta. Torres? – pergunta Miranda Bailey e eu engulo seco.
– Não, nada engraçado Sra. Bailey. – respondo.
Ao meu lado Mark fazia um grande esforço para não rir. Toda a classe olhava para mim e eu tive a possibilidade de estudá-los por alguns segundos. Apenas uma pessoa sequer notava minha existência... Arizona Robbins. Ela olhava através da janela para o pátio enquanto brincava com uma caneta em mãos. Algo puxava sua atenção da sala de aula, como se nada aquilo de fato importasse.
– Por favor, não me faça arrepender, Addison! – choramingo, descendo de sua BMW na calçada escura perto da casa de Derek.
– Você só se arrependeria se caso não viesse. – retruca Addison, me puxando pelo braço.
Eu caminho com certa dificuldade por causa de meus saltos e do vestido curto preto que a ruiva me obrigara a usar. Ela também estava em um vestido, mas era vermelho, sua cor preferida.
A música elétrica ecoava em todas as direções. Flashes de luzes bailavam pelo ar. Fico boquiaberta com a quantidade de pessoas dançando no jardim de Derek. Algumas já se beijavam e outras já estavam bêbadas. Apitos eram distribuídos e as pessoas não hesitavam em assoprá-los. Já era próximo das 23 horas, pois não poderíamos mais enrolar no quarto senão ficaríamos presas dentro da universidade.
Passamos pelo tumulto de pessoas e seguimos caminho pela porta principal. A casa era de dois enormes andares e podia-se perceber que havia pessoas em todos eles. Avisto ao longe, alguns amigos de Addison e que, por eu andar com a ruiva, eram meus “amigos”.
– Lindas garotas! – grita Derek, no topo da escada que dava acesso ao segundo andar. – Que bom ver vocês na minha humilde residência! – diz, abrindo os braços para a mansão.
– Derek, meu querido! – grita Addison de volta. O homem desce os degraus, pedindo licença para as pessoas que ali dançavam e conversavam.
– Você está linda, como sempre! – responde Derek, dando dois beijos em cada bochecha de sua ex.
Addison e Derek tiveram um caso, assim como boa parte daquela universidade já teve casos com alguém. Depois do término, que até hoje Addison não me justificou, eles se tornaram grandes “amigos”. E quando ele engatou em um relacionamento com Meredith, a amizade colorida dos dois terminou.
– E você está gostoso, como sempre! – retruca Addison, dando uma piscadela para homem que fica sem graça imediatamente.
– Callie! – cumprimenta Derek, visivelmente mudando de assunto, pois tinha certeza que Meredith rondava por aí. – Você está maravilhosa!
– Como está, Derek? – pergunto, aceitando o abraço do homem. Ele já cheirava à whisky e perfume feminino.
– Eu estou ótimo! – responde. Percebo a sua língua travando um pouco e eu dou uma risada. – Estou muito feliz de vocês terem vindo. Tem qualquer tipo de bebida que pensar na cozinha... vocês sabem como chegar lá, não é?
– Oh, com certeza eu me lembro. – retruca Addison, com outra piscadela. O homem dá uma risadinha bêbada e segue caminho para cumprimentar outros convidados.
– Você não tem jeito mesmo, Addison! – provoco e a ruiva dá uma risadinha enquanto me puxava em direção à cozinha.
– Ele está namorado, mas não significa que está preso. Além do mais cada dia que passa ele está mais gostoso... – responde, dando de ombros. – Agora tome! – diz a ruiva, enchendo um copo com cerveja a partir de um barril de 50 litros. – Trate de ficar bêbada!
– Para que você possa se livrar de mim, achar uma garota ou garoto, sumir e me deixar sozinha para voltar de táxi? – pergunto, dando-a um olhar de soslaio.
– Eu? – cantarola a ruiva e eu reviro os olhos. – Eu nunca fiz isso!
– Oh, não, as três vezes que fez isso não aconteceram. – retruco. Pego o copo de sua mão e o levo à boca. De imediato minha garganta queima por causa da minha falta de costume com o álcool.
– Está vendo? – provoca Addison, dando um sorriso malicioso. – Essa ardência significa que você deve beber mais!
– Ou parar de beber. – completo.
– Vamos lá... ache um homem ou uma mulher nessa festa, Callie! – rosna Addison, apontando para todos os lados. – E como prova que sou uma boa amiga, posso até disponibilizar o quarto para você levar alguém essa noite!
– Eu não vou levar alguém para transar no nosso quarto... Jesus... – respondo, fingindo um arrepio de nojo. – Imagine eu prestes a ter um orgasmo e olhar a foto da sua avó em cima da escrivaninha perto da sua cama?
– Vá se danar... – retruca Addison, dando uma risada alta. – Apenas quero que você tenha um orgasmo essa noite.
– Mas antes... eu preciso estar muito bêbada para isso. – digo, entregando o copo para a ruiva. Addison sorri e o enche novamente.
A festa estava apenas começando e eu sabia que não teria hora para terminar. Mesmo que inconscientemente eu verificava meu celular a cada dez minutos, com medo de meu pai ou minha mãe me ligar. Sim... eu menti dizendo que ficaria na universidade naquela noite. E sim... eles só sabiam disso por que todos as noites minha mãe me ligava antes de dormir.
No início eu achava isso um modo de me proteger, mas depois percebi que era um modo de me prender. Minha mãe ainda temia que meu “outro lado” voltasse e por isso fazia de tudo para que eu não fosse a festas que tivessem álcool.
Meu corpo já estava extasiado por causa do álcool. Levo o copo à boca em busca de mais cerveja e percebo que ele estava vazio. Eu estava sentada em um maldito sofá com um casal se beijando ao meu lado. Nada fora do normal. Ao meu redor, parecia um clipe musical da Britney Spears, com todos conversando e vivendo o auge da vida, assim como Mark falara mais cedo. E eu? Continuava sentada no maldito sofá e sem cerveja.
Rosno e me coloco de pé com certa dificuldade. Passo entre as pessoas pedindo licença em direção à cozinha. Eu paro de andar apenas quando, por cima do ombro, vejo um rosto familiar. Cerro os olhos, tentando focar minha visão embaçada e reconheço Arizona Robbins dançando com Leah Murphy. A loira mais velha tinha uma perna entre as de Leah e elas se moviam sensualmente. Arizona pega o cabelo loiro de Leah e coloca atrás de sua orelha, apenas para ter espaço o suficiente para beijar o pescoço da loira mais nova.
Eu ainda alimentava uma raiva imensa por ela, por causa do fato incrédulo de espalhar por aí sobre a vida pessoal da minha amiga. E pensar em raiva, misturada com álcool, não era uma boa coisa para se fazer no momento. Ignoro aquela cena e continuo a andar em direção à cozinha. Encho meu copo com cerveja gelada e viro todo o líquido em apenas uma vez.
– Ei... vai com cuidado! – a voz grave de um homem me chama atenção. Eu termino de beber e procuro pelo dono da voz. – Nunca vi uma mulher virar um copo de cerveja assim! – continua George O’malley. – Você tem potencial!
– Obrigada... – cantarolo, dando uma risadinha bêbada. – Mas não sei se isso serve para alguma coisa.
– Oh... serve para deixar as mulheres mais sexys. – retruca o homem.
– Então você me acha sexy? – pergunto, com um sorriso bêbado.
– Eu não precisar achar... – responde o homem. – Você com certeza é... – diz, analisando meu corpo. Eu estudo seu sorriso malicioso e reconheço seu rosto. Ele fazia parte do grupo que seguia fielmente Alex Karev.
– Você anda com Alex Karev, não é? – pergunto, tentando não mostrar que minha língua enrolava.
– Sim... por quê? – pergunta George, dando um passo em minha direção e diminuindo o espaço entre nós. Meu cérebro já nublado apenas percebia como o homem era bonito e como seu peitoral estava marcado pela camisa polo que usava.
– Apenas curiosidade. – respondo, erguendo uma sobrancelha sugestivamente.
– Você sabia que eu estava de olho em você desde o início da festa? – pergunta George, passando a mão por meu cabelo. Eu respiro fundo, tentando controlar meu cérebro nublado por álcool.
– Sério? – pergunto e ele dá um sorriso malicioso.
O homem me pressiona contra a mesa que sustentava o barril de cerveja. Ele passa o braço por minha cintura e une nossos corpos. Sinto o cheiro da bebida misturada com o perfume masculino vindo de suas roupas. Seu cabelo arrumado com gel dava um toque de vaidade no homem. George já diminuía o espaço entre nós, quando um grito mais alto que a música eletrônica ecoou pelo corredor.
– George O’malley! – grita uma voz grave. Viramos ao mesmo tempo e vejo Alex Karev sorrindo. – Eu preciso de sua ajuda! Ele está aqui!
– Oh, eu não acredito! – grita George, soltando meu cabelo e meu corpo.
Eu pisco e estava sozinha de novo. Meu cérebro ainda estava confuso com o que acabara de acontecer. Reviro os olhos, questionando-me o porquê de tudo envolver Alex Karev e seu grupo. Mas antes que eu pudesse desenvolver mais minha raiva, sinto algo no meu bolso de trás vibrar. Meus olhos arregalam e meu estômago aperta, provavelmente com a mistura de medo e álcool.
– Droga! Droga! Droga! – rosno, ao ver o nome “Carlos Torres” no visor.
Eu olho para os lados, procurando por algum lugar que não tivesse a música eletrônica alta que tocava. Corro entre o tumulto de pessoas e subo a escadas às pressas para o segundo andar. A primeira ligação cai e eu sabia que ele ligaria pela segunda vez antes de usar sua tecnologia para me rastrear.
Avisto uma porta no final do corredor e corro até ela. Abro-a e suspiro ao ver que se tratava de um banheiro. O barulho da música ainda estava ali, mas em um volume menor. O telefone já vibrava pela segunda vez na minha mão e eu pigarreio em busca de disfarçar minha voz bêbada.
– Alô? – digo, ao aceitar a chamada.
– Por que você não atendeu na primeira chamada? – a voz de meu pai ecoa pela linha.
– Eu... eu estava... – gaguejo, procurando por uma desculpa. – Eu estava na biblioteca estudando.
– Eu achei que a biblioteca da universidade fechava às 21 horas. – diz Carlos, e eu vejo a seriedade em sua voz. Eu faço uma careta e me sento no vazo com a tampa para baixo. – Já se passa da meia-noite!
– Quero dizer... eu estava na biblioteca mais cedo e coloquei meu celular... no silencioso, por isso só vi que estava tocando na segunda vez. – respondo. – Por que você está me ligando tão tarde? Já estava prestes a dormir... – minto, esperando que o homem acreditasse.
– É uma pena, Calliope Iphegenia Torres... – diz meu pai e eu engulo seco. Eu fui descoberta. – Como está prestes a dormir se aqui no meu GPS diz que você está dentro do nosso bairro?
– Pai... eu posso explicar... – gaguejo.
– É melhor você já ter ido embora quando eu chegar aí, Calliope. – adverte meu pai antes que a linha ficasse muda.
Eu encaro meu celular, pensando como sairia dali o mais rápido possível. Abro a porta do banheiro e dou de cara com Arizona Robbins. Ela sorri e analisa, com nenhuma sutileza, minhas pernas. Mas eu estava em uma situação bem pior do que minha antipatia por ela e eu não penso duas vezes em empurrá-la para o lado para que pudesse passar.
– Ei, cuidado garota! – grita a mulher nas minhas costas, mas eu ignoro.
Passo pelas pessoas o mais rápido que conseguia, procurando por Addison a cada rosto. Procuro por todo os segundo andar e xingo baixo ao não achá-la. Desço as escadas o mais rápido que conseguia naqueles saltos e solto um suspiro de alívio alto ao vê-la dançando com um homem alto e loiro. Puxo a ruiva pelo ombro em direção à saída da casa.
– Ei, Calliope! Pare! O que está acontecendo! – grita a mulher, tentando se livrar da minha mão que apertava seu braço.
– Meu pai descobriu que estou aqui. – grito de volta e os olhos de Addison também arregalam. Rapidamente a ruiva entende do que se tratava situação.
– Oh, Deus! Não podemos dirigir bêbadas assim com ele nas ruas! – grita de volta a ruiva, descendo os degraus da varanda.
– Não temos outra opção! – retruco. Addison joga para mim a chave de sua BMW, porque eu estava mais sóbria do que ela, mesmo parecendo impossível.
Enquanto andávamos pela calçada, percebo por cima do ombro um tumulto de pessoas ao redor de alguns carros no meio da rua. Se eu não estivesse naquela situação, a curiosidade seria maior e eu procuraria saber o que era. Mas... o medo era maior.
– Eu não quero ir agora! – rosna a ruiva, tentando se equilibrar nos saltos. – Qual é! A festa começou agora e eu achei um cara legal!
– Ou você vai comigo ou fica sem carro! – retruco, parando de andar quando estávamos em frente sua BMW. – Você me fez vir para cá! Eu disse que iria me arrepender!
– Tudo bem! Tudo bem! – grita Addison, erguendo os braços em sinal de rendição.
Eu corro até o outro lado do carro e entro na porta do motorista. A ruiva já estava no banco do carona e eu ligo o carro. Com certa dificuldade eu retiro o carro da vaga apertada e cerca de um minuto depois nós já nos distanciávamos da casa de Derek.
“Oh, amanhã eu terei uma boa dor de cabeça”.
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ARIZONA PDV
O batom sabor cereja de Leah Murphy ainda estava em meus lábios. Ajeito meu cabelo loiro que fora bagunçado pelas mãos da loira no espelho do banheiro. Segundos atrás a morena que seguia Addison havia saído histérica e me empurrado para o lado, mas meu cérebro nublado pelo álcool facilmente ignorou aquilo.
Muitas pessoas me questionavam se eu e Leah estávamos em algum tipo de relacionamento e eu sempre negava. A loira estava sempre disponível e eu sempre disposta. Leah sabia muito bem os limites de intimidade que ela tinha comigo e eu gostava disso.
– Graças a Deus eu lhe achei! – grita Alex, aparecendo no reflexo do espelho atrás de mim. Vejo a mistura de ansiedade e medo em seu olhar.
– O que foi dessa vez, Alex? – rosno, virando-me para o homem. – Deu em cima de alguma garota que tinha namorado, foi?
– Não! – resmunga o homem, revirando os olhos. – Ele está aqui.
Meu sangue gela ao ouvir aquilo. “Ele”. Vejo que a mesma raiva que estava no olhar de Alex estava no meu. Respiro fundo, para tentar me acalmar.
– Eu não faço mais isso! – sussurro, séria. – Eu não vendo mais esse tipo de coisa.
– Ele não está atrás disso. – retruca Alex.
– Eu não corro mais, Alex. Eu deixei isso bem claro da última vez que nos encontramos. – rosno, fechando o punho de raiva.
– Ele quer uma revanche dessa última corrida. – diz Alex. Eu balanço a cabeça, negando.
– Eu prometi para a minha mãe e você sabe disso. – digo, passando por ele na porta do banheiro.
Caminho pelo corredor pedindo licença para as pessoas. Tudo o que meu organismo pedia era mais álcool e um bom cigarro.
– Ele está lá na rua te esperando. – completa Alex e eu paro de andar no meio da escada.
Respiro fundo e encaro meu amigo, que estava com um sorriso triste. Eu sabia que ele não iria embora enquanto eu não saísse daquela maldita casa. Balanço a cabeça negativamente e faço meu caminho em direção à saída. As pessoas já me observavam, sabendo o que estava prestes acontecer.
– Arizona Robbins! – a voz de Preston Burke ecoa pelo jardim. O homem alto, moreno e de corpo atlético sorria para mim sarcasticamente. – Que bom ver você de novo, minha cara amiga!
– Acho que você está bem longe do seu bairro, Preston. – grita Derek, ao meu lado.
– É melhor você calar a boca, riquinho de merda! – retruca Preston, perto de seu carro que era uma Land Rover preta. Ao seu lado estava seu fiel companheiro Christian Tyler, também moreno e alto.
– Que tal termos essa conversa mais em particular? – digo, descendo os degraus da varanda e apontando para todos ao redor que observavam atentamente. – Tem muitas pessoas aqui escutando.
– Você sempre esteve em busca de fama, Arizona. – retruca Preston, sorrindo. – Principalmente depois que seu irmão morreu, então por que quer mudar agora?
Eu fecho os olhos, para controlar as lágrimas de raiva enquanto todos comentavam e sussurravam o assunto que era meu irmão morto. Sinto uma mão masculina em meu ombro e eu sabia que era Alex. Mas, aos poucos, fui abrindo meus olhos e uma risada alta saia por meus lábios para a surpresa da plateia.
– Sempre me atacando por medo de perder, Preston. – digo, engolindo minha raiva. – Achei que a última corrida que ganhei havia sido suficiente para você entender quem é melhor. – rosno. Um coro de risadas surge e o sorriso do moreno vai se desfazendo aos poucos.
– Prove que ainda continua a melhor, Arizona Robbins. – retruca Burke.
– Não preciso provar nada. – murmuro, começando a virar de costas de volta para a festa.
– Está com medo de perder, loira? – pergunta o homem. Eu rosno, de costas. – Quem foge é sempre o mais fraco!
– Para início de conversa... têm câmeras em cada esquina! Ou você esqueceu que isso aqui é um bairro nobre? – pergunta Derek, dando um olhar superior para o moreno.
– Desde quando a polícia de Seattle se importa com um pequeno racha? – retruca Christian. Ele e Burke dão uma risadinha e eu engulo seco, virando-me para eles novamente. Minha voz interior dizia que eu não devia fazer aquilo.
– Tudo bem... já que quer perder... – digo e as pessoas me estudam. – Vamos correr! – rosno, caminhando pelo jardim em direção ao carro de Alex.
– Nada disso! – retruca Preston, sorrindo. – Vai ser no carro de Christian. – diz, apontando para um Maverick 302 V8, pouco diferente do carro de Alex.
– Você não dá as ordens aqui, Preston! – retruco, séria.
– Depois que você parou de correr, loira, muita coisa mudou. – diz Preston, sarcástico. Ele joga para mim a chave do carro de Christian e a estudo. “Não são carros diferentes... você consegue!” meu cérebro tentava ajudar.
Caminho em direção ao carro de Christian e estudo o chassi, as rodas e qualquer outra parte que eles poderiam ter modificado. Eu fecho os olhos, sabendo que aquilo era um erro. Olho ao redor e observo as pessoas festejando por ter algo para ver. Elas assopravam os apitos sem parar. Alguns subiam em cima de seus carros para terem uma melhor visão. Sento no banco do motorista e me acomodo na poltrona. Algumas pessoas até gritavam meu nome. A música eletrônica ainda entrava por meus ouvidos, deixando-me zonza.
– Você tem certeza que está sóbria para dirigir? – pergunta Teddy, na janela ao meu lado. – Por favor, Arizona, se você acha que não... não entre nessa enrascada por pouca coisa!
– Não é pouca coisa! – retruco, olhando em seus olhos claros. – Vou mostrar quem eu sou.
O barulho do motor potente de sua caminhonete ressoa do meu lado direito. Vejo Preston Burke dentro da enorme cabine sorrindo.
– Essa rua é sem saída. – diz Derek, entre os dois carros.
– Eu sei disso, riquinho. – retruca Preston, revirando os olhos. – Mas no final dela tem uma praça, então o trajeto é ir até ela e voltar.
– Parece bom para mim. – digo, não me intimidando. Eu ligo o carro e piso no acelerador para sentir o motor. – E qual será o prêmio para o ganhador? – pergunto, dando um sorriso sarcástico.
– Os carros. – responde Preston, calmo.
– Se você não percebeu, eu estou no carro de seu amigo, idiota. – retruco, dando uma risadinha. O moreno rosna, odiando minha ignorância.
– Sua moto será minha, Arizona Robbins. – rosna Preston e minha risada apenas aumenta inibida pelo álcool.
– Veremos, Preston Burke! – digo, lançando lhe uma picadela. – Estou precisando mesmo de uma Land Rover na minha garagem.
O homem faz uma expressão séria e sobe o vidro do seu carro. Eu faço o mesmo com o meu vidro e aperto minhas mãos no volante. Piso no acelerador, aquecendo o motor ao máximo. Alex, Teddy, George e Mark observavam tudo ao lado do grande público. Derek se posiciona cerca de três metros na frente dos dois carros para dar largada.
– Estamos de volta, pessoal! – grita Derek, erguendo as mãos para cima. A multidão inibida pelo álcool grita de entusiasmo. Meus batimentos cardíacos estavam na minha garganta e minhas mãos suavam no couro do volante. – No Maverick 302 V8 está Arizona Robbins! – anuncia Derek e a minha torcida grita. – E na Land Rover está Preston Burke! – anuncia o homem. Poucas pessoas gritam, mas a agitação ainda estava grande. Derek levanta as mãos para cima e sorri. – Prontos? – pergunta. Eu sinalizo que sim com a cabeça e Burke também. Eu respiro fundo e Derek abaixa os braços. – Já!
Eu abaixo o freio de mão e imediatamente piso fundo no acelerador. O carro desenvolve para frente comigo e eu mudo para a segunda marcha... depois para a terceira marcha... e segundos depois eu já estava 40 km/h... 50km/h... 60km/h. Olho para o lado e vejo a sombra da enorme camionete grudada em mim. Meus pulmões sequer funcionavam direito. Acelero mais o carro, em busca de mais velocidade para mudar para quarta marcha... 75km/h.
90 km/h e já passávamos pelos prédios de modo que as casas eram apenas borrões. Engato a quinta marcha e meu carro desenvolve ganhando a frente da camionete de Burke. Eu podia sentir o olhar frio do homem e seus xingamentos, e isso fazia um sorriso vitorioso nascer em meu rosto. No fim da rua eu já podia avistar a pequena praça. Olho no painel do carro e eu estava à 115km/h.
Preparo meu pé no freio para fazer uma derrapagem rápida e meu coração para de bater por alguns segundos. Não estava funcionando o maldito pedal. Eu aperto ele mais em busca de ser apenas um mero defeito, mas o carro estava totalmente sem freio. “Eles armaram para você” meu cérebro grita.
Eu rosno e jogo o carro mais para a lateral da rua larga, em busca de conseguir fazer a curva apenas com o freio de mão. E quando eu estava já atravessando a metade da praça, eu puxo o freio de mão virando o volante com toda a rapidez e força que tinha nos braços.
Retiro o pé da embreagem e aperto o acelerador para controlar a direção do veículo. O carro derrapa na pouca poeira que havia na estrada, fazendo uma curva longa. Burke aproveita a oportunidade e freia fazendo um drift perfeito, com uma curva menor que a minha e pegando a frente da corrida.
Eu abaixo o freio de mão e acelero mais o carro para tentar estabilizar a direção. Burke estava cerca de quinze metros na minha frente e mais perto da vitória.
– Eu vou te matar, Preston! – grito.
Eu acelerava o Maverick 302 V8 o mais rápido que conseguia, tentando diminuir a distância entre nós. Eu mal via minhas mãos trocando as marchas do carro, pois minha visão estava embaçada pela raiva. “Foi tudo uma armação... eu sabia! Eu não deveria ter aceitado dirigir naquele maldito carro!” grita meu cérebro.
Eu já estava colada na traseira da camionete, mas não havia mais rua para percorrer. As pessoas correm para a calçada quando os dois carros se aproximam. Bato as mãos no volante quando Burke cruza a linha de chegada imaginária, perto da casa de Derek. Puxo o freio de mão e derrapo novamente, parando o carro.
As pessoas estavam em um total silêncio, ainda surpresas com o que havia acontecido. Eu saio do carro com sangue nos olhos. Burke pulava de sua camionete, gritando e comemorando com seu companheiro Christian. Alex e Teddy, ao verem meu estado, correm atrás de mim.
– Você roubou! – grito, pegando o colarinho da blusa de Preston e o empurrando contra a lataria de seu carro. – O freio não estava funcionando!
– Eu não sei do que você está falando! – responde Burke, rindo descaradamente. Minha raiva aumenta ainda mais com o sarcasmo do homem.
– Você manipulou o freio para que ganhasse de mim na curva! – grito, dando um tapa barulhento no rosto do homem. Preston rosna e pensa duas vezes antes de voltar outro em mim.
– Se você ousar levantar a mão para ela isso vai se tornar algo bem pior. – rosna Alex, entrando na minha frente e ficando entre eu e Burke. Teddy tentava me puxar dali, mas eu me livro de seus braços.
– Não entre no meio disso, Karev. – retruca Preston, dando a volta no homem. – Você me deve a sua moto, Arizona Robbins! – grita Preston, apontando para mim.
– Eu não vou lhe dar a minha moto! – retruco.
– Droga, a polícia está aqui! Polícia! – grita alguém no meio do tumulto que se dissipava. Meu coração acelera e meu sangue congela ao ver as luzes vermelho e azul se aproximando. A viatura derrapa perto das pessoas que fugiam dali.
Um homem mediano, calvo, com uniforme de polícia e uma expressão de poucos amigos sai de uma das viaturas. Vejo Derek lamentando ao meu lado, sabendo que estava em problemas por causa daquilo. Mas, percebo que o homem não estava de fato impaciente por nossa causa, pois a todo o momento ele analisava as pessoas ao redor e no interior da casa. À medida que ele se aproximava eu podia ver seu nome em seu uniforme: Oficial Torres, chefe de polícia.
– Então eram vocês dois que estavam fazendo bagunça nessa rua há poucos minutos? – pergunta o policial se aproximando de mim. Percebo atrás dele mais um policial, com a mão em seu cinto.
– Não sei de nada, oficial. – digo, tentando me manter neutra.
– Não me faça de idiota, garota. – retruca o Oficial Torres. – Mãos na camionete, agora! Vocês dois!
– Não posso ser revistada por um policial. – digo, sorrindo descaradamente. – Me desculpe!
O policial revira os olhos e me empurra contra a lataria da camionete de Burke. Eu ergo minhas mãos para cima enquanto seu companheiro rapidamente começava a revistar Preston e o Oficial Torres apalpava a lateral do meu corpo. Ele enfia a mão no meu bolso de trás e retira minha carteira.
– Arizona... Ro-Robbins? – pergunta o homem, hesitando por alguns segundos.
– Tem algum problema em pronunciar essa palavra? – provoco e o homem me empurra novamente contra a lataria. Eu rosno com a testa encostada no vidro.
– Mais respeito, garota. – rosna o policial. – Achei que mulheres não participavam de rachas.
– E achei que policias só ficavam comendo rosquinhas e engordando dentro de suas viaturas. – retruco e o homem me faz dar um giro de 180º bruscamente para olhá-lo nos olhos.
– Você está pedindo para ser levada à delegacia!
– Não tem provas suficientes para dizer que era eu quem dirigia um dos carros. – digo, convicta do fato que ele não checaria nas câmeras de segurança. E pela primeira vez eu agradecia o fato de não estar dirigindo o carro de Alex.
– Mas eu sei da sua história, Arizona. – responde o policial, sorrindo. – Acha que não sei que estava envolvida com drogas até pouco tempo?
Meu estômago aperta. Ouço murmúrios vindos das pessoas que observavam. Olho para os lados buscando não me entregar com o olhar. Era tudo um maldito interrogatório.
– Não sei do que você está falando! – digo, fria.
– Oh, claro que não sabe! Mas você também estava envolvida em rachas... grandes. Inclusive no qual que resultou a morte de uma mulher.
– Eu não estava neste! – rosno, com a raiva apertando minhas entranhas. – Eu já fiz milhões de malditos interrogatórios e depoimentos! Eu não estava neste! – grito.
– E o que prova que você não estava? – pergunta o policial, cerrando os olhos. Meu queixo treme enquanto eu buscava forças para não me entregar às lágrimas. Como eu odiava meus problemas com autoridades. – Oh, claro! Você estava lamentando a morte do seu irmão o... Sargento Timothy Robbins, certo?
– Não fale do meu irmão... – sussurro, com minha visão ficando turva com minhas lágrimas. Eu via as pessoas me encarando e sussurrando algo no ouvido de outras. Alex observava tudo ao lado de Teddy.
– Então a filhinha de Daniel Robbins, o grande colaborador do Exército Americano de Seattle, se tornou uma delinquentizinha? – rosna o policial, terminando de analisar meus documentos. Eu estudava o rosto do homem, com meus punhos ardendo em vontade de socar seu rosto. – Como você terminou aqui... em uma festinha banhada à Whisky de segunda mão? Quero dizer... Whisky que nem você conseguiria pagar depois que seu pai cortou alguns privilégios seus...
– Pelo visto você sabe bastante da minha vida. – rosno, olhando nos olhos do policial.
– Você está na minha mira há bastante tempo, Arizona Robbins. – responde o policial. – Mas seu pai vive limpando seus rastros... acho que deveria agradecer à ele.
– E você deveria fazer seu trabalho melhor e ter provas contra mim da próxima vez, idiota. – retruco, perto de seu rosto.
O homem sorri sarcasticamente com seus olhos ardendo em raiva. Eu havia ferido seu ego e como resposta, ele me gira e me empurra novamente contra lataria do carro. Sinto meu dente cortar meu lábio inferior com a pancada no vidro e o gosto de ferro espalha por minha língua.
Ouço os barulhos das algemas e segundos depois sinto o metal frio ao redor de meus pulsos. As pessoas comentavam e riam ao fundo. A raiva inundava meus sistemas. O policial me puxa pelo ombro e me guia até sua viatura. Ele abre a porta de trás e empurra a minha cabeça e corpo para dentro do veículo.
“Eu sabia que essa noite iria terminar mal...”
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